Au travail!

Hoje muitos autores portugueses querem viver exclusivamente do que escrevem (o que, dada a insignificância do nosso mercado, é extremamente difícil se não ganharem prémios chorudos ou forem traduzidos) e cada vez me aparecem mais potenciais escritores que alegam não gostar do que fazem profissionalmente e estar apenas a aguardar uma oportunidade de publicar um livro para deixarem o emprego (do que imediatamente os dissuado). Na minha opinião (que é a de alguém que sempre trabalhou), ter um emprego é, sobretudo nestes tempos, fundamental, não só para equilibrar as finanças, mas porque, entre outras coisas, permite o convívio, a troca de opiniões e a aprendizagem, o que, evidentemente, se se for escritor, só pode contribuir para o enriquecimento da produção literária. E, embora muitos não concordem comigo (até porque ter um horário e acordar cedo não é para toda a gente), houve grandes escritores que nunca se afastaram das suas ocupações e a sua obra não foi beliscada por causa disso (ou foi-o, mas positivamente). Desde logo Kafka, que trabalhava numa companhia de seguros, ou Pessoa, que tinha funções mais ou menos aborrecidas numa empresa de Import-Export (quiçá o facto de terem um trabalho burocrático até ajudou a desenvolver a criatividade). Ou o recente Prémio Nobel da Literatura Tomas Tranströmer, que foi toda a vida psicólogo e trabalhou especialmente com rapazes internados em casas de correcção. O poeta T. S. Eliot era, por sua vez, empregado do Loyd’s Bank e o seu confrade William Carlos Williams médico (tal como Torga, cujo consultório o Manel ainda conheceu quando estudava em Coimbra). Virginia Woolf e o marido eram editores (uma profissão mais ao jeito de um escritor, tal como a de bibliotecário, cargo desempenhado por Borges ao longo de muitos anos). Houve dezenas de escritores que ensinaram em liceus (Vergílio Ferreira foi professor do meu irmão) e universidades (Joaquim Manuel Magalhães foi meu professor) no mundo inteiro e outros que já escreviam em jornais antes de se tornarem escritores de romances, como Baptista Bastos ou Assis Pacheco. Na verdade, o trabalho nunca fez mal a ninguém.

Comentários

  1. o poema "O boi da paciência", de António Ramos Rosa, expressa o conflito | interior | sempre latente entre a actividade profissional e o ofício da escrita


    O boi da paciência

    Noite dos limites e das esquinas nos ombros
    noite por de mais aguentada com filosofia a mais
    que faz o boi da paciência aqui?
    que fazemos nós aqui?

    Este espectáculo que não vem anunciado
    todos os dias cumprido com as leis do diabo
    todos os dias metido pelos olhos adentro
    numa evidência que nos cega
    até quando?

    Era tempo de começar a fazer qualquer coisa
    os meus nervos estão presos na encruzilhada
    e o meu corpo não é mais que uma cela ambulante
    e a minha vida não é mais que um teorema
    por demais sabido!

    Na pobreza do meu caderno
    como inscrever este céu que suspeito
    como amortecer um pouco a vertigem desta órbita
    e todo o entusiasmo destas mãos de universo
    cuja carícia é um deslizarr de estrelas?

    Há uma casa que me espera
    para uma festa de irmãos
    há toda esta noite a negar que me esperam
    e estes rostos de insónia
    e o martelar opaco num muro de papel
    e o arranhar persistente duma pena implacável

    e a surpresa subornada pela rotina
    e o muro destrutível destruindo as nossas vidas
    e o marcar passo à frente deste muro
    e a força que fazemos no silêncio para derrubar o muro
    até quando? até quando?

    Teoricamente livre para navegar entre estrelas
    minha vida tem limites assassinos
    Supliquei aos meus companheiros.Mas fuzilem-me!

    Inventei um Deus só para que me matasse
    Muralhei-me de amor e o amor desabrigou-me
    Escrevi cartas a minha mãe desesperadas
    colori mitos e distribuí-me em segredo
    e ao fim ao cabo
    recomeçar
    Mas estou cansado de recomeçar!

    Quereria gritar: Dêem árvores para um novo
    recomeço!
    Aproximem-me a natureza até que a cheire!
    Desertem-me este quarto onde me perco!
    Deixem-me livre por um momento em qualquer parte
    para uma meditação mais natural e fecunda
    que me limpe o sangue!
    Recomeçar!

    Mas originalmente com uma nova respiração
    que me limpe o sangue deste polvo de detritos
    que eu sinta os pulmões com duas velas pandas

    e que eu diga em nome dos mortos e dos vivos
    em nome do sofrimento e da felicidade
    em nome dos animais e dos utensílios criadores
    em nome de todas as vidas sacrificadas
    em nome dos sonhos
    em nome das colheitas em nome das raízes
    em nome dos países em nome das crianças
    em nome da paz

    que a vida vale a pena que ela é a nossa medida
    que a vida é uma vitória que se constrói todos os dias
    que o reino da bondade dos olhos dos poetas
    vai começar na terra sobre o horror e a miséria

    que o nosso coração se deve engrandecer
    por ser tamanho de todas as esperanças
    e tão claro como os olhos das crianças
    e tão pequenino que uma delas possa brincar com ele

    Mas o homenzinho diário recomeça
    no seu giro de desencontros
    A fadiga substituiu-lhe o coração
    As cores da inércia giram-lhe nos olhos
    Um quarto de aluguel
    Como perservar este amor
    ostentando-o na sombra

    Somos colegas forçados
    Os mais simples são os melhores
    nos seus limites conservam a humanidade

    Mas este sedento lúcido e implacável
    familiar do absurdo que o envolve
    como uma vida de relógio a funcionar
    e um mapa da terra com rios verdadeiros
    correndo-lhe na cabeça
    como poderá suportar viver na contenção total
    na recusa permanente a este absurdo vivo?

    Ó boi da paciência que fazes tu aqui?
    Quis tornar-te amável ser teu familiar
    fabriquei projectos com teus cornos
    lambi o teu focinho acariciei-te em vão

    A tua marcha lenta enerva-me e satura-me
    As conste

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    1. ... E nisto, vindo do estúdio de publicidade, chega o O’Neill e arruma assim a questão:


      «Má Consciência

      O adjectivo
      dá-me de comer.
      Se não fora ele
      o que houvera de ser?

      Vivo de acrescentar às coisas
      o que elas não são.
      Mas é por cálculo
      não por ilusão.»

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    2. Ó Miguel, para a próxima vê lá se arranjas um poema um pouco maiorzinho...é que assim o pessoal fica com água na boca...

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    3. Ouviste ó Miguel de Almacave?

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    4. Bela confissão do publicitário O´Neil !
      Obrigado.

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  2. Pois não. E existe pelo menos a garantia de nunca nos faltar a criatividade ou o tema a abordar. Bom fim de semana :-)

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  3. Já vi defendido em número recente do “El País”(não me recordo por quem, mas era um autor publicado e colunista do jornal) que o escritor a tempo inteiro é uma perversa invenção do século XIX. A justificação apresentada era a de que nenhum dos clássicos teria imaginado que a escrita seria uma profissão; quando muito, os dramaturgos (quase sempre atores e empresários teatrais) poderiam ver a escrita como combustível para alimentar a atividade geradora dos recursos financeiros (Shakespeare nunca se preocupou em publicar as suas obras; só o foram postumamente e por iniciativa dos seus sócios teatrais, razão da perda de várias das suas obras representadas no Globe). O escritor português atual de sucesso, cuja genuína vocação o leve à legítima aspiração de se dedicar em exclusivo à criação literária, é obrigado a percorrer um caminho de cedência (maior ou menor) de parte do seu tempo a atividades paraliterárias. Veja-se o exemplo do João Tordo que se sente feliz por, pelos quarenta anos, poder cobrir metade das suas necessidades financeiras com o que ganha com os romances (está escrito no seu blog). Para angariar os outros cinquenta por cento Tordo organiza excelentes cursos de criação literária. Parece-me uma equilibrada gestão de tempo por parte de um criador literário de primeira água. Mas ele é senhor de uma cabeça bem organizada, o que não tem que ser apanágio de um artista (estou-me a lembrar, como exemplo oposto, do Luiz Pacheco). Acresce que, como é sabido, o João Tordo quando se senta só para escrever é um dos mais produtivos criadores, tal como o António Lobo Antunes.

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  4. Um funcionário do Banco (…) telefonou-me, recentemente, para me convencer a alargar a cobertura do seguro da casa. Perante a minha recusa, alicerçada na crise económica que, cada vez mais, afeta a minha carteira, observou: «Mas não tem livros publicados?»
    Esta situação ilustra cabalmente a ideia, vincada sobretudo em quem não compra um livro por ano, de que escrever e publicar é uma atividade lucrativa.
    Esta ideia falsa, contaminada por uma visão romântica da literatura e por alguns exemplos de sucesso editorial e financeiro, desperta nos escritores desejos e sonhos que constituem a ficção mais fácil de construir porque se escreve mentalmente.
    Eu também espero a minha oportunidade de viver sem obrigações profissionais, liberto para o mundo da literatura. Talvez até aconteça já hoje. Está na hora de apostar no Euromilhões.

    António Breda Carvalho

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    1. Fale-nos um pouco por favor do seu "O Fotógrafo da Madeira" que tem sido apontado como um dos melhores romances publicados em 2012.

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    2. é isso mesmo, António.

      vamos mas é investir no "euromilhões". :)

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    3. Caro Artur,
      O meu romance não merece o seu extraordinário superlativo.
      No entanto, se estiver interessado em algumas dicas sobre ele, pode contactar-me: antonio.breda@gmail.com

      ABC

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    4. Obrigado !
      Fá-lo-ei.
      Mas não deixo de pensar que seria interessante você partilhar "algumas dicas suas" com esta plateia de "extraordinários" leitores, possivelmente tão curiosos como eu em conhecer um pouco do que é "O Fotografo da Madeira", para mais com o privilégio de poder ser apresentado pelo próprio autor. Quanto li o título do seu romance, dei logo comigo a pensar que possivelmente terá algo a ver com a famosa família de fotógrafos do Funchal a que pertence o Vicente Jorge Silva (algo que imagino já lhe terem dito).
      Abraço

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    5. Eis a primeira dica: A ação do romance desenrola-se em 1846, dois anos antes do início da atividade fotográfica de Vicente Silva. O fotógrafo do romance é um personagem de ficção.

      António Breda Carvalho

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    6. Obrigado ! A crítica, que entretanto li, diz maravilhas do seu romance que irei seguramente ler. Parabéns.

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    7. Intrometo-me para recomendar a leitura deste romance, que li na semana de passagem de ano e de que gostei muito ;)

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    8. Cara Cristina, obrigado pela sua recomendação. Não há nada como a palavra de quem leu o romance recentemente.
      Abraço,

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    9. Vou ter que ler o seu D. Dinis !

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    10. Grata pelo seu interesse :)
      Se tiver dificuldades em adquiri-lo, contacte-me para andancas@t-online.de!

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    11. Obrigado. Vou encomendar o seu livro na minha cooperativa livreira. Se tiver dificuldade entrarei em contacto.

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  5. Respostas
    1. Camilo foi o primeiro escritor português a tempo inteiro e, mesmo assim, teve de socorrer-se de trabalhos jornalísticos. Até ao momento em que pôde passar a partilhar a herança do Pinheiro Alves.

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    2. Nem de propósito, Blonde: há poucos dias um amigo trouxe-me cópia de um extracto das Farpas, na parte em que Eça ironiza acerca da sua exclusão do concurso para o lugar de cônsul na Bahia. Entre outras coisas, ele inventa que o Governo o tem por perigoso revolucionário, chefe do Partido Republicano, anarquista, e tudo.
      Uma delícia!
      Não resisto a transcrever – na ortographia original – meia-dúzia de linhas da parte em que anda um polícia a seguir-lhe os passos:

      «Havia pavores convulsivos; quando eu entrava no theatro com o paletot abotoado, o polícia mandava este bilhete ao governador civil: “Levava o paletot abotoado!”. Este telegraphava para o conselho de ministros: “Há cousa: levava o paletot abotoado!”. E então o sr ministro da guerra dizia, pallido, ao seu collega dos estrangeiros, lívido:
      – Ahi está o homem que queria ser consul: que despreso pelas instituições! Que índole revolucionaria! Levava o paletot abotoado! Tenho 62 annos e nunca vi cousa assim.
      E diz-se que o poder moderador, alta noite, vagava pelos seus paços adormecidos, como outrora Hamlet nos pallidos terrenos d’Elseneur, murmurando na angustia:
      – Oh Sancho I, o Capello! Oh Affonso II, o Gordo: elle levava-o abotoado!»

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    3. Na última linha da sua citação de Eça escreve: "- Oh Sancho I, o Capello!" Deve ser Sancho II, que esse é que era o Capelo (aprendido numa quarta classe frequentada em 1963 e nunca mais esquecido). Ou terá sido o Eça quem se equivocou?

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    4. Na parte que me toca, já fui verificar e transcrevi exactamente o que está na fotocópia das páginas que tenho comigo.
      Poderá ter sido equívoco de Eça.
      Mas inclino-me mais para que seja ignorância do poder moderador...

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    5. Pois ... e esteve preso por dívidas!!!!

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    6. Por dívidas? Tinha quase a certeza de que esteve preso por adultério... precisamente por "tê-los posto" ao Pinheiro Alves, marido de Ana Plácido...

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    7. Tem toda a razão!!!!

      Estava convencido de que havia sido preso por dívidas e não por adultério... mas estava errado!

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    8. Caro Joaquim Jordão, obrigado pelo ter tido o trabalho de verificar a versão impressão. De facto, o trocar II por I é provável que seja apenas uma gralha tipográfica.

      Eliminar
  6. apeteceu-me logo escrever: «então escrever livros não é trabalho!»

    mas estava a ser injusto, até com o texto da Rosário, extremamente realista.

    há vários tipos de escrita e há mil e uma forma de escrevermos livros.

    eu escrevi um romance (o único) há vinte anos.
    e sei que para voltar a escrever outro romance, terei de me isolar, afastar durante uns tempos da família, fazer como fazia o senhor Cardoso Pires, que "emigrava" para a Costa de Caparica.

    sei que por exemplo o Rodrigues dos Santos, não precisa nada disso, ele próprio é uma "fábrica de romances", escreve ficção ao mesmo tempo que alinha notícias. só por esta capacidade merece o meu aplauso (sem qualquer ironia).

    quase que cada caso é um caso.

    eu sei que preciso de uma "ilha deserta"...

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    1. Claudia da Silva Tomazi2 de fevereiro de 2014 às 03:24

      Fazer escrita à moda (antiga)?!Fizera !

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  7. Depois do \'Paris, não sejas inglesa\' de há dois dias, o título de hoje fez-me lembrar a cançoneta \'Lisboa não sejas francesa\'.

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  8. Muito antes de um escritor alcançar o benemérito de colocar comer na mesa com os livros que escreve muitos outros tipos de trabalho lhe hão-de passar pelas mãos e cobrir a lembrança.
    Um abraço que Je vais au travail...

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  9. Mas será que o Vitor Hugo, o Balzac, o Zola, o Dickens e tantos outros do séc. XIX não viviam apenas dos livros? e será que os grandes escritores (de todas as épocas) não vivem apenas dos livros? claro que estou a falar dos grandes escritores!

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    1. Muitos grandes escritores só foram considerados grandes depois de morrerem. Enquanto viveram, fizeram-no com muitas dificuldades, infelizmente.

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    2. Sem dúvida Cristina, ainda no passado dia 21 de Janeiro eu referia:
      Na altura em que foi publicado MOBY DICK " não vendeu mais de uma dezena de exemplares, Herman Melville tornou a sua vida familiar absolutamente diabólica, contribuindo até para o suicídio do seu filho mais velho.

      O grande escritor suíço Robert Walser viu rejeitado pelos editores os seus textos e nem sequer lhe aceitavam textos nas revistas nem nos jornais; só a muito custo conseguiu ver publicado o seu 1º. livro, que foi um completo fracasso.

      Depois de não conseguir publicar mais nada a humilhação vergou-o e acabou internado num hospital psiquiátrico onde continuou, apesar de tudo, a escrever, mas aí acabou por morrer vinte e três anos depois, devorado pelo silêncio.

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  10. Pois é, mas aqui temos novamente o problema das mulheres que trabalham e ainda têm família em casa. Sobra-lhes muito pouco tempo para a escrita. E, se reparar, só deu mesmo exemplos de homens. Também há mulheres que o conseguem, eu sei e ainda bem ;) Mas que têm mais dificuldade, lá isso têm...

    Os meus tios, que vieram "retornados" de Moçambique, depois da revolução, exploraram, durante vários anos, um quiosque precisamente no rés-do-chão do edifício onde Miguel Torga tinha o seu consultório. Era simpático e conversava muito com eles, que também são transmontanos ;)

    Permita-me criticar o chavão: «o trabalho nunca fez mal a ninguém». Não concordo, há trabalhos que põem as pessoas doentes.

    De resto, os conselhos que dá a candidatos a escritores são muito acertados. Isto é como em todas as artes. Também pensamos, por exemplo, que todos os atores de cinema são ricos e famosos. Nada mais falso!

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  11. e mesmo aqueles que vivem exclusivamente da escrita, provavelmente não deixaram de trabalhar para se dedicarem à escrita; trabalham é a escrever...

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  12. Muito realista e um serviço "aos putativos" o poste da Rosário. Todo o aspirante "à escrita" tem de perceber de que não há escrita sem vida ou sem euromilhões. Mais a mais no quadro actual, em que o autor já é, e será cada vez mais, fruto da multiplicação dos teclados e da leveza das publicações: daí os nichos. Nichos que afundarão, na acumulação dos pequenos números, as (poucas) grandes tiragens que se produzem num mercado mínimo... mau grado pensar que as próprias editoras só têm elas próprias um caminho: a tradução e venda dos seus catálogos noutros mercados.
    Sobre esta temática um exemplo próximo: amanhã uma editora, que me eximo a dar o nome, vai lançar mais uma colectânea de poesia e prosa poética. Cem nomes, cem livros (no mínimo), que serão vendidos aos próprios, alimentando uma "editora" (que só o é, porque se tornou um serviço aos "ansiosos" da escrita) e as suas "ambições"... quando não os seus egos. Mas para além da profissão dos autores, que lhes dá a vida que poderão um dia "traduzir" em livro original, já que de más cópias estão as prateleiras cheias, é interessante questionar "Porque escrevem aqueles que designamos por escritores (ou mais benignamente por autores)?
    Por necessidade de palco? Mais vale tornarem-se actores... políticos! Por desejo de eternidade? A eternidade é cada vez mais um tempo, um pequeno momento! Por necessidade lúdica? Mas ele há tantas e tão agradáveis formas de "gastar" o tempo. Por necessidade de libertação de criatividade? Mas há tantos outros bens e serviços a criar e inovar! Por falta de alternativa de sustentabilidade? Um engano — que mais tarde ou mais cedo pagará caro. Por desejo de se ultrapassar? Ele há tantas outras formas de catarse!
    São assim mais do que muitas as razões porque alguém se dedica a dedilhar caracteres ou a rascunhar o pobre papel. Cada um procurará nesta lista supra a que se lhe mais aproxima... ou procurará outra omissa. Por mim tomo-as a todas um bocadinho, embora umas bem mais do que a outras: mesmo que diga para mim próprio que o gosto já se tornou um adicto de superação, tal e qual como quando nadava no meio líquido... Não contra o sujeito com forma física mas contra o tempo... essa grande riqueza que nem o excêntrico dos milhões consegue comprar.

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    1. Suponho que cada autor terá as suas motivações. Por mim, não sei. Escrevo porque tem de ser, apesar de tudo, contra quase tudo. Nem penso muito nisso, que me falta o tempo, e agarro-me aos veros de Pessoa
      Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena.
      Apenas me agasta a sensação de que há gente que gostaria de restringir o direito de cada qual a escrever, se entender que assim deve gastar o seu tempo de vida.
      Sobre a rentabilidade da escrita, veja-se isto, em Booktailors:
      http://blogtailors.com/a-maioria-dos-escritores-americanos-7168454

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  13. Pois, mas sempre poderiam ganhar alguma migalhita: as editoras, na sua maioria, editam e negoceiam, como intermediário no negócio do bacalhau - o bolo é só para eles. Por falar em importações, ainda bem que editaram "O Preto de Coração Branco" de Arthur Japin , Teorema, 2003. Para mim, foi uma felicidade ler um autor cuja temática é assim tratada. Quanto ao ganhar fortunas, isso a culpa é da imprensa que promove as suas vedetas a escritores e apresenta outros como jogadores de bola. A Leya também safou o João Ricardo Pedro, mas esse até merece...

    ResponderEliminar
  14. Pois. Para além - importantíssimo - de prover o sustento, o trabalho enquanto obrigação, aquilo que tem de cumprir-se e a que temos de dedicar um tempo determinado, prepara até o outro trabalho que a escrita também é, a obrigação em que consiste. Suponho que os escritores não escrevam sempre por gosto. Gostar de escrever em sentido lato distingue-se do esforço em escrever uma obra com sentido, imaginação e rigor. A escrita parece-me um trabalho paralelo a que a mente se dedica com mais atenção por ser também um gosto.

    Portugal é cada vez menos um país para criativos. Têm de ser também dogmáticos, utilitários, realistas (serão ideais?).
    BFS

    ResponderEliminar
  15. Sendo que a inversa também não deixa de ser válida. O desemprego tem-se revelado catalisador da escrita. Falo por mim, mas bastaria ter em mente os prémio-mediatizados João Ricardo Pedro e a rapariga que agora ganhou o LeYa. Ab

    ResponderEliminar
  16. Sra. Maria do Rosário, a meu ver, isso é bom sinal. Explico:
    Um autor que muito aprecio, Paulo Coelho, diz que «só o amor ao que fazemos transforma a escravidão em liberdade». Isto é verdade, quem é que aprecia ser escravo, excluindo em certos fetiches sexuais, ninguém. Não é então natural o sonho de se libertar de um emprego que escraviza? Duvido que alguém, com um coração dentro de padrões humanistas, negue. Agora se é viável, tem que ser ponderado e bem. Caso contrário, é mudar para um emprego onde o vento já cheire a liberdade. Agora, acomodar-se é ser escravo sem estrebuchar.

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  17. Com tudo isto, já me fizeram perder a vontade de escrever um livro e tão grande era ela, ela a vontade!
    Eu cá, gostava muito de ser escritor, desses que escrevem livros, não do tipo Coelho ou Dos Santos, nem daquela cujo nome não me apetece dizer, mas é qualquer_coisa Margarida, ou Margarida qualquer_coisa, tanto dá. (Bem sei que gostos não se discutem, eu até gosto do amarelo)

    Mas pronto, porque é que vim ler este post e os respectivos comentários?! Quem sabe o que se perdeu, agora que, por vossa culpa, por vossa única culpa, decidi não escrever nenhum livro? Ou, pelo menos, decidi não o começar hoje, veremos que decisões me traz o amanhã...

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    Respostas
    1. Isso mesmo, Simão!
      Agarra-te à última linha do teu último parágrafo: vai adiando o livro para “amanhã”.
      Mas conserva sempre presente que “adiar” não equivale a “desistir”, hein?!
      O calendário tem amanhãs para todos os dias – e para todos os livros.
      Quando terminares de escrever “este” livro, terás “amanhãs” para escrever outros.
      Entretanto, podes ir cuidadosamente plantando uma árvore e fazendo um filho...
      O calendário tem amanhãs para todas as árvores e todos os filhos.
      Sobretudo, não desistas de cumprir com empenho nenhuma dessas três tarefas.
      A experiência das três pode contribuir para que cada uma delas seja bem-sucedida.
      Se o teu livro e o teu filho resultarem bem, também a tua árvore será bonita.
      Se a tua árvore e o teu livro resultarem bem, também o teu filho será bom cidadão.
      Se a tua árvore e o teu filho resultarem bem, também o teu livro será interessante – ainda que, enquanto crescem a tua árvore e o teu filho, não seja talvez possível editá-lo, distribuí-lo, etc, porque, entretanto, haverá na fila de espera muitos outros escritos por quem desatou a escrever sem cuidar de fazer filhos nem plantar árvores para o futuro…

      Eliminar
    2. Caro Joaquim Jordão:

      Hã?!

      Eliminar
  18. No meu caso, autor de um livro publicado, com muita vontade de me manter no caminho de escrever histórias, que sorte a de ter tanto tempo ' só meu ' ( em quartos de hotel ), tanta gente e tantas esquinas do mundo para me trazerem trejeitos próprios e momentos de inspiração, frutos da minha actividade profissional!

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  19. Portanto, escrever não é trabalhar, é isso mesmo? Que maravilha...

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  20. Claudia da Silva Tomazi3 de fevereiro de 2014 às 04:32

    No mais é importante aprender adequar-se per valores desta realidade ; diga-se vitoriosa realidade a lide escrever ! Retrato simples, ajustado e organizado à prática diária .

    Por exemplo : digno estaria à prática mulher delicadeza e informação, nuance exclusiva enquanto o homem afirma-se arte.

    Especialmente semelhante e diferenciado planeado a luz da sociedade histórico-cultural.

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  21. Realmente custa-me a crer que em Portugal existam escritores em grande número que consigam viver apenas da sua produção literária - nem aqueles que vendem em grande número ou que até ganharam prémios deixaram os seu trabalhos, esses são muito poucos.

    Eu também gostava de ter as minhas obras publicadas, mas não vejo como única fonte de rendimento, até porque gosto muito da minha actual profissão e com ela existe um apego muito grande - ainda que a escrita esteja presente na minha vida a cada momento. Seria até depressivo se assim não fosse, acho eu. Escrever na procura de uma boa obra, mais focado na boa história que no o dinheiro permite também ao autor um certo desapego e um certo controlo sobre si.
    Nos tempos que correm ter um emprego para além da escrita é mesmo muito importante.

    Cumprimentos,
    Manuel Joaquim Sousa
    bloguedomanel@blogs.sapo.pt

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