Os clássicos
Conheço uma escritora cubana que tem um gato às riscas, cor de laranja, muito gordo. Chama-se Horácio e foi comprado (ou adoptado) quando ela vivia em Itália, daí o baptismo. Porém, assim que o olhamos, ocorre-nos imediatamente o nome Garfield (é igualzinho ao boneco, até na sua propensão para dormir), porque, já se sabe, de Horácio, o poeta latino da Antiguidade, pouco lemos e não nos lembra nada de especial. Talvez as tiras de Garfield também se tornem um clássico daqui a cinquenta ou cem anos, mas é ainda demasiado cedo para o sabermos. Admito que não haja tempo para tudo – e queremos andar actualizados (eu sobretudo, que me dedico à literatura mais jovem) –, mas conheço muita gente que, a partir de certa idade, diz que só lê clássicos, pois, se vingaram após tanto tempo e continuam a ser publicados, é porque são seguramente livros bons. Recentemente, fui contactada pelo projecto Adamastor, que se ocupa da edição digital de clássicos da literatura, para responder a algumas perguntas sobre a importância dos clássicos. Antes e depois de mim, outros escritores, como Mário de Carvalho, Eduardo Pitta ou Rentes de Carvalho, também responderam à pergunta «Porquê ler os clássicos?». O link da minha entrevista vai aí abaixo, para quem quiser ler. Hoje, como disse um dia destes um dos leitores do blogue (e com alguma razão), estou a encher chouriços. Desculpem.
Pois então encha... que enche bem!
ResponderEliminarAo apresentar o gato, pela descrição, deverá acrescentar "capado"... ou castratii, se quiser manter a italianice...
Os clássicos? Mas sem dúvida, acho que não se deve só ler clássicos como não se deve comer só arroz, mas ir alternando. Aliás para mim a leitura pode sempre ser comparada ao cozido á portuguesa... há de tudo, e deve comer-se de tudo.
Vou ler a sua entrevista com mais tempo e atenção!
Saudações Cabindas!
Como estou aqui à espera no escritório... e uma espera cá por estes lados é mesmo "esperar", afinal fui ler. É rápido, de resto...
EliminarDiz a Nossa Extraordinária Anfitriã: "... mas creio que aquilo que distingue um clássico da literatura é a sua resistência ao tempo, a capacidade que determinada obra tem de, independentemente do século em que foi escrita, poder ser lida sem ver as suas qualidades beliscadas."
Sem dúvida, mas permito-me acrescentar o que na minha óptica faz um clássico da literatura: - O que diz está sempre actual! Ou seja, um clássico é eterno nas avaliações e conceitos, nas idéias. Shakespeare é talvez o melhor exemplo...
Este é um tema de conversa em tertúlia muito interessante, nada de encher chouriços!!!!!
Atenção, Horácio deixou-nos uma extraordinária "Ars Poetica", fundamental no estudo de qualquer aluno de letras, como o foi para mim. E eu lembro-me...
ResponderEliminarEstou de acordo com o extraordinário Pacheco, mas qual encher chouriços, bem interessante, vou ler a entrevista com atenção. Eu sou suspeito porque, para mim, tudo o que tenha a ver com livros é interessante.
ResponderEliminartambém não vejo a Rosário a encher chouriços. :)
ResponderEliminaré uma maneira de nos dizer bom dia, com mais palavras.
Conheço bem o Projecto Adamastor ;)
ResponderEliminarÉ graças aos downloads que lá faço que tenho relido clássicos de leitura obrigatória dos meus tempos de liceu, mas de cujos enredos praticamente nada lembrava. Reli, assim, "Eurico, o Presbítero" (na minha opinião, envelheceu um pouco, sobretudo, na maneira tendenciosa de interpretar a História) e ando agora às voltas com "A Queda dum Anjo", que está a ser uma boa surpresa na caracterização da sociedade da época, feita com muito humor (mau-grado o abuso dos discursos na Câmara, a atual Assembleia da República; têm a sua razão de ser, mas tornam a leitura um pouco exaustiva).
Já agora, um outro site onde se podem descarregar clássicos (alguns nem tão antigos assim) é o Luso Livros:
http://www.luso-livros.net/
É verdade que o "Eurico, o Presbítero" envelheceu um pouco.
EliminarÉ visível a forma tendenciosa como a história é contada mas, há que ler atendendo ao espírito da época.
Quem nos diz que a "actual" visão será a perspectiva correcta? Será que também essa visão (politicamente correcta) não será revista no futuro?
Apesar das cruzadas serem hoje mal vistas há uma corrente de historiadores que começa a divergir dessa ideia. Dizem que tanto a Reconquista como as Cruzadas foram cruciais para travar o ímpeto do Islão, bem como criar os laços quebrados de comércio entre o Oriente e Ocidente. O que - e nisto deve concordar - permitiu que as guerras intestinas dos Estados/ reinos/ principados/ Ducados e Condados europeus se amenizasse um pouco para centralizar o poder nos Reis, terminando assim com o feudalismo bastardo e permitindo o movimento do Renascimento.
O enfoque do livro foi na queda do Reino dos Visigodos. Ora, se a personagem principal é um Godo, e se a força invasora eram os Mouros descendentes dos Califas, qual é o problema dessa visão contra o povo invasor?
Adorei e ainda adoro essa obra... Velhinha mas Imortal, pois sobrevive aos moralismos de época.
E agora explique lá: qual é a verdadeira visão tendenciosa da história?
P.S. Todas as guerras, religiosas ou de libertação, têm na sua génese um pendor economicista. Os homens e os Estados vão para a guerra porque há a possibilidade de enriquecer ou perder essa riqueza. Tudo o resto, um pouco à semelhança da beleza na arte, é um ENGODO para enganar papalvos que precisam de uma desculpa moral.
Diga-me uma guerra que tenha surgido por outros motivos que não a riqueza.
Tenho dito...
Atrevo-me a concordar consigo, Extraordinário Víctor! Se bem que entenda onde a Cristina quer chegar, mas isso não lhe tira a si nem um pingo de razão.
EliminarCada época é do seu tempo...
diria lapalissianamente!
Eu gosto mais de uma visão neutra dos acontecimentos. Não maldigo nem exalto as Cruzadas e assim procedo em relação ao Islão.
EliminarÉ claro que a Reconquista não tinha como objetivo principal expandir a fé cristã. E também é verdade que as Cruzadas foram, entre outros motivos, uma maneira de apaziguar os soberanos cristãos e sua nobreza guerreira, que davam cabo uns dos outros, unindo-os num objetivo comum.
Há uma cena no "Euríco, o Presbítero" em que os sarracenos tentam atacar umas freiras para as levarem para o seu harém. As freiras preferem sacrificar-se, morrendo às mãos da abadessa, salvo erro, que, para isso, se serve de uma espada ou adaga (já foi há alguns meses e a memória falha-me). Os sarracenos assistem à cena do sacrifício através de uns portões gradeados que tentam desesperadamente abrir, a fim de arrebanhar, pelo menos, algumas virgens. O autor permite-se um comentário, do género: que diferença de valores entre a religião do Nazareno e a de Mafoma! Acho este comentário extremamente tendencioso. Até parece que os guerreiros cristãos não violavam mouras virgens!!!
Ora, amigo Pacheco, estamos aqui a dizer que os clássicos não envelhecem, que defendem valores universais, de todas as épocas, e vocês vêm-me agora com essa coisa de "cada época é do seu tempo"? Ou é clássico, ou não é!
EliminarPois ... lá está:
Eliminar- O comentário não é tendencioso, e sim de acordo com o tempo em que foi escrito!
Se formos a ver, tendenciosa é a sua opinião, como é a minha, ou a do Víctor! Porque cada um vê as coisas à sua maneira, podemos é mesmo sendo tendenciosos, ser esclarecidos, isto é ter a noção de que somos tendenciosos, e moderar-nos.
Veja a Cristina que, se em tempos havia freiras que preferiam a morte pela espada ou adaga à desonra, hoje há mães muçulmanas que enviam os filhos para a morte, alegremente, porque em nome de Alá (acham elas). E o mais curioso é que acreditam piamente que assim irão para o Paraíso, onde terão não-sei-quantas-mil virgens à disposição, mesmo correndo o risco de serem elas a fazer parte desse corpo de servas para-todo-o-serviço, já que a mulher islâmica nada pode esperar nem depois de morta.
Talvez por isso se possam fazer as tais ligações a despeito do tempo e da época... e por isso seja um clássico.
O fanatismo não mudou... apenas adoptou outras roupagens... antes era a espada, hoje usa-se o berço-bomba!
Saudações cabindas!
Para mim é um clássico absoluto e intemporal.
EliminarNo entanto, e para responder à sua questão de ser ou não um "clássico", diga-me lá o que seria da literatura como forma de arte se não obrigasse a um esforço por parte do leitor.
Quando a senhora leu a passagem citada, avaliou-a com a sua mentalidade do século XX/ XXI. Aceito isso, mas agora chega a parte do esforço...
Esqueça a arrogância da sapiência no nosso tempo.
Tente avaliar a obra naquilo que tem de intemporal (um excelente romance de cavalaria)...
ou até com os conceitos de um homem do séc. XIX (Alexandre Herculano) que ainda por cima era um homem bem à frente do seu tempo.
Por toda a arte e literatura (Bíblia incluída) podemos encontrar partes menos correctas ou tendenciosas
À luz de toda uma história e conhecimento é fácil julgar o que está para trás, lixado é não cometer os mesmos erros no futuro.
Esqueça o literalismo e tente chegar a um compromisso, tente relativizar.
À luz do século XII e até da própria história, que o compara com os seus contemporâneos Ricardo Coração de Leão, Saladino foi um Estadista humano, decente e bom. Nos nossos dias se algum Presidente ou Emir Árabe tentasse fazer a mesma coisa (cortar as cabeças dos Templários e Hospitalários que foram feitos prisioneiros de guerra logo após a batalha de Hattin e até de conquistar Jerusálem) seria considerado um monstro.
Acho que estamos aqui a misturar duas coisas diferentes, caro Vítor, uma, do foro literário, e outra, do foro histórico, a ver:
Eliminar1 - O que distingue um clássico de uma obra datada.
2 - Enquadrar as atitudes das personalidades históricas no seu tempo.
Quanto ao ponto 1: na minha opinião, a obra de Alexandre Herculano perdeu um pouco da sua aura intemporal por causa de comentários do tipo do exemplo que dei.
Quanto ao ponto 2: também veríamos muitas atitudes de Afonso Henriques, hoje em dia, como sendo sanguinárias, mas ele foi um homem perfeitamente integrado no seu tempo.
Eu acho que é o Vítor que está a confundir ficção histórica (literatura) com realidade histórica (história).
Não sei se naquela altura havia freiras que preferiam a morte à desonra. Na ficção (repito: ficção) de Alexandre Herculano havia; na realidade, não sei, não conheço nenhum caso, em todos os livros de História que li não se me deparou nada parecido.
EliminarNão confundamos ficção literária com factos históricos. Leia por favor a resposta que dei ao Vítor Ferreira.
Hoje também há fundamentalistas cristãos, na América do Norte, que rejeitam a teoria de Darwin e mantêm as suas crianças na ignorância; e também há fundamentalistas cristãos contra o aborto que põem bombas à entrada de hospitais onde o dito cujo se pratica. Fundamentalismos há-os em todo o lado, ao darmos exemplos que consideramos bons ou maus devemos procurá-los nos dois lados.
Olá Cristina,
EliminarVamos lá ver se não discutimos o sexo dos anjos...
Deu para perceber que conhece tanto ou mais do que eu de história (tire daqui toda a conotação arrogante) portanto, vamos pôr isso de parte.
Em resposta às suas questões:
"1 - O que distingue um clássico de uma obra datada."
- Simples, a qualidade foi e é reconhecida por pessoas de diversos tempos.
A obra foi escrita no séc. XIX e foi lida por mim em pleno séc. XX e XXI.
Ou seja, eu, um produto destes dois séculos, li e gostei. Será que isso não é prova de intemporalidade?
"2 - Enquadrar as atitudes das personalidades históricas no seu tempo."
- Quem julgou a Obra e por arrasto o Autor foi a Cristina, não eu.
Já agora, deixe-me pôr uma questão:
Será que para uma obra ser intemporal tem que ser ABSOLUTAMENTE intocável e TRANSVERSAL do ponto de vista moral?
Isto hoje tem sumo. Dá pica uma discussão destas...
Fico respeitosamente a aguardar uma resposta da Cristina...
Não, para ser intemporal, uma obra não tem de ser «absolutamente intocável e transversal do ponto de vista moral». Tudo isto é muito subjetivo, incluindo a moralidade.
EliminarRepare, eu não disse que a obra não tem qualidade e achei extremamente interessante ler sobre aquela época, acho mesmo que devia haver mais ficção sobre ela. Mas, na minha opinião, a obra está um pouco datada. Estou agora a ler "A Queda dum Anjo" e Camilo Castelo Branco viveu na mesma altura, salvo erro. Nota-se perfeitamente que viveu e escreveu no século XIX, mas há um certo desprendimento, uma ironia, que, a meu ver, torna a obra mais intemporal.
Cristina, o fanatismo não é ficção, é um facto, e é intemporal!
EliminarNão estou a misturar... não eu, quem mistura um pouco é até você, ao trazer a história das freiras, que se calhar foi uma artifício criativo do romancista Herculano e não do historiador.
Houve tempo em que os fanáticos se atiravam nús e de espada contra um exército, hoje atiram aviões contra edifícios... ou seja continua tudo na mesma, só a forma é que muda...
Além disso as mentalidades alteram-se, como se alteram as virtudes... há que saber perceber isso, é aliás um dos muitos encantos da literatura, pelo menos para mim, e surpreendente quantas vezes conseguimos encaixar o que se pensava numa época, na actualidade... a Morgadinha dos Canaviais p.e. está cheio desse casos! Já o releram desde o liceu? É espantoso... o tio Vicente ecologista, o pai da morgadinha político venal tipo Armando Vara, o missionário e a coorte de beatas!
Vale a pena...
Bom fim de semana!
Não sei onde foi buscar essa história de eu dizer que o fanatismo é ficção. Leia bem o meu comentário, eu não disse nada disso.
EliminarFui eu que disse que a história das freiras era um artifício criativo do romancista, não sei porque veio repeti-lo como se fosse afirmação sua.
Gosto muito de discutir ideias, mas não gosto de ver os meus argumentos distorcidos.
Repito: "...quem mistura um pouco é até você, ao trazer a história das freiras, que se calhar foi uma artifício criativo do romancista Herculano e não do historiador."
EliminarNão estou a usar a afirmação como sendo minha, de modo algum, apenas a repetir o seu argumento e a frisar a separação do romancista/historiador.
Porque ao romancista é legítimo ficcionar.
A Cristina desculpe-me, mas está muitas vezes de "faca afiada" nas conversas, como se a estivessem a agredir. Esta sua reacção mostra-o bem. Gosto muito de a ler e de trocar opiniões consigo, o facto de discordarmos num ou noutro detalhe não nos põe em campos opostos, pois repito que só divergimos nalguns detalhes.
Neste caso, talvez por defeito meu e incapacidade de compreender ou de me expressar, fiquei com a impressão de que a Cristina estava criticar Herculano segundo a sua visão actual dos factos e sem ter em conta a visão dele naquela época, ou até a visão das tais freiras numa época ainda mais remota.
Confesso que estranhei pois a sei como uma mulher da área da história, que saberá isso até muito melhor do que eu, mas se a entendi mal, repito que foi por defeito meu e peço desculpa.
Por outro lado, como noto por vezes em si um feminismo algo exacerbado, referi que a entendia, pois na época referida, fosse no Islão ou na Cristandade, a mulher tinha o estatuto que bem sabemos.
Peço desculpa pela confusão e distorção, involuntária e creia-me na melhor das disposições.
Grato pela sua atenção.
PS - pretendi subir o salário das senhoras que recolhem o dendê para um nível melhor, ficando ao nível dos homens que "salsam" o que para mim ainda é injusto, dado que o trabalho de recolher e transportar os cachos à cabeça e depois nas cestas, para fora da mata, é um trabalho muito mais duro do que apenas desmanchar (salsar) os ditos cachos. Levantei uma polémica tremenda, pois é impensável que uma mulher ganhe mais ou mesmo tanto quanto um homem! É assim ainda em 2014 na aldeia de Sassazau, até o coordenador e o secretário me vieram dizer que não podia ser!
Como não quero uma guerra colonial, e nem sexual, pois fui obrigado a recuar, ou os homens abandonariam o trabalho...
Como vê, apesar de Marialva, pugno pela justiça e pela dignificação, só que nem sempre consigo!
Saudações cabindas!
Pois é precisamente ao separar o romancista do historiador que eu critico Herculano nessa cena e continuarei a criticar. Herculano deu um contributo muito grande à História de Portugal, mas é ponto assente que a sua visão dos factos está ultrapassada. O Prof. José Mattoso cita-o constantemente, mas também o critica, tendo, porém, sempre em vista que Herculano não tinha à disposição os métodos atuais.
EliminarAtenção: não é isso que eu critico! Herculano era um homem do seu tempo, como todos nós somos criaturas do nosso tempo, e tinha a visão da sua época. É imperioso ter isso em conta ao ler os seus tratados históricos.
Na ficção, é diferente! Eu acho (uma opinião própria, há quem pense diferente, mas eu penso assim), eu acho, dizia, que o autor de um romance não deve comentar as cenas que descreve. Pode descrever e criar as cenas que quiser e eu, neste caso, não critiquei a cena em si, nem a atitude das freiras. Nisso é que eu penso que o António Luiz distorceu aquilo que eu disse. Repito: não critico, nem a cena, nem a atitude das freiras! O que eu critiquei foi o comentário do autor. Herculano age como se estivesse a escrever um ensaio, quando estava a escrever uma ficção. E serve-se de uma cena de ficção para favorecer uma religião em relação à outra. Penso que um pormenor destes data irreversivelmente uma obra!
Se estar de "faca afiada" é defender o meu ponto de vista, sem insultar ninguém, pois estarei. E se sou feminista (eu acho que até sou pouco), sou-o com convicção e não considero isso um defeito, porque acho que a igualdade ainda está longe de ser plena.
Entendidos... então, e, amigos como sempre!
EliminarEheheh!
Compreendi perfeitamente o que diz sobre Herculano e a sua crítica, se bem que... eu acho que o autor, quando seja o narrador, pode bem meter a colherada... digamos que ser também comentador, uma espécie de consciência do que está a narrar. Claro que dependendo do género literário, mas acho que é aceitável.
Acontece frequentemente de forma velada ou totalmente aberta...
Saudações cabindas
Caro António Luiz, sem pretensões de ter a última palavra, apenas me lembrei de que publiquei no meu blogue a minha opinião sobre "Eurico, o Presbítero", a 3 de Dezembro passado, ainda sem fazer ideia da discussão que se desenvolveria aqui. E ainda que abusando da hospitalidade da nossa anfitriã, aqui vai, a título de curiosidade (talvez devesse tê-lo feito antes, quiçá evitaria alguns mal-entendidos):
EliminarQuando andava no liceu, este livro era de leitura obrigatória, penso que no 11º ano. Apesar disso, não me lembrava de quase nada, apenas de um clérigo em reflexões enlevadas e aborrecidas, pela montanha.
Aproveitando a sua existência como ebook gratuito no Projecto Adamastor, descarreguei-o para o meu Sony. Confesso que estava curiosíssima, pois, aquilo que achamos chato, aos 16 anos, por vezes, encanta-nos, depois de termos passado os quarenta. Além disso, Alexandre Herculano foi um grande historiador, frequentemente citado pelo Prof. Mattoso (se bem que consciente de certas limitações, dada a altura em que viveu).
Agora que o li, tenho uma opinião bastante dividida. Em primeiro lugar, é muito compreensível que um/a adolescente não tenha pachorra para leituras destas, num estilo muito datado e pomposo, cheio de divagações exaustivas. Por outro lado, foi uma agradável surpresa constatar que se trata de um romance histórico do tempo em que os muçulmanos invadiram a Península Ibérica, obrigando os cristãos resistentes a refugiarem-se nas Astúrias. É um período pouco explorado entre nós, mas que considero fascinante. Alimento o desejo de pesquisar sobre o reino visigótico, mas tem-me faltado o tempo.
O problema deste livro é mesmo o estilo datado, entre a poesia e a prosa. O próprio autor nos diz, numa nota (p. 168): «Sou eu o primeiro que não sei classificar este livro; nem isso me aflige demasiado. Sem ambicionar para ele a qualificação de poema em prosa - que não o é por certo - também vejo, como todos hão-de ver, que não é um romance histórico, ao menos conforme o criou o modelo e a desesperação de todos os romancistas, o imortal Scott» (referindo-se a Sir Walter Scott).
Apesar de escrito por um historiador, o romance toma claramente o lado dos cristãos, contra os mouros cruéis. Essa posição atinge o seu auge numa cena em que as freiras de determinado mosteiro preferem morrer, a cair nos haréns dos pagãos. Quando os mouros disso se apercebem, ficam desesperados pela perda das valiosas virgens e tentam rebentar os portões que os separam do local do sacrifício. Alexandre Herculano escreve: «O Evangelho e o Alcorão estão frente a frente no resultado das suas doutrinas. É sublime a vitória do livro do Nazareno!» (p. 93).
Interessantes igualmente dois anacronismos:
- o uso da palavra «oxalá» por parte dos godos, quando todos sabemos que é de origem islâmica e só se tornou usual, entre nós, vários séculos mais tarde. Enfim, talvez o estudo linguístico ainda não estivesse muito avançado, em meados do século XIX.
- as várias referências a armaduras, como na p. 63: «sufocado pela armadura, vacila e cai»; que eu saiba, as armaduras só começaram a surgir em fins do século XIII, até lá, usavam-se os lorigões (vulgo cota de malha).
O livro não deixa de ser interessante para quem goste de romances históricos e queira saber mais sobre a época. E, apesar de um início monótono, acaba por criar suspense, mau-grado o fim exacerbado, na melhor tradição de "Tristão e Isolda" ou "Romeu e Julieta", no amor impossível entre Eurico, obrigado ao celibato, e Hermengarda, a donzela que ele salvou das garras de um emir.
A publicação deste texto, a 3 de Dezembro de 1013, pode ser comprovada aqui:
http://andancasmedievais.blogspot.de/2013/12/eurico-o-presbitero.html
2013, claro, infelizmente, ainda não nos é permitido viajar no tempo.
EliminarJá agora, mais um reparo: não sei se já havia profissão de mulheres no século VIII. São Bento, o primeiro a fundar uma Ordem Monástica, no século VI, só previu a profissão de homens. A de mulheres surgiu mais tarde, mas confesso que não sei quando.
Boa idéia esta de nos trazer o comentário!
EliminarComungamos pelo mesmo interesse pela referida época, antes da nacionalidade. Tenho um excelente livro, comprado por acaso num CI em Espanha, com os reis godos! Não me lembro agora se é português ou espanhol... mas parece-me que é português, só que por cá há pouco interesse na época e na matéria... Pouca gente sabe que Nossa Senhora da Nazaré, foi trazida para o Sítio por um rei godo (Rodrigo) que derrotado pelos moiros veio fugindo, passou a Mérida onde a recolheu e veio até ali ao mar, a um dos nossos muitos finisterras e lugares sagrados.
De acordo com o que diz sobre a "armadura"! É uma falha grave num historiador...
Também pode espantar o facto de ele ter a tal visão demasiado "cristã", se nos lembrarmos de que era maçon! Mas provávelmente foi uma opção comercial, dado que a versão e visão oficial era essa, de anti-moirama...
Não sou grande simpatizante dos actuais muçulmanos, ortodoxos, como dos cristão aliás... mas o Islão tem princípios morais elevados como o Cristianismo, e é notável por exemplo o facto muito ignorado de que está escrito que a fé não pode ser imposta, tendo de ser abraçada! Isso explica a aparente tolerância que na época os moiros mostraram ao colonizar a Península e ao permitir o culto Cristão e Judaico...
Não concorda????
Peço desculpa de estar a monopolizar o espaço e o tema... mas é interessantíssimo e para mais com a interlocutora em causa!
Cota de malha é... uma armadura.
EliminarBem resistente contra golpes de corte e até estocadas de espada ou flecha. No entanto, não protegia contra a violência de uma maça, martelo ou machado (os famosos franquisques que o autor gostava de referir, se bem que fossem, estes últimos, armas de Francos... daí o nome). Por isso, porque as cotas de malha não protegiam contra golpes traumáticos os militares endinheirados da altura (Bucelários) tinham que usar os chamados hauberges ou gibões grossos por debaixo da cota, de forma a terem uma protecção extra.
No entanto, que fique bem claro, a cota de malha (lorica amata) usada desde a antiguidade até inícios do século XIV era uma armadura.
Ao contrário de nós, Alexandre Herculano não teve a ajuda das categorizações científicas (ex: Oakshoat) do séc XX que permitiram datar os tipos de espadas e armaduras.
EliminarPortanto, o anacronismo, se é que existe, está presente apenas no uso do Franquisque pela personagem Eurico.
No entanto, no tempo em que demorou o Império Visigodo, houve diversas batalhas entre os Francos de Carlos Magno e os Visigodos na zona dos Pirinéus. Por isso, havendo pilhagens aos mortos no fim das batalhas, e sendo todos os objectos de metal riquezas apetecidas e necessárias, nem sequer isso eu considero um Anacronismo, pois era comum usar uma espada, machado, calçado, capacete de um inimigo derrotado e morto, desde que este material fosse inequivocamente de melhor qualidade.
E... siga a peleja.
Sim, Herculano não dispunha das técnicas e dos métodos de hoje em dia, também frisei isso. E é indiscutível que ele permitiu um grande avanço à História, por isso, ainda hoje é citado.
EliminarQuanto à cota de malha (loriga ou lorigão) e armadura, fica a dúvida. O certo é que ele fala apenas em armadura, o que é muito vago.
Não há dúvida de que os fanáticos muçulmanos atuais são perigosíssimos, mas tal não se deve apenas à religião. Os países muçulmanos são muito populosos e pobres, o que implica povos fáceis de manipular. E os governantes/ditadores sabem, como sempre, aproveitar-se bem disso(isto dito assim de maneira simples).
EliminarOs primeiros muçulmanos que invadiram a Península Ibérica eram bastante tolerantes com judeus e cristãos, sim. Mas depois da queda do califado de Córdova, no início do século XI, houve vagas de conquistadores do Magrebe muito intolerantes, como os almorávidas e os almôadas. Quem mais sofreu com isso foram os moçárabes, cristãos que viviam entre os muçulmanos, que aliás também não eram bem vistos pelos cristãos vindos do Norte. À altura da conquista de Lisboa, os cruzados deram cabo dos moçárabes e Afonso Henriques não foi capaz de, ou não quis evitá-lo.
Houve algo que não percebi...
EliminarGostou ou não do "Eurico, o Presbítero"?
Mais ou menos.
EliminarDesculpe, mas não me consigo exprimir melhor. Se, por um lado, é interessante (principalmente para quem goste de História), por outro, achei-o datado, isto é, na minha opinião, envelheceu (o que não deixa de ter o seu charme).
Caro Vítor Ferreira,
Eliminare porque acho fascinante esta questão dos clássicos, fui ler algumas das entrevistas do Projecto Adamastor. À pergunta:
«A definição de clássico está longe de ser consensual. Afinal, o que torna uma obra literária um clássico?»
Quase todos os entrevistados responderam que é a questão de ser intemporal, de poder ser lido durante vários séculos sem perder qualidades. Mas Mário de Carvalho acrescenta algo a esta definição. Ele diz que «clássico pode ter dois sentidos». Acrescenta-lhe, então, um segundo sentido, nas suas palavras, «mais corrente, que designa qualquer obra literária do passado, independentemente da sua qualidade. Estas merecem também ser preservadas e divulgadas. Há sempre um olhar a que podem fazer falta».
Achei esta resposta fascinante, principalmente o haver «sempre um olhar a que podem fazer falta». Tendo em conta a minha opinião pessoal sobre "Eurico, o Presbítero", penso que a obra se pode enquadrar neste segundo sentido. Acho que era isso que eu queria dizer, quando referi que mantinha «um certo charme». Claro que Mário de Carvalho soube explicar muito melhor do que eu ;)
Pode ler a entrevista aqui:
http://projectoadamastor.org/porque-ler-os-classicos-entrevista-a-mario-de-carvalho/
A minha geração foi uma geração privilegiada. Aos 6 anos lia o Tio Patinhas, o Tintim, o Falcão, etc. aos 7 anos lia Enid Blyton , aos 12 lia os policiais da Vampiro e coboiadas, aos 13 os Mercenários, os Pretorianos, ... de Lartéguy , aos 14 anos já lia os clássicos em capas encadernadas a preto (romance clássico generalista) e a vermelho (os clássicos do romance histórico). Foi assim que conheci os clássicos-clássicos como Dante, Boccacio , etc. e os clássicos menos clássicos como Honoré de Balzac , Tolstoi , Fenimore Cooper e tantos, tantos outros. Como a minha progenitora era professora de Português e Francês por via do Liceu Francês, embora fosse de Germânicas, repousavam também em minha casa hordas de livros de capas flexíveis e moles amareladas de inúmeros autores como Hemingway , Sartre, Beauvoir , etc. e toda a esquadra Portuguesa desde Gil Vicente. Curiosamente, a poesia com Pessoa, Eugénio de Andrade, Sofia, Torga, etc. descobri-a já aos 16, 17 anos, bem como tive uma fase militante do teatro com Stau , Santareno, etc. Mais tarde os livros técnicos, de política, de viagens, tiveram durante muito tempo a primazia. As nossas leituras, os nossos gostos e interesses parecem assim estar faseados e ir acompanhando a corrente dos tempos. Mas os clássicos são, sem dúvida, os clássicos! Quantos do presente serão clássicos no futuro?
ResponderEliminarA resposta é incógnita; nas entrevistas, as opiniões são díspares. E falta deixar falar o tempo e talvez algumas influências.
EliminarPodem alguns ser injustamente esquecidos. Porém, o que ficar, é de certeza bom. Talvez como o mundo de Leibniz seja o melhor. Resistiu.
Sem dúvida, Beatriz! E cada vez mais o digital afastará as influências e preservará o que for de preservar! Como podemos extrapolar do dito um deste dias pela Cristina Carvalho, sobre a função dos morcegos na preservação da biblioteca de Mafra, no futuro já nem precisaremos dos morcegos... Tudo estará na nuvem para ser observado e reanalisado! E a soberania da demo leitura aproximar-se-á mais da democracia directa (do gosto)!
EliminarPois...não sei, tenho dúvidas acerca da qualidade galvanizadora desse poder digital. Mas sou antiga, gosto de livros em papel, de sublinhar, de escrever notas, de apagar com uma borrachinha e reescrever, de afagar as capas e perseguir páginas e folhas em busca de afirmações que perco mas hão estar por lá...e gosto dos livros usados que já foram lidos por alguém que se deixou ali um pouco; caminho por trilhos que outros olhos abriram; sempre a ver se me atacam o gosto as mesmas frases. O digital é demasiado incólume para a minha humanidade corruptível. É obra sem ser livro. Como os mails, por mais que o queiramos, não são cartas; e os smiles não são sorrisos. Porém, tudo é sem dúvida alguma coisa.
EliminarMas dispensa os morcegos :). E talvez seja o virtual mais seguro que a realidade perecível de um livro - não acredito que disse isto.
BFS
Ahaha! Está dito, Beatriz! Num livro ainda podia rasgar a página! :)
EliminarBom e interessante resumo Extraordinário Pedro!
EliminarNo fundo, creio que muitos de nós assim se criaram literáriamente! E por nosso bem, diria.
Gosto de Clássicos ! Expressam civilizada e categoricamente.
ResponderEliminarRespostas ainda São questões (por assim dizer perenes) modo ocidental de ser (in) 'self service'.
Quanto ao gato?! Cadastrado.
Expressam civilizada e categoricamente... apoiado!
EliminarQuanto ao cadastro do gato... coitado, está por assim dizer, limpo! Ahahah!
Ahahah! Coitado do gato...
EliminarLembra, lembra! Olhar o gato Horácio, através do seu texto, lembra-me a Ode I-XI , a famosa ode do Carpe Diem do velho Quintus Horatius Flaccus :
ResponderEliminar... dum loquimur , fugerit invida
aetas: carpe diem , quam minimum credula postero.
ou seja, por exemplo: '... enquanto falamos, invejoso, o tempo passou: colhe este dia, confiando o menos possível no que há de vir!
Mínimo de máximo seria responder exceto "questões alheias".
ResponderEliminarjá me aconteceu desejar um chouriço e pão | dos clássicos | onde me serviram algo parecido a | foie gras en deux façons, une asperge et mangue amère | «sic» | clássico é aquilo que teve inicio antes de nós e depois de nós perdurará ainda _ e, também na literatura, quando uma obra o conquista adquire o atributo definitivo . patrimonial
ResponderEliminar_de_
A cara Doutora Maria do Rosário Pedreira parece estar um pouco (só um pouco) desatualizada em relação a alguns (só alguns) clássicos. As tiras do Garfield , tanto do boneco como os quadradinhos da banda desenhada, já são um clássico há bastante tempo. Não necessita de esperar 1/2 século ou até mesmo 1 século inteiro.!!!!!!!
ResponderEliminarPrende-me sempre a atenção as entrevistas da senhora Maria do Rosário. Magnífica professora.
ResponderEliminarAgradecido por partilhar a direcção desta entrevista.