Colossos unem-se

Até aqui, ouvimos falar de concentração editorial (cá começou mais tarde, mas aconteceu, e a LeYa ou o grupo Porto Editora são os gigantes que foram adquirindo as outras editoras) e de concentração no retalho (as cadeias de livrarias que tornaram o mercado outra coisa, não necessariamente melhor, mas uma coisa que veio para ficar e não vale a pena chorar sobre o leite derramado). Mas eis que de repente cai a notícia de que duas das mais importantes agências literárias em todo o mundo se fundem, criando uma só que assim ficará claramente com todos os autores internacionais mais interessantes e ao mesmo tempo mais vendáveis. A agência literária de Barcelona, Carmen Balcells, que negoceia os direitos de Vargas Llosa, García Márquez, Cortázar ou Neruda – além de, claro, o nosso Lobo Antunes –, era de há muito dirigida por essa Carmen que lhe dá nome e que, segundo se diz, não tinha sucessor; o senhor Wylie – conhecido no meio como «o chacal» – e agente de Bolaño, Martin Amis, Jorge Amado, Borges, Nabokov ou Roth, entre muitos outros vivos e mortos –, dizia admirar desde sempre a senhora espanhola. Vai daí juntaram os trapinhos, e agora será ainda mais difícil vencê-los – a menos que se comecem também a unir as agências por esse mundo fora para enfrentar o monstro. É esperar para ver.

Comentários

  1. É o capitalismo multinacional a invadir o mundo editorial, nada escapa a esta lógica que trará logo de seguida o "downsizing" com despedimentos e redução de percentagem do preço de capa a pagar aos autores.
    Há quem diga que o futuro é das pequenas empresas criativas e ágeis que falam umas com as outras e são capazes de pregar "rasteiras" aos grandes conglomerados.
    Tenhamos esperança !

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    1. Manuel Alberto Valente19 de junho de 2014 às 04:02

      Pelo contrário, Artur Águas. O objectivo é aumentar a percentagem dos direitos de autor. Não se esqueça que as agências recebem à comissão e que, portanto, quanto mais os autores receberem mais elas recebem.

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    2. Será isso, Manuel Alberto Valente, uma urgência das agências por "sentirem o cheiro" da perda para outros modelos mais rentáveis de publicação para os autores? E isto quando as editoras pela massificação de mercado, permitida pela diminuição dos custos de produção do livro (físico e digital), aparentemente, já soçobram na luta contra as edigráficas "? E perderão obviamente a luta no digital, sem remunerar adequadamente quem cada vez mais (por razões várias, porventura não pelas melhores) se profissionaliza na escrita.

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    3. Deus o oiça !
      (e muito obrigado pelo seu exemplar labor em prol de todos nós viciados em literatura)

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    4. Cláudia da Silva Tomazi20 de junho de 2014 às 03:55

      Possivelmente a natureza encarrega-se prepara e compete a media certa.

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  2. «e agora será ainda mais difícil vencê-los» | cito | poder-se-á (sub)entender que seria necessário-desejável-importante vencê-los? | pelo contrário, deve constatar-se a impossibilidade de o fazer? | que guerra é essa, realmente, perdida ou ganha?
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    | volto a Zeferino Coelho … a 1978 … à Caminho dessa época |

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    1. Digamos que, para quem compra direitos, as exigências de um agente (por vezes comprar livros que ainda não estão escritos, dois ou três além do que queremos comprar) podem tornar-se hábito. E era preciso que alguns destes hábitos tivessem sido vencidos...

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    2. Cláudia da Silva Tomazi20 de junho de 2014 às 03:55

      Diria...

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  3. Quanto mais crescerem e mais balofos se tornarem mais os custos de "gigantismo" suplantarão os benefícios da escala. Para além de um determinado limite os grandes conglomerados começam a traçar a sua queda. A concentração será por outro lado uma antecipação do perigo real que os grandes gigantes sentem pelo "grito do Epiranga " dos autores e pelos novos mandantes do mercado, as edigráficas " (junção de editoras com gráficas, as facilitadoras do completamento do sonho, «Um filho, uma árvore, um livro»).
    Por outro lado faz-me imensa confusão em Portugal os autores receberem apenas dez por cento do preço de capa (pelo menos aqueles que não têm contratos de edição com as editoras).
    E muita confusão também estes que têm contratos com as editoras, dado o risco de escrita "à fazenda", perdendo os autores alegria, tempo, lugar: em suma perdendo a liberdade de criar ao seu próprio ritmo. Basta afinal ver o "frete" inaudito que muitos fazem nas campanhas promocionais do negócio em que se tornou a edição.
    O paradigma está em mudança profunda, como a própria leitura e escrita de leitor e autor. Antecipo grandes alterações, algumas das quais estando com muita atenção e criatividade nos apercebemos facilmente.

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    1. Quanto à percentagem de direitos de autor, os ingleses só recebem 8%. Mas é o retalho que fcia com mais, na verdade, podendo atingir praticamente os 50% do preço de venda ao público.

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    2. O retalho que agora é um grossista disfarçado, Rosário.

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  4. Cláudia da Silva Tomazi19 de junho de 2014 às 05:34

    De olho no século XXI .

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  5. Na semana passada vi numa grande livraria em Lisboa, livros em língua inglesa, creio que da Penguin , Clássicos com uma capa lindíssima, a € 3,00, a € 2,75, nunca excedendo os € 7,00, e os mesmos títulos (com uma capa mais que fatela) em língua portuguesa das editoras portuguesas a mais de € 15.00...eu não percebo, alguém me explica??

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    1. vantagens da "escala" dirão os neoliberais que nos governam e nos esmagam com o falso argumento de sermos pequeninos

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    2. Muito fácil de explicar. Os livros em língua inglesa têm um mercado enorme (pense só na quantidade de países que o falam e respectiva área), pelo que as tiragens são igualmente enormes, fazendo descer o custo unitário de produção - logo, o preço de venda ao público. Em Portugal, o mercado é um mercadinho. Por isso os livros são mais caros. Além disso, o custo da tradução é muito difícil de diluir numa pequena tiragem...

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    3. Obrigado extraordinária MRP, parece-me lógico, nem seria preciso pensar muito mas note-se que, para além de outros defeitos, sou mesmo um ingénuo.

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  6. Não resisto:
    A propósito desta última frase do post – “juntaram os trapinhos, e agora será ainda mais difícil vencê-los, a menos que se comecem também a unir as agências por esse mundo fora para enfrentar o monstro” – pois o monstro que se cuide, que por cá, a LeYa e a Porto Editora são os gigantes, e Maria do Rosário e Manuel Alberto já têm os trapinhos juntos.

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    1. Teve graça... Mas eu sou uma simples editora, não mando nada na LeYa...

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    2. Resta saber quem primeiro comerá quem.
      Se a Porto a Leya, se a Leya a Porto.
      Será uma fusão para se obter, claro, "ganhos de escala", aumentando os números dos desempregados.
      O lúmpen um destes dias será tão extenso que se transformará num monstro que um dia tudo destruirá.
      [espero já estar morto nesse dia]

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    3. Ainda temos uma lei a proibir o monopólio, mas com esta gente no poder nunca se sabe...

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    4. Artur, um 1383-1385 ou um 1640 é sempre bonito de se viver! :)

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    5. Não falo só de Portugal. O lumpen revoltado pelo egoísmo capitalista não vai dar uma revolução bonita de se ver.

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    6. Sem dúvida, Artur. A história ensina-nos no entanto que se há muito que se pode evitar, há grandes alterações inevitáveis. As gerações vão perdendo memória efectiva histórica e replicando num outro quadro os mesmos erros.

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    7. Caro Pedro, absolutamente de acordo ! Quando muitos vão sendo progressivamente marginalizados, o sistema ou se reforma ou não vai durar muito tempo.

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  7. nem a pensar "local" me sinto tranquilo, ou mais confortável ! o que se passou com o último livro do Herberto Hélder é verdade ou tive um pesadelo ?pré-venda ? edição com CD ? 22€ ? edição única ? tiragem desconhecida ? pseudo papel de embrulho para capa ? caligrafia do autor ? fotografias do autor disponíveis ?

    _de_

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  8. Mais tarde ou mais cedo, deus passará a dizer-se 'mercado'... continuarei ateia.

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  9. Ponto da situação:
    1) um mercado cada vez mais atomizado (um mercadinho como diz a MR );
    2) autores que em Portugal recebem muito pouco de direitos por efeito de baixas tiragens (8%x20000x10€)+-16000€ diferente de (10%x3000x10€)+-3000€ (e isto quando se vende 3000), mas que obviamente neste modelo de negócio/edição não podem aspirar a mais;
    3) livros mais caros do que em países como a GB, por razões óbvias de escala/custos unitários...
    4) ... mas também por todos os custos envolventes de contexto que vão matando as empresas e a economia (basta como exemplo o desgraçado que passou várias vezes na portagem e por motivos de duplicação de passagens na sua versão ter recebido da ATA, setenta processos de contra-ordenação - as PPP da vergonha nacional! - a somar a bonita soma de 25.000€/custos de contexto de um Estado pior do que o Feudal do Príncipe João);
    5) os de distribuição que chegam facilmente aos 50% - empresa distribuidora, transporte e percentagem do retalho (que agora é mais um grossista disfarçado de retalhista).
    Enfim, um mimo de país, governado (há muito, não é só de hoje!) por incompetentes ignaros distraídos das coisas da representatividade real, eles próprios custos de contexto (peço desculpa mas hoje estou mal disposto... já que soube de mais alguns estagiários a substituírem com o apoio do Estado veteranos).
    Mas, enfim, há sempre esperança. Por que no fim das cinzas renasce sempre qualquer coisa, uma fénix que consiga sobreviver aos caçadores de mordomias, mau grado poder cada um de nós ir também parar ao braseiro da sandice.

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  10. pensava eu no trânsito: o leitor médio não faz greve, quando muito acompanha a crise económica [cultural, haverá quem pretenda acrescentar] o autor, esse, por definição, não a poderia suportar [ a musa, quando muito, obriga-o temporariamente a isso] de modo que … é claro, manda quem (co)manda | todavia esta não é a pior parcela do nosso mundo | basta alguém imaginar-se pintor | dançarino | talvez mesmo actor | violoncelista, por exemplo | para esses é o público, somos nós a fazer uma greve permanente | e … alguém buzinou?

    _de_

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  11. Pergunto eu, falando de escala: faz-se ideia do número de potenciais leitores nos PALOP? Talvez o mercado não seja assim tão mais pequeno que o inglês. Mas é possível que o nível de literacia seja menor nesse mercado do que na Commonwealth (e isto não contando com a existência de países tão populosos como a India - ainda que provavelmente com muitas assimetrias no que no consumo literário e no entedimento do inglês). Por outro lado, o mercado inglês extende-se a leitores de segunda língua (eu, por exemplo), não sendo o inverso verdade. Por outro lado ainda, o mercado de língua francesa será mais restrito e ainda há pouco comprei um clássico por 3 euros, num site português e com portes de envio.

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