Infâncias sombrias
Conheço mal a literatura nórdica, até porque só de há uns anos para cá as editoras portuguesas começaram a apostar nela (havia, claro, alguns clássicos, mas creio que só depois do sucesso da série Millennium se decidiu olhar com mais atenção para os escritores suecos, por exemplo). Já aqui falei de um autor que apreciei bastante (Per Petterson) e agora acabo de ler outro livro duro e bonito que tem muitos pontos de contacto com a última obra de Valter Hugo Mãe, Desumanização. Trata-se de A Casa com Alpendre de Vidro Cego, da escritora norueguesa Herbjørg Wassamo, que fala da vida de Tora, uma criança, numa ilha onde se vive essencialmente da pesca (e mal). Tora carrega o estigma de ser filha de um soldado alemão que se apaixonou pela mãe, Ingrid, durante a ocupação (e foi morto, sabe-se lá por quem, antes de poder regressar à pátria); mas, como se isso não bastasse, a sua infância é sacudida permanentemente pela perseguição do padrasto alcoólico, uma vez que Ingrid trabalha no turno da noite da fábrica de conservas e não pode acompanhar a filha. E, contudo, esta menina encontra formas de resistir absolutamente notáveis, entre as quais está a leitura de livros e as «conversas» com um rapazinho surdo-mudo chamado Frits. Numa Noruega ferida pela guerra e muito pobre, sempre cheia de frio e vento, esta infância é uma lição de sobrevivência – e a escrita de Wassamo verdadeiramente bela e mágica. Diz-se na contracapa que este é apenas o primeiro livro de uma trilogia. Venham os outros dois, pois estão a fazer falta.
Tenho visto uns livros chamativos de um autor sueco chamado Mons Kallentoft mas os fundos não são ilimitados. As sinopses, policiais, apelam às minhas célulazinhas cinzentas.
ResponderEliminarO livro de que a Rosário fala parece muito interessante e vou adicioná-lo à minha loooonga lista que, ainda assim, vai levar uma nano beliscadela graças ao Natal.
http://a-minha-estante.blogspot.pt
Mesmo.
EliminarMas será um erro pensar que as infâncias sombrias só aconteceram nos países nórdicos, fechados e frios, fustigados, ou não, pela guerra. Há infâncias sombrias ao abrigo do sol mediterrânico. Serão mais difíceis de ver?
ResponderEliminarpenso que não, Cristina.
Eliminarnem o Sol consegue apagar tantas sombras...
e se pensarmos que a Peninsula Ibérica viveu durante décadas prisioneira de dois regimes totalitários...
Haveria de compreender a delicadeza da infância.
ResponderEliminarEra bom que mais pessoas pensassem assim...
EliminarÉ curioso que na minha sub-prateleira nórdica está precisamente a colorida capa do livro da Herbjørg a chamar-me, agora que acabei de ler o islandês Steffansón . Não sei se as infâncias são ou não mais sombrias em tais paragens, talvez tenham sido e já não sejam, mas é verdade que a escrita traduz uma certa penumbra, um certo desconforto gélido - veja-se o Hamsun - que corresponde bem à imagem que fazemos delas.
ResponderEliminarSe gostam de nórdicos, deveriam dar uma vista de olhos ao catálogo da Eucleia. Tem vários autores, de vários países diferentes, e de várias épocas diferentes.
ResponderEliminarNo meu país e na certeza da infância na América a carepa o trabalho sério para adultos inclusive de cooperativa.
ResponderEliminarPenso que fazem falta novos livros. Também fazem falta novos leitores e, claro, novos escritores. Mas o que faz mesmo falta, por absurdo que pareça, é uma nova linguagem.
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