Hermanos

Já aqui falei de alguns livros de Adolfo García Ortega (autor de, entre outros, O Comprador de Aniversários, um pequeno grande romance sobre uma vida em Auschwitz), mas talvez nunca tenha dito que ele é igualmente um grande editor que trabalha na Planeta, em Espanha. Uma noite, há uma década, durante a Feira do Livro de Frankfurt, encontrámo-nos para jantar na mais bonita praça da cidade e, sabendo da incapacidade proverbial dos espanhóis para nos perceberem, toda a noite me dirigi a ele no meu fraco castelhano, o que foi apesar de tudo eficaz, não tendo havido qualquer obstáculo à comunicação. Eu não esperava era que, à despedida, ele me brindasse com a surpreendente tirada: «Sabes, estou mesmo contente... Não fazia ideia de que percebia tão bem português.» Piadas à parte, foi no blogue deste amigo, Otra Galaxia/Club Cultura, que encontrei a seguinte afirmação de Borges: «Os espanhóis bem se podem gabar de falar lindamente espanhol, o problema é que não são capazes de escrever um bom livro.» (E eu aqui acrescentaria «Nem de falar outra língua», mas não é o momento para vinganças.) O destinatário da frase era um outro Adolfo, Bioy Casares, mais um grande escritor argentino, e a conversa ocorreu nos idos de 1962. Talvez hoje nos seja difícil concordar com ela (há muitos escritores espanhóis de grande qualidade, como Marsé ou Marías, por exemplo), mas o autor do blogue acaba por dizer que, «salvo raras excepções, efectivamente a literatura espanhola enlanguesce como o país, que há duzentos anos está metido numa campânula que ainda cheira a padres e príncipes». Será? Bem, posso não ter percebido bem... O meu espanhol, já se sabe, é muito fraco.

Comentários

  1. Claudia da Silva Tomazi17 de dezembro de 2013 às 02:12

    Na altura de três a nos atrás na minha região houve um projecto para investimento de um grupo espanhol (considerável investimento) amparava nomeado "Quinta dos Ganchos".

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    1. Por favor explique a todo o mundo porque você, a nossa querida Cláudia, escreve quase sempre o seu português com tempo verbal desapropriado, por exemplo: "investimento de um grupo espanhol (considerável investimento) AMPARAVA nomeado "Quinta dos Ganchos". É intencional ? É efeito literário ?

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    2. Claudia da Silva Tomazi17 de dezembro de 2013 às 06:52

      Primeiro escrevo deste modo creio que o pensamento a idéia é original.

      Intencional - seria estima.

      Efeito literário - estilo.

      DIFERENÇA a referência a interpretação.

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    3. Está feito o esclarecimento, que se agradece encarecidamente !

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  2. Hum... um espanhol que não valoriza obras espanholas? É um mau espanhol... ou um espanhol à portuguesa...
    Nem conheço nenhum assim...
    E confesso que prefiro um espanhol-como-são a um espanhol-que-não-é, é como beber scotch de Sacavém...

    Há livros e escritores espanhóis, actuais, muito bons, ao que cheiram não sei mas a mim cheiram a boa literatura!

    Saudações kaluandas!

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  3. Bom dia a todos,

    Graças a este blog, li "O comprador de aniversários" e gostei muito. Tenho em fila de espera "Rabos de lagartixa" de Marsé e Javier Marías é um dos nomes que referenciei numa short list mental para descobrir um destes dias.

    Este ano porém, descobri dois escritores espanhóis a quem fiquei completamente rendido e a quem tiro o meu chapéu: Ballester e Cela. Fartei-me de os elogiar no facebook, na altura em que os lia. Ambos já faleceram, mas andavam por cá aquando dessa frase de Borges, pelo que, na minha opinião, o génio Argentino, dessa vez, não tinha a razão do seu lado.

    Um bom dia de chuva,

    Rui Miguel Almeida

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    1. O génio argentino gostava por vezes de fazer afirmações exageradas e parece-me que com elas tinha o objetivo de provocar o leitor, para isso se servindo até de afirmações que de tão exageradas podem ser classificadas de truculentas. É que essa atitude tem mais potencial dinâmico: causa reação e penso que, apesar do seu feitio tímido, o Borges gostava também de se ver a si próprio como um polemista. Como eu o compreendo: eu uso frequentemente o exagero para que me oiçam. Obviamente que em Espanha se produziu grande literatura no tempo em que Borges era vivo.

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  4. Sei que não é propriamente o género literário mais popular por aqui, mas fica a sugestão, até porque estamos em época de presentes e podem assim os Extraordinários conquistar alguém nem que seja para o género "Viagens".

    Javier Reverte, é o melhor escritor de viagens contemporâneo na actualidade!
    É espanhol...
    Em busca de los mitos blancos de la África negra
    é para mim, dos melhores livros sobre África que já li - e li muitos!
    El rio de la desolación - é um livro actual sobre o Amazonas... um relato de viagem imperdível.

    Acrescente-se que este jornalista é licenciado em filosofia... pelo que as suas análises são tão interessantes quanto elaboradas e cultivadas.

    Fica esta nota, enviada desde a Talatona!


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  5. Com o noco acordo (h)ortográfico, qualquer dia os portugueses também não conseguem falar a própria língua; ou, pelo menos, não se entenderem quanto à forma de a escreverem em livro ou em qualquer outro formato.
    A propósito (ou não, porque pode ser fora do tema), o que é que vai acontecer à rede municipal das bibliotecas de Lisboa? Segundo a petição que me chegou através de outro blogue, parece que as querem desintegrar e entragar às Juntas de Freguesia: as bibliotecas de São Lázaro, David Mourão Ferreira, Natália Correia, Maria Keil, o auditório Orlando Ribeiro, os dois espaços da biblioteca do Museu da República e a dos Olivais.
    Não sei se isto será bom ou será mau. Se for bom, que o seja, mas duvido; para mau, já basta assim.
    Acabaram com as itinerantes da Gulbenkian - porque os rendimentos da fundação se "esvaíam" provavelmente com este "custo" - agora querem limitar o acesso aos livros atrvés das suas Casas?
    Enfim, queixem-se que a pequenada e a juventude está virada para os "ai-podes", "ai-pedes", "ai-pagas" e "ai-embruteces", porque parece que alguém está a fazer o frete aos construtores das maquinetas.
    Há dias em que me apetece sair à rua com a lanterna de Diógenes, gritar palavrões e instigar à revolta. Hoje é um deles.

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    1. Saiu um gralha - entragar por entregar - no meu texto acima. No entanto, revendo-o, acho que o termo - que não existe na língua portuguesa com o prefixo en - está propositado. Tragar é devorar, comer ou digerir; o en é um prefixo de sobreposição. Logo, entragar, que saiu como gralha, está apropriado.

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  6. Claudia da Silva Tomazi17 de dezembro de 2013 às 03:29

    Inclusive há diferença: herança(s) castanhola.

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  7. Há gestos pequenos que, o fazê-los, não lhes mede o alcance que conseguem para os outros – nunca somos os outros, portanto, em rigor, não damos conta certeira - . É o que acontece quando a Rosário desfia pormenores de feiras de livros europeias, em cidades ignaras, com pessoas, em mim, imaginárias. E me enternece sabê-los; por sentir que a vida é assim, feita das coisas pequenas que não contam mas importam; que são, sem essência forte; breves como a erva na beira dos caminhos.
    E que áridos seriam sem esse leve de debrum a reverdecer-nos os passos.
    Obrigada pela persistente leveza à volta deste mundo de palavras, Rosário.

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  8. Com essa piada de tomar uma língua por outra, lembrei-me de duas histórias passadas comigo.

    Bem sabemos que temos mais jeito para línguas estrangeiras do que os espanhóis. Mas há exceções. Ainda nos anos 90, numa viagem de regresso à Alemanha, eu e o meu marido travámos conhecimento com um simpático alentejano, de capote e tudo, no avião. Estava, na altura, há mais de vinte anos na Alemanha. Quando falou em alemão com o meu marido, este sorriu-lhe, mas não o entendeu e pediu-me que lhe traduzisse as suas palavras, convencido de que o simpático senhor falara em português (nota: o facto de se tratar de um alentejano é puro acaso, a história é verídica).

    Conhecemos uma australiana que já nos visitou duas vezes, aqui, na Alemanha (ainda não consegui levá-la a Portugal). Estávamos uma vez num restaurante, com vários amigos, todos alemães. Uma das nossas amigas quis ser simpática e falou em inglês com a australiana, que se virou para mim, à espera que eu traduzisse ;)

    Pois, saber a língua não chega, atenção à pronúncia! E não se esqueçam de aspirar os Hs, quando falarem inglês (ou alemão) ;)

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    1. Desculpem! É claro que não devem "aspirar" os Hs, mas, sim, expirá-los (ou suspirá-los, se quiserem, conquanto usem a segunda parte do suspiro ;)

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    2. Claudia da Silva Tomazi17 de dezembro de 2013 às 05:34

      Quando cita "jeito para línguas estrangeiras" significa múltipla inteligência.

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    3. Não digo que não. A sua prática é que, muitas vezes, deixa muito a desejar...

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  9. proporcionalmente concordo com o grande Borges.

    para mim os escritores da "espanha-américa" são bem melhores que os do continente.

    há a tal magia, que talvez tenha a ver com a proximidade com a tal linha do equador.

    diferença que não é tão evidente entre os autores portugueses e brasileiros.

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  10. Não sei explicar... e nem sei a razão, mas uma coisa é verdade, os portugueses (mal ou bem) aprendem e tendem a falar tudo o que seja idioma!

    Eu falo, leio e escrevo em mais 3 idiomas... ainda me expresso como entendo perfeitamente um 4º - talvez seja batota por serem latinas - mas nunca me senti inferior ou dominado, nada... perceber o que dizem os outros é uma vantagem sobre eles!
    E, por onde passo vou tentando aprender frases ou expressões, termos locais... o que até me ajuda profissionalmente.

    O português é uma língua viva, não precisa de acordos, e está em permanente alargamento do seu vocabulário graças a essa ancestral tendência que nos encheu os dicionários desde que se escreve, e às nossas andanças pelo Mundo!

    Fiquem bem! Como se diz por aqui... estamos juntos!

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  11. Pois cá para mim a Tomazi é um robot ou está a brincar connosco, isto excluindo a hipótese de que é simplesmente pateta.

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