Relíquias

Uma das razões por que é um verdadeiro prazer ler Mário Cláudio – já aqui o disse – prende-se com o número de palavras que aprendo ou reaprendo a cada nova obra que publico. Nunca me esquecerei, por exemplo, daquele «bazulaque» que encontrei em Tiago Veiga e que quer dizer, entre outras coisas, «gordo»; ou do «plumitivo» que havia muito não via escrito em lado nenhum, talvez porque as «plumas» e «penas» com que dantes se escrevia tenham sido substituídas por meras teclas com caracteres desenhados. Um dia destes, aliás, descobri com saudade que imensas palavras que ouvia em adolescente se evaporaram do discurso contemporâneo e correm o risco de se ver para sempre sepultadas, desconhecidas que são dos nossos jovens com trinta anos (sei do que falo), por mais engraçadas, sugestivas e vivas que sejam. Falo, por exemplo, de «amásia», forma evidentemente insultuosa de nomear a concubina de alguém (sobretudo de um homem casado), de «lambisgóia», «serigaita» ou «pespineta» (em pequena, a minha avó usava este termo muitas vezes), palavras que têm um mundo inteiro lá dentro, cheias de cores e formas, e dizem mesmo aquilo que queremos dizer quando pensamos em alguém. E, por isso, resolvi que, uma vez por mês, vou recuperar aqui no blogue uma dessas deliciosas relíquias, pedindo aos extraordinários que as usem por aí, não vão desaparecer sem deixar rasto. A última de hoje é «pindérico», substituída pelo actual «piroso», vocábulo que não tem, convenhamos, a mínima piada.

Comentários

  1. Acho fantástica esta ideia!

    Aproveito para pedir ajuda: quando era puto usávamos várias palavras que quase já não oiço, normalmente para nos insultarmos uns aos outros, mas sempre na brincadeira.

    Uma dessas palavras é "mastrôncio" ou algo assim. Procurei no google e não encontrei. Recordo-a com esta sonoridade, mas é capaz de não ser bem assim. Alguém por aqui também a usou?

    Tenho reparado que os meus amigos lisboetas acham piada quando os trato por "pancão", será que não se usa na capital?

    Bom dia a todos,

    Rui Miguel Almeida

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    1. Mastronço é efectivamente uma palavra que deixou de se usar mas lembro-me que se usava no sentido de alguém mal enjarócado ", mal arranjado, gordo, em suma um mastronço.

      O meu amigo Paulo Pacheco, da Palhaça (Aveiro), quando nos encontramos pessoalmente, aplica com muita frequência a palavra pancão , e eu rio-me...de que é que te estás a rir Ó Seve ...

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    2. António Luiz Pacheco17 de julho de 2014 às 02:18

      Se usou?
      Olhe, tínhamos lá em casa uma camioneta Toyota Dyna, com taipais e capota de lona, muito alta, feia e desengonçada, logo apelidada de "mastronça" ... ahahah!
      A carrinha wolksvagen da minha irmã mais nova era a "traineira" , a minha Peugeot 505 R, era "o carro de charneça"... o velho Ford Fiesta da minha mulher é o "chasso"...

      Isto a gente ad'verte-se... que rir não paga taxa!

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    3. Obrigado Severino e Pacheco. Abraço a ambos os dois :)

      Rui Miguel Almeida

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  2. António Luiz Pacheco17 de julho de 2014 às 02:14

    Diria que é um dos desafios que se põem a qualquer escriba que se preze: fazer variar, não repetindo os termos, o que enriquece (a meu ver) o texto!

    E aí reside a genialidade de alguns autores! O uso da língua, de que destaco Mestre Aquilino, sem qualquer dúvida!

    A língua portuguesa tem essa imensa vantagem, é que há mil e uma palavras para um mesmo significado!

    Muitos dos termos que a Nossa Extraordinária Anfitriã, até se mantiveram... mas como regionalismo:

    Exemplos?
    Amásia é corrente no meu Bairro Ribatejano, como "pantar" (pôr-colocar) "corto" (de cortado, por exemplo um cão de rabo-corto), "marchar" e "abalar" (verbo ir, andar: p.e. - marchê par'casa, abalê logo dali par'fora).
    Também se usa ainda e muito "trongo" (coisa feia ou desengraçada), "mariola" (velhaco), e termos que nos levarão a um linguajar curioso e até com um toque de antiguidade.

    Alguns plumitivos locais - eu incluído - utilizam na escrita estes termos, fazendo gala em os usar e manter... o que pode parecer a alguns como excentricidade ou pretenciosismo, e se calhar até são, mas acho que não devemos soçobrar ao "k", "pk" e demais simplismos de uma geração do menor esforço, até para falar!

    Afinal, repito, temos um vocabulário que é um prazer descobrir!

    Saudações plumitivas da cidade morena!

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  3. -- Eh priga, vai andando que já te apilho!
    -- Vem devagar, tá a borranhar, o chão escorrega, ainda adregas de dar um puliato!
    -- Onde é que vás?
    -- À minha Roinele, aos japões.
    JCC

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    1. António Luiz Pacheco17 de julho de 2014 às 02:57

      Ahahah!

      "É c'chopa! Onde vais-tu toda aperaltada?"

      Cachopo, cachopa... também ainda se usa muito!
      Uma infantilidade é uma "cachopice"...

      Como digo, é um prazer descobrir nos nossos regionalismos um novo idioma, reinventado!


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  4. - Olá, mãe. Venho cansado. Vou encostar-me um bocadinho.

    - Olha, "bem bonda eu" que passei o dia a lavar a roupa, a esfregar as escadas e a fazer comer.

    - Pedia ajuda à Rosalina...

    - Essa? Credo! Até me custa olhar para a mulher que parece mesmo a "noite-vó" (noitibó, descobri mais tarde)

    Resta dizer que a minha mãe - eu também - nasceu na Covilhã, onde não se fazia no penico, mas sim no "pitó" e as coisas não se deitavam fora. "Aventavam-se".

    (Saudades :) )

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  5. Hummm...as palavras também variam o seu significado de acordo com as zonas do país e a forma como delas se apropria cada uma. Na minha terra, pindérico não é sinónimo de piroso.
    O pindérico aparece associado a pobreza é alguém que todos sabem não ter onde cair morto mas que o nega ou pretende negar na sua exterioridade; alguém a armar, digamos.

    Quanto ao piroso...dirigimos a alguém com uma falta de gosto demasiado nítida, um bocado rococó.

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  6. Cláudia da Silva Tomazi17 de julho de 2014 às 06:08

    Diz a Filologia que entre língua e dialeto não há diferença fundamental .

    A princípio todos os dialeto não estão no mesmo pé de igualdade .

    Mais tarde por circunstâncias políticas ou literárias um deles predomina .


    Português Prático - José Marques da Cruz pg. 445

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    1. António Luiz Pacheco17 de julho de 2014 às 07:04

      Extraordinária e Veracruciana Cláudia:

      Um dialecto, é uma variante de uma língua, ou se quisermos um sub-idioma. Temos em Portugal o Mirandês, e o Barranquenho se bem que este ainda não seja considerado tal, mas na prática é-o.

      Depois há a gíria, que tem a ver com grupos, como até temos o caso do Minderico que de tal forma evoluiu que poderia ser um dialecto, mas não é, pois não usa palavras distintas e sim faz uso das palavras e termos existentes mas dando-lhe um outro significado.

      Do que se fala aqui é da notável (digo eu...) diversidade e riqueza de termos e palavras que a língua portuguesa possui. Muitos são arcaicos ou caíram em desuso, outros mantêm-se como regionalismos, mas todos estão vivos e são genuínos, ou seja, como eu penso e já referi, é um desafio para quem escreva, e uma possibilidade que a nossa literatura tem ao permitir que não se repita a mesma palavra num mesmo parágrafo!

      Dou um exemplo: Padre, sacerdote, cura, prior, reitor, abade, tudo para designar um mesmo religioso (frei, irmão ou frade é outra coisa!), o que permite construir uma narrativa curta sem ter de repetir "padre"...
      E há muitos outros, por isso o considero tanto uma vantagem para quem escreve como um desafio!

      Claro que isto não passa de uma opinião de traça!

      Saudações linguísticas da cidade morena!
      (Conhece o tema de Chico Buarque, "morena de Angola tem o chocalho na canela?") Eheheh!

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    2. Cláudia da Silva Tomazi17 de julho de 2014 às 07:54

      Bela explicação Pacheco aliás convenhamos " Veracruciana " hoje em dia seria pequeno demais a grande história .

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    3. António Luiz Pacheco17 de julho de 2014 às 08:02

      Por quem sois, Senhora... as terras de Vera Cruz se apoucam perante Vós que cantais em poesia o que sublime tendes visto na Vossa demanda da eternidade do espírito que todavia resplandece e emana da obra publicada, ainda que nem a todos agrade e nem todos alcancem...

      Com a devida vénia que a uma Senhora compete

      Saudações desta praça de Benguela-a-Nova


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    4. O Pacheco é danado para a brincadeira...

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    5. António Luiz Pacheco17 de julho de 2014 às 08:44

      Ahahah! Espero que não seja tido por pespineta...

      Um abraço Extraordinário, ó Jordão!

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    6. Cláudia da Silva Tomazi17 de julho de 2014 às 09:02

      Vá lá Jordão quem ganha ganha e assanha .

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  7. «Lambisgóia» e «serigaita» ainda não estão totalmente em desuso. «Pespineta», se calhar, já representa um desafio.

    E, «adrede»: alguém sabe o significado?

    E depois temos os regionalismos:

    Os antigos da minha região utilizavam a expressão «resseco» ( re-sse-ço) quando falavam do pão de mais de dois dias.

    Cumprimentos a todos.

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    1. António Luiz Pacheco17 de julho de 2014 às 08:36

      ADREDE: adv. de propósito, expressamente; propositadamente - será como had hoc,, isto digo eu!

      Nunca vi ou conhecia...

      RESSECO: adj. muito seco, ressequido

      Aqui em Angola usa-se um termo muito curioso para designar os restos de comida da véspera:
      "Cómida qui dormiu!"

      Ahahah!

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    2. Respondo propositadamente por causa da dúvida sobre o significado de "adrede" - que, creio, significa "propositadamente.

      A propósito: acho interessante a ideia de, mensalmente, virmos aqui adrede para recordar palavras caídas em desuso.
      Melhor desafio ainda será tentarmos, não apenas relembrá-las, mas ressuscitá-las, dar-lhes de novo vida e utilidade.
      Já aqui atrasado expliquei o meu ponto de vista sobre essa pepineira do Acordo Ortográfico.
      Vai ser bonito quando estiverem de novo em circulação as palavras que aqui iremos reanimar...

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    3. táxe a brincar ó kê

      Daqui do fundo de Portugal um abraço

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    4. António Luiz Pacheco17 de julho de 2014 às 10:13

      Do fundo do Portugal... ou do Portugal no fundo?
      Eheheh!

      Allgarve... boa estadia, j'stás j'en Légues?

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    5. Agora ando por estas bandas, para a semana começo a subir até meio de Portugal...

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    6. Caríssimos,

      Eu sabia muito bem o que queria dizer "adrede".

      Queria saber se era do VOSSO conhecimento geral...

      Muito me rio a ler um bocadinho estes comentários.

      Dá-me cá uma moca...

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  8. Também tenho saudade de palavras da minha juventude, entretanto desaparecidas. Por exemplo:
    Flausina,
    Esgrouviado,
    Carraspana,
    Patego,
    Balela,
    Entrevado
    (palavra poética que foi substituída por acamado; usada quase sempre no diminuitivo)
    E do ladino (também um linguajar nosso):
    Misná,
    Miscárrá,
    Mérita

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  9. Cláudia da Silva Tomazi17 de julho de 2014 às 09:03

    Picaresco.

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    1. Ó Cláudia, eu sou pela direitura: o assunto que estamos a tratar não é picaresco. É bem sério.
      Como a Cláudia disse aí atrasado, "quem ganha, ganha e assanha".
      Esse é o desafio: ganhar para o nosso lado as palavras esquecidas - e assanhá-las.

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  10. Os catraios estiveram bem, muito divertidos. Lá do fundo de Portugal ou lá pelas terras das acácias rubras e das praias morenas não lhes faltou inspiração para o despique.

    Parabéns.

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    1. Concordará que “catraio” é palavra que ainda está aí para as curvas, em boa forma (inda se fosse “fedelho”… ou “caga-tacos”…)
      Todas as suas outras idem aspas.
      E então essa: “anónimo” – tem cada vez mais uso (inda se ao menos fosse… sei lá… “antónimo”…)

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    2. Teria escrito eu que estava a referir-me a palavras em desuso? Homessa!
      Não ponha o carro à frente dos bois e claro está que a palavra "anónimo" está, a cada dia que passa, mais em voga e, portanto, descabida para servir de exemplo.
      O Senhor pirralho agora esteve mal, realmente.

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    3. Sim, estive mal.
      É que, com esta coisa de eu, pirralho, querer meter à viva força termos em desuso, não ficou claro o tom de ironia que queria dar ao texto.
      Digo para mim próprio (para o meu antónimo): "Toma e embrulha, que já não és nenhum catraio".

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    4. Extraordinário! Esteve bem, sim senhor!

      É assim mesmo, ora "tasse" bem, ora "tasse" mal; faz parte ...

      Agradeço-lhe.

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  11. Hoje não deu para passar mais cedo, mesmo assim não resisto. No meu Alto Minho natal, ambiente rural, raro era o dia em que não tinha de estonar as batatas ou então desbulhar espigas p'ra dar de comer ó bibo... :D Velhos e belos tempos!

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  12. Olá a todos.
    Quando eu era pequeno, e bem mais magro, os meus pais diziam-me muita vezes que eu estava um fernimpau.
    Confesso que nunca encontrei essa expressão em nenhum lado, pelo que se tornou um dos mistérios mais estranhos da minha própria mitologia.
    Ainda hoje, penso que os meus pais eram inventores de palavras e que fernimpau significava aquele miúdo que era magro e comia pouco.
    Bom, hoje já não sou um fernimpau; sou um fernintronco.

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  13. Curiosamente estou a ler o "Retrato de Rapaz" do Mário Cláudio. É o primeiro livro, deste autor, que leio, e senti o mesmo que refere. Há até o uso do verbo "botar" que me enterneceu deveras. Ouço-o com frequência nos Açores - de onde sou oriunda - mas confesso que pensava ser uma forma incorreta. Afinal o verbo existe mesmo e o seu uso é perfeitamente legítimo. Sempre a aprender... :)

    Neste aspecto, este autor recorda-me o Mário de Carvalho. Ambos utilizam palavras muito pouco frequentes e obrigam-me amiúde a consultar o dicionário.

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    1. António Luiz Pacheco18 de julho de 2014 às 02:01

      Ora essa... Extraordinária e Insular Ana b. :

      As galinhas botam ovo! E a uva bota côr...

      Só os pascácios é que não conhecem em toda a sua diversidade a largueza da nossa língua!

      Não paniquem... não paniquem, o português está vivo e de boa saúde e os que o querem amarrar vão desconseguir!

      Saudações vocabuláricas desde a cidade morena
      (Por acaso andam a podar as acácias, muito mal, é verdade, mas andam a podá-las... )

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  14. Bela homenagem à história da nossa língua...

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