Preconceito?

Desde que me tornei editora de autores portugueses, publiquei vários géneros de romance, entre os quais aquilo a que se chama vulgarmente romance histórico. Mas, quando tento fazer uma espécie de retrospectiva, reparo que as obras dessa, digamos assim, tipologia são as que menos críticas receberam da nossa imprensa. Tenho consciência de que alguns desses livros não apresentavam grandes inovações estilísticas – assumindo-se como ficções informadas à roda de episódio ou personagem histórico, mas sem voo literário; mas existem outros que, partindo de determinado facto ou tempo histórico, são tão ou mais inventivos em termos de voz ou estrutura do que os romances que não usam a história como pretexto – e pergunto-me se bastará aos recenseadores olhar para uma capa com gravura antiga ou ler uma sinopse referindo um tempo passado para os afastar da leitura e os levar a acreditar que dali não vem decerto literatura a sério. Será um preconceito, dado que existem muitos romances históricos levezinhos, sem alma, escritos por autores que apenas usam a ficção para dar informações a quem não sabe? Será porque a História pareça a quem faz crítica um pretexto para escritores sem imaginação? Que diabo! Publiquei este ano dois livros belíssimos, Mal Nascer, de Carlos Campaniço, e O Pecado de Porto Negro, de Norberto Morais, e não vi quase ninguém escrever sobre eles, sendo que um crítico que se deu ao trabalho de ler o último afirmou que era um dos melhores romances históricos publicados desde sempre em Portugal. A história e a literatura não podem andar de mãos dadas, que logo vem alguém desconfiar do casamento?

Comentários

  1. Bom dia,

    Permita-me que afirme que, na minha modesta opinião, publicou há uns largos anos uma autêntica obra-prima: "A demanda de D. Fuas Bragatela" de Paulo Moreiras. Histórico ou não, isso não me interessa muito, é um grande livro e deveria ter tido bem mais leitores.

    Curiosamente, o Joaquim, dono da A-das-Artes, a quem compro livros, tem falado (no facebook, que é onde o "oiço") nestes dois livros que menciona hoje, com especial ênfase no de Norberto Morais. Graças a ele, já está na short-list das próximas aquisições.

    Talvez fosse possível encontrar formas de dar maior voz à opinião dos livreiros sobre o peixe que vendem?

    Rui Miguel Almeida

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    1. António Luiz Pacheco16 de julho de 2014 às 02:39

      Apoiado e partilho a mesma opinião sobre o livro de Paulo Moreiras que considero uma obra de referência!!!!
      Eu traça, farto-me de voar à volta dele!!!!

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  2. Bom dia caros amigos extraordinários.

    Nem de propósito: é que acabei de ler "O ASSASSINO DO AQUEDUTO", de Anabela Natário, com base na história de Diogo Alves, o homem que aterrorizou Lisboa no século XIX e, na minha modesta opinião de leitor, talvez por ter criado demasiadas expectativas, uma história que teria certamente todos os ingredientes para ser um grande livro, fica-se por uma historiazinha muito levezinha, sem alma, podendo utilizar com toda a propriedade as palavras da MRP , um romance histórico, levezinho, sem alma, escrito por uma autoras que apenas usou a ficção para dar informações a quem não sabe...e Diogo Alves tem todos os ingredientes para dar um grande livro e este "O ASSASSINO DO AQUEDUTO" são apenas mais 295 páginas cheias de oportunismo e pouca literatura.

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  3. António Luiz Pacheco16 de julho de 2014 às 03:01

    É assim:

    (Na presunção de que a minha opinião interesse a alguém ou seja partilhada)

    - Eu traça literária e impenitente ajuntador de livros, não leio críticos... ou melhor não ligo népia ao que dizem!
    Apenas passo os olhos pelo que dizem, e só o Pedro Mexia me merece (alguma) atenção! E porque o acho claro e sensato, consegue não ser maçador nem agressivo.
    Dos outros, nem falo...

    Porquê? Pois porque raramente concordo com eles ou me interesso pelo que debitam, regra geral o crítico alardeia os seus conhecimentos e cultura em vez de analisar a obra, com referências e citações que se destinam a esmagar os basbaques ou as traças como eu. Ou seja só repetem, não criam nada...
    Logo, como é que podem acusar o romance histórico desse défice criativo?

    Peço desculpa, e se calhar vou ser queimado em praça pública... mas é o que acontece às traças quando se aproximam demasiado da luz.

    A crítica tece os maiores encómios a livros que detesto... até parece sina! Dizem mal ou ignoram tantos de que eu gosto. Logo o divórcio é irreversível!

    O melhor romance histórico que já li, enfim nos últimos tempos, chama-se "Levante 1487 - A vã glória de João Álvares", da autoria de José Maria Pimentel. Devia ser de leitura obrigatória nas escolas... e claro que passou completamente desapercebido... creio até que foi editado pelo autor ou em parceria.

    Essa de ser um género desprovido de imaginação, etc., é uma opinião com que não concordo mesmo nada! A história é uma área extremamente rica e estimulante, para quem a conheça e esteja atento, para quem a LEIA!

    SE os EUA tivessem uma história como a nossa... como diriam os brazucas: Nossa!!!! Aquilo nem o Paulo Bunian conseguia dar vazão a cortar árvores para fazer papel e Hollywood rebentava a fazer fitas e séries...

    Mas por cá, acha-se que é um género menor... e de facto é melhor escrever sobre os meus pensamentos íntimos quando estou no café, ou vou no comboio para o trabalho... revela muito mais imaginação e presta melhor serviço à literatura e à escrita.

    Enfim, opiniães...

    Saudações da cidade morena!

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  4. Acabei ontem de reler as «Mãos Sujas» de Sartre. Um autor que gosto de revisitar de tempos a tempos, ou não tivesse sido eu criado num grande caldeira de ciências humanas e sociais e não meramente nas humanidades sem carne e osso.
    Em Sartre encontro a ligação entre essa literatura mais despojada e a literatura do real, da existência com o pano de fundo do movimento da história. Considerar que o romance histórico é pretexto para escritores sem imaginação parece, sim, um preconceito sem imaginação. E mais grave: a não percepção de que a vida vai para além do espelho do Eu com aquilo que nos faz mais ricos: a relação com os outros seres!

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  5. Obrigado por nos chamar a atenção para a qualidade destes dois romances históricos recentemente publicados. A mim, de facto, a sua publicação tinha passado despercebida.
    Fui marcado na minha adolescência pelo “Eurico, o Presbítero” (e pelo “Crime e Castigo”), que me levou depois a “O Bobo” e ao “Monge de Cister”, para além das licealmente obrigatórias “Lendas e Narrativas”, e deslumbrado em idade adulta pelo “Memorial do Convento”.
    Em contraste com a pouca visibilidade de “Mal Nascer” e de “O Pecado de Porto Negro”, temos os best-sellers do José Rodrigues dos Santos, que não consego ler. A este propósito, no fim de semana passado vi numa “Relay” de centro comercial francês o livro “L'ultime secret du Christ” (não sei qual o título em português). Desfolhei-o e constatei que termina com um pós-texto de agradecimento do Rodrigues dos Santos às várias individualidades que leram, como assessores técnicos, várias porções do romance, personalidades que incluem o presidente da FCT (Miguel Seabra, tão apreciado nos jornais…), o embaixador de Israel e vários peritos em teologia cristão e judaica. Li a contracapa os últimos dois parágrafos do romance e percebi qual é o último segredo: um exame exaustivo às paredes do túmulo de Cristo permitiu recolher uma pequeníssima mancha de sangue; a amostra foi entregue a biólogos moleculares que extraíram o ADN que lá estava e com ele clonaram um embrião. O romance termina com um personagem a dizer: “ele vai ressuscitar”. Pedestre, simplista, quase indigente (para cristãos convictos). Mas vende muito, até em França! Eu espanto-me, mas cada qual lê o que gosta e ninguém tem nada com isso.

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  6. Não me massacrem, mas eu achei o Equador um grande livro e sei que, se tivesse vendido 1500 exemplares, a crítica teria concordado comigo.

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    1. EQUADOR-grande livro!

      É daqueles que sai uma vez na vida. Miguel de Sousa Tavares pode escrever durante mais cem anos (e eu que veja), mas nunca mais escreverá nada igual.

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    2. António Luiz Pacheco17 de julho de 2014 às 01:18

      É um bom romance, sim, mas eu gostei bem mais do Rio das Flores...

      Dentro do género, Francisco Costa (A Garça e a Serpente ; Escândalo na Vila) é para mim o mestre, mas uma das melhores obras que já li, ainda sobre o tema (Rio das Flores) é "Vida e morte dos Santiagos" - de Mário Ventura. Para mim uma obra-prima.

      Aconselho-tos vivamente ó Severino!

      Um abraço da cidade morena!

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    3. "O RIO DAS FLORES" tenho-o lá na prateleira de cima, junto ao tecto, mas ainda não me atrevi, mas também tinha boas referências, continua na lista...

      Do MST também recomendo "SUL".

      "A VIDA E MORTE DOS SANTIAGOS " já li e gostei imenso, é efectivamente um belíssimo romance que retrata muito bem o Alentejo (creio que o li a teu conselho).

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    4. Vejo-me obrigado a concordar com o ASeverino. Achei o Equador incomparavelmente superior ao Rio das Flores.

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  7. Mal Nascer - um romance histórico? Má informação?

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  8. Cláudia da Silva Tomazi16 de julho de 2014 às 05:44

    "Preconceito" conta-se dois :

    1 - formalizado - serve para você e outro

    2 - digerido - o que não serve para você


    Em relação ao preconceito felicidade ou seja a satisfação iincentiva valor prevenção .

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  9. Ainda, sobre Mal Nascer: é um romance cheio de lágrimas. E puxa a lágrima ao Saramago, que deve estar desgostoso. Quanto à editora: tem uma consciência afunilada. As suas sugestões também puxam a brasa à sua sardinha. Tudo o resto - o que é literatura portuguesa - não cabe na grelha.

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    1. Cláudia da Silva Tomazi16 de julho de 2014 às 06:15

      Caro anónimo nem tive preconceito em retirar do lixo um clássico .

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  10. António Luiz Pacheco16 de julho de 2014 às 07:17

    Vamos lá a ver:

    a) Romance Histórico, parece-me uma designação demasiado genérica, mas mesmo assim e por isso constituirá um género!

    b) Dentro deste género creio que teremos então:

    - O histórico puro, onde se compõe o romance dentro dos factos históricos.
    - O de fundo histórico que tem por fundo ou tema os factos históricos, apesar de ficcionados, mas que os respeita .
    - O de inspiração histórica, onde se ficciona a partir dos factos históricos, que podem ser mais ou menos respeitados, mas ocorreram!

    Ou seja, parece-me que no género histórico há que usar mesmo a história, recorrendo aos factos e ao conhecimento deles e da história.

    c) Quando se escreve um romance e ele se desenrola numa época passada, com mais ou menos rigor histórico, mas onde os fatos históricos são irrelevantes ou secundários, é ainda romance histórico? Não me parece que seja, é apenas romance...

    d) Quando se baseia em factos do passado não-histórico, em termos gerais mas p.e. na história familiar, é ainda romance histórico?
    Também não me parece que seja, mas gostaria de dividir:
    1- Se a acção narrada se mistura com factos históricos, reais, creio que já pode ser considerado romance histórico. Há sempre aquela parte desconhecida ou obscura da história.
    2 - Se a acção narrada, embora seja real e passada num período histórico identificado, não se entrecruza com a história, então já não me parece que seja romance histórico!

    Estarei confundido ou enganado?

    É que se calhar desta falta de definição advém o tal preconceito a que a Nossa Extraordinária Anfitriã faz menção.

    Há por aí autores de romance histórico, nesta plêiade de Extraordinários... o que me dizem a esta sistematização????

    Saudações históricas da cidade morena!

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  11. Confesso a minha incapacidade em definir o que é romance histórico - não o confundo com, por exemplo, a temática medievalista de Herculano. Todos os romances se passam num tempo passado, mesmo que os autores os situem num futuro longínquo ou, caso raro, narrem empregando o futuro. Posto isto, será romance histórico Um deus passeando na brisa da tarde, cujo autor afirma em epígrafe que o não é, o Memorial do Convento e tantos mais? Ou romance histórico não passará de mais uma etiqueta comercial?

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    1. António Luiz Pacheco16 de julho de 2014 às 07:48

      Pois... daí as minhas dúvidas!

      O memorial... é "apenasmente" um romance de inspiração histórica, digo eu... como aliás a maioria dos romances assim chamados, que usam e partem de acontecimentos históricos e se desenrolam neles!
      Já D.Afonso Henriques - o homem , é um romance histórico puro! Romanceia os factos...
      A demanda de D. Fuas, é um romance de fundo histórico, porque recria o ambiente e acompanha um momento da história, usando-a, mas totalmente ficcionado...

      Compreende o meu ponto de vista?

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  12. Os romances históricos têm a sua importância tendo em conta o seu caráter didático. Mas há os romances históricos que servem apenas esse propósito, o de informar e descrever, enfeitando a narrativa com personagens ficcionadas e a condizer, o que não é de todo mau, pois permite um maior entusiasmo na estória e na história. Depois, há os romances históricos, como o Memorial do Convento, que em nada se podem comparar com as obras que entretêm e que dão lições de história, mas cujo âmago reside na crítica, e no caso da obra de Saramago, aproveitando um dado momento cronológico para exorcizar um corpo, que se chama Portugal, numa espécie de catarse da memória de um povo que sofreu no corpo e na mente os traumas de um país mal governado e impregnado de superstições e males religiosos; a exploração dos mais desfavorecidos em prol de caprichos monárquicos.

    Gi Deuladeu

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    1. António Luiz Pacheco16 de julho de 2014 às 10:15

      Ora aí discordamos...
      Os romances históricos servem para isso mesmo, para usar a história!
      Seja para fins políticos como expor caprichos monárquicos ou para fins didáticos de dizer como se fazia e vivia na época.
      Ambos são fins de duvidosa simpatia para o leitor comum ou o estudante...

      A finalidade devia ser outra e algo diferente:
      - Fazer da história o que ela é afinal, uma coisa viva e que se vive, no dia-a-dia e onde residem as memórias da humanidade, de todos nós portanto.
      Dar-lhe interesse, torná-la apetente para o leitor em geral, e, para o estudante que a acha chata como a potassa...

      Não interessa tanto se D. João V era caprichoso, mas sim tudo o que envolve o convento, seja na vertente social, económica ou arquitectónica, etc.
      O que interessa é o que significou e foi, o que provocou e porque foi construído, de onde veio o dinheiro, qual o propósito.
      Significou tanto que até o nobelizado Saramago o usou para a parábola que a Gil descreve, sendo da maior utilidade provar que D. João V foi caprichoso... sem dúvida que esse terá sido o grande objetivo de Saramago e o motivo para escrever essa obra-maior!

      Para mim a visão e o interesse da história reside em saber através do passado as razões do presente! Aliás por causa dos caprichos de D. João V somos hoje uma república, completamente isenta portanto de caprichos, presidenciais ou outros... Graças a Deus!
      As interpretações de Saramago ou de outros são secundárias, pois o que interessa afinal é neste caso o valor literário da obra literária e não as sempre discutíveis opiniões do seu autor.

      Estarei ainda errado? Pode muito bem ser... mas continuarei, até prova em contrário, a ver assim o romance histórico, de que aliás gosto e sou leitor, na sua diversidade.

      Saudações históricas da cidade morena!

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    2. Concordo que o propósito de "apenas" informar e descrever pode permitir um maior entusiasmo na estória e na história. Aliás, lendo as biografias dos Reis de Portugal da Temas e Debates (pelo menos em algumas delas), pode-se dizer que foram influenciadas pelo romance histórico (de qualidade literária, ou não), pois tentam apresentar a figura real sob uma perspetiva mais íntima. Pelo menos, esse mérito o romance histórico teve. Talvez a coleção da Temas e Debates nem tivesse surgido sem a onda de romance histórico que se iniciou em Portugal em fins dos anos 1990.

      Primeira frase da biografia de D. Afonso Henriques, da autoria do Prof. Mattoso: "Não é preciso ser historiador profissional para perceber que não se pode traçar a biografia de uma personagem medieval sem uma grande dose de imaginação".

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  13. Embora duvide da pertinência do gênero, aceito a proposta de AL Pacheco. Assim, o D. AFONSO HENRIQUES da Cristina Torrão pode ser considerado r. histórico, mas talvez não Os Segredos de Jacinta, que muito apreciei.

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    1. António Luiz Pacheco16 de julho de 2014 às 10:19

      Pelo que sei (ainda não li) Os segredos, estarão para o género ou vertente da Demanda... passa-se num período e usa-se a história como pano de fundo para se desenvolver a acção, não como inspiração ou tendo por objetivo dar a conhecer os factos e as pessoas da história... será?

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    2. Penso o mesmo. A Jacinta, com o seu vigor, com o seu brilho, ofusca a componente histórica. Mas admito que outros leitores pensem de forma diferente. Curiosamente, acabei hoje a leitura, de um fôlego, de A rainha Ginga, de Agualusa. Outro romance que eu não classificaria de histórico. O que em nada diminui as referidas obras.

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    3. Já que me mencionaram, o que agradeço, aproveito para dizer que concordo que existem várias formas de "romance histórico". Uma biografia romanceada realmente não é a mesma coisa que uma ficção enquadrada num momento da História (além de outras variantes).

      Aproveito para dizer que realmente é um erro pensar que a História pareça "pretexto para escritores sem imaginação". Pela minha experiência, é até mais difícil escrever sobre uma personalidade histórica do que criar uma ficção num contexto histórico. É conhecido que, muitas vezes, as personagens ganham vida própria e encaminham o escritor para enredos de que ele nem fazia ideia, quando começou a escrever. Ora, isso não é possível, ao retratar uma figura histórica. É preciso muita disciplina para não deixar o enredo desviar-se do seu caminho. E também é necessária muita imaginação para descrever de maneira plausível (mais ou menos lógica) certas atitudes da personagem/personalidade. Se D. Afonso Henriques resolve casar com uma donzela que não conhece, prescindindo daquele que terá sido o amor da sua vida, que razões o levaram a isso? Como explicar tal, num homem com uma vontade de ferro, que normalmente não se deixava desviar dos seus objetivos e que impunha a sua vontade, contra tudo e contra todos?
      Só para dar um pequeno exemplo...

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  14. E que dizer dessas magníficas Memórias de Adriano (M. Yourcenar)? A história apenas como pretexto, não será?

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  15. A mim, parece-me um casamento bem natural. Vista de cá, a História é um romance sem fim. Já as histórias que os Romances contam não existem sem História, a mais próxima ou a mais longínqua, relevante ou diluída. Eu gosto de romances à maneira de Eco em que se descobrem, inventados ou não, os enigmas da História.

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  16. DECÁLOGO DO ROMANCE HISTÓRICO – 1.ª Parte
    Miguel Real
    escritor e ensaísta

    1 – A escrita de um romance histórico exige do autor um espírito histórico. Não chega a curiosidade ou o interesse pela história. É fundamental ter a consciência de que não é possível extrair-se leis deterministas da História. Como ciência, a História é constituída por uma cadeia ou rede fortuita, acidental, realizada in actu, na qual cada acontecimento se estatui como uma reacção ou resposta possível determinada pela mentalidade cultural geral da época. Sob pena de subordinar o romance histórico a um tipo de propaganda ideológica, não se pode passar de uma cadeia de acontecimentos para uma lógica filosófica da história. Integrar o romance histórico no interior de uma lógica filosófica da História (o cristianismo, o marxismo, o existencialismo, o estruturalismo, o liberalismo, o nazismo...) é subordinar o romance a um providencialismo determinista;

    2 – Deve-se começar por ser bom historiador. Dominar em absoluto os factos históricos da época narrada, as formas de representação, as formas de governo, os conflitos políticos e institucionais, a sua expressão militar, os hinos, as canções guerreiras, os uniformes militares, a mitologia heróica...;

    3 – Depois, tornar-se melhor que o melhor historiador – conhecer em pormenor as roupas, a higiene pessoal, a alimentação, períodos de actividade e inactividade, as profissões, os instrumentos de trabalho, os modos de culto do sagrado, as orações, as liturgias, os rituais de nascimento e morte, as formas de socialização, de divertimento, os espectáculos, os comportamentos marginais, os hábitos alternativos, a topografia e a toponímia da época...;

    4 – O romance histórico possui um fim em si mesmo – o prazer estético da escrita e da leitura, adicionado ao conhecimento da história. Não serve nem para reconstruir a história, nem para reinterpretar a história, nem para ensinar a história;

    5 – A História constitui-se como uma narrativa lógica e epistemológica sobre os factos históricos a partir de categorias científicas e o romance histórico uma narrativa literária ou artística sobre factos históricos reais ou inventados a partir de categorias estéticas. Seja como ciência, seja como romance, a História é sempre uma narrativa humana sobre factos humanos, nada possuindo da certeza e do rigor presentes no determinismo próprio das ciências naturais e experimentais. Neste sentido, o paradoxo do estatuto do romance histórico reside na ambiguidade de ser uma narrativa simultaneamente verdadeira e falsa (ficção);

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  17. DECÁLOGO DO ROMANCE HISTÓRICO – 2.ª Parte
    Miguel Real
    escritor e ensaísta

    6 – O romance histórico não reinterpreta ou reconstrói a história segundo um ditame de verdade – tal como fora pensado na primeira metade do século XX. A sua função consiste em abrir um horizonte estético e lúdico às possibilidades contidas na História, fazendo eco das múltiplas verdades e das múltiplas perspectivas por que se desenrolam os factos históricos, algumas delas nunca acontecidas;

    7 – Neste sentido, afastam-se da definição de romance histórico termos limitadores como "fidelidade", "verdade aproximada", "reprodução" ou "reconstituição", "dados rigorosamente históricos"... Ainda que o romance histórico possa comportar estas categorias, eminentemente científicas, o seu sentido primeiro e último e, portanto, a sua definição estatuídora, envolve sobretudo um fim estético. Se, de facto, o romance histórico envolve, pela sua natureza, um quantum de conhecimento e, possivelmente, de didactismo, o seu quid, porém, é eminente e absolutamente estético;

    8 - Neste sentido, o romance histórico não se estatui como uma mimêsis da narrativa histórica científica, mas uma sua iluminação ficcional. Isto é, o romance histórico não reconstrói a história segundo um ditame de verdade; diferentemente, ilumina a história, evidenciando as possibilidades reais contidas numa época ou numa dada sociedade, tenham ou não acontecidas;

    9 – Faz parte do estatuto paradoxal do romance histórico mimetizar e canibalizar as categorias e as modalidades da narrativa científica da histórica, evidenciando-se como discurso verosímil no campo da ciência. Aqui reside tanto o máximo de ironia do romance histórico quanto a consciência da subjectividade (estética, histórica) como elemento fundamentador do romance histórico;

    10 – Neste sentido, não existem limites ficcionais para o romance histórico, seja enquanto narrativa verosímil sobre a história (antigo estatuto do romance histórico), seja enquanto narrativa que trabalha a partir da concepção estética de tempo como "totalidade inconsútil" ("o tempo é todo um", segundo a lição de José Saramago). Na primeira concepção, o limite máximo para o romance histórico reside no "anacronismo"; na segunda e actual concepção, não existem limites epistemológicos, apenas a sabedoria (e o talento) de harmonizar esteticamente factos e personagens de culturas e épocas diferentes.

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    1. António Luiz Pacheco17 de julho de 2014 às 01:25

      Ora aí está!

      Extraordinário Anónimo, pela minha parte agradeço o trabalho a que se deu para me esclarecer e ilustrar!

      É justamente por isto que gosto de esvoaçar por este blog luminoso!

      E ninguém melhor do que as palavras de Miguel Real, sem dúvida um marco nos nossos autores contemporâneos do romance histórico, para me orientar e dissipar dúvidas.

      Grato e saudações esclarecidas da cidade morena!

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  18. Terminei de ler este prodigioso livro e só consigo agradecer ao autor e à editora por tão belo trabalho. Procuro agora o Vícios de amor mas está esgotado nas livrarias mais conhecidas. Por acaso, não me sabe dizer onde poderei encontrar? Obrigada.

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