Top Ten
Todas as semanas consulto os Top de vendas nacionais e os de algumas livrarias (a FNAC, a Bertrand, a Bulhosa...) – e é espantoso verificar como o que se vende mais não tem, grosso modo, que ver com o que é literário e, muito provavelmente, com o que ficará na História da Literatura e continuará a ser lido daqui por cinquenta ou cem anos. Por outro lado, constato que os escritores, verdadeiro motor da literatura, têm frequentemente gostos muito diferentes dos leitores-consumidores de livros e que, interrogados sobre o seu Top Ten, enumeram quase sempre títulos que hoje talvez nunca chegassem às listas dos mais vendidos. Peter Zane resolveu tirar teimas e pedir a 125 escritores contemporâneos anglo-saxónicos que fizessem a lista dos seus 10+. Entre os autores chamados a opinar, estavam ficcionistas como Norman Mailer, Jonathan Franzen ou Joyce Carol Oates – e, ainda que as obras do século XX referidas pelo conjunto tenham ultrapassado as 500, o verdadeiro Top Ten do Século XX acabou por incluir duas vezes Joyce e outras duas Nabokov, o que é uma surpresa, sendo que a obra mais vezes indicada – e portanto a número 1 – foi mesmo Lolita. A seguir vinham O Grande Gatsby e a eterna Recherche, Gente de Dublin e Ulisses, O Som e a Fúria de Faulkner e Rumo ao Farol de Virgínia Woolf (curioso também, porque a sua obra «escolhida» é normalmente As Ondas). Nos últimos lugares dos dez, surgem então os contos de Flannery O’Connor e Fogo Pálido, o outro Nabokov. Perguntassem a escritores francófonos e talvez fossem em menor número as obras escritas originalmente em inglês... Porém, no que toca ao século XIX, Tolstoi continua a bater os recordes com Anna Karénina, o livro mais votado pelos 125 interrogados, e só aparece um livro em inglês em quarto lugar, As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, sendo que o título que vejo aparecer mais frequentemente em listas deste tipo, Crime e Castigo, vem apenas em nono lugar. Fico a pensar como votariam os escritores portugueses se por acaso alguém se desse ao trabalho de lhes pedir os seus Top Ten.
A Recherche é mesmo eterna, e sim, há gente que a leu e não a põe na lista só para parecer bem. Gente de Dublin e Ulisses parecem ter sido escritos por autores diferentes e se só tivesse escrito o primeiro Joyce não ficava na história (pelo menos no top ten). O Som e a Fúria de Faulkner, sim, Rumo ao Farol é para mim o melhor de Virgínia Woolf (fico com a ideia de Mrs. Dalloway talvez seja mais canonico do que As Ondas - todos geniais, claro). Tolstoi é grande, mas não pela Anna Karénina (Guerra e Paz, sem dúvida). As Aventuras de Huckleberry Finn são um equívo (é da liberdade do Mississipi que temos saudades, não da literatura para rapazes que foi no fundo a única ambição desse livro). Crime e Castigo vem apenas em nono lugar e talvez nem devesse vir em lugar nenhum dos dez. Qualquer Turgunev, qualquer Tchekov, faz melhor figura do que esse psicólogo algo histérico (e beato, mormente no Crime e Castigo). O resultado de perguntar a escritores portugueses dependeria da geração. Mais franceses, sem dúvida, mais latino-americanos, quem sabe mais portugueses (mas sem certeza quanto a esta parte).
ResponderEliminarEu gostaria muito de saber qual o top ten da Maria do Rosário
ResponderEliminarEu também !
EliminarLivros Top Ten diferem de livros Top Gun (indomável).
ResponderEliminarMesmo sem ser escritora, a dificuldade que eu teria num top ten. Mas de certeza que incluía literatura portuguesa e brasileira. Sem saber se são os melhores, são de certeza aqueles que melhor conheço, que mais leio, por quem tenho paixões assolapadas de adolescente. Escolhia dentro do meu mundo pequenino.
ResponderEliminarPor acaso gosto do Tolstoi das várias obras e contos; não tenho prática em Nabokov, ainda não consegui ler Ulisses e Gente de Dublin pareceu-me bem. Mark Twain ocupa lugar na minha estima literária.
E das obras apontadas desconheço a eterna "Recherche", mas, sendo eterna, um dia chego lá. Talvez.
Já que gosta de Tolstoi aí vai um mínimo pensamento e respectivo estudo:
Eliminar"Que estranha ilusão supor que o belo é bom"
1 - Frente a suposição que belo no sentido "efêmero" transpõe qualquer afirmação feminina.
2 - Prova o facto títulos (imortalizados) são femininos "Guerra e Paz", "Anna Karenina" entre outros que também o discernimento literário dita regra detendo-se a papéis sociais (no presente) eis que lembro ser o leitor a "grosso modo" personagem secundário.
A Cláudia é tão dúbia que a gente nunca sabe bem ao que responde. Mas pronto, vou tentar.
EliminarNão, o belo não é em si mesmo bom. É belo e isso basta. Uma coisa de fruição prazeirosa que faz bem ao sujeito fruidor e não tem danos colaterais. Pela apreciação estética - ou sentimento estético se prefere - podem os homens chegar a uma espécie de união que, quem sabe, contenha um apelo moral e os predisponha mais vigorosamente a viver a sua humanidade. Podemos até treiná-la em solidão, mas tende a lançar-nos ao mundo exterior. Diria que a arte restabelece uma relação originária e depurada entre os homens.
Bela lista ! Gatsby, Karénina, Crime e Castigo são, da lista nomeada, os que nunca esquecerei. O genial Lolita do Kubrick tem (infelizmente) inibido a minha aproximação ao livro. Sei que nunca lerei a Recherche: já fiz múltiplas tentativas falhadas (não consigo deliciar-me com um romance cujos personagens e anseios não me fascinam). O Faulkner tem livros menos experimentais e mais acessíveis do que "O Som e a Fúria". Bem sei que a lista é americana e por isso compreensível que falte nela aquele que para mim é romance que li e reli sempre com o mais intenso prazer: "O Estrangeiro" de Camus.
ResponderEliminarTop ten da Bulhosa de Entrecampos às 14h de hoje: nem um livro de literatura. Nem um. Conselhos medicinais, dietas, culinárias, biografias escritas por outrem, segredos de beleza. Literatura? Nada.
ResponderEliminarAcho que os top ten são todos iguais se os forem pedir a críticos literários ou escritores porque todos se sentem inibidos ante o compromisso histórico, ou seja lá o que for...
ResponderEliminarO segundo ponto a assinalar é o cosmopolitismo anglo-saxónico que se perde em divulgar a sua cultura ou os que a ela aderiram (como por exemplo o Nabokov) como mundialmente assinalável, sem reconhecer o contributo de ninguém fora desse seu círculo...
No meu Top não veríamos apenas o Guerra e Paz, os Miseráveis, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, O Crime do Padre Amaro, O Delfim, Breakfast At Tiffany's , A Náusea, ... e tantos, tantos outros, mas também As Memórias da Segunda Guerra Mundial de Churchill, Acabem com esta crise já de Krugman , a Teoria das Relações Internacionais de Moreira, a Civilização na Época das Luzes de Pierre Chanu , etc. É que há tanta literatura na ficção, como literatura na ciência.
ResponderEliminarNem sei se é heresia
ResponderEliminar"As Vinhas da Ira" ....
Por falar em escritores de top:
ResponderEliminar"Quem quer que abra, por vontade própria ou decreto providencial, um livro de Gonçalo M. Tavares, dá com a vista naquilo a que, literariamente falando, se chama uma surpresa. Sossegue quem tiver aprendido a pensar, pois ainda não disse se é boa ou má a surpresa com que dá quem assim opera. Nem o poderia talvez dizer, pois que, de um certo ponto de vista, pode ser bem surpreendido aquele que der com o espanto em má surpresa. Ora, quem quer que abra, pondo o intuito em ler, um dos livros por que Gonçalo M. Tavares foi surpreendendo o exigentíssimo público pátrio, Matteo perdeu o Emprego, tem forçosamente de abri-lo, como abriria qualquer outro livro, na primeira página. Se tiver a gentileza de fazê-lo, pode não reparar em muita coisa, mas decerto repara nas letras que lá se timbraram. Pode, por isso, não depositar suspeitas na hipótese de o escritor, desconhecendo as ínclitas leis da profissão de escrever livrinhos, não saber que um parágrafo pode conter mais do que um período, como o faz quem sabe o que há a ser feito, mas é com certeza capaz de ler, porque está lá para ser lido por quem tiver olhos e educação primária, o seguinte parágrafo:
Todas as manhãs, um homem era visto, entre as sete e as sete e meia, a contornar a rotunda principal da cidade, rotunda onde desembocava sessenta por cento do tráfego. Às sete da manhã o fumo dos automóveis era maior que ao fim da tarde, porém, mesmo assim, havia fumo, metal e ainda a velocidade de alguns automóveis. E ali, no meio, correndo risco de vida, um homem. Aaronson."
http://www.sed5contra.blogspot.pt/2014/05/sed-contra-3-tavares-ainda-nao-perdeu-o.html
Engraçado como vamos sempre parar ao Bloom e fazemos da literatura um fenómeno do Ocidente e, sobretudo, do Ocidente Americano-Anglo-Saxónico.
ResponderEliminar