2014: O que ando a ler
Ora então sejam muito bem-vindos a este vosso blogue em 2014 (desejo, aliás, a todos os Extraordinários um bom ano, pelo menos em leituras). Para não quebrar a regra, falarei hoje do calhamaço que me ocupou grande parte das férias, o romance da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie intitulado Americanah, que conta, ao longo de setecentas páginas, as histórias paralelas de Ifemelu e Obinze, uma rapariga e um rapaz nigerianos que se apaixonaram no fim da adolescência e são, em tudo, o par perfeito. Num período de grande agitação em Lagos, com manifestações e greves sucessivas na Universidade, Ifemelu decide, com a ajuda de uma tia emigrada, tentar a sua sorte com uma bolsa de estudos nos EUA, onde se sente, pela primeira vez na vida, uma negra (as páginas sobre o que fazer aos cabelos para arranjar um emprego decente são especialmente curiosas e divertidas). Obinze, embora mais tarde, parte também do seu país para Londres, onde começa por limpar retretes e acaba deportado por causa de um casamento de conveniência que o ajudaria a obter a residência. Americanah é, pois, um livro sobre os emigrantes africanos nos EUA e na Europa, lugares onde parecia que os sonhos dos dois jovens facilmente se concretizariam, mas, afinal, tudo é mais difícil do que na terra atrasada donde vieram. E é também um romance sobre afinidades, identidade, política e amor, pois quinze anos de separação não bastam ao casal de namorados para se esquecerem um do outro e entenderem qual o lugar onde realmente podem ser negros e felizes, apesar de o regresso à pátria trazer um outro olhar, muito mais crítico e simultaneamente mais comodista sobre os costumes de uma África ainda muito crua. A América não sai lá muito bem do retrato, nem a Nigéria, mas, nestas questões, nem podia ser de outra maneira. São muitas páginas, bem sei, mas lêem-se de um fôlego.
Bem-vinda Maria do Rosário e tudo de bom no ano que agora começa.
ResponderEliminarVotos extensivos a todos os Extraordinários comentadores do Horas.
Os meus últimos livros de 2013 foram:
REMINGTON do Jorge Listopad, O SEMINARISTA do Rubem Fonseca e A AMANTE HOLANDESA do J. RENTES DE CARVALHO.
Comecei hoje a ler o FUGAS da Alice Munro.
Boas Leituras!
:-)
Antonieta
J. Rentes de Carvalho - grande escritor!
EliminarVale a pena ler "COM OS HOLANDESES".
Ruben Fonseca? ainda não li nada mas estou muito curioso.
Rubem Fonseca, carioca, Prémio Camões em 2003, tenho quase a certeza que vai gostar de lê-lo, é um escritor fabuloso.
Eliminar:-) Antonieta
Cara Antonieta, Alice Munro tem sido, para mim, a melhor descoberta dos últimos anos (das melhores da minha vida). Raramente um/a autor/a me tocou e "desassossegou" tanto como ela, que comecei a ler por curiosidade, por ter ganho o Nobel, claro. Nem sei bem dizer o que Munro passou a representar para mim, é difícil exprimi-lo em palavras. Nada, mas mesmo nada do que li, nos últimos tempos (e isso inclui muitos autores portugueses, até vencedores e finalistas do Prémio LeYa) se pode comparar a Munro. E tudo isto com uma linguagem tão simples... Munro produz quadros lindíssimos e intensos com meia dúzia de pinceladas. Tão intensos que, pelo menos, no meu caso, custam a aguentar. O verdadeiro murro no estômago? Pode ser! E tudo isso sem linguagens poéticas e exercícios sintáticos, gramaticais e outros que tais, cheios de entrelinhas. Pois, parece que tenho mesmo um problema com as entrelinhas... Mas prefiro mil vezes a simplicidade de uma Munro a "livros-charadas", como eu lhes chamo, cujo princípio só se entende depois de ter lido o fim e de ter regressado ao princípio e onde estava o outro detalhe, lá pelo meio, que já me esqueci... Enfim, uma canseira! Mas os portugueses sempre gostaram de "rodriguinhos"...
EliminarMunro é a escritora que eu gostava de ser (antes dela, só o Eça me levava a dizer tal coisa).
O livro que comecei a ler é "A Vista de Castle Rock", publicado pela primeira vez (versão inglesa) em 2006 e onde Munro conta histórias da sua família. Estou a ler a versão alemã, uma espécie de contra-senso, eu sei, por ser portuguesa e, por outro lado, poder ler em inglês. Mas ofereceram-me esta versão e eu não desperdicei a oportunidade.
Já agora, antes de começar a Munro, li "O Fotógrafo da Madeira", de António Breda Carvalho", publicado pela Oficina do Livro, também uma boa surpresa. Parece que a editora está a pôr dificuldades a este seu autor, o que, na minha opinião, é incompreensível.
Olá Cristina,
EliminarAcabei mesmo agora de ler o Fugas (Runaway), que recomendo vivamente.
Tem razão, a Munro tem a arte de bem escrever com simplicidade e as histórias agarram-nos de tal maneira que até parece que também vivemos no Canadá.
Também gostei muito do Amada Vida e tenho mais dois em lista de espera.
Um beijinho e Bom 2014!
Antonieta
Obrigada, igualmente :)
EliminarÉ tão bom descobrir um/a escritor/a que nos enche as medidas, em todos os sentidos... Já há muito que isso não me acontecia (gostei muito do "Bom Inverno" também, mas noutra dimensão). Sei que tem a ver com os nossos gostos e com as nossas vivências. Por isso mesmo, ainda bem que há livros e estilos tão diferenciados :)
Tchau 2013.
ResponderEliminarSeparai a ler (estes dias) de título original: 1599: A Year in the Life of William Shakespeare.
- Quincas Borba, de Machado de Assis (no Kindle)
ResponderEliminarOs Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas.
ResponderEliminarAnteriormente li Um dia na vida de Ivan Deníssovitch, de Aleksandr Soljenítsin; Novela de Xadrez, de Stefan Zweig; e A Casa dos Desejos, de Rudyard Kipling.
EliminarCoisa rara em mim, estou a ler uma autobiografia, mais propriamente "Longo caminho para a liberdade" de Nelson Mandela. Um amigo meu emprestou-me o livro há cerca de meio ano mas, pelos vistos, foi preciso Madiba morrer para eu me decidir a pegar nele (é um bom calhamaço, ainda estou nos anos 50, antes dele ser preso).
ResponderEliminarComo não passo sem um romance, tenho lido umas páginas de "Os transparentes" de Ondjaki. Continuo a achar que merecia mais leitores em Portugal, para mim é um grande escritor. Li 3 livros anteriores dele, já há alguns anos. Pelas cerca de 40 páginas que li deste último, estou inclinado a considerá-lo o melhor livro de Ondjaki, é talvez o mais literário. Ao fim de apenas 40 páginas, assumo poder ser um julgamento precipitado.
Um bom ano a todos!
Rui Miguel Almeida
Li em Dezembro o genial "Despojos do Dia", de Kazuo Ishiguro. Maravilhosa a escrita contida do autor.
ResponderEliminarE agora estou a acabar o fraquito Haruki Murakami, na sua versão "Sputnik, Meu Amor" para tentar perceber a razão do sucesso deste autor e por que razão é apontado para prémio Nobel todos os anos. Não consigo lembrar-me de autor português que seja pior do que o Murakami (fora esse pessoal famoso que anda para aí a publicar umas coisitas e a ser bem pago, ao contrário, imagino, de muitos bons escritores).
Também a mim sempre me fez muita confusão o sucesso de Murakami. Não consegui terminar um único romance dele.
EliminarConfesso que gostei do "Kafka na Praia" (que talvez se devesse chamar Freud ou Édipo na Praia) lido há muitos anos e também apreciei o "Norwegian Woods" lido há uns poucos meses, assim como um livro que reúne várias novelas curtas cujo título não recordo. Acho interessante um autor japonês misturar tão equilibradamente aspetos da cultura do Japão moderno com arquétipos culturais ocidentais.
EliminarArtur, também eu gostei de KAFKA À BEIRA MAR".
EliminarContudo, não deixo de reconhecer que MURAKAMI é, na minha modesta opinião, apenas um bom escritor (em Portugal temos aos moitões ).
Tenho até a impressão que MURAKAMI deverá ser assim a modos do 571 (o Orelhas) que deverá ter uma fábrica com uma dezena de empregados das 9 às 5, a trabalhar para ele.
Li esse livro há muitos anos quando ele ganhou o Man Booker.
EliminarDeu origem a um filme excepcional com interpretações fabulosas de Anthony Hopkins e Emma Thompson.
:-) Antonieta
Caro Severino, estou de acordo consigo em que não será um escritor de topo mas não me parece que tenhamos "aos montões" romancistas do nível do Murakami. Fluidez de escrita, a difícil simplicidade da ficção do Murakami que, a meu ver, só é conseguida por uma meia dúzia de escritores nossos. Sobre a subcontratação da escrita, disso já temos múltiplos exemplos em Porugal: não há personagem televisiva que não escreva um romance. Portanto não me admira que isso também possa acontecer com escritores internacionais de best-sellers anuais. A partir do momento em que Dan Brown explicou como funciona a fábrica dele... O capitalismo "avançado" já chegou seguramente à produção literária.
EliminarDeliciei-me com "O Herói Discreto" do Vargas Llosa. Não estará entre os melhores livros do autor mas tem uma meia dúzia de personagens convincentes e cuja espessura humana nos atrai, para além de um enredo que, claro, nos agarra. É um retrato do Peru recente focado na vida burguesa de um filho de camponês pobre que subiu a pulso e a quem subitamente surgem graves problemas familiares e de negócios.
ResponderEliminarBom dia.
ResponderEliminarEstou a ler «O Herói Discreto», de Mario Vargas Llosa , depois de ter terminado o ano com «A Irmã», de Sándor Márai.
A minha mulher está a adorar a "A Irmã" do Marai. Eu irei lê-lo em breve.
EliminarA si a todos os leitores do blogue um Feliz Ano de 2014!
ResponderEliminarA reler, depois de muitos anos, "A Casa dos Espíritos" por adorar a imaginação fértil e estilo único da autora.
De seguida David Machado com o "Índice médio da Felicidade". Mal posso esperar!
Abraços!
Cláudia Moreira
NW, de Zadie Smith. Um livro de cuja tradução pedi escusa, por receio de não ser capaz. A Cecília Andrade já me deve ter perdoado, até porque encontrou alguém (José Lima) que se mostrou à altura da tarefa. Um BOM ANO para todas(os) as(os) extraordinárias(os). Um voto especial para a nossa anfitriã.
ResponderEliminarNum dos domingos de meados de Dezembro esperei que se dissipasse a manhã de nevoeiro e, aí por volta das duas, abri de par em par as janelas voltadas ao poente.
ResponderEliminarPareceu-me boa ocasião para reler ”O Banqueiro Anarquista”, Fernando Pessoa, 1922. Ajeitei umas almofadas e acomodei-me a digerir o almoço na cama batida em cheio pelo sol.
Lá pelas quatro e meia, terminada a leitura e aquecido o quarto, fechei os vidros mas deixei abertas as lâminas das persianas para, deitado com uma mantinha sobre o corpo, passar o livrinho pelas brasas, tendo debaixo do olho o cair do frio lá fora, no fim da tarde.
Remoí as partes que me pareceram essenciais:
«A liberdade para todos só pode vir com a destruição das ficções sociais, que nos tiranizam». Em jovem, o protagonista bem via que «é necessário levar a cabo uma revolução social para eliminar essa opressão». Mas também via que a opressão e a tirania se instalavam até no seio do próprio grupo de anarquistas a que pertencia: «Uns mandavam em outros e levavam-nos para onde queriam; uns impunham-se a outros e obrigavam-nos a ser o que eles queriam; uns arrastavam outros por manhas e por artes para onde eles queriam. (...) Uns iam insensivelmente para chefes, outros insensivelmente para subordinados».
Concluiu, pois, que havia que fazer esta luta individualmente, cada pessoa conquistar a sua liberdade individual – a que é a mais pura e elementar – pois que só após readquirida esta por cada um, pode o conjunto das pessoas depois consumar a libertação total das ficções sociais que tiranizam a Humanidade.
O jovem anarquista percebeu que o dinheiro é a mais poderosa dessas ficções, aquela que é necessário afastar antes de todas as outras.
«Como subjugar o dinheiro, combatendo-o? Como furtar-me à sua influência e tirania, não evitando o seu encontro? O processo era só um – adquiri-lo, adquiri-lo em quantidade bastante para lhe não sentir a influência; e em quanto mais quantidade o adquirisse, tanto mais livre eu estaria dessa influência».
Como tal, decidiu enveredar pela carreira de banqueiro para, nessa qualidade, enfrentar a luta.
«Trabalhei, lutei, ganhei dinheiro; trabalhei mais, lutei mais, ganhei mais dinheiro; ganhei muito dinheiro por fim. Não olhei o processo – confesso-lhe, meu amigo, que não olhei o processo; empreguei tudo quanto há – o açambarcamento, o sofisma financeiro, a própria concorrência desleal. O quê?! Eu combatia as ficções sociais, imorais e antinaturais por excelência, e havia de olhar a processos?! Eu trabalhava pela liberdade, e havia de olhar as armas com que combatia a tirania?!»
E celebra a sua vitória:
«Hoje realizei o meu limitado sonho de anarquista prático e lúcido. Sou livre. Faço o que quero, dentro, é claro, do que é possível fazer. O meu lema de anarquista era a liberdade; pois bem, tenho a liberdade, a liberdade que, por enquanto, na nossa sociedade imperfeita, é possível ter. Quis combater as forças sociais; combati-as, e, o que é mais, venci-as».
(Continua, depois de dormir sobre o assunto)
(Cont.)
EliminarMas eu dava voltas na cama, não conseguia adormecer descansado. Ou era a digestão que estava a correr mal, ou havia nesta história qualquer coisa que me parecia ser recorrente nos dias que vivemos.
Fechei completamente as lâminas das persianas, liguei o aquecedor e voltei a deitar-me, agora de costas voltadas para a janela.
Adormeceu-me, num sono perturbado, um desfile de fantasias e notícias recentes sobre banqueiros, alta finança, políticos.
Pareceu-me ter sonhado que, lá pelo meio, me foram revelados os códigos para decifrar as mensagens subliminares contidas nessas informações públicas.
Com essa chave, entrevejo na informação publicada que os banqueiros anarquistas e o seu sofisticado sistema financeiro evoluíram de tal modo, no sentido da Revolução, que subordinaram a si o sistema político mundial.
Isto é: subjugaram já irreversivelmente os Estados para que estes, antes de tudo, protejam os bancos e os seus interesses.
Sonhei que, estando a luta já num estágio superior, são agora os bancos os exclusivos financiadores dos Estados – emprestam-lhes dinheiro a juros altos, e os Estados, para pagarem o que lhes devem, tiram cada vez mais dinheiro às pessoas, cada vez mais, cada vez mais...
E também os bancos, através dos inúmeros sistemas de crédito com que aliciam os particulares, cobram juros, taxas, comissões, e dessa forma também eles tiram cada vez mais dinheiro às pessoas, cada vez mais, cada vez mais...
... até que, no estágio final, graças ao laborioso esforço dos banqueiros, em breve as pessoas ficarão completamente libertas do dinheiro – essa que é a mais vil e poderosa das ficções que tiranizam a Humanidade.
E depois, em conjunto com os banqueiros, as pessoas consumarão a Revolução!
Ainda estremunhado: – Venha ela!, que, aqui à minha volta, as circunstâncias parecem-me propícias: a má digestão, o mau dormir, o arrefecimento ao fim da tarde, o reaparecimento do nevoeiro, o escurecer…
Já sentado na cama, arranhando a nuca: – … ou então, se calhar, isto é apenas a baralhação das ficções com as realidades na minha pobre e atormentada cabeça.
Caro Joaquim Jordão, obrigado pelo seu belo texto e pelas suas interessantes reflexões ! Difícil é separar em "O Banqueiro Anarquista" o que é ironia pessoana, daquilo que são as suas próprias convicções. Também por isso o texto é genial.
EliminarTambém li há pouco tempo "O Banqueiro Anarquista". Perdoem-me, mas achei-o muito datado.
EliminarEstá perdoada, Cristina.
EliminarAliás, tanto quanto sei, o próprio Pessoa tencionava reformular o texto.
E creio que, na arca, existem manuscritos nesse sentido, que levariam a um livro com um maior desenvolvimento da ficção deste que conhecemos – mas que Pessoa, por qualquer razão, não concluiu.
Em todo o caso, o facto é que os actuais banqueiros são uns gandasanarquistas!
Disso, não há dúvida ;)
EliminarDe qualquer maneira, "O Banqueiro Anarquista" é um bom testemunho da época. Só que, em se tratando de Pessoa, fiquei desiludida. Por outro lado, mostra-nos que os génios também são meros humanos.
Bom ano a todos!
ResponderEliminarPor aqui saboreia-se a Dama do Crime, com as suas "Investigações de Poirot".
"Budapeste" de Chico Buarque. Estou amando!
ResponderEliminarPLFF
Vou na página 70 do livro que menciona e até agora estou a gostar. Não sei que opinião terei ao fim das 700 páginas.
ResponderEliminarAconselho no entanto a leitura do livro (2 primeiros volumes) de Edward St Aubyn "Deixa lá | Más novas". É muito bom e prende o leitor até ao fim. Espero que os restantes 3 volumes aparecem rapidamente. A Sextante bem podia ter publicado todos os volumes num único livro!!
Estes dias de festas tem sido de soberbas leituras. Para entrada um pequeno volume oferecido das Edições Pasárgada , a poesia de ozias filho e o seu relógio avariado de Deus bem como o Amor de Schwann de Proust . Como primeiros pratos O Varandim do Mário de Carvalho e a Árvore da Noite de Capote. Para principais As mulheres do meu pai do Agualusa e um grande, enorme, Ulisses (do JJ )... Como nunca consegui terminar o Ulisses, - parece que desta é de vez -, um digestivo: O Evangelho segundo Jesus Cristo, um dos poucos que me faltam de Saramago.
ResponderEliminarSchwann ou Swann?
EliminarAnónimo, boa pergunta para uma resposta que não tenho como certa e da qual só posso especular, embora tenha quase como certa, já que o original da obra de Proust é Du Côté de Chez Swann . O livro de Proust trata evidentemente de Swann e não de Schwann . Mas a Edição velhinha Livros do Brasil têm destas coisas, uma titulação muito livre na capa... E se é verdade que é Swann o personagem, é UM AMOR DE SCHWANN que ficou a constar como título nesta edição da colecção miniatura. :)
EliminarDesculpem intrometer-me, mas constatei que as palavras "Swann" e "Schwann" têm algo em comum. Ambas significam "cisne", uma em inglês, a outra em alemão. Com a mesma particularidade: o acrescento de um "n". "Swan" (em inglês), "Schwan" (em alemão) são as palavras corretas. Pergunto-me se isso tem algo a ver com o título dessa edição da Livros do Brasil.
EliminarParece interessante mas não sei se tenho coragem para enfrentar700 páginas. Ando uma leitora muito preguiçosa. O livro de cabeceira, actualmente, é "Amada vida" de Alice Munro. Fiquei curiosa com o Nobel e as criticas contraditórias que fui lendo.
ResponderEliminarE benvinda ao novo ano.
Benvinda???
EliminarBenvinda é, sem dúvida, um erro crasso. A forma correcta é bem-vinda, mesmo pelo novo acordo, segundo me parece. Agora para me corrigir era mais interessante identificar-se.
EliminarOK Stiletto,
EliminarMy name is Agulha, Salto Agulha!
Vá lá, comece 2014 a rir.
Pois é, cara stiletto, "bem-vinda" seria uma revisão prévia da ortografia do seu próprio texto antes de emendar o de alguém. É que quando diz "criticas", 2ª pessoa do presente do indicativo do verbo "criticar", talvez fosse mais correcto ter escrito "críticas", palavra esdrúxula, portanto, acentuada. Um bom ano.
EliminarMuito bem apontado. Quando escrevi "criticas" não foi um erro de ortografia já que eu sei bem como se escreve "críticas", foi um erro de digitação, ou seja, uma distracção. Muito obrigada pela chamada de atenção.
Eliminar'uma coisa supostamente divertida que eu nunca mais vou fazer', é um conjunto de ensaios de david foster wallace. A genialidade do autor transparece à medida que o vamos lendo. Comecei pelo fim, pelo discurso de final de um curso universitário, para o qual tinha sido convidado, onde não poupa ninguém, com o seu olhar clínico e impiedoso sobre a vida moderna. O discurso é sobre crenças, é sobre opções, é sobre nós e os outros, e é essencialmente sobre o que realmente interessa. E chega a ser um paradoxo que alguém que desmonta de forma tão perfeita todo o cenário da vida que escolhemos viver, não tenha conseguido as ferramentas e os mecanismos necessários para suportar o peso insuportável da existência diária. Acredito que seja um documento de valor sociológico. Deixo aqui um link de um video do resumo do discurso, this is water :
ResponderEliminarhttp://www.youtube.com/watch?v=TzFNh2_dSBg
Miguel
"Páginas do Páginas Soltas" - Bárbara Guimarães entrevistou alguns dos melhores espíritos do nosso tempo e ainda por cima estes grandes espíritos (escritores, pintores, músicos) levam livros para a entrevista e aconselham-nos.
ResponderEliminarEntrevistas curtas (não mais de três páginas), estou a gostar.
E afinal a Bárbara Guimarães não é apenas uma galinha...
Embora desconfiada, também comprei esse livro, pois nunca tive oportunidade de ver o programa na tv.
EliminarE afinal até se revelou bem interessante.
:-) Antonieta
Como gosto de misturar ficçao com não-ficção, "Os Transparentes", de Ondjaki, e "Salazar e o Poder", de Fernando Rosas. O livro do Rosas, excepcional, deveria ser de leitura obrigatória, tanto nos ensina sobre o nosso passado recente e mesmo sobre as ameaças do nosso presente. Ai, a obsessão do equilíbrio orçamental...
ResponderEliminarSou de opinião que a análise do Estado Novo, tal como ele foi criado por Salazar, nos dá resposta para muitas particularidades do caráter luso. Nem sempre sou bem entendida, quando digo algo do género. É bom saber que tal crença tem prova, digamos, científica.
EliminarBom Ano a todos. Continuo nos fiordes, agora a ler a Desumanização na sequência do Paraíso e Inferno do Stefanson , e quase parece que estou a ler o mesmo livro com os mesmos Einar e Sigurdur . Para me humanizar, leio também Ilações Sobre um Sabre, pequeno volume do Magris que me caiu nas mãos um destes dias. Mais parece Borges, com a rebuscada narrativa enredada em referências a enciclopédias inexistentes, pág. 479-480, 502 e seguintes.Trata da "busca das motivações do ambíguo quotidiano e na simbiose equívoca dos enganados conscientes e inconscientes que existem em nós". Juro!
ResponderEliminarTerminei O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro, e iniciei esta semana "Debaixo de Algum Céu, de Nuno Camaneiro , ambos bem conhecidos da MRP :)
ResponderEliminar"Novelas Nada Exemplares", Dalton Trevisan.
ResponderEliminarBom, após um ano inteirinho fora como se pode imaginar havia muita coisa em atraso… mas como é de literatura que falamos aqui, tinha à minha espera por um lado projectos literários em que fui incluído e por outro, os livros dos amigos para ler primeiro! Seguem-se-lhes uma looonga lista…
ResponderEliminar- Dos projectos: Retomei a minha colaboração no Correio do Ribatejo com um texto sobre o Natal africano… o próximo será sobre a falácia dos jovens altamente qualificados.
Participei com um texto (O búfalo que não quis) e três contos numa colectânea de textos de caça que está a ser compilada e vai ser editada por um grupo de amigos caçadores-escritores… que nem são tão poucos como se possa julgar, pois há cerca de 40 textos!
Fui convidado a participar com um texto sobre o javali, na obra “Fauna Cinegética Portuguesa” que está a ser preparada pelo investigador, caçador e artista Francisco Charneca, em que ele faz a ilustração do animal e outros o texto, do ponto de vista cinegético, sobre a peça em questão.
Dei uma entrevista à revista Apneia Portugal (uma revista francesa também editada em português e espanhol), sobre o acervo (incluindo literário) reunido por mim desde o início na minha actividade de pescador submarino na competição e aventura pelo Mundo, ao longo de 46 anos.
Ufa…
- Dos livros, claro que tive de começar pelos compromissos com os amigos e de caminho acabei o que comecei a ler na viagem de regresso:
“Madrugada suja” – Miguel sousa Tavares.
Admito que gosto de ler MST de quem aprecio a truculência, a frontalidade e estilo. Gostei dos seus livros de crónicas (Sul… David Crockett…) e normalmente gosto dos artigos, mesmo que não concorde com ele quanto aos professores e agricultores. Dos romances, gostei de “Equador” e bastante mais de “Rio das Flores”. Deste “Madrugada – que para mim todas são limpas, excepto aquelas que se seguem a noitadas de copos, cada vez menos, diga-se! – esperava um romance com uma escrita madura mas parece-me na forma e no estilo um romance imaturo, escrito por um estreante! Quanto ao tema parece-me a reunião de lugares comuns de alguém que não sendo do campo quer meter-se na pele de aldeão do interior esquecido, e, quanto a mim mal conseguido na forma como o desenvolve numa sequência empastelada de situações que repetem artigos de opinião de MST onde zurze os seus inimigos de estimação e usa os seus temas dilectos. Os diálogos e o ambiente são pouco credíveis e francamente pirosos tal como o enredo que não consegue surpreender. É um livro fraco no seu todo, num estilo simplista que eu classifico como “foleiro” e não faz justiça ao excelente cronista e articulista que é!
Não recomendo, a não ser aos seus detractores que têm como o atacar!
“Entre Cós e Alpedriz”, do nosso Extraordinário José Catarino Cipriano:
Mais do que um romance é uma narrativa verdadeiramente rural, com alma camponesa e genuinamente aldeã de quem é e se interessa, viveu e recolheu material sociológico e antropológico que depois soube muito bem compor sob a forma de história da vida de uma mulher ao longo de quatro ou cinco décadas.
Muito bem escrito e conseguido, numa linguagem popular cuidadosamente trabalhada, dá-nos uma imagem do que era(?) a vida dura numa aldeia serrana do Centro. Lê-se com interesse pois mistura e bem as histórias dos que se cruzam com os personagens principais ou fazem parte do seu Mundo com as descrições de um viver, costumes e práticas. É uma homenagem à nossa gente e retrato fiel de uma época de austeridade cuja memória não podemos deixar perder.
Miguel Sousa Tavares teria muito a aprender se o lesse!
Recomendo vivamente!
“João Freudenthal, memórias – da Prússia a Luanda”, de Leonor Vaz Pinto.
Uma edição da família Freudenthal, de cujos descendentes sou amigo. É um livro sobre a vida de quem a soube pegar de caras e dar a volta – falamos de um judeu alemão fugido ao nazismo.
Recomendo com reservas, pois é para quem goste do género biografias (eu!), mas é inspirador! A família é de fa
Bom trabalho Pacheco.
Eliminar( “Obsessão”, Pedro Almeida Sande
ResponderEliminarGosto de ler os textos deste nosso Extraordinário! É muito claro e objectivo, discretamente culto, tem portanto a virtude de ser esclarecido… e esclarecedor.
O romance foi uma surpresa pois inserido num género que não é o que mais aprecio e costumo descrever como “depressivo/deprimente”, é porém claro que não se destina a exorcizar fantasmas ou traumas pessoais, pelo contrário fala de temas que nos são caros aqui neste nosso Blog!
O Pedro A.S. pega magistralmente no tema da moderna solidão urbana que circula pela net, embrulha-a no tema do gosto pela escrita, polvilha-o com alguma frustração/ansiedade humana e desenvolve a partir daí um romance que nos prende em suspense, quase um thriller ou romance negro (?), conseguindo entremear a narrativa com opiniões e sensações próprias sem ser opressivo nem omnipresente, da forma que lhe é peculiar numa linguagem cuidada e muito bem elaborada porém acessível, com algumas alusões implícitas a autores que lhe são caros (Saramago p.e. , e de forma certeira ao “Intrínseco de Manolo” um romance profundo sobre sentimentos de que também gostei muito), tudo de uma forma subtilmente culta pois que não sendo ostensiva nem a despropósito não agride, mas sobretudo que se entranha e obriga a ler sem parar. É verdade… a obsessão instala-se em nós como se instalou no narrador, e queremos saber mais e acompanhá-lo na sua demanda, o romance lê-se de uma assentada!
Li-o numa tarde e noite, ao lume! É aliás o seu defeito… se o largarmos, creio que será difícil retomar o fio à meada e aconselho que o façam como eu, numa tarde e parte da noite. Aliás é pequeno e lê-se por isso bem e de um fôlego. Sinceramente não tenho reservas em o colocar acima do “Jerusalem”, (para bom entendedor…), só lhe faltando se calhar um editor e o marketing para o lançar como merece, quiçá um prémio literário desses mais ou menos atribuídos e menos premiando de que se fala no romance. Aliás o Pedro A.S. quanto ao estilo e forma, na minha opinião de traça literária com uns milhares de obras roídas, pede meças a qualquer escritor actual. Aposto que ainda vai dar que falar… e espero bem que sim, pois ao contrário da maioria que começa a escrever muito novo e sem vivências que não sejam as dos livros que lêem, ele tem a maturidade e as bases, por isso sabe onde nos tocar… não faz pura ficção!
Também o recomendo, sem reservas. A minha mulher foi esta manhã lê-lo lá para as Portas do Sol, como é seu costume (estou a escrever isto Domingo de manhã, pois vou logo a seguir ao almoço para Ovar onde teremos uma reunião de trabalho do grupo de caçadores-escritores, seguido de jantar e tertúlia, pois há muita mentira nova para contar).
Pedro, aguardo ansioso pelo da Grande Guerra… e esse aposto que será 100% do meu género!
Finalmente, estou em meio de outro romance de um Extraordinário: “A mulher que sabia tudo”, de Fernando Santos Costa!
Outra boa surpresa: um policial, bem lisboeta e à nossa moda! Num estilo ligeiro é escrito em linguagem absolutamente corrente do dia-a-dia, particularmente humorado mas muito perspicaz de observador da nossa sociedade na melhor linha de um Gervásio Lobato ou Mário Zambujal. Na linha clássica do melhor romance policial e detective made in USA, é um “Ross Pym” moderno mas mais subtil, evoluído até.
Lê-se com o maior agrado e dispõe bem pois os diálogos são do mais fino humor e fazem sorrir (é melhor do que fazer rir!) pelo seu total realismo: É que podíamos ser nós mesmos a ter aquela conversa, comentários e saídas ou pensamentos, o que eu acho do mais interessante e genial!
O personagem é um achado, o que se diz “um cromo”, genuíno e bem actual, uma espécie de “pintas” evoluído na formação mas não no essencial do nosso desenrascanço, atrevimento, mariolice e brejeirice que compõe um quadro deveras castiço e que dispõe bem, é simpático e não deprimido ao contrário da corrente actual dos nossos escritores.
Outro romance que recomendo sem reservas, em particular aos nossos Extraordinários A. S
Vou estar atento a essa mulher, ó Pacheco...
EliminarUm abraço
Saudações Extraordinárias