Se bem me lembro

Já aqui falei de Nemésio e do seu programa de TV que tinha o nome deste post. Lembrar é um exercício bem interessante, mesmo em literatura, e o grande cronista Ferreira Fernandes resolveu lembrar-se de se lembrar, entre outras coisas, do que foram os meses em Portugal antes do 25 de Abril nesse ano de 1974. Diz quem sabe que se inspirou em dois outros autores, Georges Perec e Joel Breinard (que se dedicaram a outros anos), e com as suas memórias desses quatro meses compôs um livro intitulado muito justamente Lembro-me Que (o de Perec chamava-se Je me souviens e deve ter sido o que mais directamente influenciou o autor, pois este estava em França antes da data que quer celebrar com esta obra). O livro, que já tinha sido editado há uns bons anos, volta a ver a luz das livrarias no quadragésimo aniversário da revolução, e não reúne lembranças pessoais de Ferreira Fernandes, mas episódios que ajudam o leitor a entender como era o País «nas vésperas da grande mudança», como diz o jornalista José Mário Silva, que recentemente recenseou o livro para o Expresso. São cerca de 300 fragmentos de crónica que descrevem o que se passou e o que se escreveu (às vezes propositadamente de forma enviesada para enganar a censura) nos jornais entre 1 de Janeiro e 24 de Abril, factos que podiam parecer irrelevantes mas que já apontavam para o que viria a suceder, e bem assim curiosidades do dia-a-dia, como preços de produtos que hoje nos fazem perceber melhor a crise em que estamos. Vale a pena ler e admirar o estilo deste cronista muito dotado.

Comentários

  1. Ferreira Fernandes é um grande cronista, sim, e leio-o com bastante frequência e muito prazer.

    Mas tenho pena de que (atenção: de que...) o título de um livro dele escarrapache um erro de português.

    "Lembro-me que" é erro de português. Em linguagem oral tudo bem. Mas logo num título, tão visível? Não se trata de um desses anúncios de telemóveis, que estão pejados de erros, nem de um comentário ao correr da pena, como este meu; trata-se de um livro de um grande artífice da palavra. Ninguém reparou que em bom português seria "Lembro-me de que"? Ou será que, como decerto farão Saramago e Lobo Antunes, foi o próprio autor que insistiu em deixar mal escrito?

    As minhas desculpas pelo regresso... Prometo não fazê-lo mais do que duas ou três vezes por ano :).

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    Respostas
    1. E o Pedro Meira lembra muito bem. Bom seria que o programa da TV do "assim se fala em bom Português" se deixasse de tretas sobre o hífen e o acordo ortográfico e passasse a estas áreas críticas da língua, como o emprego das preposições em completivas integrantes e relativas (e.g., eu lembro-me que / de que, o livro que / de que ela gosta...).
      (Áreas Críticas da Língua Portuguesa, de Telmo Móia e João Peres é obra incontornável.)
      JCC

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    2. Desculpas pelo regresso? ó Pedro isso parece-me (talvez) modéstia; pela minha parte grato ficarei se por aqui passar todos os dias -gosto de aprender com quem sabe-!

      Um abraço

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    3. O problema é que nesse programa da TV1 do "assim se fala em bom Português" me parece haver ali muita limitação de quem o faz, ainda hoje (não sei se viste?) na questão do havia e haviam (livros) houve ali muita limitação de esclarecimento.

      Só falam em hífens (a maioria dos abordados parece-me que nem sabe o que é um hífen, quanto mais saber se se escreve com ou sem...)

      E então quando se fala na treta do Acordo Ortográfico está instalada a confusão (em toda a gente, note-se).

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    4. Sim, estas coisas interessam e são importantes, mas a defesa da Língua parece passar apenas pela forma ortográfica da mesma que, por acaso, teve ontem uma séria derrota. Reconheça-se, no entanto, que tal luta é transversal à sociedade, um bocado como o Benfika que, espero sem empenho, tenha hoje melhor sorte.

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  2. Claudia da Silva Tomazi14 de maio de 2014 às 03:53

    Programa(s) desta natureza fazem sucesso.

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