Escrever à mão

Quando era miúda e tinha de estudar, precisava absolutamente de ter um bloco à mão para fazer apontamentos do que ia lendo a fim de decorar e sistematizar a informação; julgo, aliás, que as famosas cábulas já ensinavam muito a quem as fazia, porque copiar para um papel ajuda claramente a reter e a organizar os conhecimentos. Alguns antropólogos defendem que a escrita à mão ajuda a desenvolver o pensamento lógico, a capacidade de abstracção e a objectividade. Mas eis que uma amiga, Maria Manuel Viana, partilha no Facebook uma péssima notícia divulgada no Le Magazine Littéraire, na qual a maioria dos Estados norte-americanos (penso que 45) se prepara para tornar a escrita à mão facultativa nas escolas. A decisão baseia-se aparentemente na circunstância de as pessoas usarem hoje apenas os teclados dos telemóveis e dos computadores para mandarem recados e escreverem textos curtos. Tendo sido realizado um inquérito, a conclusão foi a de que a maioria das pessoas interrogadas estava havia mais de seis meses sem escrever um único texto pelo próprio punho... Ora, os franceses, que até costumam ser bastante tradicionais em termos de educação, não foram tão longe como os norte-americanos, mas também resolveram simplificar a aprendizagem da escrita na escola, anulando maiúscula/minúscula e adoptando apenas um cursivo muito simples semelhante aos caracteres presentes nos teclados actuais, crendo que deste modo as crianças aprenderão mais rapidamente a escrever. Ai, pobre João de Deus, se fosse vivo havia de ter um enfarte... Como dizia a minha amiga no Facebook, será que se esqueceram de que a escrita é o suporte da nossa herança cultural?

Comentários

  1. Claudia da Silva Tomazi9 de janeiro de 2014 às 01:43

    My hand...right our wright! Céus.


    Alargado céu infinito

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    1. "wright" não existe.

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    2. Desculpe, Artur: existe, embora seja um termo obsoleto. Subsiste como apelido.
      wright (plural wrights) = 1. (obsolete) A builder or creator of something.
      Faz, pois, todo o sentido o último apelido do grande Mestre da Arquitectura do séc. XX – Frank Lloyd Wright.
      Ele “alargou céu infinito”, não sei se está a ver...

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    3. Obrigado pelo esclarecimento: permitiu alargar o meu leque de palavras ingleses caídas em desuso !

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    4. Ora essa! Não tem que me agradecer. Agradeça antes a Cláudia, que foi ela que nos deu esta oportunidade.
      Aliás, repare bem neste conceito – “alargar o infinito” – com que ela nos desafia.
      Isto, no meu caso, vem mesmo a calhar, que ando justamente a reler “Palomar”, de Ítalo Calvino.
      É que, nos 27 textos, o Senhor Palomar observa as coisas, objectivas e subjectivas, analisa-as, medita sobre elas e chega a conclusões. Porém, essas conclusões são, por sua vez, objecto da sua minuciosa observação, análise, meditação...
      «(...) E assim, de adiamento em adiamento, chega-se ao momento em que será o tempo a gastar-se e a extinguir-se num céu vazio (...) Se o tempo tem de se acabar, podemos descrevê-lo instante a instante, e cada instante, ao ser descrito, dilata-se tanto que deixa de se lhe ver o fim.»
      Está a ver onde Cláudia nos leva?
      (Peço desculpa de não escrever isto à mão, this moment my right hand is not alone).

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    5. Não é o Senhor Calvino, nem a Senhora Cláudia, o mais imaginativo é o Senhor Jordão !

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    6. A propósito de Calvino-viram ontem no programa da RTP1 "quem quer ser milionário" aquele finalista de jornalismo que entre mil e uma bacoradas permitiu-se dizer que nunca tinha ouvido falar de Ítalo Calvino e desconhecia absolutamente quem escreveu "O nome da rosa", incrível, absolutamente incrível, finalista de jornalismo...estamos entregues aos bichos...aquele macaco ia já pró panteão...

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    7. Está a ver, ó Severino, onde Cláudia nos leva?
      O Senhor Palomar bem adverte: «Se o tempo tem de se acabar (…) cada instante, ao ser descrito, dilata-se tanto que deixa de se lhe ver o fim.»
      Este tempo que vivemos, que você nos descreve, tem de acabar – mas com gajos assim, jornalistas que querem ser milionários da treta e outros que tais, que nem sabem escrever à mão, deixa de se ver o fim desta m… (perdão: eu queria escrever mesmo merda).
      Ora bem: se este tempo tem de se acabar, arranjemos espaço para um novo tempo, “alarguemos o infinito” – como nos sugere Cláudia.
      Um abraço.

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  2. É a diferença entre escrever com amor e respeito à palavra e escrever com utilidade, a palavra uma não existência separada, sem outra história que ser veículo comunicativo do agora.

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  3. Normalmente, e como já aqui terão reparado, não sou "saudosista". Mas encaro este aspeto com preocupação, acho que a escrita à mão continua a ser útil em algumas situações, principalmente, numa altura em que há falta de coordenação motora, nas crianças e jovens.

    Ainda escrevo à mão, mas, claro, muito menos, a ponto de já quase ter perdido o enorme calo que tinha no indicador direito, ganho nos meus tempos de faculdade.

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    1. Que engraçado, Cristina! E eu que ainda tenho vestígios do meu! :-)

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    2. Bem, vestígios, também tenho. Fui agora ver se ainda se notava alguma coisa e, na verdade, lá está a marca. Até constatei que me enganei no dedo: é o médio, não o indicador ;-)

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  4. gajo que passou por aqui9 de janeiro de 2014 às 05:03

    "Como dizia a minha amiga no Facebook, será que se esqueceram de que a escrita é o suporte da nossa herança cultural?"

    esta frase é genial!

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  5. E que dizer do prazer físico que se tira do ato de escrever à mão? É o desenho, a pintura e a escultura dos que não são artistas plásticos: a indizível felicidade de compor letras e palavras com dedos e mãos que foram para isso treinados durante anos de infância. É triste antever que a fruição dessa alegria não será possível em nossas futuras gerações.

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  6. Sei por mim mesma que o facto de escrever menos à mão me está a deixar insegura em relação à grafia de inúmeras palavras. E a leitura em hipertexto é como se fosse transparente para a minha memória, o que consigo reter é pouquíssimo, se comparar com o que retenho quando tenho o livro ou o jornal na mão.

    Nem quero imaginar o que acontecerá com esta erradicação da escrita à mão, porque eu sei como contornar a minha falta de treino, mas estes miúdos quer-me parece que não.

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  7. E já que também falámos de França - Simone de Beauvoir.

    100 anos, uma bonita idade.

    Vá lá! Era só para escrever alguma coisa que já há muito não deixo aqui uma notinha.

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    1. Está no Google de hoje.

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    2. São 106 anos, não 100.
      Isto de escrever à mão é o que dá...
      Abraço.

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  8. Havendo um pc, por que cargas d’água se vai escrever à mão? Só por saudosismo e pela motricidade fina. Escrever à mão vai continuar, mas numa minoria e, daqui a poucos anos, as crianças vão fazer excursões para apreciar quem o faz – tal é a beleza e raridade da arte.

    Tempos idos.

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    1. Abaixo a escrita à mão.

      Viva a máquina.

      Viva o analfabetismo - para que é preciso escrever? para que é preciso ler? para que é preciso pensar? então as máquinas não fazem já todo isso...até já me dão trocos na AE...

      Abaixo o homem

      Viva o robot

      Abaixo a ignorância, abaixo este vendaval de analfabetismo que varre o planeta e abaixo os que
      ousam dizer que é o progresso.

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    2. É o progresso.
      Se a água estagna o que acontece?
      Não se preocupe, tudo continuará igual, só que aparentemente diferente. Ou preocupe-se e escreva à mão, contra o progresso e todos.
      Eu preocupo-me com a vidinha. Mas cada um que se apoquente com o que julgar melhor.
      E você?

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    3. Havendo um pc , por que cargas d’água se vai escrever à mão?
      Havendo um pc , por que cargas d’água se vai pensar?
      Havendo um pc , por que cargas d’água se vai falar?
      Havendo um pc , por que cargas d’água se vai ler?
      Havendo um pc , por que cargas d’água se vai amar?
      Havendo um pc , por que cargas d’água se vai viver?
      Havendo um pc, por que cargas d’água se vai passear?
      E assim vai o mundo...e tão lindo que ele poderia ser...

      Tempos idos...

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  9. Escrever é para mim de facto a melhor forma de aprendizagem.
    Recentemente resolvi fazer uma actualização de competências pedagógicas em que os manuais eram digitais. Obviamente tive de os passar para papel, com muito desgosto por mais uma punhalada ambiental. Mas, definitivamente, nada me entra se não escrever em folhas ou anotar livros. Se não o fizer em pouco tempo já sobrevoo os Himalaias ou tiro as medidas ao fato do Crato.
    A verdade, entretanto, é que cada vez escrevo menos à mão. A minha caligrafia está cada vez mais possuída, parecendo uma cobra a serpentear como as ondas magnéticas da terra.

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  10. Escrever é para mim de facto a melhor forma de aprendizagem. Recentemente resolvi fazer uma actualização de competências pedagógicas em que os manuais eram digitais. Obviamente tive de os passar para papel, com muito desgosto por mais uma punhalada ambiental. Mas, definitivamente, nada me entra se não escrever em folhas ou anotar livros. Se não o fizer em pouco tempo já sobrevoo os Himalaias ou tiro as medidas ao fato do Crato.
    A verdade, entretanto, é que cada vez escrevo menos à mão. A minha caligrafia está cada vez mais possuída, parecendo uma cobra a serpentear como as ondas magnéticas da terra.

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  11. Há alguns anos que sinto o mesmo que diz a Carla mas nunca tinha ouvido ninguém dizê-lo. Era como se a minha mão fosse escrevendo por si, libertando a minha cabeça para o que estava a pensar e talvez fosse escrever a seguir. Não dava erros.

    Agora escrevo com alguns erros e o teclado deixa-me atarantado quando quando sinto a asneira e procuro emendá-la.

    Mas com franqueza acho que as razões devo procurá-las noutro lugar, designadamente na memória, que me permitira desde a instrução primária fixar formas ortográficas (julgava eu que) para sempre.

    Penso que continuaremos a ler livros, mas prevejo que só escreveremos à mão em raras e particulares situações.

    Talvez os Extraordinários se disponham a contrariar a tendência e comecem a escrever cartas uns aos outros. À moda antiga, está bom de ver.

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  12. Corremos o risco de, por esquecimento, não conseguirmos reconhecer nossa própria letra e muito menos a daqueles que nos são próximos. Esta é uma face da moeda. A outra face está aqui presente. Não fossem os teclados e como leríamos nós estas extraordinárias horas que a Maria do Rosário nos dedica e todas estas pessoas que diariamente aqui vêm deixar suas opiniões e comentários?

    É assim mesmo, é a evolução das eras e a ela teremos de nos habituar.

    E eu que sou do tempo dos cadernos de duas linhas ....

    Também gostaria de ver as receitas médicas digitadas e impressas .... ufa! que maravilha seria!!! (logo eu que não vou a médicos mas sei da dificuldade existente na decifração das letras dos mesmos ...)

    Mas se há uma coisa bonita de se ver é um belo poema escrito de próprio punho de seu autor.

    Desculpem se me alarguei quase ao infinito.

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  13. Eu também tinha o hábito de ir escrevendo enquanto estudava. Continuo a ter a impressão que, quando preciso de elaborar um texto, só consigo pensar se estiver a escrever à mão. Os americanos conseguem. sempre, surpreender-nos.

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  14. Os americanos são diferentes...

    claro que escrever à mão já não tem a importância de outros tempos, mas será essencial, se por qualquer motivo as "máquinas" deixarem de funcionar...

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  15. A escrita é sempre a escrita, manuscrita ou não. Uma coisa é o que se escreve, outra é o meio com que se escreve. Obviamente que tem mais encanto escrever com uma daquelas canetas de molhar no tinteiro do que com uma vulgar bic, para já não falar da gravação em pedra a escopro e martelo. Teclado está bem para mim, mas trago sempre a caneta no bolso.

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  16. Posso estar a ser um "novo do Restelo", mas também escrever num teclado é escrever "com a mão", usando um instrumento, neste caso um computador. Tenho muitas dúvidas que, se estudarmos a coisa de forma mais científica, se note uma diferença real entre o impacto da escrita com caneta e a escrita com computador.

    O que não invalida a opção estética e de hábito pela escrita com uma boa caneta...

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  17. Sophia: «A civilização em que estamos é tão errada que/ nela o pensamento se desligou da mão».

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  18. Plenamente de acordo. Não me canso de olhar este post e estes comentários escritos a tinta-da-china, sem aquele tec tec irritante dos … como é que se chamam? Teclados?!! Máquinas de escrever?!

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  19. "(...) finalista de jornalismo...estamos entregues aos bichos...aquele macaco ia já pró panteão..."

    ASeverino:

    Que forma desagradável de se referir às pessoas. Se fosse alguém da sua família, tenho a certeza que também escreveria o que escreveu. E também tenho a certeza que, pessoalmente, se referiria à pessoa em questão da mesma forma que o fez aqui.

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