A velha guarda

Quando Cavaco Silva ganhou as eleições e tomou posse como Presidente da República, logo se percebeu que a sua relação com a cultura era absolutamente nula (quer dizer, já se desconfiava, mas deu para confirmar). O professor de números é bastante parco em conhecimentos literários e artísticos; e, mesmo para os que nunca gostaram de Soares e Sampaio, é inegável o fosso que existe entre o que estes dois senhores sabiam de literatura, música e pintura e o que Cavaco Silva (não) domina. Não é, claro, o único político ignorante (antes fosse) – e a nova geração de políticos formatados nas juventudes partidárias é toda mais ou menos desinteressante e com pouco ou nenhum mundo (além de Cuba, Cancún e Punta Cana, suponho). No dia 2 deste mês, fui a uma sessão comemorativa dos 25 anos da publicação de Gente Feliz com Lágrimas, o multipremiado romance de João de Melo – que é, de resto, a sua obra mais emblemática e acaba de ter uma edição especial. Para falar dela, além do autor, estava o jornalista Fernando Alves (brilhante condutor da conversa) e Jaime Gama – sim, esse mesmo, que foi, além de deputado e ministro, presidente da Assembleia da República aqui há uns anos (e é açoriano como o autor). Devo dizer que fiquei absolutamente boquiaberta com a sua prestação. Já sabia que se tratava de alguém inteligente, o que não sabia era que tinha tanta bagagem cultural (perdemos o hábito de acreditar em políticos cultos, lá está) e, melhor ainda, que tivesse capacidade para fazer uma leitura crítica do romance digna de um professor universitário de literatura (relacionando o romance com obras de muitos outros autores ou situando-a num contexto de ruptura com movimentos e escolas anteriores) e, ao mesmo tempo, que expusesse o seu ponto de vista com clareza suficiente para que todos os presentes o acompanhassem sem quaisquer espinhos (não levava papel, note-se). Já no fim da sessão, percebi que todos estavam igualmente maravilhados com ele e que tudo o que se comentava a esse respeito era que a geração de Jaime Gama (não importa de que partido) era, de facto, de outra cepa e que, a partir dela, tem sido sempre a descer... Ora, se o exemplo vem de cima, como diz o povo, estamos mesmo com um irremediável azar.

Comentários

  1. Claudia da Silva Tomazi23 de dezembro de 2013 às 03:05

    Boa leitura! Tem ponta a pegar.

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  2. Creio que dessa geração não terá havido um que tivesse falhado uma ida a CANCUN ou à República Dominicana, para onde se dirigiam todos os totós e ali ficavam "enclausurados" dentro duma praia e depois regressavam todos felizes e bronzeados...e com a Costa da Caparica aqui tão perto...
    Quanto a cultura, ora bem os números, a carreira, enfim os "projectos" não se compadecem com essa treta de livros que não nos ensinem sequer "como ser bilionário"...

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  3. Se o dr . Cavaco fosse só um cepo seco que nunca deve ter lido um livro - para além daqueles livros técnicos de economia e finanças - até se aguentava.
    O pior é a má formação do senhor - a alma pequena, mesquinha e vingativa de que tem dado inúmeras provas ao longo destes anos todos em que tivemos que o suportar.
    Ah, e a falta de gosto para escolher os seus amigos - os dias loureiros, os duartes limas, os oliveiras e costas!

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  4. E se aproveitássemos a parvoíce do Crato e fizéssemos um pedido à Assembleia da República para que o presidente, deputados ou membros do governo só pudessem tomar posse depois de passarem num exame de cultura portuguesa básica?

    10 perguntas de resposta múltipla em que não poderiam falhar nenhuma.

    Por exemplo:
    1. Henrique Pousão foi uma figura que se distinguiu na cultura portuguesa por ser sido…
    a. Romancista.
    b. Escultor.
    c. Historiador.
    d. Pintor.
    e. Nenhum dos anteriores.
    2. Qual dos seguintes pecados é central no enredo de “Os Maias” de Eça de Queiroz?
    a. Gula.
    b. Avareza.
    c. Incesto.
    d. Ira.
    e. Nenhum dos anteriores.
    3. Egas Moniz ganhou o prémio Nobel da Medicina por ter introduzido um novo método referente à seguinte área da medicina:
    a. Tratamento das úlceras gástricas.
    b. Neurocirurgia de doenças mentais.
    c. Transplante de órgãos.
    d. Vacinação contra a tuberculose.
    e. Nenhum dos anteriores.
    4. O infante D. Henrique, o Navegador, era filho da seguinte rainha:
    a. Filipa de Vilhena.
    b. Inês de Castro.
    c. Leonor Teles.
    d. Leonor de Aragão.
    e. Nenhum dos anteriores.
    5. O cubismo foi um movimento estético da primeira metade do século XX em que um dos pioneiros foi o seguinte pintor português:
    a. José Malhoa.
    b. Paula Rego.
    c. Júlio Pomar.
    d. Amadeo de Souza Cardoso.
    e. Nenhum dos anteriores.
    6. O primeiro-ministro que estava em exercício no dia 24 de abril de 1974 chamava-se:
    a. Marcelo Caetano.
    b. António Salazar.
    c. Américo Tomaz.
    d. Sá Carneiro.
    e. Nenhum dos anteriores.
    7. “Os Lusíadas” tem como tema central a narrativa do seguinte episódio da história de Portugal:
    a. A conquista do Algarve aos Mouros.
    b. A viagem de Vasco da Gama à Índia.
    c. As batalhas de Nun´Álvares Pereira contra os castelhanos.
    d. A guerra peninsular contra as invasões francesas.
    e. Nenhum dos anteriores.
    8. A ilha do arquipélago dos Açores que se situa a maior distância de Lisboa é a seguinte:
    a. Flores.
    b. S. Jorge.
    c. Corvo.
    d. Terceira.
    e. Nenhum dos anteriores.
    9. A estátua de D. José I que se situa na Praça do Comércio (Terreiro do Paço) é uma obra do mais famoso escultor português do século XVII que se chamava:
    a. Machado de Castro.
    b. Soares dos Reis.
    c. João Cutileiro.
    d. Teixeira Lopes.
    e. Nenhum dos anteriores.
    10. Na obra “Amor de Perdição” de Camilo Castelo Branco o destino final do herói masculino do romance é o seguinte:
    a. Enforcamento.
    b. Nobilitação.
    c. Casamento.
    d. Degredo.
    e. Nenhum dos anteriores.

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    Respostas
    1. E eu aprovava, Artur, e entenderia muito mal se não aceitassem fazer esse teste, não acredito é que 10% passassem.
      É como esta coisa dos professores terem medo de fazer um teste sobre os seus conhecimentos, eu penso que só terá medo quem não souber, doutro modo não entendo esta recusa. Então eu vou ensinar e tenho medo de ser questionado sobre os meus conhecimentos? impensável, absolutamente impensável. Façam-me os testes que quiserem sobre a minha profissão que eu aceito porque tenho confiança em mim, e no que sei e não sei, e para o que me pagam para eu fazer eu sei!

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    2. Obrigado pelas suas palavras. O problema também deriva da geração de professores que agora tem trinta e tais (vejo isso nos meus filhos) ter tido o azar de apanhar algum desvario educativo que lhes deu uma formação básica e universitária pouco exigente.
      Bom Natal e Bom 2014 !
      (tenho umas feriazinhas de amanhã até dia 1; vou fugir da cidade e dos computadores para me encafuar com livros; por isso, não lerei as "Horas Extraordinárias" até dia 2)

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    3. O teste nem é difícil. Maior seria a minha curiosidade em saber quantos passavam...

      Já agora, se me permitem, observo que Jaime Gama, com a sua bagagem cultural, pode também ter sido uma exceção, no seu tempo.

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  5. Folgo em saber que o meu vizinho mostrou um pouco do que vale. Lembro que tive a mesma agradável surpresa há largos anos, num programa televisivo qualquer, em que se entrevistavam pessoas variadas. Na sua vez, Jaime Gama foi um espanto, brilhou em naturalidade sábia.
    Gente Feliz com Lágrimas foi um livro que li provavelmente quando saiu, talvez por feeling e por gostar de livros grandes. Que me moveu o coração e me bandeou para o lado açoriano que nem sabia que tinha. A alma portuguesa tem afinal um lado de ilha. Ou a alma humana. Será.

    Bom Natal a todos. Com. Por ser festa de companhia.

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  6. Subscrevo! (a. que não há políticos como antigamente; b. que o actual Presidente e a cultura não têm nenhuma relação particular; c. que o orador é uma surpresa - já o fora para mim em episódios anteriores).

    Ouso um: Bom Natal!

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  7. Só para aproveitar para desejar à Maria do Rosário um bom Natal, bem como a todos os extraordinários Extraordinários.

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  8. a Cultura é realmente importante, em todas as áreas da sociedade e também na política.

    claro que não basta debitar título de livros, filmes ou peças de teatro em entrevistas, é preciso ler, ver, sentir, compreender...

    mas não me parece que se possa elogiar Jaime Gama ao mesmo tempo que se critica Cavaco, com o argumento geracional, quando são os dois da mesma geração.

    pode-se dizer sim que não andaram nas mesmas escolas, não leram os mesmos livros nem tiveram os mesmos amigos.

    infelizmente os "liberais" que nos governam conseguiram correr com a maior parte das pessoas cultas e inteligentes, porque não só lhes faziam muita sombra como os faziam sentir o que realmente são: gente medíocre.

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  9. Tudo isto me lembra o Sócrates há uns anos atrás, andava ele a disputar eleições contra o Passos Coelho. O ainda Primeiro-Ministro foi a um programa qualquer da RTP2, que eu por acaso àquela hora estava a ver, e o entrevistador cometeu o erro de lhe perguntar quem eram os seus escritores favoritos. O douto Sócrates hesitou e depois lá respondeu que adorava Pessoa (claro), especialmente o seu grande poema "A Mãe." Nem ele se apercebeu, nem o entrevistador o corrigiu, que "A Mãe" foi escrito pelo Eugénio de Andrade.

    Moral da história: os nossos políticos são nódoas intelectuais, mas os empregados da RTP2, esse oásis de cultura e sofisticação, pelos vistos não lhes ficam atrás.

    Acho que é mais lícito dizer que os portugueses (a maioria das pessoas pelo mundo fora) se marimbam para a cultura. Até o Saramago, que odiava classes, teve de admitir que há uma elite de pessoas que gosta de ler, e o resto que não quer saber.

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    1. Claudia da Silva Tomazi23 de dezembro de 2013 às 11:50

      Doce mar!

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    2. Perfeito Miguel, sem tirar nem pôr é como disseste. O pessoal quer é cozido à portuguesa, benfica, carrocel oito e malacuecos...

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  10. De tudo o que li, retive e concordo que a classe política era mesma culta, na maioria das vezes resultado da pesquisa e do interesse que o fim do regime despertava cada vez mais. Sedentos de conhecimentos tentava-se perceber o mundo.

    Gente Feliz com Lágrimas foi um dos mais belos livros que conheci. Acho que sem ele, ninguém conhece verdadeiramente os Açores.

    Custa a crer que passaram 25 anos. Era uma tarde de sábado na Culsete. João de Melo, um charme. fiz algumas leituras a pedido do Medeiros.
    Depois invadi o livro, descobri a infância do menino que tratava das vacas e corria para a escola onde um professor déspota o torturava.

    E esse era só o princípio.
    Apaixonante da primeira à última página.

    Jaime Gama também conhece aquela terra e os seus mistérios. Não me admira que soubesse bem do que falava.

    Recomendo.Mesmo. Um dia voltarei a essas páginas.

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  11. Estive uns dias afastado da internet e, como tal, só agora leio este post. É com muita satisfação que, embora não se fale do romance propriamente dito, leio uma referência a esta obra. Li-o há coisa de uns três anos, depois de ler um artigo, uma entrevista, ou lá o que tenha sido, em que alguém fazia referência a este livro esquecido. Sem dúvida, foi para mim uma enorme descoberta. Arrebatador, ao ponto de não conseguir conter uma lágrima - poucos o conseguiram.

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