O tom e a voz

Diz-se muitas vezes que o verdadeiro escritor tem de ter uma voz, ou seja, tem de ser reconhecível em tudo o que escreve através de um estilo que lhe pertence e não é de mais ninguém (mesmo que nele se notem influências de autores queridos e amados, o que nada tem que ver com copiar a forma de esses escreveram). Quando estão a começar livros novos, também os escritores dizem frequentemente que têm tudo na cabeça mas ainda não encontraram o tom. Ora, é no mínimo engraçado que se usem dois termos – voz e tom – quando se está a falar de escrita, pois seriam, digo eu, mais imediatamente associados à oralidade. Mas também eu tenho tendência para pensar, quando ouço um dos meus poemas dito por outra pessoa, que aquela não é a música com que o escrevi. Por falar em música, leio numa entrevista a Annie Clark (artista pop) uma belíssima citação da biografia de Miles Davis, na qual se diz que a coisa mais difícil para um músico é «soar a si mesmo», expressão que, no fundo, equivale a «ter uma voz» em termos literários (isto anda tudo ligado). Ter várias vozes, como Pessoa & heterónimos, não deve ser, mesmo assim, confundido com não ter nenhuma, que é o que acontece quando deixamos um recado à senhora que nos dá uma ajuda na limpeza da casa e que, seja ou não um escritor a redigi-lo, deve ser sempre mais ou menos a mesma coisa. Já me aconteceu, porém, ser jurada num prémio de poesia e ter seleccionado dois livros completamente distintos que eram, afinal, da mesma pessoa. Não sei, mesmo assim, qual deles, para o seu autor, soaria melhor a si mesmo.

Comentários

  1. O post levanta questões muito interessantes que espoletarão, suponho, respostas muito diferentes consoante o escritor - embora a expressão "verdadeiro escritor" as reduza necessariamente. Adiante. Duas notas breves, para provocar a discussão.
    Há quem comece a escrever tendo uma vaga ideia e vá descobrindo a história à medida que a escreve. Dirá então que a história veio (ou não) ter consigo. Ouvi no passado dizer a Valter Hugo Mãe que era assim que escrevia. O que me deixou tranquilo, porque só assim consigo escrever e toda a gente me dizia que devia ter plano prévio, blá, blá.
    O estilo não pode ser confundido com o acto de se copiar, de se plagiar a si próprio, que levou Fernando Pessoa a afirmar que os nossos autores só eram originais uma vez, a primeira, e que não há autor português que não esteja completamente lido quando inconpletamente lido.
    Mas será interessante ler as opiniões dos outros extraordinários que escrevem ficção.

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  2. Não sei se será assim, perdoe-se-me a ousadia (e se calhar a confusão), mas nenhum livro do SARAMAGO é um igual ao outro, contudo, basta-me ler um livro da sveva casati modignani para os ler todos; nenhum livro do PHILIP ROTH é um igual ao outro mas basta-me ler um do nicholas sparks para os ler todos; nenhum livro do PAUL AUSTER é um igual ao outro, mas basta-me ler um da nora roberts para os ler todos, e por aí fora...agora realmente é verdade que cada um dos (verdadeiros e inverdadeiros escritores) que mencionei tem o seu próprio estilo daí nenhum deles ser um igual ao outro, pelo que, pergunto: qual é afinal o verdadeiro escritor?

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    1. Saramago é uma excepção - e Fernando Pessoa nunca o conheceu, como todos sabemos.

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  3. penso que na poesia ainda é mais evidente, "a falta de tom", na declamação, Rosário. :)

    claro que nos livros se anda à procura, sobretudo de "vida", de ver as personagens falarem por si próprias, contrariando a vontade do autor, mudando de rua de café e até de namorada, se for preciso. :)

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  4. António Luiz Pacheco18 de março de 2014 às 03:48

    Hum... vamos lá a ver:

    1º- Se há coisas que me espantam e não consigo entender é como o músico consegue ouvir e imaginar os sons que vai escrever! É uma maravilha... génio, cá para mim!

    2º Quanto ao resto... hum, acho que o Pessoa escrevia da mesma forma em todos os heterónimos, apenas os temas que cada um tratava é que são outros, mas o estilo, a forma é a dele!

    3º Creio que cada autor tem o seu cunho, o seu estilo e a sua forma, que conseguimos identificar. Falo de autores maduros, portanto os que se impuseram e não dos eventuais ou dos amadores! Evidentemente que há um processo de amadurecimento, e o primeiro livro não será exactamente igual ao de outro 20 anos depois... porém a sua marca estará lá!
    Noutros casos parece-me que há retrocesso... e cito o "Madrugada Suja" contra "Euador" ou "Rio das Flores". Mas MST será escritor? Romancista? Ou apenas um contador, um observador que regista, um repórter, um comentador?

    4º Sobre a escrita, de modo geral eu acho que escrevemos como falamos, isto é, a escrita é a oralidade gravada.
    Porém há uma nuance... quando se escreve ficção e portanto um diálogo, aí já podemos escrever como imaginamos que o personagem falaria, logo já não somos nós mas ele, portanto é diferente!

    Falando por mim, escrevo muitas vezes textos para artigos, e tenho duas formas de o fazer:
    - Se é para desenvolver um tema, sobretudo se é um artigo técnico, então faço como aprendi na Estilística Prática. Há uma idéia e as intersecções da mesma, ou tópicos... depois é só ligá-los. O mesmo para um relatório ou apresentação...
    - Se é livre, ainda que subordinado a um dado assunto ou tema, normalmente escrevo "ao correr da pena", isto é vou compondo à medida que o pensamento flui e divaga... quando muito depois dou uns toques no estilo, corrijo e posso até arrumar de outra forma, mas não estabeleço uma linha senão na minha cabeça e deixo-me ir...
    Mas claro isto sou eu, uma traça literária!

    Por acaso ou porque teve que ser, escrevi aquilo que gostaria de chamar um romance (perdoem-me o atrevimento), em nada menos que 1400 páginas, mas foi exatamente assim: Ele já estava na minha cabeça há muitos e muitos anos, em que fui colecionando personagens, casos, temas e acontecimentos. Quando decidi deitar mãos à obra (levei um ano inteirinho a fazê-lo quase em exclusivo) pois foi só ir escrevendo, indo eu atrás dele, a acção desenrolando-se por si mesma, eu apenas me limitei a perceber que uma coisa ia dar á outra, quando faltava ali este ou aquele personagem que também foram aparecendo de modo natural e espontâneo! E todos trazendo a sua história também. Fui sempre imaginando e escrevendo o que gostaria de ler... como se estivesse a contar a mim mesmo, como se fosse um mero leitor. A torrente ia fluindo sozinha, não sei explicar!

    Mas, repito que não sou escritor... sou quando muito um contador de histórias e um cultivador da treta (esclarecida!), além de uma assumida traça literária atraída pelo brilho da luz que este blog irradia!

    Saudações kaluandas!

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    1. Em relação a Pessoa não encontro o que diz. Talvez alinhe melhor na noção de que todos os “eles” que criou e eram distintos de facto, no estilo, no ritmo nos termos e nos interesses, todos esses são ele, incluindo o poeta ortónimo. Mas vale pelo que é, que é sinto-lo assim.

      Ainda não vou a meio de Madrugada suja, mas Equador é melhor que Rio das flores. Não julgo que um contador seja igual a um repórter. E nem me parece que os escritores não sejam contadores. Equador é um bom romance, digam o que disserem os críticos. E quem o escreve não consegue ser apenas repórter ou comentador; ainda que sê-lo lhe abrevie talvez o caminho de romancista. Digamos que os abreviamentos MST tem todos. O que não nos pode servir para sonegar o valor próprio.

      Também não creio que seja tão claro que a escrita seja a oralidade gravada. Há muito quem fale melhor do que escreve e o inverso. Os estilos de escrita provam isso mesmo:) Ou supõe que os escritores o retiram do seu fácil linguajar?
      Cpts

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    2. António Luiz Pacheco18 de março de 2014 às 04:31

      São opiniões discordantes Extraordinária Beatriz... e certamente que fundamentadas, tanto a sua quanto a minha, ainda que a sua seja óbviamente mais avalizada e prepondere.

      Quanto ao MST, não entenda mal: gosto do que ele tem escrito, e, como romancista gostei de "Equador", bastante mais de "Rio das Flores" e achei francamente mau "Madrugada Suja", daí falar em retrocesso... são gostos, eventualmente discordantes mas também fundamentados.

      Saudações kaluandas

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    3. "Equador" é, sem dúvida, um grande romance, que se torna mau na boca de quem não aprecia o autor e nunca se deu ao trabalho de o ler.

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    4. A referência que fiz a Pessoa pode ser encontrada em Páginas de Doutrina Estética.
      Não concordo com a homogeneidade, mesmo considerando cada heterónimo um poeta diferente, o que não faço. Vejo-os como instanciações do eu. Compare Chuva Oblíqua com Ode Marítima e a Mensagem e diga se o poeta se auto-imita.

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    5. Mais avalizada porquê? Em que é que uma opinião pode valer mais que outra quando se limita à expressão do sentir individual? Não vejo que possa ser tal.
      Acerca de Madrugada suja, o capítulo inicial enfastiou-me de tal forma que estou a tomar coragem para o resto. Esse lado ignóbil da juventude custa. Dói-me. Espero que seja um exagero.
      Curiosamente, sempre achei em Miguel Sousa Tavares uma certa rudeza sentimental. E em relação às personagens femininas existe uma falha qualquer, não recria a mulher por inteiro. É como se nadasse nas suas águas mas nunca lhes tenha pisado o fundo.

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    6. António Luiz Pacheco18 de março de 2014 às 08:11

      Avalizada porque quando se fala objectivamente de literatura (como é o caso) a Beatriz está num estágio superior... na parte da sensibilidade, bem aí somos iguais se bem que diferentes (e ainda bem ou isto era uma chatice!!!!)

      Creio que não vai gostar do Madrugada Suja... é cá um palpite! E nada tem a ver nem com o Equador, nem com o Rio, nem com Sul, com o Não te deixarei morrer, etc. Ou melhor, até tem a ver com as conhecidas posições e ódios de estimação de MST, mas a maneira como desenvolve a história e até os personagens, não fazem justiça ao autor!
      Aposto que vai concordar comigo!

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    7. Quanto a Madrugada suja, depois falamos. Discordo do mais avalizada; é que me conheço; só eu sei verdadeiramente quanto não sei. pode crer.
      As sensibilidades diferentes são paladar neste tipo de conversa por escrito:) não acha?
      Fim.

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    8. De MST só li o Equador. Não gostei muito e houve uma parte em que são descritos os hábitos amorosos dos indianos nos haréns que me deixou particularmente enfastiada. Acho que o romance tinha muito a ganhar se se cortassem essas páginas. E concordo com o que a Beatriz diz em relação às personagens femininas.

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    9. Caro António Luiz
      Em resposta ao seu ponto 1
      "ao correr da pena", isto é vou compondo à medida que o pensamento flui e divaga...

      Na música é igual!
      :-D

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    10. Oh! não me lembro de haver tal parte. Sorry:) Li o livro quando saiu.

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    11. Também já o li há vários anos, penso não estar enganada. Julgo que ele fala disso para mostrar que a inglesa era uma "expert" em vida sexual (tinha estado na Índia com o marido e os dois experimentaram umas coisas). Enfim...

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  5. Claudia da Silva Tomazi18 de março de 2014 às 04:01

    Era permeável !

    "vozes geladas veludosas doses".

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    1. Oh! A Cláudia está em ritmo Camilo Pessanha:))

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    2. António Luiz Pacheco18 de março de 2014 às 04:44

      Hum... nas brumas do ópio????

      - Estou a brincar óbviamente!

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    3. Não. Nas aliterações e predominância de sons abertos e talvez outras figuras de estilo que me fogem agora por nunca as ter sabido muito bem e estes conhecimentos serem remanescentes do meu 11º ano feito à noite:)

      Quanto então nos sonhámos...

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  6. Essa voz, esse estilo próprio, só é adquirido, na minha opinião, depois de bastante treino. Por isso, tem vantagem começar a escrever cedo ;) A dificuldade é que muitos de nós não sabem que têm esse talento, a sua descoberta, salvo exceções, depende igualmente da vida que se tem, do ambiente, da família.

    Há quem ache que, quem nasce génio, o descobre muito cedo, mas o caso de Van Gogh, por exemplo, ajuda a demonstrar o contrário. Van Gogh tinha mais de trinta anos quando começou a pintar, até aí, nunca lhe tinha passado pela cabeça começar a fazê-lo, nem imaginava que o sabia.

    Também em "A Vista de Castle Rock", de Alice Munro, a escritora refere que o seu pai começou a escrever com mais de sessenta anos. Não viveu o suficiente para se estabelecer como escritor, mas conseguiu publicar alguns contos num jornal literário. E confessou à filha que nunca pensou que escrever lhe desse tanto prazer e felicidade. Alice Munro, vencedora do Prémio Nobel, achou que o pai tinha talento suficiente para publicar um extrato dos seus escritos nesse mesmo livro que mencionei e que li recentemente.

    Quem nasce numa família ligada às artes tem vantagem dupla: por um lado, aprende a apreciar a arte, por outro, encontra mais compreensão e apoio se decide enveredar por esse caminho. Nesse aspeto, são felizardos e ainda bem ;)

    Há casos de escritores jovens que encontram uma voz própria logo no primeiro livro que publicam. São apelidados de prodígios, mas é curioso verificar que raramente conseguem manter esse nível, alguns desaparecem mesmo de cena. Por outro lado, um escritor que vá amadurecendo com o tempo perdura muito mais.

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  7. E agora, pergunto:

    Como sabe o principiante se tem essa voz para que valha a pena continuar a investir no sonho? É que pretensão e água benta cada um toma a que quer...já a realidade...é outra história...

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    1. Eu acho que, enquanto a escrita nos dá prazer, se esquecemos as horas, nem sequer nos lembramos de comer e de beber, deve-se continuar, sempre. Mesmo que não seja para publicar.

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    2. Olá Cristina Torrão!

      Estou de acordo e por isso ando sempre a escrevinhar alguma coisa...mas acalento o sonho de que a escrita não fique sempre fechada na minha gaveta, que é como quem diz no meu computador:) Não será assim com todos que gostam, além de escrever, de ler e que sonham um dia ser como os seus ídolos?

      :)

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  8. Claudia da Silva Tomazi18 de março de 2014 às 06:53

    Você Cristina a cobiça o realizar-te-ía?!

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    1. Não, a cobiça não me realiza. Sou de opinião de que não devemos procurar a felicidade em fatores exteriores a nós e, sim, responsabilizarmo-nos pelos nossos sentimentos.

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  9. a voz abre-se numa Primavera sobre o Inverno que ficou procurando ainda o Verão no Outono descido a voz está na disparidade do autentico | toma a mão num noivado e diz novas coisas antigas e a mão escuta | e a mão escreve no papel da sua pele | a voz já lá está

    _de_

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  10. A voz e o tom são pessoais, sim. Mesmo para quem não é criador literário. Se estivermos atentos não apenas ao que nos dizem mas aos modos como o dizem, às palavras, aos ritmos, damos conta de que a apropriação da língua comum é uma coisa pessoal. Como dizia o Herculano, «o estilo é o homem». Depois, há as tendências, as correntes, as «escolas», que cada vez são menos agregadoras, sobretudo quando se trata de grande arte. O que eu acho verdadeiramente interessantes são os casos em que é o tema, o universo ficcional criado a pedir uma certa voz e o autor a encontra, como, por exemplo, acontece com o Memorial do Convento.

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  11. Cansa-me ler um escritor que tenha sempre a mesma voz e o mesmo tom para todos os temas. Entendo que cada romance pede o seu registo, a sua própria voz, a não ser que se trate dum escritor temática e estilisticamente obsessivo, e neste caso passa a ser uma chapa gasta. Aprecio a versatilidade e, sobretudo, a adequação do conteúdo à forma.

    Quanto à construção de um romance, penso que nenhum escritor se lança na empreitada sem ter bem definida a ideia nuclear da obra e um plano previamente elaborado, nunca definitivo, porque pode ser alterado posteriormente. Um dos sortilégios da escrita literária é a possibilidade que o romance tem de se ir auto/re/construindo em todas as categorias da narrativa. Quem diz que escreve sem plano talvez não consciencialize que segue sempre um plano: não está escrito, não se vê, mas existe na mente como um rio subterrâneo. Escrever para ver o que sai é como ir à caça e dar tiros nas nuvens.

    António Breda Carvalho

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    1. Sim, não entendendo por plano um esquema mais ou menos rígido, antes uma voz (o narrador), um contexto, uma temática, personagens que se vão conhecendo à medida que mais se trabalha nelas e com elas, uma toada, um ritmo, uma linguagem... E, também acredito que a narrativa se constrói antes de mais no inconsciente, surpreendendo com ideias aparentemente surgidas do nada. E com muitos becos sem saída, que obrigam a recomeçar.

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    2. Fascínio/tortura da escrita: os becos sem saída (aparente).

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    3. Nem mais. Nem menos. Fascínio e tortura. Só o sabe quem escreve empenhadamente, apaixonadamente.

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  12. A nossa voz literária é sempre a nossa, o mesmo que ir procurando na oralidade a isenção de colagens e aproximações. Todos já nos sentimos a imitar alguém quando com ele interagimos, fomos contagiados. Então, uma das receitas para encontrarem a vossa voz aqui vos deixo: fiquem algum tempo isolados, sem contactarem com o mundo literário até sentirem que a voz com que escrevem já é a vossa. O que não invalida de primeiro aprenderem o abecedário. Depois, venha a persistente solidão.

    Contudo, será que a vossa voz é interessante?

    Se isso importa, olhem o mar e desenhem nas nuvens.

    Porque sentir-se realizado é mais importante que engordar vaidades.

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