O vão regresso
Não se ganha o Nobel da Literatura só porque sim – tem de haver nas obras do vencedor algo de francamente original e inovador (como agora se diz a torto e a direito, «fracturante»). Foi o que senti ao pôr os olhos no romance de estreia de Faulkner, A Recompensa do Soldado, um livro de 1926 que ainda hoje, apesar de algumas fragilidades, permanece moderno e deixa adivinhar a tal fractura que deve ter representado na época, com os seus jorros enérgicos de frases estranhas e inesperadas. O assunto é, grosso modo, o regresso de um soldado americano (o tenente Mahon) da Primeira Guerra Mundial – diminuído, cego, com uma terrível cicatriz na testa que o desfigura e mentalmente perturbado (e, curiosamente, ainda há quem tenha inveja do senhor por, ao contrário dele, ter voltado incólume, sem qualquer marca de heroísmo). Acompanham-no a casa dois «pajens» – a viúva de um outro soldado (mas só foi casada três dias, pelo que o desgosto não é significativo) e Gilligan, o cabo que se encarrega de trazer Mahon ao lar paterno (até porque é o único que parece não ter aonde regressar). Em casa, o pastor que é progenitor do soldado ferido – e que o julgava morto – não acredita que ele não possa recuperar e aposta tudo no casamento de Mahon com a noiva que tinha antes da guerra (que, além de estar já apaixonada por outro, não consegue enfrentar a ferida horrível do ex-namorado e anda literalmente maluca, sem saber o que fazer). Mas muita água correrá ao longo do romance – e vários são os intervenientes que se darão a conhecer na sua relação com o morto-vivo, o passado e até o futuro, numa narrativa que é sempre pujante e surpreendente. Em tempo de centenário da chamada Grande Guerra, não há como fugir à recompensa desta leitura.
A propósito do Nobel da Literatura, do outubro que se aproxima, e dos autores fraturantes merecedores do prémio, eu escolheria um de dois para lhes entregar o galardão: Ismail Kadare ou Enrique Vila-Matas. Ambos criaram mundos ficcionais nunca antes imaginados, nem de perto nem de longe por qualquer outro escritor, e fazem-no com estilos literários tão pessoais que são autores facilmente reconhecíveis pela leitura de quaisquer dois parágrafos. Que coisas novas me têm feito fruir e pensar estes dois !
ResponderEliminarFaulkner é uma das falhas mais graves nas minhas leituras, eu próprio assim o considero. Há uns anos peguei em "O som e a fúria" e ao fim de 20 páginas abandonei, a sentir-me muito burro por não estar a perceber nada... :)
ResponderEliminarEntretanto, alguém me disse que esse é o mais difícil romance de Faulkner. Tenho também "Luz em Agosto" e não sei se haverá mais algum do autor lá perdido pelas estantes.
Está na hora de lhe dar outra oportunidade, irei procurar encontrar este "A recompensa do soldado".
Curiosamente, quem me fez ter vontade de descobrir este autor foi José Luis Peixoto, é conhecida a sua grande admiração por Faulkner, é mesmo caso para dizer que o seu amor pelo escritor americano lhe está tatuado na pele.
Disfrutem a chuva,
Rui Miguel Almeida
O Peixoto até tem bem visível num dos seus braços uma tatuagem dizendo Yoknapatawpha, o "county" imaginário do sul dos USA onde se passam os romances do Faulkner !
EliminarE no nariz tem também um "pixavelho" que era da mula que transportava o W. Faulkner nas suas deambulações pelo campo...
EliminarAHAHAHAHAHAHAHAAHAHAHAHAH
EliminarIsso mesmo Artur, era ao que me referia quando escrevi "é mesmo caso para dizer que o seu amor pelo autor americano lhe está tatuado na pele".
EliminarFiquei com os nomes que referiu no seu post. Conheço, os nomes, mas nenhuma das obras. Estão na short-list dos "a descobrir".
Parece-me mesmo um daqueles livros que tenho de ler! Essa coisa das narrativas pujantes ou "fracturantes" como lhe queiram hoje chamar, é coisa de me deixar louquinha de todo. Opah gosto! Que hei de eu fazer? Encomendar o livro!
ResponderEliminarUm abraço. Hoje sinto-me aqui sozinha. Onde andam os compadres da manhã?
Ando a fugir do W.Faulkner há uma data d'anos já que o meu amigo Almeidinha (grande leitor) me disse que começou a ler "AS PALMEIRAS BRAVAS" mas que à página 25 já tinha adormecido três vezes, uma pastilha de caixão à cova...por isso tenho algum receio de pegar num livro dele...contudo às vezes (muitas vezes) enganamo-nos...
ResponderEliminarO que tem de se fazer, faz-se e o que tem de ser, tem muita força!
ResponderEliminarSerá isso ruptura? Fracturante?
Mudar a nossa vidinha diária? Fazer o inesperado, como ir a uma praia naturista? Ousar arriscar e seguir uma paixão? Ter uma aventurasita nem que seja passar a frequentar um café mal-afamado? Mudar de terra porque nos apetece e assim gostamos e deixamos tudo para trás? Mudar de emprego por opção própria e porque procuramos outra realização, comprometendo a estabilidade?
Isto no meu entender, das duas uma:
- Ou se vive a aventura da vida com tudo o que tem (e se paga a factura!) sendo nesse caso escusado andar à procura de rupturas, ou então, tendo-se uma vida certinha, direitinha, programada... tipo relógio, mecanizada e de hábitos, então sim, há quem sinta necessidade de procurar a tal ruptura e os temas fracturantes para se içar uma bandeira e dar provas de existir.
Quero com isto dizer que gosto de ler e de literatura em geral! Não porque seja polémica ou fracturante ou de ruptura... Se o poeta é um fingidor, o escritor é muitas vezes hipócrita e não tem nada a ver com o que escreve...
Leio portanto, e gosto, mas isso não significa que vá atrás do que escrevem, salvo excepções é claro!
Direi mesmo que a alguns faltando ou a vivência ou a arte, precisam desse artifício de imaginar ou criar os tais temas fracturantes, de ruptura, para se notabilizarem! Mas ficam na mesma no seu lugar, sentados no sofá, como quem atira uma pedra para dentro do galinheiro e fica a apreciar o rebuliço!
Há óbviamente os génios ... só que estes são poucos e raros. Faulkner é um deles... diria esta traça dos livros.
Lembro também que a genialidade e a loucura andam muitas vezes de mãos dadas...
Saudações fracturantes do Bairro !
Gostei!
EliminarAnda Pacheco.
Um abraço
"mas só foi casada três dias, pelo que o desgosto não é significativo" - desculpe, mas que coisa mais fria, mais sem sentimento! O tempo que se esteve casada aumenta proporcionalmente o desgosto que se tem ao ficar viúva?! Mais uma vez peco desculpa, mas acho um perfeito disparate. Até porque pode ser ao contrário.
ResponderEliminarNeste romance, pode tratar-se de alguém que tenha casado por obrigacäo (com um homem escolhido pela família, por exemplo), confesso que näo sei. Mas essa frase, assim escrita, cara Maria do Rosário, é de uma frieza assustadora!
Fora do contexto, pode parecer muito frio. Se ler o livro, perceberá. Fujo de lhe dizer porquê para não estragar o prazer de ler e entender sozinha.
EliminarSim, fiquei a pensar no assunto e considerei essa hipótese. Obrigada pela explicação.
EliminarComo acredito pouco nestas coisas do absoluto autoral, muito mais no espaço e no tempo, e mais ainda nos livros, nunca desisto à primeira (pelo menos dos autores). É assim com grandes autores como Joyce de cujo Ulisses vi sempre mais como uma empreitada, uma charada daquelas em que gosto de entrar.
ResponderEliminarDe Faulkner li Réquiem por uma freira, O som e a Fúria e meio Sartoris , numa altura em que lia Sven Hassel , Lartéguy de mão dada com Vitorino Magalhães Godinho e, vá-se lá entender a mistura, o barbas Karl , um tal de Marx que me consumiu de exaustão com o seu Das Kapital .
Não me recordo se li mais alguma coisa dele, possivelmente, já que o nome não me é estranho :) E tenho quase a certeza de ter visto alguma cinematografia, outra paixão, com o carimbo da sua urdidura.
Tenho carimbado na mão há muito tempo, uma tatuagem invisível, com o nome de Faible , o livro que Faulkner considera a sua obra-prima... trabalhar um livro sobre dez anos, não é obviamente o mesmo daquele que sai de um viagem à Coreia do Norte.
Como sou contra tudo o que é espaço claustrofóbico, segmentado, gosto muito de misturas e dos termos liberdade, interpenetração, holístico e de saltos epistemológicos, pelo que aceito com brandura e muita emoção a frase «nunca rejeite aquilo que não consegue entender».
«nunca rejeite aquilo que não consegue entender».
EliminarÓ Pedro já me puseste a pensar - obrigado!
Se quiser, um homem está sempre, mas sempre, a aprender e eu quero (cada vez mais).
Aprendi a saltar à corda, ao relógio, a fogo...mas desconheço saltos epistemológicos.
EliminarÓ Beatriz para qualquer palavra ou situação desconhecida, agora toda a gente lhe responderá: vá ao Google...é fácil, só carregar no botão, o pessoal está a deixar de pensar...atenção
Eliminarboa.
ResponderEliminarjá está registado na folha das leituras do futuro. :)
Também gostei, PAS!!!!
ResponderEliminarE já agora, deixem-me acrescentar que no meu fraquíssimo entender, Faulkner é um génio da literatura porque aquilo que escreveu é bom, mas sobretudo porque lhe estava na alma e no corpo: - Ele viveu uma vida cheia, veja-se a sua biografia e o percurso, até a sua origem e as voltas que deu... tinha portanto de, escrevendo, ser um grande escritor!
Penso que será o que separa os génios, que viveram as coisas que contam, daqueles que só leram sobre aquilo que escrevem e têm de o imaginar...
Acredito que se é certo que ler muito ajuda o escritor, no entanto este também precisa de viver muito e de passar por aquilo sobre que escreve, de ter conhecido, cheirado, aquelas pessoas que depois recria, sentido as ânsias do que relata!
Alguém duvida de que Júlio Dinis tenha conhecido os casos e os tipos que recria? Ou Hemingway? Jorge Amado... Ballester, Garcia-Márquez?
Saudações entroviscadas cá do Bairro, está um dia de gravaneiros!