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Li há umas semanas um interessante artigo de Anabela Mota Ribeiro sobre Anne Frank a propósito de uma viagem da jornalista à casa desta, em Amesterdão, com uma sobrinha de dez anos. Para lá da bela prosa, tratava-se de um texto comovente e, ao mesmo tempo, muito lúcido sobre a forma de não deixar cair no esquecimento das gerações mais novas a barbárie que assolou o século XX, já os nossos pais eram vivos, mas de que os jovens estão cada vez mais distantes. Para a autora do artigo, a visita foi importante sobretudo por isso, por poder evocar as suas memórias da leitura do Diário à sobrinha, comparando-as ali ao vivo com o anexo onde Anne e mais sete pessoas viveram clandestinamente durante dois anos e donde saíram para campos de concentração depois de uma denúncia (nunca se soube quem a fez), sobrevivendo apenas o pai da rapariguinha judia que ficaria célebre postumamente pelo seu relato escrito do dia-a-dia vivido num anexo onde havia horas até para puxar o autoclismo. Embora o Diário de Anne Frank seja hoje uma espécie de lugar-comum literário, e se calhar os jovens de agora leiam mais depressa O Rapaz do Pijama às Riscas, obra mais recente sobre o mesmo tema e adaptada ao cinema, nada substitui o testemunho de alguém que viveu a tragédia em directo e sabe do que fala (além de saber também escrever com elegância e maturidade para os seus treze anos). Por isso, mesmo correndo o risco de parecer bota-de-elástico, aconselho vivamente a sua leitura aos adolescentes – e, indo a Amesterdão, a visita à casa da jovem escritora – para que não se possam esquecer nunca do que felizmente não tiveram de sofrer na carne. E, se puderem, leiam os Extraordinários o texto sensível da Anabela Mota Ribeiro (Público, suplemento «Fugas», 16 de Agosto) porque vale a pena.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco2 de setembro de 2014 às 02:16

    Olhando ao momento actual, com a crescente violência por motivos étnicos, religiosos e políticos, de sensibilidades exacerbadas e intolerância cada vez maior potenciada pela facilidade e rapidez na comunicação, há leituras que deviam ser aconselhadas ou mesmo obrigatórias, nas escolas e universidades, para que se pudessem entender as razões de tanta coisa e tentar não cair em extremismos, lembrando que pode haver pelo menos dois lados numa mesma questão.

    Creio que O Diário de A.F. é um deles, sem dúvida e é preciso fazer lembrar que o horror existe mesmo, e, é vivido por pessoas, não é apenas um conjunto de efeitos especiais na tela do cinema!

    A nossa sociedade de plástico, cada vez mais virtual, parece ignorar que não se sua apenas no ginásio, que há gente sem água para despejar baldes cabeça abaixo, qual o sabor e o cheiro do sangue, o que é frio e calor sem ser no ar condicionado, que os homens ainda não garantiram os direitos quanto mais os animais, e sobretudo que se mata, oprime e viola em nome de ideais!

    Existem relatos que são património da humanidade, exactamente para não serem esquecidos!

    Saudações da cidade morena.

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  2. Há uns 20 anos visitei a casa de Anne Frank. A exiguidade do espaço, a escada minúscula, as falsas paredes, tudo misturado pelas palavras daquela menina sensível que confessava à sua amiga imaginária o ondular da sua paixão pelo único outro adolescente que partilhava o espaço minúsculo com os Frank. Adorei análise que ela faz dos inevitáveis conflitos e negociações intra e interfamiliares, todos feitos através de diálogos sussurrados. Tenho que reler o "Diário". O Roth escreveu um romance (Ghost Writer) em que imaginou que a Anne Frank teria sobrevivido, emigrado para a América, escolhido outro nome (Amy Bellette) e lhe era apresentada a ele, jovem escritor, como um enorme talento que o seu mentor Bernard Malamud (Lonoff no livro) durante um retiro de escrita criativa. Nesse retiro, Amy escreve um romance contando a sua captura e sua passagem pelos campos de concentração. Essa escritora adulta que nunca pôde viver, nem contar a sua vida para além dos 13 anos, deixa-nos uma imensa mágoa.

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  3. Um facto que me impressionou foi o terminus do Diário: a interrupção e o que significa. A vida é abrupta, acontece em desrespeito por planos, arrasa-os.

    Contudo, mesmo após a morte, Anne realizou o sonho dourado: a sua escrita é mundialmente conhecida.

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  4. O Rapaz do Pijama às Riscas oferece um enredo absurdo, um cenário impossível. É este tipo de mistificações que concorre para a banalização do Holocausto. Quanto ao Diário de Anne F., apesar de ser um texto incontornável, não deve ser visto - e tantas vezes é - como a principal ferramenta de reflexão sobre a Shoah . É natural que os jovens se identifiquem com Anne e que criem empatia. Mas, como disse alguém, aquilo que coloca em causa a natureza humana é o perpetrador e não a vítima. Aqueles que sofreram na pele o antissemitismo eliminacionista nunca puderam exercer uma opção, pelo que a identificação com a vítima corresponde à identificação com um agente impotente. Partindo do princípio que aquilo que os educadores procuram é estimular o exercício da responsabilidade individual, parece-me que o primado da vítima é coisa curta. Reproduzindo, de memória, o que já li, "é bom sentir empatia. Mas não nos enganemos, pensando que essa empatia é geradora de responsabilidade". Leia-se (e dê-se a ler o D.A.F ) mas tentemos olhar os genocídios pelos olhos dos perpetradores.

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  5. Cecília Antão da Silva6 de setembro de 2014 às 14:09

    O Diário de Anne Frank é de facto um livro extraordinário, que marcou a minha adolescência. Ainda há pouco o reli em francês e maravilhei-me como da primeira vez com o talento da jovem escritora. Mas seria incapaz de visitar o anexo onde viveu uma dos muitos milhares de vítimas da maior barbárie do séc. XX ,como muito bem a Rosário disse...

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