Cultura e socialite

Desde sempre me lembro de haver na minha faculdade (a de Letras, em Lisboa) cursos de Português para estrangeiros durante o Verão. No entanto, certamente por causa da vaga de imigrantes de Leste que chegou já no século XXI, passou a haver aulas de Português para estrangeiros ao longo de todo o ano em horário pós-laboral. Pois foi justamente um dos frequentadores destas aulas – um não-português, portanto, e com a cabeça no lugar – que escreveu recentemente ao director de um jornal uma carta, revelando uma justíssima indignação por a sua professora ter levado para a aula a revista Caras, alegando que Lili Caneças ou José Castelo Branco eram «figuras incontornáveis da cultura portuguesa» (mais dois, suponho, que acabarão com os costados no Panteão Nacional). Sei que «cultura» é um termo demasiado abrangente e que quase tudo cabe nele, do cozido à portuguesa ao futebol, passando pelo queijo da Serra e o cão-d’água que Obama adoptou como animal de estimação. Calculo também que o nível médio dos nossos professores tenha vindo a baixar de modo evidente de há quinze ou vinte anos para cá (não podemos pôr todos no mesmo saco, mas, nos anos em que estive no ensino, eram infelizmente muito poucos os meus colegas que liam regularmente, e menos ainda os que liam literatura). Vejo diariamente que até as publicações mais sérias – já para não falar das televisões, que deixei praticamente de ver – não raro dedicam um espaço escandaloso a figuritas de papelão e enredos de vizinhas. Mas... na Faculdade de Letras, onde deveriam ser promovidos os escritores, filósofos e historiadores portugueses, não conseguiram encontrar ninguém para representar a nossa cultura além destas duas completas aberrações? Eu tinha consciência de que isto andava mal, mas não tão mal como realmente anda.

Comentários

  1. Abordagem parcial: os professores leem pouco, e os professores de Português que leem e escrevem são uns baldas, porque gastam o tempo nestas atividades.
    Abordagem geral: o lixo da cave já chegou ao teto.

    António Breda Carvalho

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    1. Nota: onde se lê "teto", leia-se "telhado".

      ABC

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    2. Certamente, certamente. Não vejo porque invocar aqui tetas. Suponho assim que a falta do "c" em "actividades" e do acento em "vêem" foram meros lapsos.

      Coisas que acontecem, nada mais.

      Costa

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  2. Claudia da Silva Tomazi7 de fevereiro de 2014 às 02:22

    Outrora atribuida vida social "right socity".

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    1. Extraordinário Severino: Dovvdan biekazza mii/ savkkástallá cada liikkiidan/ nuohtaid dolos cuovkanan nieguin/ Devdet áimmu ja rastildit/buot cieza ábi/ skávhillit buktet jienaid/ ruovttoluotta munnje.
      Não percebeu? Não faz mal, a música é linda cantada por Mari Boine. Só tem de tentar traduzi-la. Um abraço.

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    2. Ó João Madeira gosto mais da música que a Cláudia Tomazzi nos dá...

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    3. Ahahahah!
      Desculpem-me, mas é que ri mesmo!!!!
      Com ambos e dois!

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  3. E o Mr . ED -o cavalo que fala, também deverá acompanhá-los ao Panteão.

    Ó meus amigos extraordinários já aqui disse que há poucos dias vi no "Quem quer ser milionário" da TV1 , um finalista de jornalismo que perante a pergunta quem escreveu "O NOME DA ROSA" e perante as quatro opções: ITALO CALVINO (não me diz nada-nunca ouvi falar) ANTÓNIO TAABUCCHI (nada me diz, absolutamente nada), ALBERTO MORAVIA (zero, não conheço), UMBERTO ECO (tenho uma vaga ideia, mas não tenho a certeza)...perante este panorama...EUSÉBIO ao panteão, o maior paneleiro de sempre ao panteão, a alface lili de Caneças ao Panteão, MR . ED e toda a sua troupe da CASA ao panteão...estamos conversados.

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  4. A FLL é uma grande casa, há lá de tudo. Suponho que esses cursos, inicialmente de férias de Verão, sempre foram encarados como meio de rentabilizar instalações e conseguir financiamento, dando ao mesmo tempo emprego a professores que não se enquadram na carreira universitária nem têm habilitação profissional para o secundário.
    Não podemos, portanto, aferir a qualidade da faculdade pelo ensino de uma professora de PLE.
    Ainda há pouco tempo assisti maravilhado à penúltima aula do Professor Ivo Castro. Da FLL.

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  5. Já me fartei de rir.
    Obrigada!
    Bom fim de semana!

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    1. Cláudio da Silva Tomazi7 de fevereiro de 2014 às 03:28

      Eu também!

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    2. Aqui não é o cavalo que fala, é o burro que escreve!
      O que é mais ou menos a mesma coisa, não acha?

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    3. Anónimo=cobarde

      Zuvi Zeva Novi

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    4. Como este mundo anda! Então a Cláudia é Cláudio? Bem que eu andava desconfiado, talvez por influência do Severino, de que nos andava a enganar!

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  6. Sinceramente nada mais me espanta porque por aqui as livrarias só fazem exibir livros com sapatos, cintos, algemas na capa, mas como ninguém os lê (mesmo com as vendas em alta) e criticam abertamente a péssima qualidade do livro, fica difícil entender - é feito novelas que as pessoas dizem não assistir, mas quando o capítulo está no ar, as ruas naturalmente se esvaziam.
    Quando ao livro, eu descobri o segredo, no metro, outro dia uma senhora estava a ler um livro de geografia. Estranhei o título. Estranhei mais ainda a leitura feita com tamanho afinco. Pois bem, ela precisou se levantar e a falsa capa do livro foi ao chão. A senhora estava a ler cinquenta tons... rs
    Em tempos, prefiro eu ler Anais Nin.

    bacio

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  7. Ora bem, se esse aluno tivesse tido as mesmas aulas de Português para Estrangeiros na minha faculdade, nada disso teria acontecido. Nada melhor do que saber o que a concorrência anda a fazer (de mal...)
    :)

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  8. estamos a chegar a um ponto, em que quase nada nos surpreende.

    isso é que é extremamente perigoso.


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  9. a cultura [autóctone] portuguesa, perdoe-se a rigidez do parêntesis mas compreenda-se a necessidade dele, não sobreviverá por certo à aluvião de contextos globalizados | Para o consegui [artificiosamente?] teria se ser subvencionada por nós, acaso fossemos uma sociedade estruturada do passado para o futuro, e não da memória para a miragem, como é o caso desde Alcácer-Quibir, primeiro [e talvez ainda] com um messianismo procrastinador, mais recentemente por um processo de “não inscrição” que José Gil resume como um “medo de existir”, e que impele o nosso psicologismo nacional, suponho eu, para uma adesão descompensada, para uma identificação primária [acrítica e inferiorizada] com o exterior, seja no contexto Europeu seja no âmbito mundial | Porém a negação das nossas contingências endógenas e a aparente falta de lucidez com que lemos a deriva das coisas-do-mundo, mundo este tomado de forma massiva e imperativa pelo frio enunciado da fórmula capitalista, [agora na vertente financeira, a mais aguda!] deixa-nos enquanto sociedade, ou melhor, enquanto povo, sem capacidade de ripostar ou sequer proteger a nossa identidade | O desastre é que uma identidade nacional e unívoca só terá lugar e pulsação num contexto de heterodoxia universais, algo que está a desaparecer devido aos transvazes financeiros, a monocultura de sequeiro da ciência e da tecnologia (1), também elas sob forte propensão produtiva, e, condição irredutível, num contexto de inequívoco HUMANISMO [tal qual Espinosa o imaginou e anteviu] | Mas se não é do saudosismo que virá o nosso meio de salvação [como Pascoaes julgava possível] tenho a impressão que o Interseccionismo de PESSOA, à época demasiado ousado e pouco entendível, teria agora [tempos de tangência de tudo a tudo],se não a capacidade de revolucionar inteiramente a geometria e as estruturas dominantes, ao menos [re]calibrar as proporções das forças dominantes

    (1)A arte parece seguir o mesmo caminho, embora a sua irreverência e inconstância sejam a todo o momento capazes de despoletar acontecimentos imprevisíveis e de ruptura

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    1. ... ao menos a de [re]calibrar as proporções de tais forças

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    2. Hum... belo exercício de análise e interessante discorrer!

      Óbviamente fora do âmbito da caras e do alcance dos leitores desta...

      Um abraço Extraordinário!

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  10. Uma das confusões mais perniciosas que ocorrem é meter no mesmo saco cultura e entretenimento. E a atividade que mais se presta a isso é o espetáculo. Vejo todos os dias na TV durante os noticiários passar em rodapé o anúncio de espetáculos sob o título \'cultura\' que são de facto atividades de entretenimento. Daí a Caneças e a Castelo Branco é um passo. E mesmo Barreiros e Santana não ficam longe. Bom fim-de-semana, caros Extraordinários.

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  11. Calma, Maria do Rosário. A seu tempo, estas coisas assentarão e acabarão por ocupar os seus devidos lugares.
    Então não se está já a ver que a revista “Caras” é uma degenerescência da “Lanterna Mágica” e da posterior “Ilustração Portugueza”?
    Quanto a Lili e Castelo Branco – versão actual das caricaturas de Rafael Bordalo Pinheiro na “Lanterna Mágica” – ficarão em lugar sucedâneo ao dos incontornáveis bonecos de Rosa Ramalho.
    Ora, não será isto que a douta professora da Fac. de Letras está já a antever?

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  12. Gostei muito destas duas últimas análises!

    Em particular da afirmação de não confundir cultura com entretenimento, se bem que haja formas de entretenimento que são manifestações de cultura (nas suas várias vertentes...)

    Há que entender que, efectivamente e por muito que nos desagrade, o Castelo Branco e a Lili Caneças fazem parte de uma subcultura... como fazem a Margarida Rebelo Pinto ou o Rodrigues dos Santos, e que são figuras incontornáveis, não da cultura mas dessa subcultura dentro da nossa sociedade contemporânea e do quotidiano.
    São "figuras" (cromos se preferirem) da actualidade, fazendo parte do dia-a-dia das pessoas comuns, as que não lêem, nem por isso vão a exposições e museus, etc.
    E são a esmagadora maioria... acreditem!

    Mas, há outras pessoas... enfim atrevo-me a dizer "mais como nós", que também vivemos no mesmo Mundo, mas com uma outra forma de ver e de estar, que têm outros gostos... e até bem diferentes: Eu adoro corridas de toiros!

    Há lugar para todos, diria, e ainda bem... é a tal diversidade.
    Pela minha parte não contesto nem critico, apenas analiso... e constato as diferenças, nada mais.
    Assim viveremos em paz e no respeito pelas diferenças, em tolerância. Coisa que muito prezo.

    Mas, convenhamos que o Castelo Branco em particular é o supino do mau-gosto! Devia ser proibido! Como dizia o avô Abreu.

    Termino questionando: a tal professora terá sido bem entendida no seu propósito de levar a "Caras" para a aula? Talvez o objetivo fosse o de motivar o debate, como estamos aqui a fazer... seria?

    Saudações novamente kaluandas!

    PS - já entrei no defeso... agora, ler é uma dificuldade, ainda bem que apanhei uma barrigada na minha estadia aí! Caramba, desforrei-me! Mas não consegui ler nem metade do que queria... e cada vez que ia a uma livraria, tunga! Lá comprava mais uns 6 Kg de livros... o cartão de leitor da Bertrand ficou bem carregadinho...

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    1. Bem visto, caro Pacheco. Nunca saberemos, mas, provavelmente, o propósito da professora poderá ter sido esse. Mas como a especialidade de grande parte da pseudo-elite do nosso país é falar ou escrever acerca daquilo que não sabe… olhe… temos de viver com o que temos.

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  13. [CARAS ou bataras, são o] bê-á-bá das futilidades biliares o bê-á-bá das frivolidades de silicone o bê-á-bá dos clichés sociais incestuosos o bê-á-bá dos voyeurismos de alcova o bê-á-bá dos lixos a cores o bê-á-bá dos ícones holográficos … não representam coisa nenhuma para lá do bê-á-bá de uma infra-cultura | a cultura começa na e com a letra C

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    1. Pois... assim serão para si ( e para mim, note-se!), mas são lidas por muitos milhares de pessoas, constituindo por isso um fenómeno, seja ele cultural, social, jornalístico, ou até da incultura, do opróbrio e da alarvidade.

      Continua a incógnita sobre o que terá levado a professora a usar a dita, na sua aula...



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    2. Vou defender a Caras, defendendo o género. Não como cultura, é entretenimento e mais tudo isso que bem disse acima. Não vem mal ao mundo se a publicação terminar. Mas há gostos e momentos. E gente que vive deles. Só literatura, fartava. E não havia opinião formada sobre o que melhor nos serve.

      talvez a professora estivesse a ironizar.

      Mas é verdade que muitos professores não gostam de ler. O que lamento por eles, pelos alunos e famílias que os têm e pela classe de que são elo. Quanto prejuízo para o mundo!

      BFS

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  14. excepcionalmente arrisco: em abono, que a sra professora tenha ido ao cabeleireiro pouco antes da aula, e em desabando que pretendesse lá ir logo apòs dar a aula

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    1. ,,, desabono ... [teclados descontrolados escrevem palavras descabidas]

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