Dizer e ouvir

Nos anos 1990 lembro-me de comprar muitos CD da (eu dizia «dos») Penguin Café Orchestra, sem nunca chegar a investigar donde vinha o nome desse grupo de músicos. Curiosamente, descobri há pouco tempo existir no Porto um café chamado Pinguim – quiçá apenas uma coincidência, quiçá um estabelecimento de alguém que também ouvia com prazer aquele som. Em todo o caso, a música de que quero falar agora é a das palavras, porque neste Café Pinguim diz-se poesia há vinte e cinco anos todas as segundas-feiras. A ideia nasceu com o falecido crítico e poeta Joaquim Castro Caldas, que ali começou a recitar Pessoa e Almada e acabou por criar o vício de dizer poesia a muitos outros, autores e actores, que levavam livros debaixo do braço e esperavam a ordem do mestre para os ler. Valter Hugo Mãe, Filipa Leal ou Daniel Maia Pinto Rodrigues, todos poetas com obra publicada, começaram ali naquela espécie de laboratório, e até hoje são visitas regulares do Pinguim. Infelizmente, Castro Caldas não está já neste mundo para ver a colectânea de poemas, Antologia da Cave, que foi lançada recentemente na Biblioteca Almeida Garrett (na Invicta) para comemorar os 25 anos de leituras no Café Pinguim, mas substitui-o o actor Rui Spranger, que hoje é quem comanda as hostes. Fazia-me falta um café assim em Lisboa, pois gosto de dizer poesia, minha e de outros, e na capital não conheço onde se possa fazer tal coisa num dia certo e, claro, com público. Quando for ao Porto, espero poder dispor de uma segunda à noite para ir ao Pinguim e, entretanto, vou ouvir os meus velhos CD que têm, aliás, belíssimas capas.

Comentários

  1. é curioso, mas penso que nunca se disse e escreveu tanta poesia como nos nossos dias.

    mas a continuidade destas coisas, destes cafés com poesia, é que é complicada.

    as pessoas fartam-se mais depressa, de quase tudo...

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  2. esqueci-me de falar da antologia, com um nome grande.

    uma boa comemoração de 25 anos de poemas e poetas.

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  3. Tenho visto circular um vendaval de tertúlias de poesia na internet. Todos os dias, ou quase todos, recebo convites para este tipo de convívio e apesar da minha impossibilidade em estar presente, estas minhas recusas, deixam-me sempre um gosto nostálgico na boca, é que gosto tanto de ouvir recitar poesia... E se aqui, neste espaço extraordinário, se anotam muitos títulos de obras, pois que se anote também o nome do café onde às segundas se respira poesia. Obrigada MRP por nos dar a conhecer estas relíquias que ao tempo vão pertencendo.
    Um abraço.

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  4. Tenho visto circular um vendaval de tertúlias de poesia na internet. Todos os dias, ou quase todos, recebo convites para este tipo de convívio e apesar da minha impossibilidade em estar presente, estas minhas recusas, deixam-me sempre um gosto nostálgico na boca, é que gosto tanto de ouvir recitar poesia... E se aqui, neste espaço extraordinário, se anotam muitos títulos de obras, pois que se anote também o nome do café onde às segundas se respira poesia. Obrigada MRP por nos dar a conhecer estas relíquias que ao tempo vão pertencendo.
    Um abraço.

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  5. São já duas as tertúlias deste tipo de que conheço a existência no Porto. Não me admiraria que houvesse mais. Por outro lado achava surpreendente o número de músicos do campo da pop e do jazz que surgiam oriundos do Porto. Em ambos os casos, para que tal suceda é necessário que as pessoas se encontrem e desenvolvam juntos essas atividades, o que parece ser uma virtude do Porto. Se houver uma explicação sociológica gostava de a conhecer. Continuo atento à possibilidade de ela surgir.

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  6. Claudia da Silva Tomazi11 de fevereiro de 2014 às 04:20

    Dizer e ouvir e ler...recentemente no livro do escritor inglês Jonathan Coe este menciona o "Café Alcântara" de Lisboa o lugar bem acolhedor.

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    1. Claudia, gosto imenso do Jonathan Coe.
      Poderá dizer-me o nome do livro?
      Obrigada.
      :-)
      Antonieta

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    2. Claudia da Silva Tomazi11 de fevereiro de 2014 às 05:48

      Pois sim, Antonieta! O círculo fechado - 2004, ficção inglesa.

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    3. Obrigada, Claudia.
      Eu li The House of Sleep (1997) e The Rain Before it Falls (2007). Vou tentar encontrar esse.
      Beijinho
      Antonieta

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    4. Claudia da Silva Tomazi13 de fevereiro de 2014 às 03:38

      Querida Antonieta ontem li um pequeno livro do escritor francês Jean-Cloude Izzo - O sol dos moribundos.

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  7. não é peixe mas nada | é ave mas não voa | PINGUIM | é café mas não é | não é bar mas é taberna-oficina-abrigo | etílicos doces e melancólicos fermentos ácidos e enfeitiçantes onde se entra pelas menstruais portadas da noite ! vermelhas ! lindissimas ! arca de palavras, bosque negro de corpos na inacabada cerzidura da noite | lugar-não-lugar | gente-bando vagarosos solitários | amantes contaminados de demora | estive lá certa noite não estive, mas recordo um POEMA dito pelo remador esguio sob um grande aguaceiro inexplicavelmente quente | não estive e era Novembro naquele livro aberto

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    1. Tem razão, Miguel.
      Fui espreitar à net e as portadas são vermelhas, lindíssimas.
      E o seu texto é belíssimo.
      :-)
      Antonieta

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    2. Também gostei:)

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  8. Gosto muito de ouvir poesia, mas as oportunidades não abundam. Por acaso, no domingo convidaram-me para assistir a Une saison en enfer, de Rimbaud, um solo de 1h15m de poesia exigente mas apaixonante. Também já assisti maravilhado a uma sessão de poesia num bar da Póvoa de Varzim que infelizmente já fechou, com poetas que devem conhecer bem o Pinguim (vhm estava presente na sessão) A poesia nunca deixou de nos fascinar. Ainda bem.
    João Neves
    parisvertigo@blogspot.fr

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  9. Que grande sorriso me trouxe aos lábios!!!

    Fui lá algumas noites, algures entre 1993 e 1998. A primeira vez lembro-me que foi a 1 de Maio, ou muito perto dessa data, e fartaram-se de declamar "O operário em construção" do Vinicius.

    Na altura era o Joaquim Castro Caldas que comandava as operações. O ambiente era muito boémio, por vezes a descambar para o etílico, com picardias entre os participantes, mas o nível era (digo eu, que sou barbeiro) muito bom. Apanhei lá grandes declamadores, julgo que parte deles actores de teatro.

    Não fazia a miníma ideia que ainda se faziam essas sessões. Acrescento que se descia para a cave do bar, quando era dada ordem de início de sessão, provavelmente advém daí o nome da colectânea de poemas.

    Fez-me recordar grandes tempos hoje! :)

    Rui Miguel Almeida

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  10. Ó pá, que ideia mais bonita que teve Castro Caldas (cujo não conheço mas fiquei curiosa)! Como eu gosto de ouvir dizer poesia, a poesia é oral já acenava Sophya. Dizê-la com as palavras todas com que os poetas a escreveram; com os sons e o ritmo que lhe deram; com a alma que é de cada um que a lê e lhe pega em cuidados maternos, a retira do chão em que nasceu e a ergue no cume da voz. A sentir que nas palavras vai muito do que está para além delas e é isso também que, insidioso mel, penetra, cola. E faz nicho nos ouvintes. E no ar uma aura que se demora e desprende da voz calada. Que talvez nem esvaneça. Imagino eu. Que seja assim. Ou. Mas há-de ser uma forma enlaçante, serpentina. Um tempo de diferença. De ritual a agradar a vida.

    Como não posso ir ao Pinguim e da Penguin não sei se sei, vou ouvindo o meu professor que mais que lê. Ele merece.

    Boa tarde. Sejam felizes com a poesia

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