Os críticos
Um amigo partilha comigo um texto sobre Diderot e os críticos. Eu já sabia que Diderot não tinha papas na língua a respeito de quase nada (calhou-me uma história dele num exame de Francês do Secundário que nunca esqueci) e, em relação aos críticos, pelos vistos também não se poupa (nem os poupa), descrevendo-os como «os selvagens que certos viajantes do passado encontraram e que lançavam dardos envenenados» («farpas» seria para ele uma palavra demasiado doce, imagino). Reflectindo sobre os autores, Diderot afirma que o seu papel é bastante vaidoso, o de alguém que se crê capaz de dar lições ao público; mas logo acrescenta que o dos críticos o é ainda mais, na medida em que estes se acham capazes de dar lições àquele que se acha capaz de as dar ao público. E continua no mesmo tom, acusando o crítico de só encontrar virtudes nas obras dos escritores mortos e defeitos nas dos vivos (hum, nisto tem certa razão) e de, apregoando-se rigoroso e profundamente objectivo, não conta senão com a subjectividade do seu gosto e as mais das vezes com uma formação bastante escassa; pelo que afirma que o que um crítico devia ser antes de tudo era um «homem de bem», e não um «juiz, executor, verdugo, legislador, em suma, um ser que se julga superior a toda a gente e ainda por cima impune». Eh lá, esta é mesmo forte.
|...| E as pinoquices de vasco Mendonça Alves passadas no tempo da avôsinha! E as infelicidades de Ramada Curto! E o talento insólito de Urbano Rodrigues! E as gaitadas do Brun! E as traducções só p'ra homem (d) o illustríssimo excelentíssimo senhor Mello Barreto! E o frei Matta Nunes môxo! E a ignez syphilitica do Faustino! E as imbecilidades do Sousa Costa! E mais pedantices do Dantas! E Alberto Sousa, o Dantas do desenho! E os jornalistas do seculo e da capital e do noticias e do paiz e do dia e da nação e da repubuca e da lucta e de todos, todos os jornaes! E os actores de todos os theatros! E todos os pintores das bellas artes e todos os artistas de portugal que eu não gosto. E os da aguia do Porto e os palermas de Coimbra! E a estupidez do Oldemiro Cesar e o doutor José de Figueiredo amante do museu e ah oh os Sousa Pinto hu hi e os burros de Cacilhas e os menús do Alfredo Guisado! E (o) rachitico Albino Forjaz Sampaio, critico da lucta a quem o Fialho com immensa piada intrujou de que tinha talento! E todos os que são politicos e artistas! E as exposições annuaes das bellas arte(s)! E todas as maquetas do Marquez de Pombal! E as de Camões em paris! E os Vaz, os Estrella, os Lacerda, os Lucena, os Rosa, os Costa, os Almeida, os Camacho, os Cunha, os Carneiro, os Barros, os Silva, os Gomes, os velhos, os idiotas, os arranjistas, os impotentes, os scelerados, os vendidos, os imbecis, os párias, os ascetas, os Lopes, os Peixotos, os Motta, os Godinho, os Teixeira, os diabo que os leve, os Constantino, os Grave, os Mantua, os Bahia, os Mendonça, os Brazão, os Mattos, os Alves, os Albuquerque, os Sousas e todos os Dantas que houver por ahi!!!!!! |...|
ResponderEliminar| manifesto anti-Dantas de José de Almada Negreiros, publicado em 1915 |
Retive a sua citação final: um «juiz, executor, verdugo, legislador, em suma, um ser que se julga superior a toda a gente e ainda por cima impune».
ResponderEliminarNem vou atrás, ao passado, para quê?
Temos os críticos de hoje e pior, uma nova categoria deles a que se chama agora de:
- "Comentadores".
Há críticos, articulistas de opinião e até alguns comentadores que gosto de ler ou de ouvir, sem dúvida. Mas, na sua grande maioria são apenas indivíduos frustrados a quem pagam para dizer mal, pura e simplesmente! Não importa o que digam mas apenas que digam mal, para vender papel, espaço ou tempo, para atrair audiência.
Muitos sabem sempre como fariam se fossem eles a fazer, mas não fazem, só criticam o que outros fazem... alguns chegam ao desplante de ter tido a oportunidade de terem feito mas não fizeram, e, criticam os que depois deles tentam fazer!
Mas há ainda pior: os que se presumem virtuosos!
Esses então são de dar vómitos...
Cabem bem naquela citação... e se formos a ver é esta classe de hipócritas frustrados, de falsos sábios, quem preside às opiniões e modas, ás políticas, sejam elas sociais, políticas, culturais...
Mas parece-me que sempre assim terá sido, não?
É que quem sabe e faz, não perde tempo a criticar e menos liga ás críticas.
Um bom post a dar que pensar e muito!
Esperemos que chegue a alguns dos tais críticos.
Pela minha parte, pobre traça, nada tenho a temer e estou-me nas tintas, eles é que têm de se preocupar comigo que faço parte do "seu público", ahahah! Ou melhor, sou o crítico dos críticos, e somos todos, temos esse imenso poder!
Usemo-lo!
Saudações, ainda cá do Bairro Ribatejano...
Hum... perdoem-me os nossos Extraordinários e críticos do texto, os acentos trocados e alguma falta de pontuação... são os dedos a traírem.me!
Eliminar(não emendei esta troca do . pelo - para exemplificar)
Eheheh! Não sou e nem quero ser perfeito... quando morrer quero ir para o Inferno, onde estão as pessoas que interessam, os meus amigos e amigas! Bolas quem quer ir para um lugar onde estão as mulheres de virtude e os homens de temperança... a entoar cânticos, nús mas sem sexo, e flutuando nas nuvens? Livra!
Deve ser mais suave que arder no eterno junto a todos os coléricos do mundo, mulheres muito cheias de toucados e lacas, com vestidos de dois metros de largo, umas a cheirarem francamente mal e outras a entontecer-nos de perfumes doentios. Não se me dava de habitar um lugar calminho; o ponto é que não encaixo em nenhum desses perfis. Será que o céu admite voyeuses? E morrer simplesmente? A vida é por vezes tão complicada! Acabar tem a simplicidade desejável.
EliminarComo sabe que estão nus e são assexuados? a nudez não é muito desejável, a gente arranha-se em todo o lado, esfola onde não quer, enche-se de nódoas negras...e não sei se há lá betadine ou assim...
BFS
Esságora... deixe-me lá imaginar o Céu e o Inferno à minha vontade... tá bem?
EliminarOra esta...
Ponha-se para aí a embirrar e não a deixo ir para nenhum deles!
:)))
EliminarNão me deixa ir???!!! Não esperava um S. Pedro. Mas pronto, tá bem.
Olhe, António Luís, a vida é tão cheia de não me toques que, por vezes, gosto de pensar nestas palermices. Que não adiantam nem atrasam, tome-as como sorriso natural. Que começou em si. Só retribuí. Aí está:)
Bom Dia
Saber de que trata o livro e como o escritor o trata, é isso que espero da leitura de texto de crítica literária. Que me informe e me ofereça dados objetivos que me ajudem a decidir se me aproximo ou não da obra; e que o faça de um modo circunstanciado porque isso convencer-me-á que o crítico leu o livro. Depois, será interessante ouvir a sua opinião pessoal, mas se o texto crítico for só isso desisto da sua leitura.
ResponderEliminarMuito bem!
EliminarO Extraordinário Artur separa perfeitamente as águas...
Por curiosidade leio muitas vezes críticas nos jornais ou revistas... e de facto das duas uma, ou fazem alarde de cultura livresca com citações e comparações que de nada servem às traças que não tenham lido as referidas obras, ou entram pelo campo do pessoal e fica tudo estragado na mesma!
Um abraço e bem-haja pela sua clareza!
Caro António Luiz, obrigado pelas suas pelas suas gentis palavras e pelas suas sempre acutilantes contribuições. Adolescente, iniciei-me na leitura de crítica literária com o João Gaspar Simões no DN. Raramente percebia tudo, mas deleitava-me com a escrita do Simões. E aí está uma forma de crítica superlativa: a que é feita, ele própria, com elevada qualidade estética.
EliminarBom... e somos dois! João Gaspar Simões também me marcou bastante, se bem me recordo!
EliminarNão há dúvida de que me iria dar bem com Diderot. Afinal somos todos imperfeitos e a diferença entre o crítico e o Crítico parece estar em termos essa consciência. Dizer mal, pôr defeito, fazer comentário desfavorável a propósito de tudo e de nada com um comprazimento de fazer brilhar a sua própria estrela, é um exercício próprio de quase todos em maior ou menor dimensão. Criticar humanum est !»... com conta, peso e medida... são os nossos maus fígados a se libertarem do veneno da bílis.
ResponderEliminarMas dizer mal sem ser capaz de acto de contrição é de quem se tem como heliocêntrico, não saindo do seu pobre e acabado sistema "solar". A quem se dedica de alma sem coração a esse exercício, não lhe falta mundo, falta-lhe mais do que isso, falta-lhe espaço, tempo, para conhecer outras galáxias e outros sistemas solares.
Criticar na asserção do dizer mal ou pôr defeito é, de facto, um exercício solitário de quem não acompanha o movimento de todas as pequenas estrelas que brilham apenas por existirem. E afinal a crítica é apenas a tal visão de um ponto de quem não percebe que somos todos mais cegos do que Hodur , o Deus cego da mitologia Nórdica, um pobre passivo e ingénuo que matou o seu irmão com uma flecha feita de visco influenciado pelo invejoso Loki ou Lothur , o Deus do fogo, da burla, do engano e da travessura, símbolo da maldade, da traição, da desconfiança. Criticar, pelos vistos, já é mais do que humano, já que até já afecta os Deuses!
«...até já afecta os Deuses!»
EliminarAté que enfim...uma leonesa.
ResponderEliminarAssim sendo, aos críticos, digo:
ResponderEliminar- Ámen, Diderot.
Ou seja: Diderot criticou os críticos. Logo, imediatamente alvo da mesma flecha com que os quis atingir. É, nitidamente, uma pescadinha de rabo na boca, porque todos nos criticamos, todos nos impedimos. Alguns têm a palavra nos jornais, nas revistas e são por nós enxovalhados interiormente quando os lemos. Outros, na sombra de um gabinete e no ar artificial fingidor de uma temperatura que não há, criticam, bloqueiam, obstam, ignoram, rejeitam sem que se lhes conheça o rosto. E, sobretudo, impedem também. Daí, na minha concepção, o procurarmos o mais alto valor. O de, nos, criticarmos para que possamos passar incólumes à voz dos críticos.
ResponderEliminarConcordo inteiramente!
EliminarSe há coisas que possuo, é manifestamente um espírito crítico, não pela crítica em si mas pela análise que me permita resolver ou melhorar, evoluir.
Faço meu lema uma citação do cientista e filósofo português Bento de Jesus Caraça:
" Não tenho medo de errar, pois estou pronto a corrigir".
É o que nos deve conduzir a fazer coisas, sem tibiezas nem receios.
Um abraço Extraordinário J.A. Madeira
Não cometerei a imprudência de misturar os críticos com comentadores, mas...
ResponderEliminarNão farão todos (escritores, músicos, pintores, escultores, cineastas, ufa!... junto com os críticos) parte de um mesmo mundo?
Não deve haver coisa mais triste para um escritor (que se calhar até vende bem) ser ignorado por essa classe.
Julgo que para o verdadeiro criador de arte (pelo menos quem tenha tamanha veleidade) o dinheiro - que também é importante - não será a razão primordial dos seus desejos.
Vou fazer uma pergunta de traça, ignorante portanto, pelo que não se espantem, pois eu não sou deste Mundo!
EliminarNunca li nenhuma crítica a José Rodrigues dos Santos e nem a Margarida Rebelo Pinto, dois monstros das vendas...
Já algum dos Extraordinários leu?
Talvez eventualmente, no início da carreira...
E porque será?
Porque os ignoram?
Ou porque não se metem com eles???? Pode até haver "ordens" nesse sentido... malhem em todos, mas estes são sagrados...
A intenção é muito outra! E perniciosa! Não é literatura! Logo, não os criticamos...
EliminarA crítica, se for bem feita, deve ser, ela própria, uma boa peça literária. Esta característica é, aliás, apanágio da crítica feita pelos pares a qual, no entanto, hoje (ouço dizer) já quase ninguém exerce do modo outrora usual. Assim como se perdeu o salutar hábito das tertúlias e ofertas de livros entre escritores. Tratam-se os colegas como leitores. O que é errado. Somos leitores uns dos outros, sim. Mas qualificados. A crítica académica já reverterá outros aspectos, menos lúdicos, é certo, mas mais teorizadores. Sou totalmente avessa a ataques pessoas. A pretexto de críticas ou quaisquer outros motivos. Haja respeito pelos outros. Mas enfim: a crise tudo trouxe. Até a carência de valores.
ResponderEliminar«...ataques pessoais...»
ResponderEliminarSim... bem explicado Extraordinária Sandra.
Eliminaro problema da maior parte dos críticos é conhecerem pessoalmente os "criticados", o que lhes retira espaço para o uso de todas as palavras, para uma crítica honesta.
ResponderEliminara maior parte das criticas literárias que se lêm por aí são benevolentes e rodam sobre duas mãos cheias de escritores. o resto é paisagem a ignorar.
quando se nota alguma crítica mais negativa, sabemos que emergiram os "ódios de estimação".
Convenhamos! Críticas concede-se, prepara inovação.
EliminarÉ verdade, Luís Eme. Mas pior do que isso são as confrarias de escritores unidos por ódios comuns. Um escritor é, por definição, concorrente dos outros. Há alguns que disputam o mesmo segmento de mercado. É por isso bonito quando surge uma amizade verdadeira. Mas quando as pessoas se unem para destratar, maltratar ou desconversar...
ResponderEliminarMeu amor, crítica nem seria uma leonesa.
Eliminara crítica literária | artística | devia ser interdita a quem não tenha lido as “Gramáticas da Criação”, de George Steiner
ResponderEliminarPerdoe-me o Miguel, mas discordo de si. Não só porque ter lido ou não ter lido o que quer que seja não é critério para se fazer crítica, como sobretudo porque ler o Steiner faz mal à vista.
Eliminarwww.sed5contra.blogspot.pt
Diz-me um amigo, daqueles que estimo por íntimo, que, sem crítica a sério, não há escritores que mereçam a atenção. Quando os críticos, não querendo chatear quem escreve, falham o dever de dizer que fulano é melhor do que sicrano, preparam o terreno para que qualquer pelintra possa atingir os píncaros da fama literária. Falta hoje no meio literário, diz-me ainda o mesmo amigo, não apenas quem escreva o que mereça ser lido, mas quem pela crítica diga sem receio que certos escritores mais deviam ser carteiros. Não pode haver bom gosto sem alguma arrumação.
ResponderEliminarwww.sed5contra.blogspot.pt
De mais a mais a crítica tem modo a arte.
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