Heranças

Quando eu era pequena, os jornais da tarde eram comuns e, embora lá em casa comprassem desde sempre o Diário de Notícias, o meu pai lia num certo dia da semana também o vespertino Diário de Lisboa por causa de uma crónica de Luís de Sttau Monteiro que se chamava «As redacções da Guidinha» e, na forma da redacção de uma menina, ia dando catanada no regime de então. Lembro-me de que o meu pai me lia essas crónicas (e eu ficava quietinha a ouvir, mesmo que não percebesse tudo) e que, muito depois de desaparecerem os vespertinos, já eu muito mais velha, fazia questão de nos ler os textos de Vasco Pulido Valente. Não sei se terá sido por respeito à memória do meu pai, mas a verdade é que, ainda hoje, não consigo passar por cima das crónicas de Pulido Valente. Nem sempre estou de acordo com o que escreve, é um facto, mas admiro-lhe a verve que já quase ninguém tem e, além disso, reconheço-lhe um talento para a escrita que é hoje dificílimo encontrar nos nossos diários e semanários. Percebo que possa irritar meio mundo (provavelmente, esse é um dos seus objectivos), mas gosto daquele sacudir os leitores com as suas opiniões completamente inesperadas (como ser o Papa Francisco uma das piores figuras de 2013, por exemplo) e, até, de uma certa maldadezinha que, se calhar, amachuca num primeiro momento, mas deixa, sei lá porquê, um sorriso ao fim de um bocado («além de meia dúzia de homilias, que até o dr. Soares adorou, não mudou até agora coisa nenhuma»).

Comentários

  1. Este Valente que nunca "vergou a mola" e viveu sempre à conta do próximo até tem a extrema lata de criticar quem trabalha e se este (que trabalha) ainda tem a ousadia de lutar pelos seus direitos mais ele o vergasta...haja decoro. O problema dele foi que nunca "vergou a mola".

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    1. Escrever não é vergar a mola?, pergunto eu, que comecei como servente de pedreiro, portanto soube e sei o que é vergá-la.

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    2. Oh extraordinário José-Catarino, mas tu não és Valente e, por sinal, até sabes o que é vergar a mola.

      Mas repara que eu apenas uso este termo para o "diz mal de (quase) tudo", nem sequer é para o escritor em si, porque eu sei muito bem quanto um escritor pode trabalhar (e trabalha) o termo tem a ver apenas com a verve belicosa do Valente.

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  2. Infelizmente, essas vozes incómodas, das quais frequentemente discordamos, mas nos obrigam a pensar, contrapondo aos seus os nossos argumentos, vão rareando nestes tempos de crise, em que fazem ainda mais falta.
    Uns morreram, como Saramago, outros, como recentemente Soares, a propósito da morte de Eusébio, são apedrejados na praça pública, achincalhados, insultados por quem prefere o ataque ad hominem à luta de ideias.
    E então diz-se, não que estão errados, mas que são isto e aquilo...

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  3. As heranças fazem falta, ajudam quando não. Mas a ternura, que há quando se lê para alguém, faz tanta falta nos dias de hoje, onde já não há ninguém para ouvir.

    Quem recebeu a herança, e nem a pode vender no olx ou custo justo, o que fará?

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    1. Tenho um professor que mais que lê poesia nas aulas. Gosto de o ouvir.

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    2. A Beatriz “tem” um professor?
      E ele “mais que lê”?
      E lê poesia?
      “Nas aulas”?
      A Beatriz frequenta aulas?
      Quero dizer: frequenta aulas de poesia?
      Ou: “frequenta poesia” em aulas onde ela é “mais que lida”?
      Por outras palavras: frequenta aulas porque, nelas, o seu professor “mais do que lê” a poesia, e por isso gosta de o ouvir?
      Mas então: são aulas de uma qualquer disciplina, a qual o professor, “mais do que lendo poesia”, a transforma em algo que a Beatriz gosta de ouvir?
      Ou seja: é possível frequentar p.ex. matemática, ou história, ou geografia, ou química, através de poesia?
      É, pois, possível frequentar a poesia através das ciências?

      Bem: pelo que sabemos de Gedeão, sim – é possível!
      Falta apenas que sejamos capazes de generalizar esse método pedagógico.
      Seria um excelente avanço na nossa civilização.
      Porém, como diz José Catarino aí mais adiante, é preciso “partir pedra”.
      Ou saber “vergar a mola”, como foi falado aí mais acima.
      Oxalá sejamos capazes que tudo isso se conjugue!
      Essa é que seria uma bela herança que – Gedeão e nós – deixaríamos às gerações que nos vão suceder.

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    3. Frequento poesia em aulas onde ela é mais que lida:) disse tão bem, Joaquim! Eu não faria melhor.

      Nada se faz sem trabalho. Nada de que nos possamos orgulhar, julgo. Claro que há muita coisa que acontece, nos calha bem e mal, dispõe bem e o inverso. Mas a verdade é que tudo que conseguimos fazer, nesse sentido de artesão que cria, é gratificante.

      É verdade. Tenho um professor. Que mais que lê. Sente aquilo, percebe? Alguns dirão que declama. Na minha opinião, sente. E lê como sente. Que, tanta vez, não é a forma como cada um que ouve, sente. Mas o facto de ele sentir lendo, ou ler como quem sente - como sabe ler alto é um pouco impedir-se de sentir - abre-nos esse horizonte de mais nada no mundo senão a melodia dos versos. É uma entrega. Que nos proporciona.

      Talvez ele não entenda desta forma. Mas da sua atitude decorre um único:). E, para mim, tudo o resto que possa dizer, é menos. Aprendi, por exemplo, que utilizo figuras de estilo sem lhes saber os nomes. Toco de ouvido.

      Há por lá outros leitores. Porém, ou porque se acanhem em mostrar-se, ou porque estão num primeiro contacto com o poema, são tão átonos como garotos contentes em leitura escorreita: empenham-se em saber ler.

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    4. Muito bem, Beatriz. Estou-lhe muito grato por este seu texto.
      Sensibilizaram-me particularmente estas suas palavras: «Para mim, tudo o resto é menos. Por exemplo, utilizo figuras de estilo sem lhes saber os nomes. Toco de ouvido.»
      Permita-me que as compare com estas de S. Agostinho, que me ocorrem com cada vez mais frequência: «A felicidade consiste em continuar a desejar aquilo que já possuímos»
      Bom fim-de-semana.

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  4. Claudia da Silva Tomazi16 de janeiro de 2014 às 08:34

    De Pedreira a Pedreira.

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    1. Porque partir pedra é preciso.

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    2. A herança do pai para a filha...

      Maneira engraçada a sua de escrever reparos. Gosto de perder algum tempo a procurar o rumo das suas frases. Não me arrependo.

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  5. não percebo porque razão não resistiu nenhum vespertino a este tempo inglório para os jornais.

    às vezes leio o Pulido (pouco) Valente, mas detesto a sua falta de rigor e a facilidade com que deturpa factos, ao ponto de mentir, quando lhe dá jeito.

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  6. E ninguém aqui comenta as Redacções da Guidinha ?
    Luís de Sttau Monteiro tinha um humor e uma ironia fabulosas.
    Eu gostava tanto desse suplemento do Diário de Lisboa que pedi a uma amiga que mo enviasse para a Guiné, onde cumpri e sofri 24 meses de guerra.
    Se bem me lembro, esse suplemento chamava-se A Mosca.
    E já agora, que tal reeditarem essas Redacções da Guidinha ?

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