Regras
Há desde sempre o mito de que o escritor é um ser completamente desregrado, mas são muitos os escritores actuais que partilham com os leitores as regras que os norteiam, desde que Elmore Leonard (recentemente falecido) o fez nas páginas do New York Times. Desta vez, foi a britânica Zadie Smith, autora de livros como Dentes Brancos e do mais recente NW a estabelecer dez pequenas regras para se ser escritor – e a primeira, comum a quase todos os que se dispuseram a contribuir, é a de que, antes de se começar a escrever, é preciso ler, ler muito, gastar mais tempo a ler do que com qualquer outra actividade (presumo que dormir não contará como actividade). Porém, entre os seus conselhos, um dos que mais apreciei foi o de devermos ler os nossos textos como se não fossem nossos, como se fôssemos outras pessoas e, de preferência, pessoas que não gostam assim muito de nós (difícil, não é?). Outra das regras (ah, como concordo com esta!) é a de deixar o que escrevemos a marinar tempo suficiente antes de o editarmos: uma das coisas que mais vejo nos dias que correm é os potenciais escritores entregarem os livros logo que terminam as primeiras versões; além de erros e gralhas desnecessários, há muita incongruência de que eles próprios se dariam conta se tivessem sabido esperar. Também me pareceu imensamente válida a sugestão de não confundir nunca um elogio com um feito, uma conquista: o facto de alguém ter gostado do que escrevemos não nos deve convencer de modo algum de que fizemos o melhor de que somos capazes. Por último, adorei um conselho que poucos autores que conheço seguem: o de trabalhar num computador sem Internet!
A propósito de ganhar distância em relação àquilo que escrevemos ("ler os nossos textos como se não fossem nossos"), tenho uma nova técnica que ajuda imenso e da qual já falei no meu blogue e penso que também no FB: o meu "ereader" Sony tem sido uma grande ajuda! Converter um texto Word em Epub e descarregá-lo para o Sony, dá-me uma visão completamente diferente, muito perto da sensação de o ler como se tivesse sido escrito por outra pessoa. Descubro muitas mais fraquezas e incongruências e, é verdade, quanto mais tempo deixamos o texto repousar, melhor.
ResponderEliminarQuanto a escrever num computador sem internet, faço-o sempre. Ou mais ou menos... O meu computador está programado de maneira a que não fique automaticamente online, quando se liga. Tenho de fazer a ligação (dois cliques), de todas as vezes e, normalmente, não a faço quando o meu intuito é apenas escrever.
Já agora: aqui em casa, o "Router" está programado para desligar entre as 22:30 e as 7:30. Durante esse tempo, internet nicles! ;)
Excelente truque o de "reformatar" o texto para depois fazer uma segunda leitura com frescura !
EliminarQuanto às horas em que o seu router está desligado, pode concluir-se que a Cristina só escreve durante a noite ?
Não :) Na verdade, só consigo escrever durante a manhã.
EliminarQuando estava em Portugal, era muito notívaga (é assim que se escreve agora?). O ritmo aí é muito diferente, na Alemanha, pelas sete da manhã, já anda tudo a pé e as ruas já estão entupidas. Às oito e meia já acabou a hora de ponta.
Não sei se foi de adotar o ritmo alemão, ou se é da idade (afinal, em Portugal, eu era mais de vinte anos mais nova). Mas a verdade é que só consigo "render" de manhã.
Obrigado pelo seu interessante esclarecimento e, em particular, por explicar como a diferença entre os ritmos circadianos de Portugal e Alemanha são decisivos para os hábitos de quem se dedica à criação literária.
EliminarConcordo plenamente com o primeiro e último conselho, aliás é por isso que escrevo o meu romance na Biblioteca Nacional de Lisboa; quando comecei a ficar viciado no wireless dela, removi as drives. Não sei como é que as vou reinstalar, mas pelo menos não tenho mesmo acesso à net enquanto lá estou.
ResponderEliminarMas atenção se a intenção primeira é ganhar dinheiro há que copiar o 575 : abrir uma oficina das 9 às 5 da tarde...
ResponderEliminarComo o 575 e outros que tais...e andam por aí muitos, alguns ainda a gatinhar...
EliminarO que é o 575?
EliminarCurioso, a regra de que a Rosário se enamorou é a única de que discordo. A Internet ajuda qb na pesquisa correcta de palavras, autores, situações. Quem escreve, se está a escrever, de certeza não se perde no face ou em outras redes sociais que o processo da escrita não deixa. São factores que, durante o ritual, desinteressam, anulam, é que desaparece tudo excepto o sujeito, o onde se escreve e as ideias que se têm para escrever. Nunca escrevi um livro, mas com a mania que tenho de emendar tudo de cada vez que leio e de encontrar sempre defeitos, difícil seria dá-lo por terminado.
ResponderEliminarMas sim, tem razão quem diz que várias leituras possbilitam uma dimensão mais verosímil da história.
Curioso seria uma mensagem na garrafa boiada no Atlântico, porém compreender a ignorância é saber suportar o descrédito.
EliminarA dona Beatriz o NetWork torna-se um conceito por vezes laboral.
Cláudia, a única coisa que entendi foi "compreender a ignorância é saber suportar o descrédito". Boa frase. Mas não sei se é verdadeira.
EliminarBom dia dona Beatriz com relação a frase apenas entendo do ponto de vista a escala de estudo em sendo livre pensar ou de quando a percepção disponibiliza "elaborar conhecimento" ao tema através da experiência de vida ou seja a ler vossa opinião concluo e aprendo e percebo da afinidade responsável e expresso idéias clarificando ou provocando mais opinião ou não; fácil e simples a sabê-la e sei que a senhora de apurada inteligência e atitude sigular e tantos outros reunidos.
EliminarHum... creio sinceramente que para se ser escritor, como qualquer outra profissão sobretudo as criativas, há que ter disciplina e organização!
ResponderEliminarPerdoem-me a vulgaridade da comparação, mas o Cristiano Ronaldo é capaz de ser um exemplo de que só se atinge um elevado nível de perfeição com muito trabalho, dedicação e empenho...
Alguém acredita que Camões pudesse ter escrito "Os Lusíadas" se fosse apenas um rufião que andava sempre atrás de saias e na boémia? E onde arranjava ele aquela bagagem cultural e lhe sairia (a despeito da genialidade) tão sublime poesia, numa rima complicada ainda por cima?
Saramago é outro exemplo, suponho: trabalho, organização e disciplina.
- Quanto ao ler muito... parece-me uma regra tão indispensável quanto uma que jamais é referida: saber ver! Observar... as pessoas e o Mundo. Não duvido que muitos dos grandes escritores foram grandes observadores dos seus semelhantes.
- Lembro-me de o Mestre José Pardal, um célebre caçador e autor de dois dos mais prestigiados livros de caça do final do século XX, a nível mundial, me ter dito algo que lhe foi transmitido por outro célebre caçador escritor, o americano James Mellon: quando escreveres, certifica-te de que escreves para os outros e não para ti. Como quem diz que se deve ser claro... e este é talvez o defeito mais comum.
- Finalmente: Escrever num computador sem net, confesso que não entendo muito bem o porquê... já agora se tivessem a gentileza de me esclarecer,, agradecia!
Saudações do Bairro Ribatejano
Claro que o verdadeiro escritor não precisa nada de net, obviamente.
EliminarEntão antes de haver net não havia escritores?
Mas qual net qual carapuça, a IMAGINAÇÃO é, sempre foi, e sempre será a net de qualquer verdadeiro escritor e não de um qualquer 575, escritor com net sou eu que me limito a copiar já que a minha IMAGINAÇÃO é curta para ser escritor...
Ó Severino, tens de escrever para os outros... o que raio é o 575?????
EliminarEheheh!
Um abraço!
Ó Pacheco à Cláudia, que não escreve para ninguém (nem para ela) toda a gente a percebe e...o Burro sou eu, o Burro sou eu?
EliminarÓ Amigo Pacheco então não sabias que ao JRS não lhe encomendam um livro mas sim 575 páginas...e ele põe a fábrica em laboração (das 9 às 5 da tarde), ai não sabias? então ficas a saber...a regra do 575
JRS =José Rodrigues dos Santos
Ah !
EliminarAh, senhor Arthur lembranças ao Porto! Faça a gentileza de recomendar a conquista de abstração à quem de conhecimento e causa possivelmente (este) irá ignorar o valor humano.
EliminarAh!
EliminarEheheh! Bem áuvservado ó Severino...
Um abraço!
Percebeste (Senhor) Artur...limpimho/limpinho
EliminarDe acordo com tudo. Quanto a ganhar distância, faço-o no final de cada capítulo e até, quantas vezes!, após alguns parágrafos que me parecem necessitar dela. Quando os ataco de novo, penso sempre no que terá escrito o às vezes parvo que sou eu e descubro que o sou mesmo; ao dar o livro como concluído acalmo, respiro fundo e, passados dias, começo a frustrantemente horrível castigadora e desesperante revisão ainda mais demorada que a primeira escrita; no final dela, selecciono 3 pessoas que anseiam pelos meus livros, mas me dão na cabeça por tudo e por nada. São as minhas "cobaias" de eleição e ainda há cerca de um mês fui ao Porto só para beber café e analisar durante horas as críticas que ele tinha reunido em 4 páginas. Nunca dei o livro a ler a alguém que apenas diga "tá giro, gostei muito". Novas revisões. Depois, vem o tempo de o ler como se o não tivesse escrito e fosse apenas o seu leitor. Evito, sem o conseguir, mexer-lhe. Até que finalmente nunca mais o espreito até o ver editado e, mesmo aí, a insatisfação está presente. Há quem diga que é um dom conseguir escrever uma história. Eu chego a pensar que é uma saborosa tortura. E, no fim, para quê?
ResponderEliminar(mesmo aqui, em que descontraído escrevo neste quadradinho - estou entre amigos, não é verdade? - sei que me vou danar quando ler isto). Bom dia a todos.
É uma grande ajuda, uma ajuda preciosíssima, ter alguém que leia os nossos originais com atenção e seja capaz de uma crítica objetiva e sincera. Ter mais que uma pessoa, então, é (quase) perfeito. Se tem quem faça isso, então digo-lhe, sem complexos: invejo-o!
EliminarEstime bem essas pessoas!
Estimo mesmo, Cristina. Chego a ficar boquiaberto com a pertinência das suas críticas e com a disponibilidade que me dedicam.
Eliminarpensava que vinham por aí regras "estranhas", mas não.
ResponderEliminartudo coisas normais, que deverão ser seguidas pela maior parte de quem escreve.
até a última é boa, a "net" está longe de ser uma necessidade para quem escreve...
Ler, distanciar, maturar, exigir, prescindir.
ResponderEliminarDe momento leio cinco livros de cinco diferentes autores. Sartre, Luiz Pacheco (não o autor do mundo da largueza, mas o que equilibrava o Teodolito rimando largueza com destreza), Márai, Gaudé e Saramago.
Se os tivesse de agrupar em função das regras descritas, faria três grupos distintos: Gaudé com Márai, Saramago com Pacheco e Sartre com Sartre.
Regras de ouro que eu (que lá vou escrevinhando umas coisas já sem grandes sonhos e fantasias) já aprendi a custo.
ResponderEliminarEste foi dos um posts mais úteis entre os muitos muito interessantes que a anfitriã vai pondo.
Upps, lá se vai a correcção!!!
A febre é o pior inimigo do escritor. Escrever com febre faz o escritor delirar e, consequentemente, perder a consciência das gralhas e das incongruências que ficaram semeadas pelo texto por uma mão invisível, que certamente é a do Diabo, porque o escritor afirmará a pés juntos, ou separados, não ter escrito assim. Por isso, agora escrevo sempre com a cabeça fria e como o caracol que durante o dia avança três metros e à noite recua dois metros. Para testar a qualidade dos meus textos, convoco os gatos do quintal. Sento-me num banco, começo a leitura e observo a reação dos bichinhos. Se fugirem de mim como de um cão, é sinal de que a obra não presta Se miarem, tenho romance. Os gatos, ao contrário dos amigos escritores ou simplesmente leitores, nunca me enganam.
ResponderEliminarAntónio Breda Carvalho
É verdade: paciência! Uma das melhores qualidades de um escritor.
EliminarQuanto aos seus gatos... Adorei-os!!! ;)
Boa essa da febre!!!!!
EliminarQue entendo por afã, e não por inspiração... mas se entendi bem, parece-me uma regra de oiro!
"Carta aberta a um ilustre Desconhecido"
ResponderEliminarQuem é você? (idade, procedência, nome)
Mulher ou homem...
Gostaria de saber se passa bem e assim o sei, principalmente saiba que estimo vossa presença nesta e entre tantos na multidão que caminha, lembre-se que também, caminho.
O afeto é laço presente o amor plenitude.
Cláudia da Silva Tomazi
escrever é construir, uma cadeira | por exemplo | parece simples … mas estável mas confortável mas bela é difícil | é a cadeira poder estar ali diante da janela onde tudo acontece para que quem passa ou fique se sente | sinta
ResponderEliminar_de_
Todos os dias aqui passo, mas nem sempre comento. Hoje fico-me só pelo obrigada MRP. Não que desconhecesse as regras (acho que a maioria que escreve tem isso presente), mas porque de tempos em tempos o lembrete faz falta.
ResponderEliminarUm abraço.
Concordo com o distanciamento, claro. Com o ler muito, claro. Penso que falta aqui o viver muito ou, como já foi aqui referido, a capacidade de observação. Sem esta regra podem resultar trabalhos com alguma técnica (devido à quantidade de leituras) mas sem nenhum substrato, o que na prática são masturbações mentais.
ResponderEliminarNão entendo a importância de se escrever num computador sem internet. Penso, como alguém aqui já disse, que a internet é uma ferramenta importante a nível de pesquisa, nem que seja o Priberam.
Não sabia o que era o 575. Desconhecia essa história. Acho-a engraçada e ao mesmo tempo um pouco estranha. Porquê esse número exato e não outro?! Enfim, o que é que isso importa. Embora não seja admirador da escrita do JRS , admiro-lhe a capacidade de viver (se ele quisesse) exclusivamente dos próprios livros e de fazer aquilo que gosta.
Ora, muito bom post, este. E também concordo com a questão do computador sem ligação à internet.
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