O que ando a ler
Interrompo um livro (um dia destes falarei dele) para deitar mão a um pequeno volume de José Cardoso Pires, vendido com o jornal Público, chamado Histórias de Amor e composto por alguns contos e uma novela. Um livro, apetece dizer, no qual é proibido beijar. E porquê? Bem, porque pertence a uma pequena colecção de obras censuradas pela PIDE e vendidas justamente com os sublinhados todos da censura por que passou (não a azul, senão teriam de ter sido impressas a quatro cores, mas ainda assim com toda a indignação expressa com riscos e pontos de exclamação à margem). O veredicto relativo a Histórias de Amor diz que o livro é «imoral» e que nele «o aspecto sexual é revelado indecorosamente». Nos dias de hoje, a afirmação quase dá vontade de rir porque, ao acompanharmos o texto, vemos que são os beijos que saem todos sublinhados, mesmo em frases nas quais a rapariga diz que nunca beijou ninguém nem o fará antes do casamento... Avessos à ternura, estes agentes da censura não suportam lábios, coxas ou nádegas, suor ou saliva, seja em que contexto for, e também assinalam a linguagem que crêem menos própria, mas que, no caso, são termos como «camandro» ou «do catano» (se fosse do Caetano, estaria bem, claro), bastante inocentes ao pé do «Fogo!» que os adolescentes hoje despejam a torto e a direito pela boca. Mas, abstraindo os cortes, ou por causa deles, vale a pena conhecer este livrinho do escritor que viria a fazer coisas notáveis.
Tudo o que eu tenho trago comigo | Herta Muller | de uma beleza arrepiante
ResponderEliminar_de_
também comprei o livrinho do Zé Cardoso Pires, que lerei brevemente.
ResponderEliminaré a velha história: os tipos da censura eram espertos, mas deviam qualquer coisa à inteligência...
acabei de ler, "Apenas Miudos" da Patti Smith (levei para fora na Páscoa e interrompi a "Alegria breve" do Virgilio Ferreira, que quero acabar.
também tenho "Portugal a Flor e a Foice" à minha espera...
«A Cidade e as Serras», Eça de Queirós
ResponderEliminar<font><font>Zuzu</font></font><font><font>cargo</font></font><font><font>Anibal</font></font><font><font>anibal</font></font><font><font>Cardoso</font></font><font><font>Satisfeito, Muito</font></font>
ResponderEliminar<font><font>Zuzu</font></font>
Olá Maria do Rosário
ResponderEliminarSou a Zuzu, prima da Gabriela Trindade. Li o seu post e não posso deixar de falar da amizade que existia entre o meu tio Anibal falcato Alves ( referido Uma Outra Voz ) e o escritor José Cardoso Pires. Aníbal F. Alves escreveu vários livros ( a cozinha dos Ganhões, Rezas e Benzeduras ) e num deles, no dia do lançamento fizeram uma homenagem a Tio Anibal. José Cardoso Pires foi um dos presentes. A amizade que unia estes dois homens esteve bem patente no discurso que Cardo Pires fez ao meu tio. O seu discurso foi memorável. No almoço, fiquei sentada junto de Cardoso Pires e da mulher. Conversámos, trocámos ideias e a sua boa disposição era visível. O casal estava muito feliz por estar ali em Estremoz, e o almoço decorreu sempre com uma boa disposição. No final houve poesia, canções e alguns discursos e a festa prolongou-se por muito tempo.
Tenho por si, através da sua poesia uma grande admiração. Já disse alguns deles, pois quando o autor publica a obra esta deixa de lhe pertencer ( Ah, os direitos de autor!!!)
Um beijo da Zuzu
Estou relendo o que escrevi e fazendo correção (ou não).
ResponderEliminarTambém ando mais ou menos assim, Cláudia, por isso tenho lido pouco ultimamente.
EliminarParadoxalmente, havia um lado positivo na censura: esgotava edições, prestigiava o escritor ou o músico. Eu e muitos como eu deixávamos de comer para comprar obra proibida. vendida às escondidas.
ResponderEliminarHoje a censura tem igualmente igualmente vistas curtas, ao publicar apenas o vendável no curto prazo.
JCC
Na lista das compras Zabel havia escrito Limpa-metais, limpa-pratas, limpa-vidros, limpa-madeiras. Pronto! Iam começar, pois, as anuais limpezas da Quaresma. Em dias sucessivos, o rebuliço iria percorrer as diversas partes da casa. Nada iria ficar como esteve nos últimos 365 dias. Que havemos de fazer? É a ressurreição anual da casa. Nosso senhor me dê paciência...
ResponderEliminarAo pegar na cesta, à entrada do supermercado, comecei a preparar-me mentalmente para as surpresas que iria encontrar após a nova desarrumação da biblioteca.
Nem de propósito, logo ali as primeiras prateleiras são de livros ao desbarato. Em grande destaque uma desarrumada secção que anunciava “Todos a 2 €”. Espera aí: quem é este Daniel Pennac, que nunca ouvi falar? O título é sedutor: “Como Um Romance”. E a capa é estimulante. O quê? Foi best-seller nos anos 90 e eu não dei por nada?! Deixa cá desfolhar... Hum, hum... Ok, vou levá-lo para ler enquanto os limpa-metais-vidros-madeiras-etc andarem por lá à solta.
...
Pois, de facto, lê-se como um romance. É uma descontraída mas muito assertiva reflexão sobre a leitura e o livro, que nos mostra as razões por que muitas pessoas não descobrem, ou perdem, o prazer da leitura. Principalmente a escola, o ensino, que inculca a ilusão, o equívoco, de que a leitura é uma obrigação e não um prazer. Assim, não admira que o pessoal se refugie na televisão e na net. E que uma pessoa se sinta indigna de ler livros, pois que acabou por se lhe instalar na ideia que “isso é para intelectuais”. Depois isto consolida-se em situações do género: “Nunca li nada deste autor, agora desfolho o livro e parece-me que não seria capaz de o entender” – e pousa-o, resignado.
Pennac remata o livro com a lista e explicação dos 10 Direitos do Leitor.
Bem: logo o 1º – O Direito de Não Ler, me dá a devida cobertura ao facto de não ter lido este livro senão agora, com vinte anos de atraso...
E, a coberto do 7º – O Direito de Ler Não Importa Onde, andei a lê-lo pelas partes da casa onde não tinha ainda chegado o rebuliço.
...
Terminada a balbúrdia, no domingo de Páscoa regresso à biblioteca e, logo ali debaixo dos meus olhos, eis “A Árvore dos Milagres”. – Aleluia! O Nuno Júdice ressuscitou!
Há uns anos, a coberto do 3º Direito do Leitor, não acabara de ler este livro – mas isto por uma qualquer razão casual, que não por desinteresse, pois que andei estes anos a, de vez em quando, pensar: “Mas onde diabo deixei eu o livro, que estava a gostar de ler, impressionou-me tanto aquele texto da farmacêutica, e também aquele outro da mulher do aviador na praia... E aquele (que empresta o título ao livro), onde, num restaurante de beira-da-estrada, se demonstra que a promoção dos milagres serve para disfarçar a realidade…”
Mas quê! Um gajo anda sempre a saltitar de livro em livro ao abrigo do 8º Direito, e depois dá nisto!
O Nuno! Rapaz da minha criação! Das andanças no Tempo e o Modo de finais dos anos 60 / início dos 70, onde ele escrevia o que conseguia escapar à censura e eu desenhava capas e ilustrações que a dita também não apreciava por aí além; e também no Juvenil do Diário de Lisboa...
Ó Nuno, tu desculpa lá esta desfeita, que eu prometo que vou aplicar com rigor o 4º Direito – o de Reler (-te).
Aliás, este é o que ultimamente tenho aplicado com mais frequência. Pudera! Ainda se ao menos os livros fossem todos “Como Um Romance” – isto é: a 2 €...
O Big Sur e as Laranjas de Jerónimo Bosch, de Henry Miller.
ResponderEliminarUm escritor de quem li quase tudo, mas esse ainda não. Vale a pena? Gosto muito de Henry Miller, em especial os trópicos e a trilogia rosa-crucificação.
EliminarRui Miguel Almeida
Viva!
EliminarTenho a sensação que este não tem nada a ver com os excertos que já li de outros: Sexus e Plexus. Não tem nada a ver com o erotismo, com a inconsequência do quotidiano (que é uma verdadeira aventura, pelo que me deu a entender) do Henry Miller. É um livro, na minha opinião, escrito numa fase da vida por quem já muito viveu e poucos segredos há por desvendar.
Estou a meio do livro. Exige uma leitura lenta e atenta - admito que algumas me passem ao lado. Recomendo.
Comecei várias coisas mais ou menos ao mesmo tempo, umas foram ficando em stand-by, outras vão avançando.
ResponderEliminarAcabei de ler Terra Sonâmbula de Mia Couto, talvez o romance que mais gostei, dos que já li dele. Um grande escritor.
Neste momento, o livro que mais me prende a atenção é 1975 de Tiago Patrício, que iniciei há uns 3 dias. Estou a gostar muito. Curiosamente, sou dessa colheita de 75.
Bom fds a todos,
Rui Miguel Almeida
O que é que a baiana tem? Caymmi na Era do Rádio, de Stella Caymmi. E Night Letters, de Robert Dessaix. Qual deles o melhor.
ResponderEliminarDepois de ter lido as vozes de Os Memoráveis (Lídia Jorge), estou a ler Uma Outra Voz (Gabriela Ruivo Tavares).
ResponderEliminarAntónio Breda Carvalho
Engraçado. Como já disse num outro comentário, tenho lido pouco, mas consegui começar ontem "A Noite das Mulheres Cantoras" da Lídia Jorge. E a Gabriela Ruivo Trindade está programada para breve.
EliminarAinda estou debaixo da aura de prazer que me deixou a leitura do recém-publicado livro do João Tordo, "A Biografia Involuntária dos Amantes".
ResponderEliminarOs personagens continuam-me a visitar diariamente, uma sedutora Electra chamada Teresa cujo amor obsessivo e mal dirigido tudo arrasta à sua frente (ainda bem que não me caiu em rifa…), um jovem poeta niilista, Saldaña Paris, em deriva autodestrutiva causada por um amor de perdição e que, espantoso!, podemos ver na net a declamar as suas próprias criações (um personagem de ficção que existe!), um narrador com uma vida que poderia ser a de qualquer um de nós, que não vivemos dentro de romances, e ainda personagens de outros livros do Tordo que aqui fazem "guest appearances".
E sobretudo um tratado sobre uma amizade inquebrantável, uma daquelas que todos gostaríamos de guardar ao longo de toda a nossa vida. Tordo em estado de graça !
Uma excelente crítica sobre o livro é hoje feita pelo José Riço Direitinho no "Publico”. Pena conter um erro tipográfico: não está assinalada no cabeçalho por cinco estrelas. Este crítico/escritor faz uma excelente e fiel apresentação do que é o romance, mas contradiz-se no final do seu texto quando afirma que a linguagem literária do João Tordo está cada vez mais depurada mas que lhe falta estilo. Ó Riço Direitinho para ter estilo, a literatura não tem que cheirar a suor !!!
Olá Artur!
EliminarGostei de saber que continua a gostar do Tordo.
Esse livro dele será, talvez, a minha próxima leitura.
Tenho tantos em lista de espera (felizmente!).
Curiosamente, acabei de ler um livro traduzido pelo João Tordo: "Rosa Candida", de Audur Ava Ólafsdóttir, escritora islandesa a quem o Riço Direitinho também dá 3 estrelinhas nesse mesmo ipsilon.
Anteriormente li "Contos Escolhidos", da Carson McCullers e "O Barril Mágico", do Bernard Malamud (foi a minha estreia com este autor).
Boas leituras, Artur!
:-) Antonieta
Cara Antonieta, Obrigado pelo seu comentário. Gostou do "Rosa Candida" de Audur Ava Ólafsdóttir? Nunca li nada desta escritora. O Malamud, o mentor literário do Roth, é um dos meus autores favoritos mas ainda não li a recolha de contos seus que foi recentemente publicada em português. Também gosto da escrita da Carson McCullers. São contos ficam também debaixo de olho. Obrigado pelas sua sugestões !
EliminarÉ um livro muito diferente do que eu estava à espera, mas como ando muito interessada na literatura nórdica não policial (bastou-me o Stieg Larsson) resolvi arriscar.
EliminarA tradução do Tordo (do inglês, claro) e alguns artigos que encontrei nas revistas LIRE e QUE LEER de 2011 também ajudaram a minha decisão de comprar o livro.
Posso dizer que o balanço foi positivo, embora esperasse mais e também um final diferente.
Abraço.
Antonieta
Obrigado pela sua apreciação do livro ! Abraço.
EliminarEstou a ler o último do Philippe Claudel , um dos meus autores preferidos de sempre. O livro intitula-se "Perfumes" e é uma espécie de memórias, de autobiografia descrita através de recordação dos cheiros da infância e juventude do autor. O livro é belíssimo, de uma sensibilidade imensa e faz-nos reviver também a nossa infância. Apesar do percurso do autor ser naturalmente diferente da do leitor, nós conseguimos rever-nos no texto. Mais que as peripécias da sua infância, os cheiros evocam sentimentos e emoções. E por isso sentimo-nos espelhados no livro. Na minha modestíssima opinião, é isso que faz um grande escritor: não se limita a narrar acontecimentos ou histórias. Ele toca o interior dos leitores, fá-lo reverem-se na obra, mesmo quando aparentemente nada têm em comum com as personagens. Ele retrata emoções. E nisso somos todos muito parecidos.
ResponderEliminarEscusado será dizer que estou a adorar o livro. Já li todos os anteriores do autor e considero-o um génio. Recomendo-o, portanto :)
Uma curiosidade: deixei o livro, acabadinho de comprar, ainda com o talão da venda, numa cadeira do Starbucks . Quando dei pela sua falta, e voltei atrás, ele já não se encontrava na cadeira. Espero que quem o tenha levado dê-lhe a mais que merecida estima. Claro que fui comprar outro para mim. Se consegui assim captar mais um leitor para o romance e dar a conhecer o autor, juro que fico até contente.
ando a ler Signo Sinal de Vergílio Ferreira e a repetir a maravilha que é lê-lo; a aperceber a supremacia de uma mente invulgar e invulgarmente culta neste país onde perdidamente se escreve e pouco se chega. Extasio na forma como ao longo dos anos aprendeu a trabalhar o tempo.
ResponderEliminarE também ainda não concluí os contos de Virgínia Wolf
Estou a ler David Machado e o livro chama-se O Fabuloso Teatro do Gigante. É a minha segunda experiência em David Machado e estou a adorar!! Já vou a mais de meio. Bem bom:)
ResponderEliminarCláudia
Tudo são histórias de amor, de Maria Teresa Horta. Gosto tanto de contos! Em alguns fiquei com a sensação de que o fim foi repentino, como se a autora se tivesse cansado da história.
ResponderEliminarNão será Dulce Maria Cardoso?
EliminarTambém gosto de contos e gostei muito deste livro.
João
Estou a reler o "Amor em Tempos de Cólera", um dos meus livros preferidos. Depois da morte de GGM apeteceu-me revisita-lo. Antes li "A Decadência dos Olfactos", de Luís Caminha, outra onda, muito diferente do GGM mas também literatura de primeiríssima água. E a seguir ao "Amor em Tempos de Cólera" vou meter-me no "Conspiração contra a América", do Roth.
ResponderEliminarEu não ando a ler romances, apenas poemas avulso, a comparar sonetos de Camões e do Shakespeare, via VGM, e ainda de um tal Jonas, portuense com mão para o assunto, a contar as sílabas e as rimas. Uma coisa meio doentia, sem especial propósito que consiga identificar... como ando a dormir pouco e mal, ponho-me a contar sílabas em vez de carneiros.
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