Electricidade
Bem sei que os leitores deste blogue não são muito dados à poesia – e gostam de passar à frente quando aqui venho elogiar ou publicitar um livro de poemas; mas eu é que não posso deixar de o fazer, sobretudo quando tenho a certeza de que, se se dessem ao trabalho de conferir a minha opinião, muitos dos extraordinários se tornariam fãs do género ou, pelo menos, de algum dos poetas que aqui refiro. Pois hoje é um desses posts que vos ofereço – e não vale passar adiante, não só porque a matéria é preciosa, mas porque não é todos os dias que podemos louvar o aparecimento de uma nova voz. E esta é, de muitas que têm surgido nos últimos anos, realmente especial. Os suplementos literários já lhe dedicaram encómios q.b., mas nunca é demais apresentar Matilde Campilho e o seu Jóquei aqui nas Horas Extraordinárias, até porque cavalga bem, sendo quase uma revolução o pó que levanta nas suas páginas. Completamente diferente de tudo o que li em português (língua que a autora reinventa e mistura tranquilamente com outras sem nada ranger nunca), este livro tem uma electricidade de que ninguém se consegue desligar, está cheio de uma energia que, aparentemente coloquial (e que bem lhe fica esse tu-cá-tu-lá), logo se vê culta e profunda, mas – é bom dizê-lo – sem excesso de peso. Muito brasileiro também – a autora viveu no Brasil uns quantos anos e soube roubar ao português de lá uma graça que reproduz sem imitar. Enfim, uma lufada de ar fresco muito rara nas nossas letras, que é preciso receber de frente, na cara, como estalada que nos acorda para podermos aproveitar o dia que aí vem. E dizem que já esgotou a primeira edição, o que só podem ser boas notícias.
É gira, é.
ResponderEliminarFiz uma pesquisazinha e o que encontrei aliciou-me:
ResponderEliminar“(...)
Escute só
isto é um poema
não vai alinhar conceitos
do tipo liberdade igualdade e fé
Não vai ajeitar o cabelo
da menina que trabalha
com afinco na caixa registadora
do supermercado
Não vai melhorar
Não vai melhorar
isto é um poema
escute só
(...)”
Matilde Campilho, “Príncipe no Roseiral”
Aqui usa-se muito o termo "só!":
EliminarDá-só! Trás-só! Leva-só! Põe-só! Entra-só! Come-só! Fecha-só! Abre-só! Vem-só! Etc.
Eu diria: lê-só!
Também pode ser usado "ainda" em vez do "só".
Ó Severino, comenta-ainda!
Ahahah!
Saudações da cidade morena, ainda!
Esta é que eu não percebi, ó Pacheco.
EliminarTá demasiado coloquial, pá.
Tá mais que a própria Cláudia.
Troca lá isso por miúdos, p’ra Severino entender.
Esclarecendo-só:
EliminarEm Angola, usa-se muito quando no imperativo, colocar como um sufixo o advérbio "só".
Quando se encomenda uma cerveja:
"Trás-só uma Cuca!".
Quando se abre a porta do carro a alguém:
"Entra-só!".
Ou quando se dá uma ordem:
"Vai-só!".
Isto por causa da citada poesia, onde se usa o termo "só" também...
Em vez do advérbio "só", usa-se muitas vezes o "ainda", também como reforço do verbo, como seja:
"Trás-ainda a sopa!"
"Fecha-ainda a porta!"
"Manda-ainda buscar o pão..."
É de facto a maravilha da língua portuguesa viva, e até algo poética... de que não comungo com o espetador de TV como fato consumado!
Ainda... (que usado sózinho, cá, significa "não").
Um abraço!
Só tem duas vezes só. Tem mais vezes não, mas eu não só compraria, como certamente leria, assim o conseguisse encontrar em livraria. Talvez só na Pó de Livros...
EliminarTá esclarecido, Pacheco.
EliminarEu é que, só, não tinha entendido que, em “Aqui usa-se muito...”, o “aqui” refere-se tão só a Angola.
Mas, já agora – quererá isto dizer, circunstancialmente, que em Angola “ainda” se fala o português com a boca cheia de açúcar, só?
Acho muito curioso, até bonito, o português que aqui se fala... com um ligeiro sotaque cantado e sem exagero na pronúncia.
EliminarA acentuação é muito leve, quase não se diz, e a construção das frases é engraçada porque castiça, com termos muito curiosos e dotados de certa lógica, como "essa formiga morde-mal!"; ou "mais-grande" e "mais-maior". "Vou-ir" ou "vai-vir", em vez de vou e de vem... e por aí fora. Parece uma machadada na gramática mas acho que tem uma boa dose de ingenuidade.
Em contrapartida acho o brasileiro muito acentuado, exagerado mesmo e até agressivo. Não lhe encontro açúcar, apenas algum exotismo... já o angolano tem açúcar e canela mas também um travo a mel e priripiri...
Gostar mesmo, gostava do discurso de Odorico Paraguaçu, o famoso perfeito de Sucupira, numa celebrada telenovela daquelas de boa-memória pela qualidade! Isso sim...
Ahahah!
Um abraço!
Muito bem.
EliminarSó perguntei porque, segundo Cláudia às 13:18, o português tal qual se fala coloquialmente no Brasil tem muitos milhares de palavras oriundas das línguas dos africanos. Daí o açucarado que Eça registou.
Fico agora a saber que o angolano tal qual se fala “tem açúcar e canela mas também um travo a mel e priripiri...”
Ora, com palavras assim com tantos ingredientes, não admira que os gulosos (ia a dizer angulosos...) falem com a boca cheia.
(... e o piripiri angolano é mais rico em erres...)
Mas voltemos a Matilde Campilho, que é para isso que aqui estamos.
E ela também tem muito açúcar, canela, mel, flores no cabelo, etc.
Quer ver, ó?:
“ (...)
foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo,
usando flores em meu cabelo negro,
sempre escondidas no emaranhado dos cachos
sempre escondidas no emaranhado do caos
de minha cabeça negra.
só você sabia quantas flores eu usava
porque agora eu já sei
que você dedicava as noites
à contagem. Deus não dorme
e você também não. “
Por gentileza Joaquim Jordão autora Matilde Campilho é portuguesa ou afro-descendente?
EliminarMatilde Campilho é uma poeta portuguesa, nascida em Lisboa no ano de 1982, e residente no Rio de Janeiro. Estudou Literatura na capital portuguesa, ...
Eliminarhttp://revistamododeusar.blogspot.pt/2013/01/matilde-campilho.html
Ó JJ eu nem respondi porque até fiquei tonto...anda Pacheco...tás armado em Cláudia....
EliminarBom uso do termo "coloquial".
ResponderEliminarHum... touché!
ResponderEliminarLi, e não passo à frente!
Registo e congratulo-me que haja renovação, em nome daquilo que mais me encanta e que é a diversidade, neste caso literária!
Saudações da cidade morena.
Fica o registo feito. Vou procurar nas livrarias mais próximas.
ResponderEliminarAbraço a todos.
O JJ refere-se circunstâncialmente :
ResponderEliminar"no Brasil fala-se português com açúcar" Eça de Queirós
Principal diferença dialética junção de cerca de cerca 20000 palavras oriundas das línguas dos índios e africanos.
"Bem sei que os leitores deste blogue não são muito dados à poesia..."? tss tss Maria do Rosário... pela parte que me toca (e lhe toca) devia ser
ResponderEliminar"Mal sei que os leitores deste blogue não são muito dados à poesia..." :)
Eu confesso que só vou até ao Pedro Homem de Mello (uma descoberta que fiz há muitos anos)...
EliminarEntre o bom e o menos bom há sempre pequenos nadas, ou pequenos tudo (grande marketing), que diferenciam uns e outros.
ResponderEliminarA Matilde parece mais uma boa poeta como algumas outras, desconhecidas e esquecidas, a quem lhes falta sorte e um bom pedaço de cara vendável que "as faça" poetas e escritoras.
Indubitavelmente bons os seus poemas pela miscigenação suave da terra brasil, não muito diferente no entanto de inúmeras extraordinárias poetas que já encontrei nesse subcontinente.
E em Portugal é favor dirigirem-se aos sábados à feira de banda desenhada e poesia em Campolide, agora pertença da junta de freguesia, e verão que o problema na nossa terra não é falta de mérito, mas excesso de mérito.
Não são muito dados à poesia, ponto e virgula. Há quem.
ResponderEliminarMatilde Campilho é um bom nome. E não conhecê-la é o melhor motivo para procurá-la pelas estantes. A descrição é sugestiva.
"lufada de ar fresco muito rara", sim, é uma expressão bonita. "estalada que nos acorda", não, embora seja expressão muito apreciada. Não gosto de expressöes inspiradas em violência física. Estaladas na cara prejudicam mais do que beneficiam (se é que alguma vez beneficiam). Acreditamos que sim, idealizamos, como diz a última vencedora do Prémio LeYa. Queremos acreditar que a infância foi boa e que as estaladas que nos deram também. Que foram úteis, que nos acordaram. Tudo ilusão! Para nos sentirmos melhor.
ResponderEliminar"para podermos aproveitar o dia que aí vem" é preferível maravilharmo-nos com lufadas de ar fresco, que nos tocam os sentidos. Que nos maravilham, mas que não que nos ferem ou humilham.