Cesário integral

No Dia Mundial do Livro, entre muitíssimas outras actividades, foi lançada em Lisboa a obra integral de um dos meus poetas favoritos, Cesário Verde. Curiosamente, a sua organização ficou a dever-se não a um estudioso português, mas a um académico brasileiro, Ricardo Daunt, professor catedrático da Universidade de São Paulo, que veio a Portugal expressamente para participar na sessão, em que falou também a professora Annabela Rita. Além da obra poética completa, revista e ordenada segundo semelhanças formais e temáticas dos textos de Cesário publicados em vida, o volume inclui uma biografia cronológica e ainda toda a sua correspondência anotada. Daunt tem uma admiração profunda por este português que Pessoa considerava um mestre e que foi, segundo ele, um precursor da modernidade na poesia portuguesa, «superando o impasse do modelo realista para criar uma poesia que não se contenta em permanecer no interior da cápsula do real». Tendo Cesário Verde morrido em 1886, sem ter reunido a sua obra, ela foi compilada um ano depois por Silva Pinto, mas houve coisas que ficaram dispersas e, além disso, não havia ainda nenhuma edição que incluísse a biografia e um estudo crítico. Está é, pois, uma boa razão para voltar a Cesário.

Comentários

  1. «não havia ainda nenhuma edição que incluísse a biografia e um estudo crítico»?????????
    Então o q é o livro editado em 1964 (posteriomente actualizado e com a 8.ª edição em 2010), com coordenação de Joel Serrão, sob o título 'Obra Completa', de Cesário Verde??
    Não duvido do mérito desta nova edição da obra de Cesário, mas suprimir tudo o q foi feito anteriormente para efeitos de promoção só se explica de duas formas: ou ignorância ou desonestidade.

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    1. também pensei nesse livro, Rui.

      mas depois lembrei-me na extensa obra de António Quadros sobre Fernando Pessoa, que deixou de estar nas primeiras filas dos trabalhos sobre o autor...

      há a tendência de desvalorizar o antigo (ultrapassado, dizemos muitas vezes...)

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    2. Ora, ora, caro Rui. Essas contrariedades sempre fizeram parte da vida de Cesário.
      Quer ver, ó?

      «Contrariedades

      Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
      Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
      Incrível! Já fumei três maços de cigarros
      Consecutivamente.

      (...)

      O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
      Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
      Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
      Um folhetim de versos.

      Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
      No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
      Mais uma redacção, das que elogiam tudo,
      Me tem fechado a porta.

      A crítica segundo o método de Taine
      Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
      Muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa
      Vale um desdém solene.

      (...)

      Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
      Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
      Independente! Só por isso os jornalistas
      Me negam as colunas.

      (...)

      A adulação repugna aos sentimento finos;
      Eu raramente falo aos nossos literatos,
      E apuro-me em lançar, originais e exactos,
      Os meus alexandrinos...

      (...)

      Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
      Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
      Conseguirei reler essas antigas rimas,
      Impressas em volume?

      Nas letras eu conheço um campo de manobras;
      Emprega-se o "réclame", a intriga, o anúncio, a "blague",
      E esta poesia pede um editor que pague
      Todas as minhas obras...

      (...)»

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    3. Olá Luís,

      muito bom o "Fernando Pessoa, vida, personalidade e génio" do António Quadros, edição da Dom Quixote, possivelmente esgotada.
      :-) Antonieta

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    4. Excelente Cesário de quem tenho a obra completa e actual.

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  2. duzentas e cinquenta páginas | obra completa | duzentas e cinquenta páginas | maior que as maiores | trinta anos de vida | morto há cento e trinta anos mas moderno como a modernidade de amanhã ||| duzentas e cinquenta páginas, apenas duzentas e cinquenta páginas ? apenas

    _de_

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    1. António Luiz Pacheco13 de maio de 2014 às 02:16

      Polémicas à parte, eu que nem sou leitor de poesia e conheço a obra de Cesário Verde apenas do liceu, atrever-me-ia a dizer que foi um poeta apaixonado e melancólico... talvez o primeiro urbano-depressivo?

      Não estou a diminui-lo notem, mas porque do pouco que conheço da sua obra parece-me sobressair esta característica, actual, para além da qualidade...

      Saudações campesinas do Bairro Ribatejano!

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  3. Já que estamos em dia de grandes poetas, relembrar com um seu poema com réplica ;) que ontem o Manuel Alegre fez 78 anos.

    «Portugal
    O teu destino é nunca haver chegada
    O teu destino é outra índia e outro mar
    E a nova nau lusíada apontada
    A um país que só há no verbo achar»
    Manuel Alegre, in "Chegar Aqui"

    «Portugal
    O teu fado é nunca ter destino
    É deriva num mar chão a onda
    É adornar uma multidão sem tino
    Envolvida numa pobreza hedionda.»
    Pedro A. Sande, in «Estarei Aqui»

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  4. Tal como Cesário, também "eu raramente falo aos nossos literatos" e fico cheio de "raivas frias" quando me rejeitam os originais. Como ele, " hoje eu sei quanto custam a criar / As cepas, desde que as podo e empo. / Ah, o campo não é passatempo / Com bucolismos, rouxinóis, luar."
    Da sua obra, destaco os geniais Sentimento dum Ocidental, obra maior da nossa literatura, e a longa narrativa autobiográfica em verso Nós.
    Não aprecio alguns dos seus poemas, que me parecem menores, como A Débil, em que predominam posições machistas e já fora de moda no seu tempo.
    JCC

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  5. Claudia da Silva Tomazi13 de maio de 2014 às 11:39

    Boa lembrança a imaginar o sonho juvenil e ler melhor ainda, parabéns aos autores, editoras e afins por acreditarem nas letras.

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  6. Não sabia como contacta-la. A presente constitui uma tentativa. Li o seu livro. Tocou-me. Muito. Tenho uma história semelhante que nunca viu a luz. Talvez não preste. Contudo, gostaria que me desse a sua opinião.

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