Beber e criar

Contaram-me que, num programa de televisão (Prós e Contras, apresentado por aquela senhora a quem falta algum savoir-faire), uma qualquer miúda tonta, querendo defender as praxes universitárias, terá dito que também os jornalistas principiantes eram praxados e supostamente obrigados pelos colegas mais velhos a uma bebedeira de absinto (estou a contar o que li, pode não ter sido exactamente assim). Acredito que a vertigem do absinto, bebida por excelência dos simbolistas, com o seu altíssimo teor alcoólico, tenha ajudado à criação de algumas belas páginas de Verlaine ou Mallarmé, mas nunca me constou que tivesse sido útil aos que escrevem diariamente em jornais e têm de trabalhar as mais das vezes sob pressão e em resposta rápida a um acontecimento preciso. Nem sequer tenho ideia de que nas redacções haja o costume de consumir em horário de trabalho bebidas alcoólicas inspiradoras ou causadoras de um certo relax espiritual. Mas eis que leio numa breve coluna de um diário português que determinado grupo de comunicação social pretende instalar o hábito de soprar o balão por parte dos funcionários à entrada nas suas instalações. Desconheço se a iniciativa tem por base alguns amargos de boca (suponho que o absinto nem seja assim tão amargo) decorrentes de notícias esparvoadas provocadas por eflúvios alcoólicos, mas, a menos que o actual absinto também já venha bastante adulterado, custa-me a acreditar, de tal modo a prosa que hoje leio nos jornais é devedora de voo literário...

Comentários

  1. é tudo treta.

    o jornalismo de hoje tem mais "meninos de coro" que os "boémios" de outros tempos.

    o trabalho de jornalista é hoje mais das "nove às cinco" que noutros tempos, até pela facilidade de se editarem páginas e fechar o jornal na secretária, em frente ao computador...

    a mudança geográfica e de hábitos também teve a sua influência, hoje o único jornal que se mantém no Bairro Alto é a "Bola", mas o bairro não é o mesmo.

    praticamente já não existem os "retiros" de outros tempos, que juntavam à mesma mesa, jornalistas, coristas e actores, uns saídos das redacções e outros do Parque Mayer.

    nem as famosas "casas de meninas"...

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  2. a instalação dos aparelhos destina-se a garantir que o jornalista entrou ébrio na redacção e saiu sóbrio dela | para que o leitor possa entrar sóbrio na notícia e sair ébrio dela | e assim é muito melhor ! para todos !

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  3. António Luiz Pacheco11 de março de 2014 às 03:36

    Sobre as praxes, acho inacreditável que um dito responsável máximo defenda que servem para levar os futuros doutores ao limite... como se assim fossem forjados os futuros próceres.

    Olhem, vão pegar toiros ou jogar rugby!
    Também leva ao limite, mas é mais fructuoso que aprender a infligir vexames a terceiros, numa perspectiva de formação... estão a ver os doutores & engenheiros assim forjados de que têmpera serão amanhã para com os seus colaboradores ou subalternos? Deus nos livre de tal gente!

    Quanto aos jornalistas... também me parece que já não são o que eram, e sem que tenham ganho qualidade! Estarei enganado?
    Via-os pelas tascas dos mercados, onde iriam começar dia ou acabar a noite, sabe-se lá... mas pareciam gente, ao contrário destes esterlicadinhos bem-pensantes, politica e ecológicamente correctos mas incultos e nada sabendo do Mundo real pela sua própria experiência, só sabem o que leram de outros...

    Não me parece grande segredo o facto de jornalistas e escritores, serem gente da noite, da boémia... e dos copos... e nem vejo nisso nada de errado, nem quando vejam a dobrar, eheheh!
    Mas a tradição já não é o que era! Acabam com tudo em nome da hipocrisia, duma falsa moral e do que alguns definem ser os bons-costumes.

    Saudações fortemente pluviosas e kaluandas!

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    1. António Luiz Pacheco11 de março de 2014 às 05:37

      Cristina

      No meu tempo na Univ. de Évora havia um grupo de forcados e um de forcadas, estas capitaneadas pela minha amiga Graça Chambino... é verdade!

      E, sem praxes...

      Aproveite o bom tempo aí nas Alemanhas...

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    2. De momento, o tempo está bom, batem-se recordes de temperatura (quer dizer, para a primeira metade de Março, 22 graus são recorde).

      E sem praxes ;)
      Abraço

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  4. Dizer que o programa é «apresentado por aquela senhora a quem falta algum "savoir-faire"» é uma maneira muito simpática de caracterizar a tal senhora...

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    1. Talvez até excessivamente simpática, porque a mulher é parte integrante do vómito que é a pandilha actual...é uma verdadeira empreendedora (na palavra, e como ela se mexe, já repararam naquelas mãos...naquela cabeça sempre a mexer) ...aliás, quem actualmente neste país não é empreendedor não é bom pai de família nem bom português muito menos bom Europeu...

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  5. Aqui está o link com o vídeo da polémica:

    http://www.youtube.com/watch?v=sE7grjhhOHQ

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