Mal me quer, bem me quer

Hoje será distribuído e posto à venda um belíssimo romance que esteve entre os finalistas da última edição do Prémio LeYa. Chama-se Mal Nascer, escreveu-o o alentejano Carlos Campaniço e conta, alternadamente, a infância de um mal-nascido e a sua vida adulta como médico na pequena vila donde fugiu aos maus-tratos de muitos que lhe queriam mal (entre eles, o padrasto) e aonde regressa muito mais tarde, fugido aos absolutistas (é um liberal assumido), para se vingar. Porém, ao contrário do que esperava, a verdade é que ninguém reconhece Santiago tantos anos depois, nem mesmo os seus piores inimigos; e, pela sua posição, todos o enchem de vénias e salamaleques e até lhe arranjam noiva na rapariga cujos pais foram os principais responsáveis pela terrível meninice que ele teve. Mal-entendidos à parte, a descrição da vida tremenda de Santiago como guardador de porcos e enteado mal-amado numa vila dominada por um latifundiário amargurado com a morte do filho varão e a narrativa dos seus amores por uma rapariga casada que o ajuda no consultório estão cheias de passagens maravilhosas que compõem uma obra com suspense até à última página e cheia de peripécias que nunca deixam quebrar o ritmo. Amanhã, no lançamento, Afonso Cruz apresentará o romance e, aposto, há-de ter muito para dizer. Se quiser, apareça por lá.


 


Comentários

  1. pelo que a Rosário diz, deve ser uma boa leitura.

    a temática lembrou-me o diálogo que travei com o meu irmão, quando lhe disse que um grupo amador ia levar à cena uma peça escrita por mim.

    contei-lhe o tema e ele achou aquilo banal, corrente, terra a terra.

    e eu disse-lhe que o teatro, o cinema, a literatura, falam sobretudo da vida, do nosso dia a dia. só alguém estranho é que se põe a escrever sobre marcianos...

    e este livro é sobre a vida... e se é sobre o período liberal, também deve ter história.

    boa, Carlos!

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    1. "só alguém estranho é que se põe a escrever sobre marcianos..."

      E é a pensar assim que nunca voltaremos a ter um José Saramago entre nós, para não falar dum escritor como Borges, Calvino, Nabokov, Pynchon, García Márquez... apenas escritores que pelos vistos nunca leram nada desde o apogeu do neorealismo, e que realmente acreditam que a literatura fala "sobretudo da vida, do nosso dia a dia," pobres coitados, aonde é que eles foram ler tais mentiras? A James Wood?

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    2. posso ser muita coisa, coitado não, e ainda menos coitadinho.

      viva e deixe viver.

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    3. Exactamente Miguel Rosa!

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    4. Eu deixo viver; infelizmente o meu sonho de ser um déspota nunca se realizou e não tenho o poder de não deixar ninguém viver.

      Mas não vou comprar muita da literatura portuguesa contemporânea, isso lhe garanto.

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    5. Miguel: já leste Gonçalo M. Tavares? Mia Couto? Agualusa? olha que há bons escritores...tens és de os ler

      O Mia e o Agualusa não são portugueses mas é como se fossem

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    6. "O Mia e o Agualusa não são portugueses mas é como se fossem"

      Julgo que este paternalismo não nos fica nada bem; o império foi-se, as colónias terminaram, são países soberanos agora; o Mia é moçambicano e Agualusa é angolano. E quando precisamos de estrangeiros para engrandecer as nossas letras, então é porque andam mesmo mal.

      Mas respondendo à sua questão: do Mia li uns 8 livros, do Agualusa 4, do Tavares 2. E não sou grande fã de nenhum. Acho que todos incorrem em prosa simplista e cheia de lugares-comuns, com um vocabulário limitado; fico à espera de passagens delirantes, cheias de metáforas geniais e frases surpreendentes, mas é tudo tão prosaico e chinfrim; no caso de Mia aquilo é tudo muito lamechas, e o realismo mágic dele não convence nada, é um cópia dos latino-americanos sem qualquer piada. Quanto ao Tavares, acho que ele se esforça por fazer algo de genuinamente novo, mas a execução fica sempre muito aquém do conceito. Lêem-se mas esquecem-se sem grandes remorsos.

      Já os brasileiros Rubem Fonseca e João Ubaldo Ribeiro, isso é outra coisa; estão noutro nível. Assim como Pepetela.

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    7. Totalmente de acordo, Miguel. Só Pepetela não sei: só li "A Sul do Sombrero" que achei uma grandíssima xaroparada.

      PLFF

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    8. Talvez seja, ainda não li esse; mas se quiser dar mais uma oportunidade a Pepetela, recomendo-lhe 'Predadores' e 'O Desejo de Kianda,' narrativas muita tensas sobre a sociedade angolan contemporânea. 'Lueji, o nascimento de um império' também tem grandes momentos narrativos.

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    9. Paternalismo? mas qual paternalismo - isso é conversa de ervanária, esse discurso é para aplicares quando fores entrevistado para a TVI ou para o Correio da Manhã...

      Sejamos práticos, sejamos realistas, sejamos portugueses - é apenas uma forma de demonstrar carinho, amor, amizade porque tenho a certeza de que eles (Mia Couto e Agualusa) não se chateavam nada se eu lhes dissesse que não eram portugueses mas eram como se fossem - é que eles são homens sensíveis e inteligentes e sabem analisar em que situações e em que contexto as palavras são aplicadas - é tudo uma questão de sensibilidade e, sobretudo, de inteligência!

      Quanto a considerá-los escritores menores aí já respeito a tua opinião (são opiniões) e respeito porque eu sou apenas um auto-didacta , um perfeito analfabeto à beira de determinados sabedores, certamente formados em literatura, aí eu não quero, não posso nem certamente terei bagagem para dizer que o Pepetela e o Ubaldo são ou não superiores, aí confesso a minha incapacidade!

      Mas volto a dizer que, para mim, Mia Couto, Agualusa e Gonçalo M. Tavares são grandes escritores mas isso é para mim (e quem sou eu?)!

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  2. Certamente mais um bom romance de mais um jovem escritor português e não haja dúvidas de que temos um belíssimo punhado de jovens a escrever. Por exemplo, estou a ler um bom livro de mais um jovem escritor português ("o intrínseco de manolo de joão rebocho pais) é assim mesmo com letra pequena que a capa foi dada à estampa (creio que é assim que se diz), estranha moda que, por sinal, não compreendo pois acho uma bandalheira e um desprezo absoluto pela língua portuguesa (são estes pequenos detalhes que tornam estas evidências - a bandalheira e o desprezo- não parece mas é).

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    1. António Luiz Pacheco8 de maio de 2014 às 04:12

      Gostei muitíssimo d' "O intrínseco de Manolo":

      Mas ó Severino:

      1º João Rebocho, sendo um "novo" escritor, não é propriamente "jovem" - nasceu em 1962!

      Conseguiu e muito bem, o que é raro num citadino, "caçar" os tipos de uma vila/aldeia do Alentejo, e até o espírito deles. Coisa rara repito, o que mostra uma sensibilidade e grande poder de observação e interpretação!

      2º Parece estar na moda escrever sobre ambientes rurais... da parte de quem quando muito passou umas férias longínquas na casa dos avós e acha que um tipo de boné ou uma velha de lenço na cabeça são "ruralidade". Mas não é... ela tem de ser bebida no leite materno e depois respirada no dia-a-dia, não chega comprar um "monte" e passar lá fins-de-semana (quando faz bom tempo), não chega!

      3º Se estás a gostar, o que me não admira, aconselho-te a seguir uma leitura 100% genuína, de ruralidade e que é a memória de uma aldeia, de um povo inteiro e havia de ser obrigatória para as pessoas não se esqueceram de como foi no tempo antes-da-UE e da abastança e muito antes da austeridade, quando se vivia de facto com dificuldades: "Entre Cós e Alpedriz", de José Cipriano Catarino. É infelizmente uma edição de autor, e digo infelizmente porque é sinal de que as editoras andam muito distraídas do que é de qualidade e genuíno... é um dos melhores livros que li últimamente e devia constar do plano nacional de leitura, digo eu, pelas razões que já apontei pois além de romance é uma preciosa colheita antropológica e cultural do que era a vida serrana no tempo dos meus avós!

      Um abraço para ti, cá do Bairro Ribatejano!

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    2. Perfeitamente de acordo com as tuas correctas e-sábias-observações.

      Devo confessar que apesar do autor ter captado com alguma sensibilidade os "sons" e a gente do Alentejo sempre me pareceu que o joão rebocho (embirrei com esta da letra minúscula nos nomes, vai contra tudo o que qualquer português aprende) (cá no sub consciente) seria um "alentejano" de aviário ou seja um cosmopolita que passa uns tempos no monte alentejano que, para estar à la page e para aliviar o stress, comprou há uns tempos...e efectivamente isso não chega para escrever um livro sobre o Alentejo e as gentes, os cheiros, os sons os ares, os ventos alentejanos. Mas não deixa de ser um livro cativante e, na minha modesta opinião, parece-me bem escrito.

      "Entre Cós e Alpedriz ", de José Cipriano Catarino não conhecia nem sei tão pouco onde o poderei adquirir...mas fico com curiosidade.

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    3. Ó Severino, eu que até corei com os elogios do amigo Pacheco (que ainda não tive o prazer de conheçer pessoalmente) tenho todo o gosto em te oferecer um exemplar, isto se ainda me restar algum das cinco tiragens que fiz (se fosse vaidoso, diria edições, o que é falso). Suponho que não leias ebooks, bonecas de plástico, manda-me um endereço e eu vou ver se te consigo fazer chegar um exemplar, talvez ainda reste um dois na aldeia, que fica precisamente Entre Cós e Alpedriz...
      Jccatarino@hotmail.com
      JCC

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    4. Eu NUNCA uso ç antes de e ou i. Garanto que foi o corrector, e depois, segura de que jamais dou tal erro, não vi. As minhas desculpas.
      JCC

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  3. Cláudia da Silva Tomazi8 de maio de 2014 às 04:13

    O bom escritor vela um passo de cada vez porque escrever nem tem haver com sorte.

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    1. nem tem haver com sorte

      será que:

      a ver com sorte

      actualmente escreve-se

      haver com sorte?

      será de acordo com o novo acordo ortográfico?

      Ei pessoal extraordinário será que o Burro sou eu? e o Burro sou eu?

      Ó Cláudia o teu cconterrâeno Scolaria ficou célebre em Portugal com, entre outras tiradas, com este e o Burro sou eu, e o Burro sou eu? se calhar sou mesmo porque ainda não vi aqui ninguém questionar esta -indecifrável-Cláudia Tomazi...

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  4. Faço votos para que este Bem me quer não se transforme em Mal me quer. A literatura é a vida como diz Luís Eme . Mas vida por vida já basta o real. Nada substituirá com grandeza o real descrito por todas as imagens que nos entram hoje em dia porta dentro, sem qualquer pedido de licença. Falta hoje à literatura nacional o pós descritivo, o morder os calcanhares, a independência dos argumentos, já impossível de substituir. Sinto vivermos no domínio do ignóbil corte e costura, da leitura tornada escrita replicada sem juízo crítico, reflexivo, sem intervenção social. Gostaria de ver alguns destes escritores a escreverem um livro num dia, sós, face a face à sua pena. Assim veríamos a sua visão do mundo, conteúdo e capacidade criativa.
    Os tempos hoje matam os criativos, os independentes, aqueles cujo único estilo é a escrita (a normalização é hoje a ciência dos grandes números, da mediocridade e dos grandes embustes). Hoje será que temos escritores ou escribas? E assim vamo-nos arrastando na repetição, no já sempre visto, no certinho enjoativo, sem raça nem emoção.
    Que saudades tenho de escritores como Saramago, Virgílio Ferreira, Urbano T. Rodrigues, Cardoso Pires, capazes de emitir sons e ideias como Sartre, que não estruturavam nem pintavam céus quase sempre repetidos, a cheirar a alfazema e rosmaninho, mas o seu tempo, a crueza e a diversidade do/no homem sem ter medo de expor as "suas loucuras", as suas ideias.
    Vivemos hoje no domínio do previsível, do seráfico, a sensação é de personagens a interagirem demasiado com o umbigo, uma escrita demasiado intimista sem ser reflexiva, muitas vezes geométrica, composta em estúdio, o descritivo pelo descritivo sem fim nem outridade , esquecendo-se de que à sua volta há mundo, há Largueza. Uma escrita amedrontada, beata, uma literatura de tribos, bajuladora, sem vontade nem ânimo de arremeter e nos criar enredo e sedução! O tempo passa e aprendemos pouco! Valha-nos a história que hoje é cada vez mais difícil de ser reescrita!

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    1. António Luiz Pacheco8 de maio de 2014 às 07:48

      Aplaudo Pedro... concedo-lhe rabo (hum... cauda), orelha e volta á praça em ombros!

      Olé!

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  5. Cláudia da Silva Tomazi8 de maio de 2014 às 07:00

    Querido extraterrestre a Península Hispânica é melhor do quê apresenta-se.

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  6. abstracto | romances | haja neles algo que, depois de lido, não haja como esquecer, nunca mais| uma qualquer personagem a ficar dentro de nós, para sempre | tais inquietações ou prazeres que nos vejamos a pensar ou a sentir sem remissão || muitos contêm todos os atributos da arte ficcional | já menos conseguem ir mais longe: exibindo um código estilístico próprio, singular | raros são universais [ estes não se esquecem ] muito do que é publicado e premiado não atinge esse estatuto | bem escritos, sem dúvida, porém pouco ou nada acrescentam ao que já foi escrito | ao que o leitor possa já ter lido | alguns há que sobressaem pelo talento estilístico, embora por vezes expondo historias aparentemente “menores” que se colocam ao serviço da escrita | como se a historia houvesse sido inventada para que o estilo tenha uma passadeira por onde desfilar ||| literatura de entretenimento, recreativa, função já muito estimável | porém | tão recomendável como um hotel que valha o preço: sem mais | muita imita e descomplica, tornando-se “habitável”, Lobo Antunes que o diga [ou o próprio Saramago], cuja contrafacção só está ao alcance de ingénuos [não ultrapassarão 200 páginas] ou de destemidos que não sairão de um tal labirinto _ alguns ainda por lá se encontram | mas, as temáticas! o drama, que nem drama é, a felicidade, que nem felicidade é, a angústia, que é angústia de águas pouco profundas, o humor, que não abre em nós mais que um sorriso benevolente, tudo isso, um mês depois está esquecido | ou substituído, com vantagem e novidade, pela próxima leitura | … | já para um livro maior não é necessária memória | a sua leitura esculpe-nos uma nova anatomia | biografa-nos, de algum modo | e penso: | é pois comum, porque só pode ser comum, porque a maioria de nós é comum, nós, leitores, ou nós, escritores, a maioria dos romances ser “comum” | quem poderia escrever um livro “raro” [ainda que pudesse ficar um palmo aquém da obra-prima] acaso não fosse já, vá-se lá compreender como, uma personalidade de rara sensibilidade humano-literária? | é por isso que não está à minha mercê ler Joyce [ três tentativas falhadas, a intervalos de anos] tendo já o tempo demonstrado tratar-se de uma obra-prima [ recusada quando escrita, naturalmente ]

    _de_

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  7. abstracto | romances | haja neles algo que, depois de lido, não haja como esquecer, nunca mais| uma qualquer personagem a ficar dentro de nós, para sempre | tais inquietações ou prazeres que nos vejamos a pensar ou a sentir sem remissão || muitos contêm todos os atributos da arte ficcional | já menos conseguem ir mais longe: exibindo um código estilístico próprio, singular | raros são universais [ estes não se esquecem ] muito do que é publicado e premiado não atinge esse estatuto | bem escritos, sem dúvida, porém pouco ou nada acrescentam ao que já foi escrito | ao que o leitor possa já ter lido | alguns há que sobressaem pelo talento estilístico, embora por vezes expondo historias aparentemente “menores” que se colocam ao serviço da escrita | como se a historia houvesse sido inventada para que o estilo tenha uma passadeira por onde desfilar ||| literatura de entretenimento, recreativa, função já muito estimável | porém | tão recomendável como um hotel que valha o preço: sem mais | muita imita e descomplica, tornando-se “habitável”, Lobo Antunes que o diga [ou o próprio Saramago], cuja contrafacção só está ao alcance de ingénuos [não ultrapassarão 200 páginas] ou de destemidos que não sairão de um tal labirinto _ alguns ainda por lá se encontram | mas, as temáticas! o drama, que nem drama é, a felicidade, que nem felicidade é, a angústia, que é angústia de águas pouco profundas, o humor, que não abre em nós mais que um sorriso benevolente, tudo isso, um mês depois está esquecido | ou substituído, com vantagem e novidade, pela próxima leitura | … | já para um livro maior não é necessária memória | a sua leitura esculpe-nos uma nova anatomia | biografa-nos, de algum modo | e penso: | é pois comum, porque só pode ser comum, porque a maioria de nós é comum, nós, leitores, ou nós, escritores, a maioria dos romances ser “comum” | quem poderia escrever um livro “raro” [ainda que pudesse ficar um palmo aquém da obra-prima] acaso não fosse já, vá-se lá compreender como, uma personalidade de rara sensibilidade humano-literária? | é por isso que não está à minha mercê ler Joyce [ três tentativas falhadas, a intervalos de anos] tendo já o tempo demonstrado tratar-se de uma obra-prima [ recusada quando escrita, naturalmente ]

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  8. perdoem a duplicação | a página não se regenerou e …

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    1. António Luiz Pacheco8 de maio de 2014 às 09:14

      Perdoado estás Extraordinário Anónimo, que tão bem dizes e portanto presumo que sentes...

      Gostei... e afinal não estamos todos nós, leitores, repletos, prenhes até, de tantos amigos que fizemos leituras fora? Creio que uma das coisas mais importantes num livro é isso mesmo: ficar com saudades do ou de personagens, como se amigos fossem.

      Um abraço

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