Paradoxos

Há muitos anos, na primeira editora em que trabalhei (e que era, nesse tempo, uma editora especialmente apostada na divulgação científica), publicou-se numa série dedicada à matemática um livro muito interessante chamado Círculos Viciosos e Infinito: Uma Antologia de Paradoxos. Deveria ter sublinhado círculos (faço-o agora), tantas vezes ouço e leio erradamente a palavra «ciclos» dita e escrita por gente que tinha obrigação de conhecer a expressão «círculo vicioso». Nesse livrinho, em todas ou quase todas as páginas, havia, à laia de cabeçalho, um paradoxo – e aquele que melhor recordo, por ser o mais cómico, era da autoria de um senhor chamado George Moore, creio que filósofo, e dizia: «What are husbands for, but to keep our mistresses?» Bem visto. O paradoxo em geral sempre me interessou – e há coisas também paradoxais na nossa língua, como o facto de «executar» significar «fazer, realizar», mas também poder ser o fim desse fazer e realizar quando se executa alguém. E ainda mais estranho encontro o verbo «sancionar», que serve a um tempo para aprovar e punir, deixando-me sempre confusa quando leio que alguma coisa foi sancionada, ignorante sobre se levou castigo (sanção) ou, pelo contrário, recebeu uma solidária aprovação (sanção). Um dos mais conhecidos paradoxos é o de Epiménides, que terá dito: «Todos os cretenses são mentirosos.» O problema é que Epiménides nascera ele próprio em Creta...

Comentários

  1. Claudia da Silva Tomazi15 de janeiro de 2014 às 02:53

    A Língua Portuguesa a Gramática (por exceção)palavra "imprudência".

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  2. As chatices que me deu o paradoxo de "sancionar" (em contextos político-diplomáticos) quando escrevi a tese em Português...

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    1. Se bem entendi, foi uma “imprudência” sua, que depois, por exceção, foi sancionada...

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  3. Na minha visão algo distorcida e anarquista os paradoxos têm a enorme vantagem de caminhos perpendiculares, permitindo-nos fugir às regras rígidas estabelecidas.
    O mar torna-se uma espécie de oceano com saída para outros oceanos, a antítese de mares mortos onde flutuamos sem saída.

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    1. E, claro, muito obrigado pelo seu generoso agradecimento que me faz no livro por umas poucas palavras minhas aqui deixadas de louvor à qualidade da sua escrita.

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  4. Gostamos de paradoxos.

    Lembrem o “imigrem” do nosso primeiro-ministro Coelho. O rei dos paradoxos é português.

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  5. As pessoas são paradoxais. E a vida é, em grande parte, ilógica.

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    1. Ou seja, Beatriz: paradoxal é o desconcertado Mundo em que vivemos.
      Mas isto já vem de longe:

      «Os bons vi sempre passar
      no Mundo grandes tormentos;
      e pera mais me espantar,
      os maus vi sempre nadar
      em mar de contentamentos.

      Cuidando alcançar assim
      o bem tão mal ordenado,
      fui mau, mas fui castigado:
      assim que, só pera mim,
      anda o Mundo concertado.»

      Por paradoxal que isso possa parecer, Camões permanece actual.

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  6. O melhor dos paradoxos que conheço é também o mais conhecido: Aquiles e a tartaruga, de Zenão de Eléia.

    Um outro paradoxo foi estar ausente deste convívio literário e só agora ter reparado, após colocar a leitura em dia, no comentário do Extraordinário ribatejano António-Luiz Pacheco, que tece, na participação de um post mais atrás, agradáveis comentários ao meu livro "A Mulher que Sabia Tudo".

    Por falar em leitura de livros de Extraordinários, tenho três na calha: "A Cruz de Esmeraldas" da Cristina Torrão; os dois volumes de 1.330 páginas de "Largueza" do António-Luiz Pacheco e a "Obsessão" do Pedro Almeida-Sande.
    Para ser sincero, sem ler estas três obras, considero que não sou um leitor atento e admirador destes Três Extraordinários, como de outros que, como eles, exercitam e publicam a sua escrita, arrojando fazê-lo num país onde parece despontar mais um paradoxo: lêem-se e elogiam-se obras menores de autores internacionais e não se lêem ou, quando o fazem, vituperam-se melhores obras dos autores nacionais.

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  7. ...e afinal, vai-se a ver, e é o próprio Amor – fogo que arde sem se ver – o perpétuo paradoxo que anima a Humanidade!

    «(...)
    Mas como causar pode seu favor
    Nos mortais corações conformidade,
    Se tão contrário a si é o mesmo Amor?»

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  8. António Luiz Pacheco15 de janeiro de 2014 às 15:48

    Emigrei... não por ser bem mandado, mas porque a tal fui obrigado... não é paradoxo nenhum e sim uma chatice, ou talvez não?

    A minha mulher diz que eu sirvo para a tirar de sarilhos... também não é paradoxo nenhum!

    Já acabei a outra, a que sabia tudo... eheheh! Um bom livro para desopilar!

    Saudações do Bairro Ribatejano

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  9. Tenho lido os textos, mas não tenho comentado porque como não consigo ler, nesta altura, todos os dias, seria talvez disparate estar a fazer comentários em textos de há duas semanas.
    Mas neste, que é apenas de ontem, apetece-me dizer: e despoletar? O verbo que costuma ser usado para significar precisamente o contrário!

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