O que ando a ler
Bem, para variar dos romances (mas nem tanto), dei comigo a ler um livro que me foi oferecido pelo autor, com dedicatória e tudo, e que, como é óbvio, ele sabia que me iria interessar (e muito). Chama-se O Futuro da Ficção e assina-o António-Pedro Vasconcelos que, além de cineasta, é um homem que lê muito, que acompanha os novos ficcionistas (apresentou o primeiro romance de João Tordo, por exemplo) e que pode falar da ficção em todas as suas formas – de Homero a John Ford – porque tem uma cultura muito sólida e abrangente e, desse modo, é capaz de relacionar períodos, escolas, formas artísticas… O seu ensaio, apesar de ter como título «O Futuro...», é, de resto, bastante retrospectivo e ensina-nos que os grandes períodos artísticos foram, ao longo dos séculos, extremamente curtos (o maior de todos durou cem anos, se tanto, mas os tempos geniais na música, na pintura ou na literatura foram, regra geral, bastante mais reduzidos; isto para dizer que é normal haver vazios criativos mais ou menos longos, em que nada que valha realmente a pena registar aparece (e faz bem as contas, de forma que é fácil dar-lhe razão). O problema é que, segundo APV, existe uma crise na criatividade mundial desde os anos 1980 – e a globalização não tem ajudado a corrigir a situação. O futuro? Bem, ou a situação trágica em que o mundo se encontra se tornará ainda mais trágica e desencadeará naturalmente um boom de imaginação (tem sido sempre assim, como o livro explica); ou vamos viver menos em pânico, mas provavelmente sem que nenhuma arte possa ser digna desse nome durante muito tempo (tanto como o vazio entre o fim do Império Romano e o Renascimento). Venha o Diabo e escolha... Leiam o livro, é muito mais do que aqui digo, claro. E aprendam como eu. E assustem-se também.
Li: A casa do fim, Breviário das más inclinações e Histórias com cidades, todos de José Riço Direitinho. Li ainda, Jesus Cristo bebia cerveja de Afonso Cruz (que adorei) e neste preciso momento, espero que o escritor Norberto Morais chegue a Paris com o meu exemplar de O Pecado de Porto Negro.
ResponderEliminarQuanto ao livro de António-Pedro Vasconcelos parece-me muito adequado ao tempo de hoje, tendo em conta o que por aí se vai editando. Será interessante perceber esse percurso da ficção e reflectirmos sobre o que se seguirá, mas isso só para Julho, quando estiver em Portugal.
Um abraço.
Bom dia, boa semana e a continuação de um excelente mês de Junho vaticinado por esta esplendorosa manhã, são os meus votos a todos os Extraordinários Comparsas deste Extraordinário Blog!
ResponderEliminarFui ontem à Feira do Livro, coisa que não acontecia por razões de ausência, há já dois anos! Há-de ser motivo de conversa e fica para depois, mas como nota Extraordinária refiro que tive a oportunidade de cumprimentar pessoalmente a Nossa Extraordinária Anfitriã!
Sobre o tema de hoje:
1º- Registado! Excelente sugestão, vou ler de certeza, porque me interessa muitíssimo o tema, como aliás aprecio o autor que considero como uma pessoa esclarecida!
2º- Leituras actuais:
- Não li neste mês em que por cá estive aquilo que desejava… nunca lemos! Reuniões e preparação para novos projectos de palmar e produção de óleo de palma, café, forragens, banana e talvez uva de mesa levaram-me a ler outras coisas, também interessantes aliás!
- No avião em que vim, já em Maio, acabei o livro que levara e comecei a ler em Cabinda. Faz parte de uma série, da autoria de um autor de que gosto bastante: Bernard Cornwell – Herói! Desta feita passa-se na Guerra Civil Americana. Lê-se bem, sobretudo num avião, em férias ou outra situação em que se pretende uma leitura de entretenimento e que ajude a passar um bocado bem passado. Bem escrito com as suas descrições minuciosas, rigor histórico, romance e suspense bastantes para agarrar o leitor que sou. Não é dos seus melhores livros, nem de perto mas satisfez-me e até fez comprar o resto da série… para ler um dia mais tarde, na praia ou outras viagens!
- Portugal A Flor e a Foice, de J. Rentes de Carvalho.
Um bom livro, sem dúvida e que vale a pena ler nesta altura políticamente conturbada. Rentes de Carvalho é muito claro e objectivo, directo, gosto do modo como escreve e sobretudo aprecio-lhe o pensamento, mesmo que não concorde com tudo, mas é interessante e até esclarecedor ou mesmo (e o melhor nele!) estimulante, estimula-nos a pensar e é pedagógico na maneira como expõe o seu raciocínio e ideias.
Não destrói mitos (exagero da publicidade de contracapa) porque por exemplo Fátima não se desmistifica como se não mistifica. Fátima é como uma catedral ou um finisterra e todos os lugares de culto, ou se sente ou não sente, apenas e só! Não resisto a este comentário porque me parece que actualmente é moda dizer mal da Isabel Jonet e de Fátima… acho uma tolice ambas as coisas, e o publicista não resistiu à moda, talvez pensando que assim vendia mais, como se rentes de Carvalho precisasse de tais artifícios… mas indubitavelmente questiona e faz pensar sobre outros mitos, sim, sobretudo da política e esses muito mais oportunos e certeiros… a Fátima dedica umas duas linhas, uma alusão ou outra disseminada pelo livro e não será sequer o seu objectivo nem preponderante, mas vem a talhe de foice…
Aconselho veementemente!
- O Último Combóio para a Zona Verde – Paul Theroux.
Outro excelente livro!
Um livro de desencanto sobre África que o autor tão bem conhece no seu âmago e na versão pura e verdadeira. É crítico e arrasador para com ela, a “África-nova”, dos comentadores, dos políticos, das ONG’s e das empresa de consultoria… sobretudo para com Angola, de quem faz um retrato bastante claro, esclarecido e verdadeiro! É crítico para com os portugueses, mas certeiro e verdadeiro! Não trata melhor os belgas, franceses, ingleses e alemães ou Sul-africanos… é honesto!
Abandona África de vez, interrompe em Angola a viagem planeada, e dá conta das razões do seu descontentamento e decisão, mas com justiça também refere que a esperança deste continente ainda reside fora das cidades, no interior e no povo camponês e simples que se mantém quase imutável. Também concordo com ele em mais isto!
- Através da Chuva – Miguel Gullander
Uma surpresa este autor… levado por um impulso (a palanca preta gigante) comprei-o e estou a acabar de ler! Escreve muitíssimo bem! É um observ
Por qualquer estranha razão não colou tudo...
Eliminarmais do que qualquer jornalista ou pseudo-analista tem sido capaz e nunca li, nem em Águalusa! Muitíssimo crítico, tece duras críticas à conjuntura e também aos portugueses (que caricaturiza muitíssimo bem), às autoridades, ao governo, ao angolano médio, às organizações religiosas e de desenvolvimento, às empresas, mas bastante realistas de quem convive e as conhece por dentro.
Escreve de uma forma avassaladora, é torrencial no seu jorrar de ideias e descrições de situações ou estados, chega a cansar ou a confundir, mas afinal prende e se revela genial!
Outro a não perder, sem dúvida.
- Alexandre Soares dos Santos – Filipe S. Fernandes.
Em jeito de artigo de jornalismo biográfico, o percurso profissional e ascensão do meu antigo patrão do Grupo Jerónimo Martins, pessoa que muito estimo e respeito, que foi importante na minha formação e considero ainda hoje uma fonte inspiração! Já antevejo comentários mas não vale a pena, isto é pessoal!
Não aconselho mais do que um livro sobre a cultura e valor nutritivo das forrageiras… destina-se apenas a quem se interesse, mas fez parte das minhas leituras nestes dias.
Saudações do Bairro Ribatejano
Não posso ainda falar do que comecei ontem "VIVER PARA CONTÁ-LA"-Gabriel Garcia Marquez, porque apenas li as primeiras cinquenta das 580 páginas.
ResponderEliminarEntretanto, permito-me abordar algumas leituras que fiz no mês de Maio, umas por interessantes, outras pelo contrário:
TEORIA GERAL DO ESQUECIMENTO-José Eduardo Agualusa-gostei muito deste livro, capítulos curtos (como eu gosto)-recomendo!
"O INTRÍNSECO DE MANOLO"-José Rebocho Pais-boa história, gostei do livro, por acaso passada "num monte Alentejano" mas podia passar-se na Califórnia com americanos...mas imaginativo.
"CANÇÕES MEXICANAS"-Gonçalo M. Tavares - e eu que gosto tanto deste autor...detestei este livro, não consegui perceber nada de nada - ZERO
"CLARABOIA"-dos primeiros livro escritos por Saramago (em 1952)-uma maravilha, um livro já ao nível deste gigantesco escritor!
dois livros de contos de FLANNERY O'O CONNOR-(O GERÂNIO e ANTOLOGIA INDISPENSÁVEL)-se ainda não conhecem esta escritora leiam-na por favor-é uma maravilha!
"DESISTO"-Philippe Claudel-Outro grande escritor que descobri com os excelentes "ALMAS CINZENTAS" e "A NETA DO SENHOR LINH"-um escritor triste, mas um grande escritor!
"ENTRE CÓS E ALPEDRIZ"-José Cipriano Catarino-que surpresa tão agradável-um retrato perfeito das nossas gentes nos primeiros cinquenta anos do século XX. Li-o num ápice. Só alguém possuidor duma sensibilidade artística (de escrita) consegue absorver e descrever o que é a sua terra o que foram e o que são as suas/nossas gentes (por acaso são ribatejanas mas poderiam perfeitamente ser alentejanas, transmontanas, etc) mas ali estão espelhadas e sente-se que são as nossas gentes portuguesas, verdadeiras.
Severino, muito obrigado. Após a publicação desse romance, salvo erro em 2007 e em edição de autor que nenhuma das editoras contactadas o quis, eu, com a insegurança de uma primeira publicação, perguntava aos leitores: "Lê-se bem? E sempre me diziam que sim, uma leitora entusiasmada falou até em ritmo frenético. Era o que eu queria: que nada prejudicasse a legibilidade. Muito me agrada saber que também tu achaste que se lê bem.
EliminarUm abraço.
José Cipriano Catarino
Bem, ultimamente ando para cá e para lá a ler diferentes autores, diferentes nacionalidades assim considerando diferente (nacionalidade) e respaldo editorial cada qual pertencente ao segmento editorial próprio (em sendo advertido a não reprodução, armazenamento ou transmissão de partes do livro) deveria eu ultrapassar critério?! Por outro lado entendo que comprei e paguei por um produto...e poderia ter evitado incidentes desnecessários ah, em sendo advertido a leitura os livros nascem para lá do desconhecimento.
ResponderEliminarE com este e outro auê estou a ler o livro interessante do professor UFRJ (universitário) e premiado com dois "Jabuti" Marco Lucchesi emerge com ensaios de história e literários no livro Ficções de um Gabinete Ocidental.
Boa tarde.
ResponderEliminarMaio foi dedicado à leitura de duas obras biográficas. Uma autobiografia de Anselmo Duarte, o realizador brasileiro de O Pagador de Promessas, única Palma de ouro em Cannes que foi para o Brasil. Duarte foi o maior galã dos anos 40 e 50 no Brasil e, antes de ir a Cannes triunfar, atuou em Portugal nas Pupilas do Senhor Reitor. Mas o melhor, porque literariamente é muito superior, foi La mauvaise vie, de Frédéric Mitterrand, um romance autobiográfico soberbo que não tem equivalente na literatura portuguesa. Disso falo na leitura que publiquei há dias no meu blogue parisvertigo.blogspot.fr, caso queiram dar um espreitadela.
Saudações e leituras extraordinárias a todos
Na vez anterior prometi ao Nuno Júdice que retomaria o seu livro “A Árvore dos Milagres” (Quetzal, 2000).
ResponderEliminarPois bem: reli com agrado as partes que já tinha lido, e com maior agrado lá encontrei este colar de três pérolas intitulado “Variações para Cravo e Mariana”.
Esta Mariana, a das famosas cartas, continua a ter muito que se lhe diga.
Não podendo aqui alongar-me sobre cada uma destas três variações, fico-me pela terceira, “Diário de um Amor”, na qual é o próprio Nuno que, na primeira pessoa do singular, se cruza com Mariana numa esplanada em Beja, ali a dois passos do convento.
O sino toca e, na precipitação do regresso in extremis à clausura, Mariana deixa ficar um sapato, assim se convertendo em Cinderela e – digo eu – em consequência transformando o autor numa segunda pessoa singular, o Príncipe.
Este, depois, guiando o automóvel na auto-estrada para Lisboa, reflecte longamente sobre as contingências desta variação da história de Cinderela.
Li algures que a história de Cinderela é a configuração de um arquétipo que, desde sempre e em todas as culturas, guia os procedimentos humanos.
Na verdade, cada um de nós sente que, por uma razão ou por outra, um ou outro aspecto da sua vida está condicionado, tutelado, como que em regime de clausura.
Por isso, cada um de nós gere essas suas angústias, conflitos e contradições consigo mesmo e com os outros, no sentido de alcançar uma existência especial, superior.
A exemplo de Cinderela (e de Mariana... ) cada um de nós procura, pois, romper a clausura e ver-se reconhecido como um indivíduo único e especial.
O Príncipe estava agora na posse do sapato. Mas, tendo parado numa área de serviço para tomar um café e reflectir, julgou ter reordenado devidamente as ideias e, ao regressar à auto-estrada, num impulso decide baixar o vidro do carro e deitá-lo fora. “Não havia regresso possível”, rematou Nuno enquanto subia o vidro.
Porém, uns quilómetros adiante recebe no telemóvel uma chamada de Mariana, abranda e depressa reconsidera tudo de novo.
O Príncipe decide que na próxima saída voltará para trás e, depois, retomará o percurso desde a área de serviço onde estivera a tomar café, virá por aí adiante devagarinho a ver se recupera o sapato que Nuno atirara algures para a berma da estrada, e então regressará a Beja...
Nesta nova variação, pois, antes de procurar o pé de Cinderela, o Príncipe tem de, primeiro que tudo, procurar o sapato.
E é se quer habilitar-se a alcançar uma existência como deve ser, especial, superior.
Sim, que isto, hoje em dia, não vai lá com contos de fadas.
A reler: Portugal Amordaçado de Mário Soares
ResponderEliminaraventuras galantes ∫ rabelais
ResponderEliminar_de_
"Um Ermita em Paris", de Italo Calvino.
ResponderEliminarPor norma intercalo leituras e tenho sempre dois ou três livros em andamento, tentando ler em inglês e português de igual modo. Inglês para evitar traduções, português para manter a língua viva e não me esquecer das palavras.
ResponderEliminarComecei a ler “Shooting an Elephant and Other Essays” que comprei recentemente, e estou nas primeiras páginas do romance “O Primo Basílio”, porque Eça é dos meus autores predilectos e ajuda a matar as saudades de casa.
Aproveito para comentar um post de 07 de Abril sobre os livros de bolso que não dispenso. Muitos livrinhos da Folio (Gallimard) vendem-se em Inglaterra por £2,50 (preços nada praticáveis em Portugal). Se me derem a escolher, prefiro os livros de bolso aos normais e tenho já uma pequena colecção da BIS.
Fiquei de pé atrás. Se entre o Império Romano e o Renascimento apenas houve um vazio... Como é que vamos passar a olhar coisas menores como as catedrais góticas, os ícones bizantinos, o canto gregoriano, os romances de cavalaria, as cantigas de amigo, a arquitetura popular das vilas medievais e o muito mais que se poderia aduzir? À idade que decorreu entre o mundo antigo e o mundo moderno chamaram os modernos idade média, não idade vazia.
ResponderEliminarTotalmente de acordo.
EliminarJCC
Quando a genet na escola, colégio ou instituto segundo o nível em afabetização de ensino público ou privado (lá nas séries iniciais) é feito programa aprendizagem a Disciplina de Geografia em escala de reconhecimento social contemporâneo atualizado sendo que a orientação desperta muito o interesse a mobilidade espacial terrestre claro qualquer localização geográfica gera uma equação cardeal e nem só estaria à norte, sul, leste e oeste e destaca hemisfério, altitude e que a orientação por aí vai; mesmo em sendo tenra idade o interesse complexo assimila a formalidade individual compondo a dinâmica do conhecimento intelectual.
EliminarCorreção - digitei a gente.
EliminarSeriamente ando a pensar este sentimento de vazio acima citado (que tenho direito a pensar) nem ofensas a Michel Foucault mas aquela "arte do pêndulo" caso questionável de física a hipinose (tamanho gigante) aliás cita a biografia que tenho que Focault interessava-se em especial pela utilização da razão e da ciência como instrumentos de poder sob alguns domínios.
EliminarIdem! Já aqui tive ocasiao de discordar desse "vazio entre o fim do Império Romano e o Renascimento". A época medieval foi tudo menos um vazio!!! Toda a nossa civilizacao é baseada na Idade Média, iniciada no século V. E nao foi um rei medieval (D. Dinis), um grande poeta, que instituiu o português como língua oficial da chancelaria? O medieval D. Dinis fez mais pela língua portuguesa que muitos eruditos do Renascimento.
EliminarVazio, tem o Obélix, na barriga, quando tem fome (leiam os álbuns e compreenderao)
Crise de criatividade talvez na cinematografia, por um certo monopólio, não na literatura ficcional. Com todo o respeito pelo António Pedro Vasconcelos fico sempre de pé atrás com afirmações demasiado assertivas por parte dos actores no centro do olho do furacão. O problema muitas vezes passa por perder-se um pouco a capacidade de leitura de um novo mundo a que já não se pertence. E isto até é transversal à política, quando os actores não conseguem vestir outros fatos que não o seu próprio.
ResponderEliminarContudo nem estarão a dizer que a sala mancha reputação a classe vos digo de leituras nesta segunda quinzena de maio foram:
ResponderEliminarFogo Negro de C. J. Sansom,
Marina Lewycka com Uma Breve História dos Tratores em Ucraniano
Norte contra Sul de Júlio Verne