Brincar com o sério

Ter-me-ão explicado em tempos – possivelmente na Faculdade, já não sou capaz de me lembrar – que se era irónico quando se falava demasiado a sério de uma coisa irrisória, insignificante, ou quando se brincava com o que era realmente grave. Ironias à parte, há coisas com as quais, pelos vistos, ninguém deve brincar – e que o diga o escritor Martin Amis, cujo último romance, The Zone of Interest, é nada mais nada menos do que uma «comédia» sobre o Holocausto passada em Auschwitz. Pois bem: os seus habituais editores alemão e francês (a Hanser e a Gallimard) não gostaram, por certo, das «piadas» e recusaram-se a publicar a tradução do livro. E, embora tenha aparecido logo um outro editor francês disponível para o fazer (uma oportunidade de negócio, diria eu, com a polémica entretanto instalada), na Alemanha ainda ninguém fez o mesmo, quiçá deixando o britânico com um livro por traduzir num país onde a sua obra tem estado sempre representada. Alguns críticos ingleses pensam que The Zone of Interest é o melhor livro publicado no Reino Unido nos últimos vinte e cinco anos (mas os ingleses devem ser muito mais receptivos a um certo tipo de humor do que outros povos, digo eu), mas o editor alemão achou-o simplesmente «demasiado frívolo». Martin Amis crê que não perceberam a obra, mas está visto que o assunto nela tratado e as suas personagens (os comandantes de três campos de concentração, um dos quais quer que a Alemanha perca a guerra) gerou mal-estar... Resta ver se em Portugal o editor de Martin Amis se pronuncia contra ou a favor.

Comentários

  1. Há assuntos com que não se brinca? Depende muito da forma como se faz. Há brincadeiras e ironias que põem a nu o absurdo, que ridicularizam quem deve ser ridicularizado, e, nesse caso, penso ser aceitável. Mas a fronteira entre o aceitável e o não aceitável é ténue e depende muito da sensibilidade de cada um.
    Não fazendo ideia do livro de Martin Amis, não me posso pronunciar nesta questão. Mas é verdade que o sentido de humor britânico, muitas vezes, não é apreciado na Alemanha (respeitado, mas não apreciado). Lembro que a série «'Allo 'Allo», que eu adorava, nunca foi bem vista em terras germânicas.

    Os portugueses aceitariam uma série/um livro irónico, brincando com Salazar e o Estado Novo? Imaginemos uma tasca no Alentejo, em vez do café do René, ponto de encontro de revolucionários a tentarem trocar as voltas à PIDE, também frequentadora da tasca, e o dono da mesma a tentar agradar a todos! Imaginemos uma grande brincadeira à volta do assunto!
    E a resposta torna-se ainda mais difícil...

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    1. Será que nós não apreciávamos uma brincadeira bem humorada, que não subverte os fins, sobre o Estado Novo?! Quem me dera que alguém tivesse o talento de a levar a cabo. Estamos demasiado cinzentos, é preciso brincar um bocadinho, agitar os ânimos com gargalhadas e boa disposição.

      O problema dos alemães é que ficam sempre mal nessas fotos e não gostam do que vêem (sabendo ainda por cima que é verdade):) não é o caso da maioria dos portugueses em relação ao Estado Novo e a Salazar, mau grado uma certa votação minoritária em que a maioria achou por bem não valer a pena votar.
      Se os alentejanos emprestassem à malta alemã, um niquinho do seu espírito, a capacidade bem redonda de rirem de si mesmos.. seria outro o resultado.

      Porém, como frisado acima, quem sou para meter foice em seara alheia, ainda por cima desconhecida...

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    2. Também eu gostaria dessa brincadeira bem humorada, Beatriz, mas, ao contrário de si, não tenho a certeza se a maioria o apreciaria.
      Os portugueses são mais capazes de rirem de si mesmos do que os alemães? Sinceramente, não sei...

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    3. Apoiado!!!!

      E lembrei-me logo do Allô allô ... uma série em que TODOS são inteligente e humoristicamente tratados e caricaturados... ou não fosse humor.

      Concordo inteiramente com a opinião e postura da Cristina!

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    4. Sempre nos rimos de Salazar e da corja que o assessorava. Era a única consolacao. Lembro-me de ciclos de anedotas, por exemplo quando Palma Carlos assaltou o banco na Figueira, ou até quando o ditador morreu. A série seria chocante apenas e só se apresentasse révolucionarios como a Michelle do Allô, Allô. Ê que se pode brincar, satirizar o regime de Salazar, mas ai de quem ousar rir dos "heróicos" revolucionários! Note-se que o faço, começando por muito rir de um deles que bem conheci -- eu mesmo.
      Aqui vai, transcrito de memória, o poema que circulou dactilografado aquando da morte de Salazar:
      Alma ruim é cruel, que enfim te partiste
      Tão tarde, diz o povo descontente
      Repousa lá no Inferno eternamente
      Que nenhum português ficará triste.

      Se aí no Inferno onde subiste
      Memória deste mundo se consente
      Não te esqueças nunca da lusa frente
      A quem tantos e tão maus tratos infligiste.
      (...)
      JCC

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    5. Desculpem a barafunda com os acentos. Desde que fiz a actualização para o IOS 8 é isto.

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    6. Palma Inácio e não Palma Carlos. Hoje não acerto uma. As minhas desculpas.

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    7. Tá desculpado... ahahah! Eu por acaso reparei...

      E a propósito da Michelle de la résistence (Listen carefully I only tell this once!) , rio-me a valer quando me lembro do gag da resistência local comunista, em que a sua líder, apaixonada pelo René (claro), lamenta ter de ir a Paris onde vai ser eleita chefe da resistência comunista. Dizem-lhe que não vá então, e ela responde: Impossível, o processo democrático já está em curso! Já fuzilámos os dissidentes e viciámos as urnas!

      Ahahah!

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    8. Talvez tenha razão e eu esteja a tomar a parte pelo todo. Mas seria bom existir a tentativa. Ou nunca saberemos:), né?

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    9. Pois, é precisamente isso, José Cipriano Catarino: rir de Salazar é uma coisa; meter os revolucionários e comunistas perseguidos "ao barulho" é outra!

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    10. Liebe Cristina,
      apesar de tudo, acho que os portugueses se conseguem rir melhor de si do que os alemães que, por sua vez, se sabem fustigar melhor do que os portugueses. Contudo, também considero que há assuntos tão tabú, tão melindrosos, que não sei que povo reagiria menos mal (e não menos bem) a um gozo, no irónico da coisa, a um Hitler ou a um Salazar, mesmo que um e outro não estejam num patamar de comparabilidade.
      Não aprecio Amis particularmente e, por isso, não me move nenhuma curiosidade pelo livro. Mas ainda que gostasse duvido que me impulsionasse a lê-lo.

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    11. Olá, Blonde!
      Sim, claro que há diferenças, eu apenas pretendi que não se caísse em extremos, tipo: os alemães não têm humor / os portugueses são uns folgazões e sabem rir sobre tudo. Nem uma coisa nem outra é verdade. Mas diferenças há, sim, e ainda bem.

      Concordo que há assuntos em que é preciso muito cuidado e, como disse, depende da sensibilidade de cada um. Há quem ache que os ingleses vão longe demais. Eu normalmente aprecio o humor britânico, mas admito que, por vezes, entrem no inaceitável. Por isso dei o exemplo do «'Allo 'Allo», uma série muito apreciada em Portugal, mas que brinca precisamente com um assunto que muitos acham intocável. Como os alemães. E, segundo ouvi dizer, também os franceses não apreciam as aventuras e desventuras à volta do café do René. Partindo daí, pus a hipótese de também os portugueses ficarem melindrados com um certo tipo de humor, não sendo minha intenção comparar Hitler e o holocausto à ditadura bem "portuga" de Salazar.

      Quanto a Amis, não faço ideia, nunca li nada dele.

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  2. Claudia da Silva Tomazi23 de setembro de 2014 às 03:49

    Brincar à sério?! Bolinhas de sabão.

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  3. Publique-se tudo !
    "Versículos Satânicos" à ocidental?
    O leitor que escolha, mas publique-se tudo !
    Eu não porei o livros do Martin Amis entre as minhas prioridades, mas isso é escolha pessoal minha. Também não li o grande sucesso da última temporada literária alemã: "Ele está de volta" em que é ficcionado um regresso de Hitler em que ele credivelmente VOLTA A SER AMADO PELOS ALEMÃES após uma empresa de media/publicidade ter orquestrado uma campanha de melhoria da sua imagem...
    O meu problema é que quando questões deste tipo chegam ao meu encontro, eu lembro-me do que vi num final de janeiro cheio de neve em Auschwitz e, sobretudo, em Birkenau. E não foi há muitos anos. Não dá para ter prazer com humor sobre o tema. Defeito meu, só meu, que não justifica que esse humor seja proibido de dar prazer a outros. E o Marti Amis é (embora não em todos os seus livros) um grande escritor.

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    1. Artur, esqueceu-se de um pormenor importante em relação ao livro "Ele está de volta": a personagem é apreciada (não amada) pela opinião pública, porque todos estão convencidos de que se trata de um humorista a imitar o Hitler. Não há nenhuma empresa de media/publicidade a orquestrar uma campanha de melhoria da sua imagem, mas sim uma empresa de media/publicidade convencida de que o sujeito é o melhor ator humorista de todos os tempos, imitando Hitler na perfeição. E, claro, vê uma boa hipótese de negócio, pois a personagem é um êxito de audiências. Mas ninguém o leva a sério, pensam que ele ridiculariza a figura do ditador.
      Penso que este pormenor faz a diferença. No fundo, é um tipo de humor muito subtil e prova que os alemães também são capazes de rirem de si próprios.

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    2. Também concordo com o que diz o Extraordinário Artur: publique-se!
      A censura é algo de pessoal, cada um de nós lê ou não lê o que assim achar! Há coisas e até autores que eu não leio, mas por escolha própria e não admito que alguém os deixe de publicar porque me ofendem!

      Se algo nos chocar ou de algum modo for contrário aos nossos ideais, pois não o leremos, mas considero inadmissível que se não publique.

      E as editoras não podem "censurar", nem devem!

      Saudações libertárias do Bairro Ribatejano!

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    3. Cara Cristina, obrigado pelo seu fantástico esclarecimento que me fez alterar a a errada noção superficial que tinha sobre o livro. De facto, tinha-o rejeitado a priori por pensar que a temática do romance era outra por ter lido (ou treslido) uns (enganadores) curtos parágrafos sobre o seu conteúdo. Ainda não li o seu D. Dinis mas já o adquiri e estará entre as minhas próximas leituras.

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    4. Enfim, caro Artur, venho confessar que nem tudo me agradou. Cito da opinião que publiquei:

      «O grande problema deste livro, na minha opinião, consiste em o autor Timur Vermes gerir mal o balanço que se propôs fazer entre a sátira ao ditador racista, por um lado, e à sociedade em que vivemos, por outro. A figura de Hitler é usada para ridicularizar a sociedade atual, pondo o leitor na bizarra situação de concordar com o ditador, o que não me caiu bem.
      Em abono do autor diga-se que Hitler não é levado a sério e visto como uma figura cómica, um mero imitador».

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    5. Cara Cristina, muito obrigado por me dar a conhecer a sua apreciação do livro em maior detalhe. Lição que tiro para mim: tenho que frequentar o seu blog com mais frequência.

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    6. Obrigada!
      Por acaso, tenho descurado o Andanças, perdendo imenso tempo no Facebook. Por vezes, zango-me comigo mesma...

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  4. Eis uma óptima questão!

    Eu sou tido pelo meu grupo de amigos como um tipo com grande sentido de humor, mas não brinco com tudo, longe disso. Por exemplo, não tolero anedotas racistas.

    Na literatura, não sei se tenho opinião formada, mas parece-me impossível acreditar que Martin Amis não previsse a polémica que o seu livro traria. Questiono a necessidade de se brincar com certos temas.

    Uma coisa é questionar/criticar fundamentadamente certas realidades, religiosas ou outras. Bem diferente é brincar com temas como o holocausto. Não li a obra (nunca li nada deste autor) pelo que não posso ter opinião sobre este caso. No entanto, acredito firmemente que o bom humor não precisa de ofender. É o caso de "allô allô" que retrata a 2ª guerra mundial, mas de uma forma muito naive, surreal e nonsense. Poderá ser o caso deste romance pelos vistos tão polémico?

    Rui Miguel Almeida

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  5. Vão-me perdoar ainda, mas as pessoas ditas da cultura são muitas vezes uns "chatos", ou mesmo quase sempre... pensativos, ensimesmados ou convencidos da sua superioridade, tendem a medir tudo pela sua bitola, e quase sempre são destituídos de sentido de humor, possam embora ser irónicos ou trocistas em relação ao que desprezem mas fracos de bom-humor.

    Não li o livro e posso estar a ser injusto, mas desconfio sempre dos cruzados ideológicos, dos talibãs dos costumes e dos politicamente correctos, que se arrogam do direito de decidir coisas como esta de que se fala.

    Os talibãs do Oriente lançaram a pena de morte sobre o Rushdie e agora os talibãs da hipocrisia do Ocidente - que odeia os judeus - fazem o mesmo com o Amis, mas continuarão a ser pró-palestinianos, porque parece bem e dá aquele ar de ser libertário...

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  6. Isto há alturas, mesmo que venha a desprósito, que nos apetece brincar com coisas "sérias", com verdadeiros holocaustos, neste caso dilúvios. Principalmente quando tive quase de calçar galochas para ir à rua e não fui afectado. E sei que vou ofender muitas almas. Pelo menos sessenta por cento delas. Mas se pertencerem aos sessenta por cento podem sempre trocar o nome AC por AS.

    Tenho do António Costa a imagem de um gajo porreiro. Costa, o porreirão! Um tipo que não faz ondas até por que, inteligente, sabe que a política não permite ondas sob pena de...
    Um tipo do aparelho que conhece as regras; e que sabe não haver verdadeiros amigos na política (amigo sou eu dele, que o compreendo!), mas interesses momentâneos, encontros de esquina e dois dedos de conversa... Há quem lhes chame, vejam lá, bate-papos conspirativos!
    Costa para mim é mais outra daquelas figuras da política, outro cromo (no sentido gráfico da política), um "não me comprometas" - se se comprometesse já podíamos ter ido ali às portas de Santo Antão dizer umas larachas parvas às moças que passam e comer um caril com «Meio picante por favor!, que o resto provemos nós».
    Um reformado antecipado por desgaste da política à portuguesa (aquela que nunca resolve NADA dos interesses colectivos dos portugueses, antes se afunda na esquizofrenia do branco ou preto, do complicómetro de que há-de sair uma medida de génio da lâmpada que contraria a anterior)... e que, inteligentemente, olha a política sob o prisma do utilitarismo possível, que o pragmatismo cidadão, não o político, esse está rodeado de forças de bloqueio... à mistura com um bocejo!
    Sejam bonzinhos: deixem-no descansar que ontem foi dia de chuva... de tempestade... ocasional! Grande Costa, porreirão amigo! Gosto de ti... comíamos aqui um sarapatel... ao coliseu, tem uns nans deliciosos e quebradiços!
    Não, António?!... Que ainda estão a tirar tampas, pastilhas elásticas, sacos plásticos e bocados de ramos das sarjetas!...
    Não te preocupes, amigo... que deve haver aí um afilhado qualquer que os camaradas tentarão te impingir, que tenha aprendido a desenhar curvas pluviométricas e isóbaras!
    Isto não ia lá com isóbaras, amigo? A chuva caiu directa?
    E já agora, António, repesca lá o Seguro que o tipo até é também... tu sabes que sim!... um gajo porreiro!
    E se precisares de mim para ser a tua consciência, para que nunca te cresça o nariz como o pinóquio, aquele incrível efeito e feitiço da política, podes sempre contar comigo, amigo, mesmo em regime de voluntariado, ou por uma sopa e um pão!
    Brincar com o sério? Não... e, afinal, isto é a nossa zona de interesse!

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    1. ? (pois!)... raios partam as vírgulas que só acertam à segunda ou à terceira!

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    2. Claudia da Silva Tomazi23 de setembro de 2014 às 11:01

      Sande por Sande, há quem herda.

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  7. um livro que brincasse com a PIDE e até Salazar, não era nenhuma anormalidade. até porque ambos se colocavam a jeito de levar com algumas piadolas (que eram ditas, pela surra).

    eu ainda conheci um papagaio que era instruído a dizer mal do Salazar (acho que o que ele mais gostava era de mimar a mãe do ditador), à entrada de uma taberna, nas Caldas da Rainha.

    claro que não esteve muito tempo pendurado na entrada da tasca...

    Saramago ao escrever o "Evangelho Segundo Jesus Cristo", pisou terrenos mais minados que se escrevesse sobre a ditadura.

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  8. Quem como eu visitou Auschwitz e levou um murro no estômago, não acredito que achasse apenas "irónico" brincar com o extermínio de um povo.
    E comparar o gaseamento em massa e a tortura infligida aos judeus com uma " ironia " sobre o Estado Novo e a PIDE, isso sim, é que me parece irónico.

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    1. A "ironia" não era só sobre o Estado Novo e a PIDE, mas também sobre os revolucionários, os perseguidos, os presos e os torturados. E eu não comparei o holocausto a uma "ironia" sobre a PIDE e o Estado Novo (que não se propuseram acabar com um povo, mas destruiram a vida de muita gente que sofre as consequências ainda hoje; e que usaram vários povos como escravos), mas apenas imaginei o que seria uma série do género «'Allo 'Allo» aplicada à ditadura portuguesa.
      Lamento que tenha distorcido as minhas palavras.

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  9. Ainda o dia não terminou e diz o Pedro Almeida Vieira, PAV, isto.
    VAI À MERDA / Tanto adoro Saramago, como leitor e modesto artífice em forja literária, como abomino a máquina de marketing em que se transformou depois de morto. Isto a propósito (e não me quero alongar demasiado) da publicação de um romance inacabado (ou melhor dizendo, ainda mal começado, porque são apenas 30 páginas) em que ficámos hoje a saber que iria terminar com um sonoro «Vai à Merda». Sendo assim, fico a aguardar que, dentro de algum tempo, se venha a descobrir mais um romance «inacabado» de Saramago, sem qualquer página escrita mas com a última frase já definida, que pode bem ser do género: «Vão para o Cara**o que vos *oda».

    DE PAS A PAV PASSANDO PELO ALABARDA, ALABARDA, ESPINGARDA, ESPINGARDA... DO SARAMAGO... O ROMANCE (SECRETO) E INCOMPLETO...

    O PAV faz uma observação muito pertinente, mesmo pelos grandes amantes de Saramago onde me incluo. Mas analisemos bem as últimas informações de Alabarda, alabarda, espingarda, espingarda... (PAV)

    E deixem-me lá completar que tive acesso a outros dados secretos in time.
    A gaita disto tudo é ainda teres um nano-romance e ainda te mandarem à dita cuja. Mas como é sabido cada página de Saramago vale por dez. E o marketing pode sempre tocar uma marcha infinita: alabarda, alabarda, espingarda, espingarda, alabarda, alabarda, espingarda, espingarda... tendendo para mais infinito... Alternativa: passem para cá o romance que o terminamos nem que seja à granada, granada...
    Afinal, no entanto, as últimas notícias falam em 77 páginas em formato livro mais 3 de notas... mais os textos do Aguilera e do Savoia e já vamos em 135... afinal temos obra. Diz também que os nomes próprios estão todos em minúsculas para reforçar o carácter comum dos homens ou igualá-los aos animais... falta o terceiro excluído: não estar o Saramago para carregar naquele dia no Caps Lock. Acontece aos mais trabalhadores! E o personagem principal é um tal de Semedo Amanuense, trabalhador numa fábrica de armamento, talvez ele o verdadeiro responsável das compras de equipamento militar da república... está percebido a incompletude do documento... comissão parlamentar da defesa com o artur paz semedo de que se desconfia ser um animal... (PAS)

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  10. . Os alemães desconhecem o humor;
    . os alemães desconhecem o humor das coisas sérias;
    . os alemães ainda vivem no stress pós-traumático de uma guerra inimaginável (digo eu, três gerações depois, que vivo numa casa com bunker, faço provisões para emergências e sonho com Guerra).

    (também não gosto de ironias que metam Auschwitz, nem gosto do humor da guerra - a não ser que se chame "Allo, Allo" - e, afinal, também não gosto assim tanto de Martin Amis...)

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    1. Claudia da Silva Tomazi23 de setembro de 2014 às 15:14

      Minha amiga D. nasceu em Heldland em quando criança via sua avó abrir a porta na esperança de ser o amado filho a retornar da Guerra a grande Guerra.

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    2. Os alemães talvez tenham desconhecido o humor, mas garanto que o têm vindo a descobrir, aprendendo a rir sobre eles próprios. É notavel a explosão da "stand-up comedy" neste país, iniciada em meados dos anos 1990.

      Depois, acho que há uma diferença entre os alemães católicos e os alemães luteranos. O que vou dizer pode parecer absurdo, mas eu estou convencida de que, ao desprezar o Carnaval e todas as atividades relativas ao Entrudo, Martinho Lutero acabou com o sentido de humor de muitos alemães. Enquanto em muitas regiões do centro e do sul da Alemanha se goza o Carnaval bem gozado (com muita tradição, ao contrário do Carnaval português, que se transformou radicalmente, "abrasileirando-se"), os alemães do norte (infelizmente, a região onde vivo, tendo como marido precisamente um luterano) continuam a abominar o Carnaval. Os que se mantiveram católicos preservaram, portanto, essa capacidade humorística, que hoje se está a alargar a toda a sociedade.

      É o meu ponto de vista, de uma estrangeira observadora há 22 anos na Alemanha.

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    3. Cristina, uma palavra: Köln... (Furchtbar!)

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    4. O Carnaval de Köln tornou-se muito comercial. Em Mainz e na região bávara de Franken (não me lembro do nome da localidade de onde ele é transmitido), a piada política é de alto nível. Mesmo assim, no início, irritavam-me aqueles gorros de bôbo, com as campainhas. De qualquer maneira, admiro a tradição, que não força sambistas brancas como o leite a dançar em temperaturas proibitivas.

      Beijinhos, Blonde!

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  11. A Vida é Bela do Roberto Benigni.

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    1. Também já me tinha lembrado desse filme. Mas, como nunca o vi, embora saiba do que trata, resolvi não o referir.

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