Zangas

Em todos os países existem escritores que não gostam de um ou mais dos seus confrades – e não estou a falar do que eles escrevem, mas dos indivíduos –, nutrindo por eles uma antipatia muito especial que, por vezes, chega a ser raiva ou ódio. Cá na terra, sabe-se que Lobo Antunes nunca foi à bola com Saramago, por exemplo, e que passou a gostar ainda menos dele depois de o Nobel lhe ter sido atribuído, quiçá porque, com esse gesto da Academia Sueca, viu perdidas as suas hipóteses de obter ele mesmo o galardão. Mas zanga a sério foi a que ocorreu em meados dos anos 1970 entre dois grandes (que ganhariam ambos o prémio tão ambicionado por Lobo Antunes, embora com anos de intervalo), García Márquez e Vargas Llosa, e que, inclusivamente, meteu tareia (o peruano socou o colombiano e mandou-o ao chão) e não deu direito a pedido de desculpas ao longo da vida nem a reaproximação. Ninguém soube exactamente a razão da briga, embora alguns jornalistas digam que a mulher de Llosa era o verdadeiro assunto; e as testemunhas da luta corpo-a-corpo comprometeram-se, tal como os dois contendores, a não alimentar a sanha dos jornais e a não revelar nada sobre a matéria. E foi isso que aconteceu, pois recentemente, a seguir à morte de García Márquez, Llosa foi de novo interrogado sobre essa velha cena, ocorrida em 1976, mas disse apenas que, se o adversário tinha cumprido a sua palavra, ele não via razões para não o fazer. «Os biógrafos que descubram a verdade», respondeu a rir.

Comentários

  1. prefiro que não o descubram | ou que o descubram apenas literariamente ||| que emaranhem o enredo, mudem o acontecimento de lugar, alterem-lhe a data, todas as circunstâncias, juntem-lhe outras personagens | isso, façam com que tenha sido uma personagem que cobiçavam ambos para um livro a desencadear a discórdia || é natural o ALA não gostar do JS como foi normal o JS não gostar do ALA e nós não o sabermos, como aliás é normal grandezas distintas não caberem em espaços físicos e temporais exíguos

    _de_

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    1. António Luiz Pacheco19 de maio de 2014 às 06:24

      Hum... sem pretender emendá-lo eu diria antes, Extraordinário Anónimo, que dois corpos do mesmo volume não cabem no mesmo espaço, aliás existe uma lei da física chamada da impenetrabilidade.

      Devo dizer que, não sendo fã de nenhum dos dois, lhes reconheço igual grandeza literária. E por isso e por julgar saber das suas personalidade e egos, compreendo essa "isca"...

      Saudações do Bairro.

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    2. tem razão | tomei como compreensível que me referia a "grandezas" tamanho+força idênticas [grandes, realmente] mas de distinta morfologia literária, cuja distinção se estende ao modo como se [des]acomodam a um espaço físico e temporal exíguo | pertinente a sua nota | obrigado

      _de_

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  2. Lembro-me de ter lido algures, há anos, uma frase de Lobo Antunes referindo-se a Vergílio Ferreira como sendo «o Sartre de Fontanelas».
    Engraçado: o Lobo, outra vez.

    António Breda Carvalho

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    1. Alguém que conviveu com Vergílio Ferreira me disse que este era um indivíduo muito façanhudo e "envinagrado"...mas parece que não teria um ódio de estimação em particular, era mais do tipo o mundo contra mim...

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    2. Não sei se a frase de Lobo Antunes teria sentido pejorativo, mas sobre o existencialismo e a fenomenologia Vergílio Ferreira dava cartas. E não só nos romances. A literatura levou-o ao existencialismo apurado e sapiente.

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    3. Beatriz, claro que a frase do Lobo era pejorativa, muito acintosa.

      ABC

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  3. Bom dia!

    Vargas Llosa é o "meu" escritor e também gosto muito de Garcia Marquez.

    Acrescento que, antes dessa famosa zanga, eram muito amigos e próximos, com elogios de parte a parte à obra do outro.
    Vargas Llosa chegou a publicar um estudo sobre a obra de Garcia Marquez, julgo que logo no início dos anos 70.

    Li várias vezes a versão que a razão da zanga foi mesmo Patrícia, a prima de Vargas Llosa, com quem ele se casou.

    Gosto de acreditar que se terão perdoado mutuamente um ao outro e que apenas por casmurrice/orgulho não fizeram as pazes.

    Em 2010, quando finalmente Vargas Llosa ganhou o Nobel, Garcia Marquez escreveu na net "estamos quites" ou algo parecido.

    Uma zanga muito sobrevalorizada pelos media, quanto a mim.

    Boa semana a todos, por aqui já chove.

    Rui Miguel Almeida

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  4. Houve quem falasse em posições políticas opostas como razão da discussão e do murro do Vargas Llosa. De facto, Garcia Márquez sempre elogiou a Cuba de Fidel e Llosa sempre se afirmou e afirma como um conservador liberal e anti-castrista. Não custa a crer que alguma rispidez existisse nas suas trocas de ideias políticas. Mas é mais literário que a zanga tenha sido despoletada por uma mulher, nesse caso pela prima direita com quem Llosa se casou, depois de um primeiro casamento com uma sua tia (por afinidade). Estou a imaginar o espírito irónico e brincalhão do Garcia Márquez a verbalizar um qualquer trocadilho sobre essa apetência do Llosa por relações sentimentais para-incestuosas e o outro, em reação de macho latino, a responder-lhe com um inesperado murro.
    Acho espetacular, e uma bela lição de defesa de privacidade, nenhum dos dois ter violado o pacto de silêncio !

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    1. Uma apetência realmente estranha, Artur, a não ser que a tia fosse na realidade uma daquelas tias e tios que enxameiam os novos paradigmas ditos "familiares". Daqueles que nos fazem sentir pastores de um rebanho maior. E o pacto denota afinal estima. Por que as zizanies quase sempre não passam de estimas equivocadas.

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    2. Um pacto de silêncio é um compromisso aceite por duas pessoas; a violação, por uma delas ou as duas, é que seria uma indignidade.

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    3. Muito interessante a sua interpretação de que as zizânias (ou cizânias?) são estimas equivocadas !

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    4. De acordo. Mas nestes casos pessoais há sempre a tentação de, através de portas traversas, publicitar a "nossa" versão particular da quezília. O que é magnífico é que isso nunca aconteceu neste nosso mundo ávido de disseminar coscuvilhices.

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  5. aprecio Vergílio Ferreira | no entanto, pessoalmente, considero o seu livro "O Existencialismo é um Humanismo" um bom motivo para ALA ter dito [ironicamente] o que disse

    _de_

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    1. "O existencialismo é um humanismo" é um bom livro de Sartre e que ajuda bastante a quem queira entender tanto o autor como a corrente de pensamento.

      Gosto de António Lobo Antunes mas, sinceramente não imagino que lhe fosse necessário espetar uma farpa em Vergílio Ferreira. Que é tão bom como ele. Mas tão diferentes no modo de dizer a mesma coisa que até fica parecendo uma coisa outra:)

      É a dor de viver a fazer neles um caminho.

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    2. estimada Beatriz | refiro-me ao ensaio : O Existencialismo é um Humanismo, Da Fenomenologia a Sartre * Quetzal | reedição | li-o | nada oponho ao que diz, mas a análise feita em favor do Existencialismo e de Sartre por Vergílio Ferreira é, em meu entender, um ensaio menor | frequentemente labiríntico | onde, á força de querer evidenciar uma tese, se enreda nas próprias passadas | aliás, 50 anos depois [?] de ter sido escrito, com o que entretanto aconteceu ao mundo, em meu entender o interesse de tal ensaio é cada vez mais arqueológico | e foi apenas a vontade de compreender o próprio pensamento e obra de Vergílio Ferreira que me fez lê-lo |

      _de_

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    3. Não tinha entendido. Em tempos quis fazer um trabalho sobre Sartre. E julguei que Vergílio Ferreira me poderia ajudar, posto o que comecei a ler o dito ensaio. Devo dizer que desisti. Por acaso pensei que o defeito era meu que sabia pouco e tinha curto tempo para aprender.

      Não posso falar do que não li. Mas em romance gosto qb de Vergílio.

      E muito obrigada pela correcção.

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  6. Não gosto de zangas. Nem de conflitos. Nem de maledicências. Mas existem. E sim: são quase sempre passionais. Faz bem Llosa em permanecer calado. Mas depois de morrer, creio que o segredo não permanecerá muito tempo oculto. Boa semana!

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  7. A rivalidade Saramago/Lobo Antunes pareceu-me uma reedição da rivalidade Camilo/Eça, ambas espúrias. É interessante notar que não tem havido rivalidade pública entre os romancistas das gerações que se seguiram à de Saramago. Nem na geração da Lídia Jorge, Sousa Tavares, João de Melo, Hélia Correia; Francisco José Viegas, etc; nem na de José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe, Jacinto Lucas Pires, Gonçalo Tavares, João Tordo, etc, e nem mesmo entre os mais novos como o David Machado, o João Ricardo Pedro ou a Cristina Drios. Maior sensatez ?

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    1. Penso que a resposta terá causas mais graves do que as rivalidades do passado, Artur, ... que eram criativas e denotavam a tal estima que remata as diferenças. Um mundo cada vez mais fugaz, realidades que já não se tocam. Uma espécie de quantitative easing de um mundo a infinitas vozes e de múltiplas indiferenças. Um mundo que só reconhece as vozes que lhe parecem familiares.

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    2. Vivemos de facto num mundo de múltiplas indiferenças que atingem em particular a criação literária de maior qualidade. É um mundo ávido apenas por coisas simples e imediatas.

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  8. E quantas vezes um editor não tem vontade de esmurrar um escritor? Ou o contrário...

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    1. Um duelo sempre muito interessante... um com uma borracha como arma, outro com uma caneta sem tinta... um terçar de armas, tipo opereta-bufa , muito literário :)

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  9. António Luiz Pacheco19 de maio de 2014 às 06:33

    Creio que são afinal saudáveis essas quezílias!
    É sinal de que há diversidade, nas idéias, nos sentimentos e opiniões, mas sobretudo na sua expressão!
    Onde e quando haja pensamento único e um pântano nebuloso, estagnado de idéias, se calhar não há lugar para essas divergências...

    Não há nada como a diversidade que move e faz mover a roda da vida, desequilibrando-a como à roda da bicicleta, que assim avança!

    Umas murraças... ou bengaladas? Ora e os escritores não são hom... upa, perdão Cristina, PESSOAS como as outras? Têm tanto direito a um estalo como qualquer outro, e talvez assim se aproximem mais do seu leitor, descendo do pedestal onde muitos se colocam a si próprios!

    Saudações do Bairro Ribatejano

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    1. Concordo em que os escritores são pessoas ;) como outras quaisquer, zangas podem acontecer, são inevitáveis entre seres humanos. Já não concordo tanto em que uma zanga implique murros ou bengaladas (mesmo sendo fã do Eça), mas enfim, cada um sabe de si...

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  10. esta zanga foi pouco vulgar, pelo menos no que toca às artes e letras, já que deu direito a soco e tudo.

    normalmente as zangas entre literatos disputam-se no papel, porque os escritores tentam usar a arma que utilizam melhor, a palavra escrita.

    e há zangas que nem sequer podem ser consideradas como tal, já que os "intervenientes" muitas vezes nem sequer se conhecem, poderão ter trocado alguma palavra apenas de circunstancia, em acontecimentos públicos, e como não têm qualquer tipo de afinidade, defendem-se com a distancia.

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  11. Uma boa zanga seria facilmente despoletada se a Maria do Rosário Pedreira escrevesse um post com o título: "O maior escritor vivo português".

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  12. Cláudia da Silva Tomazi19 de maio de 2014 às 10:54

    Que o assunto de zanga possa ser exigência de nível intelectual que nada tenha desafeto.

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