Original

Existem vários manuscritos de grandes obras guardados nas bibliotecas de todo o mundo (hoje, como quase toda a gente escreve directamente no computador, os manuscritos deixarão de existir e de ser mostrados em exposições); conta-se, porém, que o manuscrito de Viagem ao Fim da Noite, de L. F. Céline, publicado em 1932, foi vendido pelo próprio uma dezena de anos mais tarde (já depois do seu sucesso, evidentemente) a um marchand que terá dado por ele dez mil francos (na época, uma pequena fortuna) e ainda um pequeno quadro de Renoir. É provavelmente apenas mais uma história à volta de um dos escritores malditos do século XX (o que nada retira à obra notável atrás referida) sobre o qual se conta ainda ter levado as muitas páginas do original num carrinho de mão até ao local onde se terá encontrado com o comprador. A partir de 1943, ano da negociação, perdeu-se, de qualquer modo, o rasto ao manuscrito, até que em 2001 um alfarrabista terá sido contactado por um coleccionador inglês que estava na posse dessas mil e tal páginas, posteriormente adquiridas em leilão pela Biblioteca Nacional de França por uma quantia que ultrapassou o milhão e meio de euros (parece lenda, mas não é). O que é igualmente certo é que um fac-símile desse original vai ser agora levado à estampa por uma editora francesa, especializada em edições de manuscritos, que já publicou, entre outros, os de A Espuma dos Dias, de Boris Vian, ou La Belle et la Bête, de Cocteau. Vamos, enfim, poder ver a caligrafia de Céline – se quisemos ou pudermos pagar os cerca de 250 euros que nos pedem para isso…

Comentários

  1. Aposto que terá uma caligrafia tão anárquica como a sua genial mente. E se for ao contrário?

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  2. Isto é que dói:

    hoje, como quase toda a gente escreve directamente no computador, os manuscritos deixarão de existir

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  3. Claudia da Silva Tomazi11 de setembro de 2014 às 03:51

    Claro, Manuscritos existe a mesma época: raridade,preciosidade de valor sentimental a família.

    De facto o que importa?

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  4. Manuscritos... eu se algum dia (ainda) for famoso, sempre deixo os cadernos e blocos-nota com os meus apontamentos... essa parte está apercaltada!

    Mas de facto a modernidade matou certas coisas e claro, a magia que elas contêm... como encontrar escritos (à mão) dos que viveram antes de nós.
    Não sei explicar o respeito e a magia que isso me transmite, é como estabelecer um contacto, uma ligação íntima e partilhar um segredo, que não tem o mesmo carácter num telemóvel ou texto em computador, etc. Enfim, pode ser que para as novas e próximas gerações um cd ou pendrive de uma geração anterior assuma essa mística... não sei!

    Saudações do Bairro

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    1. Concordo. Ataca-me a nostalgia das palavras manuscritas. Cartas das minhas amigas e amigos com tanto ano que nem já sei se ainda escrevem assim. E tenho hoje imensa pena daqueles pedidos de namoro que rasguei feita estúpida e deviam ser tão bonitos... A caligrafia das pessoas é única, um bocadinho delas que fica connosco.

      Não sei, nos romances gosto da versão final, sem me atrapalhar com palavras riscadas, emendas, sublinhados...etc. Hoje, na verdade, o manuscrito fica para o estritamente pessoal.

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  5. Um dos livros da minha vida...

    Só há pouco tempo terminei de ler o último que me faltava deste escritor: "Norte".

    Mais um bom exemplo de um "Grande" que não ganhou o Nobel.

    Alguém está a par da aventura deste "Viagem ao Fim da Noite" no Goncourt? E do vencedor desse ano, alguém saberá dizer o autor e a obra que ganhou?

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    1. Céline nunca poderia ter ganho qualquer prémio. Foi um escritor genial, dos maiores inovadores do século XX mas foi também um ser humano detestado pela maioria dos seus contemporâneos: foi apologista do racismo e do nazismo, foi delator de judeus seus conhecidos que acabaram em campos de concentração, escreveu folhetos de apoio a Hitler. Quando a guerra terminou, o seu deplorável comportamento cívico foi alvo de ódio feroz por parte dos seus compatriotas; por pouco não foi fuzilado. Por muitíssimo menos (só razões de ideário político sem consequência práticas), também Borges não ganhou o Nobel. Os seus livros são geniais e têm a eternidade assegurada. Dr. Jeckyll and Mr. Hyde.

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    2. Caríssimo,

      Não esqueça que o episódio do prémio Goncourt (se não me engano é de 1932) é bastante anterior à 2º Guerra mundial e a tudo o que enumerou.

      Apesar de gostar muito do que Céline escreveu, não consigo (nem quero) defendê-lo de tudo o que "supostamente" fez.

      Mas não esqueça que, tal como eu, você não esteve lá. Eu não testemunhei o que outros dizem ou disseram. Eu não sei se realmente ele cheirava mal dos pés.

      Abraço

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    3. Caro Amigo, tem toda a razão! Não li com cuidado o seu comentário inicial: a questão do Goncourt precede a 2ª guerra mundial e, para mais, o que eu referi do "mau comportamento" do Céline, eu soube-o em segunda mão. Também sei que ele foi um médico dedicado que tratava gente pobre durante o dia e gastava as suas noites em nosso benefício, ou seja escrevendo.

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  6. Mas os tempos mudam inevitavelmente e nós com eles. Ainda há pouco não acreditava em leitura em plataformas para além do papel. Mas começa a acontecer. E já quase nem sei o que é escrever à mão. A bela e a besta da espuma dos dias!

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