Levar com um livro na cabeça
As novas tecnologias são hoje um dado adquirido e, apesar de já não conseguirmos viver sem elas, muitas vezes penso que as máquinas inteligentes e a informatização de um sem-número de serviços simplificaram enormemente os processos, mas, ao mesmo tempo, mandaram bastante gente para o desemprego. Para o desemprego irão também, um dia destes, os funcionários dos Correios alemães (embora lá, aposto, o subsídio de desemprego seja melhor do que a maioria dos ordenados por cá), porque a Deutsche Post se prepara para os substituir na entrega de encomendas por drones, uma espécie de mosquitos gigantes telecomandados, até agora usados apenas com fins militares e, uma vez ou outra, no cinema (no filme O Aviador, eram drones que filmavam os voos de Howard Hughes). A utilização é polémica, não só porque a tecnologia avançou mas a legislação sobre a matéria não acompanhou, pelos vistos, o avanço, mas também porque se multiplicam histórias que acabam mal sobre estes «bichos», entre as quais a de um drone com uma câmara de filmar de alta resolução que foi lançado de um arranha-céus nova-iorquino e, certamente por aselhice do dono, andou a dar tombos em janelas de mais de dez edifícios circundantes antes de iniciar uma queda vertiginosa e de acabar partido aos pés de um transeunte que só por milagre não levou com o dito na cabeça. A Polícia, que confiscou os restos do aparelho, sabia que devia ser uma coisa importante, mas não sabia o que era exactamente... Ora, na imagem que anunciava o recurso a drones pelos Correios alemães num futuro próximo (mas será tão próximo assim?), vejo um pacote (que podia conter um dicionário) seguir caminho nas garras do mosquito electrónico e temo que venha a cair cima da cabeça de alguém. Encomendas de livros online vão ter os dias contados para muita gente quando as entregas passarem a ser feitas por drones. E queira Deus que isso não signifique mais gente no desemprego.
Há muito dinheiro a poupar, muitos empregados a despedir... Os drones não serão proibidos mesmo que de vez em quando morra um transeunte. Falta apenas legislação que permita o seu uso às empresas e o proíba aos comuns mortais.
ResponderEliminarnão vão despedi-los por enquanto | por enquanto o que importa é que percebam que podem ser substituídos | vantajosa*mente | que a sua natureza retro-mórfica não competirá em qualquer caso com uma praga de incectos de genética furtiva e flutuante | o que importa é disseminar uma hipocondria amarela, um temor de um futuro a-humano, porque, aparentemente, extrínseco à condição de consumidor, todo o homem é substituível ||| sucede que nem contabilisticamente [matematicamente] um tal modelo terá sucesso, excepto se as máquinas se tornarem, elas próprias, consumidoras, regulares e tendencialmente passivas | mas não se chegará tão longe em tal ousadia, sem antes ocorrer uma …………..……. | …………..……. insurreição de almas ou de bytes
ResponderEliminarEntão se o grande capital não quisesse ganhar tudo e cada vez mais (com menos custos) não seria que em vez do despedimento a solução fosse manter os postos de trabalho com menos horas de permanência? A luta foi difícil para se conseguirem as 8 horas de trabalho, agora haverá que iniciar uma nova luta para as 4 horas de trabalho! E isso cabe às novas gerações, só que as novas gerações só querem é telemóveis e casas de segredos...
ResponderEliminarSeverino, nem era preciso chegar a tanto. Mas tem razão: a diminuição do horário de trabalho é inevitável e era altamente desejável numa altura de contracção económica por via da procura, numa altura de necessidades materiais e imateriais por satisfazer.
EliminarEsta economia em que vivemos na actualidade perdeu o sentido da resolução dos problemas, ao esquecer-se da resposta de Talcott Parsons . Parsons , o sociólogo moderno, ex-economista, que resolveu tornar-se sociólogo face à percepção de que a economia só existe como resolvente dos problemas sociais. Tudo o resto é abstracção.
E nem vale a pena falar em Keynes e nos buracos que se abrem e fecham para não contrair mais a economia e que não são geradores de inflação, já que os neo-liberais neo-clássicos da ignorância logo contrapunham que o Estado não deve estar na economia já que o contamina pela ineficácia, dizem.
Numa Europa de políticos com grandes orelhas de burro, falta de experiência e competências em que muitos ainda não perceberam de que pior do que o gorgulho inflacionista (que é só um problema quando se consome em excesso para além da capacidade potencial de produzir) só a bactéria autofágica deflatora que se alimenta do tecido... económico.
Deflação que coloca o rendimento potencial a níveis tão baixos, alimentando um vórtice de empobrecimento que a quase (e o quase engloba especuladores, rentários , corruptos, etc.) ninguém aproveita.
Viver numa economia de subprodução como a que actualmente vivemos, geradora de perdas de consumo para além das importações (e mesmo a estas é preciso tomar em conta a componente de input para externalizar - via exportações), é de uma total inanidade mental de ignorantes ou delirantes, de indivíduos com uma muita fraca capacidade de reflexão e de diálogo com o passado e com os livros que o encerram, disponibilizam, estimulam.
Um plano nacional de leitura, um novo fôlego para as artes sem necessidade de apoios públicos (bastava a discriminação positiva por impostos em sectores imateriais de prestação de serviço ao público), para lhes povoar a verve, imputar conhecimento e ideias... era-lhes francamente adequado!
Um plano nacional de leitura para os políticos!
EliminarÓ PAS...
Para se poderem ocupar cargos, seria obrigatório terem lido um certo número de obras, a eleger conforme o cargo! E fazia-se-lhes um exame, olá!
Isso é que era!
E não deveria ter medo porque se na profissão que exerço (formador) tivesse medo demitia-me (da função) por incompetência!
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ResponderEliminarPenso que não será num futuro muito próximo, mas não há dúvida de que, um dia, haverá muitos "drones" pelo ar... ;)
O subsídio de desemprego, por aqui, é de facto mais alto do que o português. Na verdade, eu não conheço bem o sistema, mas penso que se acabou com os subsídios de desemprego, criando uma espécie de Rendimento Mínimo Garantido - o "Hartz IV" - para pessoas sem rendimentos (sejam desempregadas, seja o que for). E, apesar de, comparado com subsídios portugueses, ser mais alto, certas pessoas vivem com muitas dificuldades. Mas o pior mesmo é o estigma social, o "Hartz IV" criou uma classe de pessoas que vivem à margem da sociedade e que são encaradas com muitas reservas. Além disso, mesmo com um subsídio de desemprego mais ou menos confortável, a sensação de ser inútil dá cabo da psique, tanto em Portugal, como na Alemanha, como no Japão.
P.S. Desculpem a repetição de "pessoas".
EliminarPor onde anda o João Courinha?!
ResponderEliminarNa Agricultura!
EliminarProvocação ao escritor/agricultor João Courinha : e subsidiada, ó João, ou a pujante economia liberal? :)
EliminarOlha que semeaduras e searas de literatura se podiam "abrir" nos nossos campos do intelecto se o conhecimento e a ficção fossem subsidiados ao hectare ou ao alqueire para semear ministros, secretários, políticos, ou apenas cidadãos em geral? Pois, já vi a PAC, já não é ao hectare... é mais ao alqueire: alqueires de livros a povoar as nossas cidades!
Certamente saudável lida em lavoura.
EliminarGrata!
Hum... despedem para baixar custos! Ok.
ResponderEliminarAssim ganham mais dinheiro, mas...
Despedindo baixam o poder de compra, logo desce o consumo.
Menos consumo é igual a menos ganhos...
Despede-se mais para baixar ainda mais os custos!
Levado ao extremo... ninguém terá dinheiro para comprar nada!
Então em que é que ficamos?
É que eu tenho muito medo dos extremos... ai tenho, tenho! E esta malta de hoje é muito dada a extremos... ai pois é, é!
Realmente... ando muito medroso!!!!
Saudações kaluandas!
parece-me um futuro, não tão próximo como isso.
ResponderEliminarmas por outro lado, penso que será mesmo preciso "fabricar" bonecos melhores que nós, é bom é não sejam tão espertalhaços. :)
acredito que daqui a 40 anos haverá muito menos população no mundo, não só porque a taxa de natalidade continuará a baixar, mas também porque a própria natureza continuará o seu "ajuste de contas", que até já chegou à nossa costa...
Ei! Você aí?! transeunte; desavisado; tolo...lembre-se:
ResponderEliminarVertente saudade nem seria artifício vazio, (ante dizer) ía-se apenas resignação - ensaio sublime!
Ó Cláudia um dia estava eu a dar uma formação e falei em transeunte e não é que o formando
Eliminar(licenciado) não sabia o que era um transeunte...ah pois é...
Estou sempre a tropeçar na frase \"o Estado não se deve meter na economia\" ou \"o Estado é mau gestor\", mas os que as apregoam vão aos bolsos dos privados retirar grande parte dos seus rendimentos (trabalhadores da Adm Publ e pensionistas à cabeça) e entregam-nos aos bancos para que prossigam as suas brilhantes atividades; retiram aos privados os benefícios fiscais de que dispunham e concedem-nos às grandes empresas em montantes obscenos. O Estado não se imiscui na economia mas financia integralmente a invasão do Iraque, por exemplo.
ResponderEliminarBons subsídios de desemprego na Alemanha?! Ah! Estes mitos da bela nação teutónica...
ResponderEliminarJá estou mesmo a ver: die Luftpost...
A tecnologia, na realidade, tem tendência para aumentar o emprego - algo que se verificou nos últimos dois séculos, com um aumento extraordinário do emprego acompanhado dum grande desenvolvimento tecnológico. O insuspeito Paul Krugman explica bem porquê no livro The Accidental Theorist.
ResponderEliminarA tecnologia tende a aumentar o emprego?
EliminarEm teoria certamente... pois na prática...
Repare:
Tradicional
1 rancho (4 mulheres e dois homens) a apanhar azeitona.
Tecnologia
1 tractor com máquina de vibrar = 1 operador e dois assistentes.
Resultado: - 3 empregos
Tradicional:
N portageiros na autoestrada
Tecnologia:
N máquinas automáticas
Resultado: - N empregos
Tradicional:
Caixas de supermercado - N trabalhadores
Tecnologia:
N check outs automáticos
Resultado - N empregos
Etc. Um longo etc...
Não se esqueça da definição de economista:
- Aquele que explica amanhã, porque é que as previsões que fez ontem não se verificaram hoje!
Não se esqueça dos empregos necessários para criar o tractor e as máquinas e o seu desenvolvimento e por aí fora. A tecnologia e o seu desenvolvimento criam mais empregos do que destroem, só que para pessoas diferentes (isto não é futurologia, afinal por esta razão o emprego aumentou nos últimos dois séculos). Veja aqui: http://www.slate.com/articles/business/the_dismal_science/1997/01/the_accidental_theorist.html
EliminarMas não julgue que sou um simples "iludido". A coisa pode estar a piorar, neste sentido: http://www.economist.com/news/leaders/21594298-effect-todays-technology-tomorrows-jobs-will-be-immenseand-no-country-ready
A migração, isto é trocar um emprego de portageiro exercido por um habitante local, para um emprego a muitos km para a fábrica das máquinas, não significa melhoria!
ResponderEliminarPode mesmo significar piores condições, ao fazer sair a população daquele local e obrigá-la a ir encaixotar-se num subúrbio industrial.
Aliás nem mesmo evoluir significa mudar para melhor e sim apenas mudar!
A isso os Krugman e demais não dão importância.
Brincam aos aprendizes de feiticeiro.
Não sou avesso às tecnologias, ou não usaria esta maravilha que é a net!
Não sou avesso a mudanças ou não teria saído do meu Bairro Ribatejano depois dos 55, para trabalhar até em áreas novas e com as novas tecnologias da conservação, etc.
Mas sou avesso aos economistas e aos seus experimentalismos teóricos que esquecem que mexem na vida das pessoas, e têm consequências que eles quase sempre ignoram e nem preveem!
Diáriamente sou confrontado com barbaridades de economistas, e vivo-as, sinto-as na pele... e vejo o que causam ás pessoas. Eles deviam descer da sua torre de marfim e vir ver...
Diga-me qual o prémio Nobel da Economia que tenha desenvolvido e conseguido implementar um modelo económico que tenha modificado para melhor a existência da humanidade em geral?
Repare que digo Humanidade em Geral e não de sectores económicos, de empresários ou empresas!
Saudações kaluandas!
Caro e Extraordinário Livros e Outras Manias:
ResponderEliminarEspero não estar a ser demasiado peremptório ou mesmo agressivo na opinião que expresso.
Entenda-a sobretudo como um desabafo de quem trabalhou mais de 30 anos na, com e para a economia, e a viu errar continuamente, conduzindo à falência tanta gente e projectos, até países...
Um abraço!