Em greve

Um dia destes, estava a pensar em greves (não ao blogue, fiquem tranquilos) e comecei a perceber que, excepto no caso francês, a palavra para dizer a coisa era muito diferente da portuguesa nas línguas todas que conheço e, portanto, não tinha uma origem comum. Fiz uma curta investigação e descobri que «Grève» era, efectivamente, o nome de uma praça em Paris (assim se chamava por ter gravilha) aonde iam os que não tinham trabalho para serem contratados à jorna. Porém, quando iam com quem os contratava e lhes desagradavam as condições, regressavam à praça à procura de nova oportunidade, pelo que «estar em greve» acabou por significar o abandono do trabalho por um salário mais justo. Em Espanha, a palavra para greve é «huelga» e está relacionada, no fundo, com «folga» (de «fole», calculem, porque se respira fundo depois de uma grande fadiga), dia em que não se trabalha (e, curiosamente, o verbo latino donde vem a palavra huelga descambou também para a palavra que quer dizer fo… fornicar, já que nuestros hermanos não brincam em serviço, mas nas folgas gostam de se divertir). Para os italianos, o termo é «sciopero», mais uma vez muito distante da nossa «greve», mas infinitamente mais lógico na sua composição, vindo do latim ex operare, ou seja, deixar de trabalhar. Por fim, em inglês, temos a expressão «on strike» e, embora o verbo to strike não apele ao espírito da interrupção laboral com vista à reivindicação de melhores condições, a verdade é que, lá nos confins de um dicionário, li que «striking» também era o movimento de baixar as velas para mostrar que não se queria ir ao mar e, portanto, tudo tem a sua explicação. Os meus quatro anos de alemão e um de neerlandês não chegam para brincar à etimologia com as greves destas línguas (também deve haver menos greves a norte, digo eu), mas talvez a extraordinária Cristina Torrão nos possa elucidar, pelo menos no caso alemão.

Comentários

  1. A filologia é um assunto de extremo interesse; entender a etimologia, fazer a história de cada palavra, desvelá-la assim até à nudez, clarifica-lhes a precisão e o rigor. E até nos surge a contradição das línguas mortas serem do mais vivo que existe. Julgo que os tradutores mergulham vertiginosamente neste mundo, imagino-os na procura dos termos mais adequados e que melhor servem a força da palavra de origem.
    Obrigada pelo interessante do termo "greve".

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  2. Claudia da Silva Tomazi19 de março de 2014 às 03:45

    Afim de aprender aprendi:

    de Espanha nem vento nem...

    e de mais acima só bacalhau, barriga cheia e tchau.

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  3. Um contributo de David Soares, em 2011, sobre o mesmo assunto:

    http://cadernosdedaath.blogspot.pt/2011/11/etimologias-grevistas.html

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  4. im Streik/on strike. E como o Inglês é um derivativo do Alemão da Frísia e este, por seu turno uma evolução do Gótico antigo, o Latim das línguas germânicas, o radical e significados originais são comuns. No caso do significado "greve" não sei, mas suspeito que tenha nascido num contexto Inglês de Revolução Industrial que o Alemão tenha importado al revés num caso típico de criador-criatura-criador.

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    1. Claudia da Silva Tomazi19 de março de 2014 às 05:18

      Episodio Lisistrata.

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    2. Ehehehe! Obrigada, Blonde.

      Pois, na Alemanha, "greve" é "Streik" (que se lê como a palavra inglesa) e existe o verbo: "streiken" (fazer/entrar em greve). O/a grevista é o "Streikender" (M), a "Streikende" (F). Penso que a palavra deve ter vindo realmente do inglês, pois não tem qualquer outro significado que não seja esse.

      Acrescento que a origem da "greve" é americana, salvo erro, os condutores de elétricos de Chicago foram os primeiros trabalhadores a entrarem em greve, na segunda metade do século XIX. Ou seja, o uso da palavra "strike", nesse sentido, deve ter tido origem na América do Norte. As línguas latinas, pelos vistos, adaptaram outras palavras para definirem algo moderno (algo só surgido na sequência da Revolução Industrial), porquanto os portugueses adotaram a expressão francesa. Na minha opinião, e apesar de eu não apreciar a língua francesa, foi uma boa solução. Gosto da palavra "greve", que, em português, também não tem outro signficado.

      Aqui na Alemanha há muitas greves, cara Maria do Rosário ;) Neste momento, certos funcionários públicos (ligados a serviços sociais, hospitalares e jardins de infância) encontram-se em greve, apesar de não ser em todo o país, ao mesmo tempo. As regiões revezam-se, cada dia é a vez de determinados "Länder" entrarem nessa greve (hoje parece que é lá para o sul). Os funcionários dos aeroportos alemães também "adoram" fazer greve.

      Há uma particularidade em relação aos funcionários públicos alemães. Existem dois tipos: os "vitalícios" (aconteça o que acontecer, o seu contrato nunca pode ser rescindido) e os outros, em que há essa possibilidade de rescisão, embora seja muito raro. Os "vitalícios" estão proibidos de fazer greve. Entre eles, contam-se os polícias e os professores.

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  5. Claudia da Silva Tomazi19 de março de 2014 às 06:12

    Infinitivo: abster.

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  6. Já que a greve não suscita mais comentários, mudo de assunto, que vem a propósito: não esquecer que, devido a acertos do nosso planeta com o universo, o equinócio da Primavera foi antecipado para amanhã. Desta vez é amanhã que o tamanho do dia será igual à duração da noite.
    Ocorre-me que faz agora um ano que eu, esperançoso, escrevi um texto sobre isto do florir da Primavera, o nosso país, e tal.
    Passou um ano e, quanto a esperanças, por cá estamos conversados…
    Vou ver se encontro o texto e, se achar que ainda pode ter proveito, amanhã apanhamos a Primavera a jeito e, com a vossa ajuda, tratamos do assunto com ela.

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