Balanço

Foi bom estar nas Correntes d’Escritas mais um ano, mas não é muito fácil transmitir a quem não esteve o que por lá se passou. E eu também já não tenho a memória antiga, nem me muni de um caderninho para tomar notas em todas as mesas (mas desde já prometo fazê-lo para o ano). Tenho, porém, de confessar que há esperança, pois a maioria dos escritores jovens e estreantes no encontro se portaram à altura, tendo sido um grande prazer escutar as palavras de Patrícia Portela, João Ricardo Pedro, Ana Margarida de Carvalho, Inês Fonseca Santos ou Joana Bértholo. Ou seja, vamos ter gente nova a escrever coisas inteligentes por muitos anos e isso é a melhor notícia. A conferência inaugural, com sala à cunha para ouvir Adriano Moreira falar de pé (com noventa e tal anos, recorde-se), também foi um sucesso – e não esquecerei algumas das suas afirmações, como «o poder da palavra desafia a palavra do poder», «a lei não resolve problemas, inventa-os» ou «temos mais estatística do que sabedoria». Adorei as piadas à solta, porque estamos necessitados de rir, e os discursos que chamaram lágrimas sem demagogia. E, para coroar tudo, apanhei no ar uma frase que fecha o post de hoje e tem que se lhe diga. É de Unamuno: «Um pedante é um estúpido adulterado pelos estudos.»

Comentários

  1. António Luiz Pacheco5 de março de 2014 às 01:59

    Minha Cara Extraordinária (e Paciente) Anfitriã:

    1º - Essa do caderninho... é o meu segredo há muitos anos, apesar de uma memória de elefante! Aponto tudo referente às minhas aventuras, o que me permite hoje, ver detalhes da minha primeira ida aos Açores em 1976!
    Sempre o fiz com o fito de mais tarde escrever sobre elas, como tem acontecido!

    2º O que se me destacou neste seu post foi a citação de Miguel Unamuno, pensador e percursor do existencialismo - aliás filosofia em que muito me revejo.
    Mas, recordou-me algo de muito curioso, que me leva ao atrevimento de imaginar não ser apenas nisso coincidente a minha (fraquíssima e quiçá pedante) opinião com a dele (brilhante): É que Unamuno fez uma avaliação bastante escandalosa na época, pois considerava os escritores portugueses como "suicidas", e portanto que os portugueses seriam um povo suicida...

    Se os nossos escritores são suicidas, não sei, mas que são depressivos, deprimidos e deprimentes isso continuam a ser... já o disse várias vezes, e agora me recordei dessa opinião de Miguel Unamuno.
    Que diria ele de João Ricardo Pedro?
    (Isto apenas para falar de um escritor nomeado neste post.)

    Saudações kaluandas

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  2. Unamuno | de quem Torga escolheu o Miguel | que se interessou pela geografia do nosso ego e da nossa paisagem [ibéricas] tendo escrito “Por terras de Portugal e Espanha” cuja leitura, à época, marcou os nossos maiores vultos | foi talvez o segundo existencialista competente e determinado, depois de Kierkegaard | para os mais corajosos: “do sentimento trágico da vida” para os menos susceptíveis

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  3. É engraçado como muitas vezes restringimos a literatura à ficção: mas a literatura de facto vai muito para além dela, entrando em territórios onde a ficção é um campo minoritário.
    Um dos meus livros de referência é a Teoria das Relações internacionais do Adriano Moreira. Lembro-me quando dei esta cadeira de haver colegas que achavam o seu discurso hermético e cheio de afirmações fortes como as descritas supra. Mas Adriano não é só um político e um académico. É verdadeiramente um escritor e um pensador que "lavra a terra" com estas afirmações fortes e carregadas de impacto. Quando a técnica se alia à reflexão criativa, o real parece ter a dimensão da literatura.

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  4. António Luiz Pacheco5 de março de 2014 às 02:37

    Acho que vale a pena partilhar aqui:

    Histórias de suicidios famosos em Portugal - José Brandão
    O suicida não é um homem que odeia a vida, como à primeira vista pode parecer. Pelo contrário: é um homem que a quer prolongar de qualquer maneira, nem que seja no remorso dos outros.
    Miguel Torga

    Introdução
    Se em todas as épocas existem suicidas, nem todas elas os produzem saídos da mesma massa. Os que vamos ver nestas páginas são pessoas que viviam intensamente os problemas, estavam no centro deles e foram mesmo origens de alguns. Não foi, pois, a incomunicabilidade que os empurrou para a morte, mas talvez o excesso de comunicação com o Portugal que viam e que desfilava por eles como um funeral.

    Para eles, a morte estava presente no mais despreocupado despregar de mãos. Viver a vida e cortá-la ao primeiro transtorno, após uma série de outros que já não se suportaram mais, corroídos pelo banal dia-a-dia gastos pela «doença de pátria», não era estado de incomunicabilidade.

    O período que medeia a passagem do século XIX para o XX, factualmente compreendido entre o Ultimatum Inglês, de 11 de Janeiro de 1890 e a implantação da República, de 5 de Outubro de 1910, retrata uma longa e múltipla carência da sociedade portuguesa quanto ao seu papel cultural para com os seus escritores e os seus escritos.

    A inexistência de meios, a falta de estímulos, a incompreensão e o desapego a que foram sujeitos, os homens da “bela arte de escrever”, como um Antero de Quental, um Camilo Castelo-Branco, um Soares dos Reis, um Júlio César Machado ou um José Fontana, entre muitos outros, provoca-lhes um sentimento de decepção para com a comunidade em que vivem. A morte apossara-se-lhe das vidas. Ninguém sabe doutra coisa, ninguém tem outra maneira de se afirmar — de protestar, de procurar a resignação — senão através do suicídio.

    Sãos os tempos das crises de consciência, em que o mundo e a sua moral subvertida nos transportam, tendo sempre como sombra o ruir dos velhos alicerces, a uma sociedade feita de angústia, opressão e instabilidade. São as ditaduras veladas do rotativismo político, ou declaradas como o franquismo. São as viciações e as desonestidades do aparelho governativo e dos seus resultados eleitorais, com o consequente descrédito total do parlamentarismo monárquico. São as desconfianças permanentes do sistema económico e financeiro, a par do desespero, da impotência e da derrota das questões internacionais. São os desânimos pelo crescimento do obscurantismo e da ignorância, acompanhados pelo desenraizamento de quem se identifica como responsável e portador de uma natureza defeituosa, da qual, apenas se conhece a doença, mas não a cura. Em suma, são os tempos em que apenas se vivia a renúncia, a indiferença, o cansaço e o pessimismo.

    Miguel Unamuno, logo após o regicídio, em 1908, viaja até Portugal onde conta com a amizade de algumas das mais destacadas figuras da vida cultural e política. Das impressões dessa deslocação, o prestigiado escritor espanhol haveria de publicar um livro que só passados setenta e cinco anos seria traduzido e publicado em Portugal.

    Por Terras De Portugal E Da Espanha, é dos mais interessantes documentos que alguma vez foi escrito sobre este pedaço de chão que tem Lisboa por capital. Ler este livro de um estrangeiro ajuda a conhecer melhor quem somos e o que somos. Unamuno fala deste País com palavras de uma verdade crua, sincera e ao mesmo tempo arrasadora. Diz este autor:

    «Portugal representa-se-me como uma formosa e doce jovem camponesa que, de costas para a Europa, sentada à beira-mar, com os pés descalços na praia onde a espuma das gemebundas ondas os banha, os cotovelos fincados nos joelhos e o rosto entre as mãos, olha como o sol se põe nas águas infinitas. Porque para Portugal o sol não nasce nunca: morre sempre no mar que foi teatro das suas façanhas e berço e sepulcro das suas glórias. […]É o oceano um vasto cemitério, sobretudo para Portugal. O mar, essa é a «campa», esse é o cemitério desta

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  5. António Luiz Pacheco5 de março de 2014 às 02:39

    (continuação)
    Nesse imenso cemitério vivo, que vem a murmurar fados beijar as praias deste «Jardim da Europa, à beira-mar plantado,»

    Nesse imenso cemitério descansa a glória de Portugal, cuja história é um trágico naufrágio de séculos. E este murmúrio do oceano, estas queixas que vêm do seu seio quando o sol nele se deita, — não são acaso as vozes das pobres almas portuguesas que vagueiam errantes nas suas ondas? Não pedem sufrágios aos vivos? Não é aqui o mar do Purgatório?»

    E, naquela que é seguramente a parte mais eloquente do seu testemunho sobre Portugal e sobre o povo que nele vive, ficaria o registo de um capítulo a que o autor quis dar o título de UM POVO SUICIDA:

    «Portugal é um povo triste, e é-o até quando sorri. A sua literatura, inclusive, a sua literatura cómica e jocosa, é triste. Portugal é um povo de suicidas, talvez um povo suicida. A vida não tem para ele sentido transcendente. Querem viver talvez, sim; mas para quê? Vale mais não viver.»

    Neste mesmo capítulo, e com a data de Novembro de 1908, Miguel de Unamuno dá a conhecer uma carta de Manuel Laranjeira, seu amigo de grande afecto:

    «Em Portugal chegou-se a este princípio de filosofia desesperada o suicídio é um recurso nobre, é uma espécie de redenção da moral. Neste malfadado país, tudo o que é nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa.

    Chegámos a isto, amigo. Eis a nossa desgraça. Desgraça de todos nós, porque todos a sentimos pesar sobre nós, sobre o nosso espírito, sobre a nossa alma desolada e triste, como uma atmosfera de pesadelo, depressiva e má. O nosso mal é uma espécie de cansaço moral, de tédio moral, o cansaço e o tédio de todos os que se fartaram — de crer.
    Crer...! Em Portugal, a única crença ainda digna de respeito é a crença na morte libertadora.
    É horrível, mas é assim.
    […]
    Eu, por mim, não sei, não sei: em boa verdade, amigo, não sei para onde vamos. Sei que vamos mal. Para onde? Para onde nos levarem os maus ventos do destino. Para onde? Vamos...
    […]
    Não falta mesmo quem diga que isto não é já um povo, mas sim — o cadáver de um povo.»

    Manuel Laranjeira haveria de se suicidar passados menos de quatro anos sobre esta carta a Unamuno. Seria o último de uma lista aterradora de suicidas que começa em 1876 com José Fontana e que continua com o médico Francisco da Cruz Sobral, em 1888, com o escultor Soares dos Reis, em 1889, Camilo Castelo Branco, Júlio César Machado e o sertanejo Silva Porto em 1890, Antero de Quental, em 1891, o militante operário Luís de Carvalho, em 1893, o escritor operário Henrique Verdial, em 1900, Mouzinho de Albuquerque, em 1902, o escritor e jurista Trindade Coelho e o jornalista Alberto Costa, o «PadZé», em 1908, o almirante Cândido dos Reis, membro da Carbonária Portuguesa, em 1910, Guedes Quinhones, velho militante socialista e jornalista operário, em 1911. E, depois de Manuel Laranjeira, em 1912, suicida-se o poeta Mário de Sá-Carneiro, em 1916, e Florbela Espanca, em 1930.

    Portugal é um desespero trágico que aflige os melhores filhos do seu possível orgulho nacional. Alexandre Herculano exclamara: «isto dá vontade da gente morrer!». Rodrigo da Fonseca murmurara: «nascer entre brutos, viver entre brutos e morrer entre brutos é triste»? E no final de um soneto António Nobre apregoa: «Amigos, que desgraça nascer em Portugal! [...] Todos nós falhamos… Nada nos resta. Somos uns perdidos. Choremos, abracemo-nos, unidos! Que fazer? Porque não nos suicidamos?»

    As dez histórias de suicídios aqui apresentadas são apenas uma parte de tantos outros que ocorreram durante esse mesmo período.
    São famosos e são do melhor que Portugal tem na sua História.
    Ao suicidarem-se é um pouco de Portugal que se suicida.
    www.estrolabio.net


    tags: antónio nobre, camilo castelo branco, josé brandão


    publicado por Carlos Loures às 01:00


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    1. Ainda que o livro seja óptimo e tenham alguma razão os inúmeros suicidas. Ainda que entre eles e a nossa actualidade persistam sintomatologia e doença, permito-me lembrar que a morte não é uma solução, é um fim. Toda a solução é estratégia de continuidade.

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    2. António Luiz Pacheco5 de março de 2014 às 04:27

      Extraordinária Beatriz:

      Trouxe aqui este texto e a referência à obra, exactamente pela sua actualidade no que diz respeito ao sentimento geral que ainda hoje se verifica, um século depois.

      E, acrescento, para mim a morte não é nem solução nem um fim... é algo de inevitável e comum aos seres vivos como condição de o serem, mas também não é "O" fim... apenas mais um degrau ou uma etapa.

      Saudações kaluandas, bem vivas!

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  6. Um pedante é um estúpido adulterado pelos estudos - certíssimo! Faz-me lembrar o António Aleixo "Há tantos burros mandando em homens de inteligência, que às vezes fico a pensar que a burrice é uma ciência".

    O Professor Adriano Moreira é uma inspiração sana, GRANDE.

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  7. Estive nas Correntes d'Escritas no sábado, por motivos profissionais, o que me deu a oportunidade de juntar o útil ao agradável, pois tinha vontade de ver o ambiente literário -- para não morrer estúpido.

    Diz a Maria do Rosário (e eu concordo) que «vamos ter gente nova a escrever coisas inteligentes por muitos anos». Espero que, do lado da plateia, continue a haver o mar de gente, porque eu esperava ver gente mais nova, sobretudo por ser sábado. Não sei se nas edições anteriores a moldura humana foi sempre composta por pessoas acima dos cinquenta anos, em média. É certo que estas pessoas são as que usufruem de melhores condições para poderem participar em eventos desta natureza.
    Oxalá nunca falte nova gente na assistência, mesmo que seja velha.

    António Breda Carvalho

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    1. Só para dizer que eu estive lá sexta-feira e tenho menos 50, 40 para ser mais precisa. E comigo estavam outros da mesma faixa etária. E posso dizer que, como também por instantes me passou isso pela cabeça estive atenta e acho que ainda havia muita gente jovem:)

      Cláudia Moreira

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  8. Perdoe-me a ligeira discordância. Os estudos não adulteram ninguém. Apenas podem tornar mais audível a emanação de uma mente enformada pela falta de educação, formação valorativa e empatia com os demais..

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    1. António Luiz Pacheco5 de março de 2014 às 07:22

      Hum... esta afirmação não será, assim um bocadinho para o pedante?

      Ahahah!
      Perdoe-me Extraordinária Sandra, mas não resisti!

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  9. ahahahahahahahahah

    Não tem de pedir desculpa. Mas acho que não. É, quando muito, uma afirmação vaidosa. Nada mais. Um abraço extraordinário.

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    1. António Luiz Pacheco5 de março de 2014 às 08:37

      Com efeito, e agora falando a sério, também acho que é uma afirmação extrema... claro que tem razão, porém quem estuda e se eleva portanto, tem de ter a humildade do sábio!

      Mas... há sempre os Relvas! Neste caso mandá-lo estudar é apenas para piorar a estupidez e a pedantice (diz-se assim?) do sinistro personagem!


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  10. António: claro! Mas o nosso País é um País de gente pequenina. E, muitas vezes, confunde-se humildade com servilismo e frontalidade e segurança com pedantismo.
    Quanto ao resto, não gostaria de pessoalizar a conversa.

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    1. Bem observado, Sandra. Somos servis, por um lado, e cheios de salamaleques, por outro. Se houve algo que me surpreendeu, nos meus primeiros tempos na Alemanha, foi o de as pessoas serem mais seguras e frontais, sem que os outros se ofendam e comecem logo a dizer que são pedantes ou vaidosas. Aliás, até se admiram as pessoas frontais e que têm consciência do seu valor. Em Portugal aprecia-se muito a humildade "errada" - entenda-se ser-se servil, capachinho, quem sou eu, um pobre diabo, etc. E as meninas inseguras, então, são uns amores!

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    2. Ora precisamente, Cristina Torrão. Entendeu-me na perfeição. Mas eu prefiro sofrer a vergar-me. (e olhe que, por vezes, sofre-se a sério)
      Um abraço e boa noite.

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