Vender

Quando vamos a um restaurante e perguntamos a quem nos atende como é o Bife à Casa ou o Bacalhau à Moda do Chef que vêm na ementa, estamos sinceramente à espera de que nos saibam responder – e é normalmente o que acontece. As etiquetas da roupa também ajudam as vendedoras das boutiques a dizer-nos se podemos lavar na máquina determinado vestido se, pelo contrário, aquela fazenda exige uma limpeza a seco. Enfim, quem está a vender ou interessado em que o cliente consuma tem, habitualmente, conhecimento da mercadoria, seja ela qual for. Porém, como é possível a uma equipa comercial conhecer os se calhar mais de cinquenta livros que todos os meses tem de promover junto dos clientes? Mesmo que queira «cheirar» cada um deles, será que umas linhas são suficientes para falar com toda a propriedade daquele «produto»? E que dizer dos empregados de uma livraria que recebe todos os dias novidades (há uns anos eram mais de trinta por dia)? Terão alguma vez tempo para perceber as diferenças entre estilos e autores para adequarem a exposição de todos os livros que têm na loja ao seu público-alvo? Por outro lado, se fosse eu a vender os livros que publico, e que conheço melhor do que a maioria das pessoas, à excepção do autor, teria melhores resultados na venda e na colocação desses títulos, sem qualquer experiência de comercialização? Temos sempre a sensação de que não se faz tudo e que muitos livros bons morrem na praia e não encontram os seus leitores potenciais. Haverá, porém, uma receita para que assim não seja?

Comentários

  1. Claudia da Silva Tomazi8 de novembro de 2013 às 02:15

    Um belo dia estávamos (eu meu companheiro de pescaria) mais de trinta e três quilômetros da costa após longas horas cerrei -lho dentes e boca travada dando a compreender o desacordo da situação - estávamos com iscas a baixa profundidade onde conseqüentemente nem efeito fizera.

    ResponderEliminar
  2. Ora aqui está um assunto muito pertinente.
    Se as livrarias têm funcionários que tanto lhes dá venderem livros ou batatas, também é verdade que os livros não chegam às lojas caídos do céu: podem entrar todos os dias mas depois de seleccionados por alguém. Nas grandes lojas, normalmente as editoras têm dias marcados para promoverem os seus produtos e para os entregarem. Assim, quem decide comprar isto ou aquilo (é suposto) sabe o que compra, dentro das áreas do conhecimento, dos estilos literários, etc.
    Aqui entra novamente a lógica da batata: há a branca e a roxa, e em muitas livrarias há os livros com bonecos e sem bonecos, infantis e para adultos e outras categorias duais, porque os conhecimentos não vão mais longe e a vontade de os ter também não.
    Penso que a questão devia ser colocada ao contrário: se há livrarias onde se conhece 'a batata', qual a boa para assar, a de casca para cozer e eteceteras , porque é que na maioria os vendedores não percebem nada da horta? Penso que o problema não se prende com a quantidade e diversidade de títulos e sim com a falta de conhecimentos e falta de vontade em adquiri-los, aliada ao facto de as livrarias terem como objectivo VENDER, seja o que for a qualquer preço, obliterando que também têm a missão de satisfazer o cliente.
    Assim, as livrarias não investem na profissão de livreiro e os vendedores nunca deixam de ser arrumadores de livros.
    Por parte de ambos devia haver uma vontade e uma prática de envolvimento com os próprios editores desde o momento em que vão apresentar as suas propostas de edição para venda na livraria. Assim, o vendedor começava a trilhar o caminho de livreiro, de outra forma, quando muito será um arrumaníaco .

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco8 de novembro de 2013 às 14:54

      Observação solanácea ou batatalógica:

      O que diferencia as batatas é a percentagem de matéria seca e açúcar redutor.
      A matéria seca mais alta, faz com que absorva óleo e portanto é a batata ideal para fritar... a Bintje, Astérix, Agria.
      O açúcar redutor é baixo quando a matéria seca é alta, e portanto melhora a qualidade. Açúcar alto, torna a batata escura e como se altera, fica amargosa...
      Assim se distingue a de fritar ou de cozer, em função dessas duas características...

      Já agora, por força da temperatura elevada a batata tende a transformar o amido em açúcar e altera o paladar... portanto há que ter em conta o contrôle da temperatura que nunca deve descer abaixo dos 4ºC. Temperaturas elevadas podem então desidratar (humidade óptima são 93% ) e
      transformar o amido em açúcar como referido!

      A batata é uma ciência... como tudo aliás!

      Saudações kaluandas de um projecto batatal em que ando a trabalhar lá na Quibala!

      Eliminar
  3. LER - é a receita!

    Se o empregado de uma livraria não lê sequer uma página por dia, então não saberá responder a 99% das questões que os compradores lhe colocam já que o 1% que saberá teve apenas a ver com a arrumação que fez...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco8 de novembro de 2013 às 14:56

      Olha lá ó Severino, um empregado de livraria que não leia é tão absurdo quanto um empregado de um talho que seja vegetariano!
      Ou um pasteleiro diabético...

      Credo!

      Eliminar
    2. Bem visto ó Pacheco;onde é que tens andado?

      Um abraço

      Eliminar
  4. Claudia da Silva Tomazi8 de novembro de 2013 às 03:09

    Nem sou do tipo que faz pescaria a praia embora haja modalidades bem interessantes onde é facto perceber o grande número de adeptos a denominada (pesca esportiva de baixo impacto) em sendo está defender-lá-ía com entusiasmo pois recorro a conviver com exuberante natureza ter no sentido profundo a verdadeira interação aprender o diversificado equipamento tralha a adquiri-lá.

    ResponderEliminar
  5. Pois eu acho que está, em parte, no que esta manhã nos aponta Cláudia, a solução para melhorar a qualidade dos empregados das livrarias e aumentar a venda de livros.
    Antes de mais, os editores e livreiros devem esforçar-se por aumentar o número de pessoas que se dedicam à pesca desportiva de baixo impacto.
    Estas, por sua vez, devem ser seduzidas a, antes de embarcar, passarem pela livraria a comprar um livro.
    Feito o negócio, o cliente despede-se com cordialidade: “Até logo.”
    E o empregado, com cumplicidade: ”Até logo. Boa pescaria!”

    Uma vez estacionado o barco a trinta quilómetros da costa, colocam-se os iscos a pouca profundidade, isto é: bastante afastados dos peixes, para estes não virem perturbar a leitura.
    Convém levar uma cadeira de braços, daquela articuladas, que pode ser patrocinada pela editora.
    Lido o livro, recolhe-se a tralha e regressa-se a terra.

    Agora atenção, que este é o momento crucial da estratégia – o leitor deverá voltar à livraria para dar conta ao empregado da sua opinião sobre o livro.
    E deve fundamentar o mais possível essa opinião, que não apenas um mero “gostei / não gostei”, porque já se sabe que há gostos para tudo.
    À medida que for aumentando o número destes procedimentos, aumentará necessariamente o movimento na livraria, crescerão as vendas – e, consequentemente, o empregado terá cada vez menos tempos mortos para se dedicar à leitura.
    Em contrapartida, ele receberá um cada vez maior número de opiniões, os mais diversos pontos de vista acerca do estilo, da qualidade literária, da estrutura narrativa, das fragilidades da tradução, etc, etc – e assim ficará cada vez melhor habilitado para ajudar o pescador a, na próxima surtida, escolher o livro que melhor se adapta às respectivas preferências e sensibilidades.

    Mas isto sou eu a divagar, que não pesco nada de marketing.
    Sou mais do género da Cláudia: “recorro a conviver com exuberante natureza”.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Claudia da Silva Tomazi8 de novembro de 2013 às 07:16

      Enverude, Johnson, Mercúrio e Honda faça sempre sua compra de acordo com a necessidade mas recomendo o de dois tempos São mais econômicos a nem esqueça da bomba de porão e colete salva vida.

      Eliminar
    2. António Luiz Pacheco8 de novembro de 2013 às 14:44

      Uma observação não literária:
      O melhor motor fora-de-bordo de todos os tempos é o Yamaha 40 HP... é Uinversal!
      Por acaso é a 2 tempos, mas os 4 tempos gastam muito menos e poluem menos (gastam gasolina sem mistura de óleo ao contrário dos 2T...).
      Em Portugal e na Europa os motores a 2T foram proibidos nas águas interiores... e bandonados por completo.

      O Evinrude e o Johnson são o mesmo... apenas um feito nos USA e o outro montado na Europa.

      Saudações kaluandas, onde aliás ainda se usam motores 2T.

      Eliminar
  6. não. não há.

    é por isso que as capas são cada vez mais atractivas. :)

    claro que o conhecimento da obra de um autor, ajudará na promoção de outras, desconhecidas, mas há sempre o risco de vendermos "gato por lebre"...

    ResponderEliminar
  7. Há um livro do António Lobo Antunes que começa assim:

    Ia a caminho do Algarve, a estrada era de papel violeta às bolinhas e o volante de bolacha americana. O sol cumpria a sua função daí as omoletes estarem a saírem um pouco torriscadas, o café blindado com pétalas rosa desmaiava...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ou seja CONVERSA DE ERVANÁRIA, que ninguém percebe (salvo meia dúzia de bem pensantes)!

      Eliminar
    2. Severino. Como qualquer escritor, Lobo Antunes procura num lugar escondido... a raiz do pensamento. E o delírio é um bom lugar para viver fora de uma sociedade massificada e demasiado cinzenta. Usassem os portugueses mais chapéus-de-chuva coloridos ou, quem sabe, chapéus-de-chuva de chocolate, enquanto percorriam estradas, e não túneis, serpenteadas por fúlgidos raios de sol e arco-íris coloridos, às bolinhas amarelinhas.

      Eliminar
    3. Ó Pedro totalmente de acordo e devo até acrescentar que é por esse tipo de sociedade que me bato, mas a tua linguagem percebo-a/entendo-a, a do ALA não entendo.

      Talvez que ainda caminho para lá; ainda não consegui entender a sua linguagem (do ALA), a do ALA (e não só...), talvez um dia lá chegue...

      Do mesmo modo que muita da linguagem que por estas paragens se usa (por vezes) também não a percebo, nomeadamente a da nossa querida amiga extraordinária di Tomazi; serei só eu (?)...

      Eliminar
    4. não percebo o que é que, nas frases acima, não se percebe... há um volante de bolacha americana (o do meu carro é de bolacha Oreo) numa estrada para o Algarve às bolinhas violeta (eu, quando vou ao Algarve, costumo seguir pela estrada às riscas brancas e amarelas, se for durante o dia, claro; de noite, é perigoso) onde o sol torra omeletes (já vi quem fritasse ovos em capôs de jeeps; porque não a estrada?...) e no café boiam pétalas de rosa (no meu, por exemplo, já vislumbrei palitos e não eram La Reine...).

      PLFF

      Eliminar
  8. Muito sinceramente, acho que esta questão é mais problemática nas grandes superfícies. Uma livraria independente não deve tentar agradar a todos. Tem de perceber a que tipo de compradores lhe interessa apelar, e em função disso definir que tipo de livros deve ter e qual o perfil dos funcionários, que deverá ser semelhante ao dos compradores em termos de preferências literárias.

    É óbvio que um livreiro nunca vai conhecer tudo, por muito bom que seja, mas sempre pode estar melhor preparado. Como diz o Severino, uma pessoa não pode trabalhar numa livraria e não ler. Ou melhor, poder pode, mas depois a coisa não vai correr bem. Já me aconteceu numa livraria independente, muito bem vista no mercado, andar à procura de livros da Marguerite Duras e a pessoa que me atendeu não fazia a mais pequena ideia de quem era tal escritora (chegou mesmo e pronunciar o nome à inglesa!). Mas há também os bons exemplos, como a Pó dos Livros, um sítio onde somos atendidos por quem conhece realmente os livros.

    ResponderEliminar
  9. Olá!

    É claro que há necessariamente desinformação dos livreiros, dada a proliferação de livros que lhes chegam das editoras por dia. Isso é até bom sinal: significa que é um indústria que se mantém.

    Para variar, o problema parece-me sistémico: todos têm responsabilidades e, provavelmente quase todos assobiam para o lado.

    Cabe ao bom livreiro procurar informação para bem informar o consumidor final. Caberá a este pronunciar-se, tal como acontece neste blog, mas também junto ao vendedor (i.e., dar feedback para que o livreiro já ganhando mais sensibilidade para os bons e maus livros ).

    Mas cabe também - e na minha opinião, determinante maior - às editoras e editores fazerem acompanhar os bons livros de uma nota informativa sobre o livro (qual bula). E não apenas a informação intrínseca que resulta da aposta comercial em colocar os livros nos locais mais expostos da livraria. Mais do que isso: penso que é responsabilidade das editoras verificarem o andamento comercial dos livros e dos autores que representam, junto aos livreiros. Não basta, e até me parece pouco ético, as editoras apostarem apenas em estratégias intensas e continuadas de marketing para alguns dos seus autores, 'abandonando' logo à partida outros autores, que ficam ao fado do (des)conhecimento dos livreiros. O sucesso de alguns autores fica muitas vezes comprometido à partida pelo sucesso de outros (lembrando a ideia de filhos preferidos e outros nem tanto).

    Resumindo: na ausência de uma atitude proactiva das editoras, os livreiros apenas respeitarão a lei do comércio: daí que saibam muito mais de autores comerciais, sem grande qualidade literária (incluindo a maior parte dos nossos jornalistas e figuras públicas que aproveitam esse facto para escreverem e produzirem best-seller que só são isso mesmo), que de os grande escritores, completamente opacos. Termino com um exemplo paradigmático: a mim já me aconteceu ir à procura do Um Pinguim na Garagem, do Luís Caminha e encontrá-lo perdido, apesar de não para o livreiro, na secção de livros infantis. Aconselho vivamente a leitura do livro e do autor (já leram também o A Decadência dos Olfactos?). Mas não me parece de todo leitura adequada a uma criança de sete ou oito anos...

    ... ... ...

    Sei que é misturar assuntos, mas permitam-me uma nota ao post de ontem. Estimada Maria do Rosário Pedreira: confundir xadrez com jogos de cartas como se ambos estivessem ao mesmo nível não faz qualquer sentido. Percebo que não goste de jogos; mas importa não confundir alhos com bugalhos. O xadrez não é um jogo de sorte ou azar. Não só é um jogo de estratégia completamente independente da sorte, como é, de todos os jogos de estratégia conhecidos, o único que não tem, até à data, uma solução pré-definida. Ou seja, ao contrário do que acontece com, por exemplo, o jogo do galo ou das damas, ainda não foi possível provar que se ambos os jogadores jogarem o seu melhor, o empate é garantido. O número de combinações possíveis em termos de jogadas é, até ao momento, incalculável. Trata-se de um exercício cognitivo de tal forma completo (e complexo) que os sistemas de ensino mais esclarecidos tendem a incluir este jogo nos seus currículos. Da mesma forma, é um excelente exercício de reabilitação neurológica. Nada a ver, portanto, com jogos de cartas, dependentes da sorte e, quanto muito, de competências mnésicas e de persuasão interpessoal.

    E, já agora, lamento discordar mas, para perceber bem o Novela de Xadrez do Stefan Zweig, é mesmo preciso saber um pouco de xadrez...

    Osvaldo Santos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco8 de novembro de 2013 às 15:05

      Alto lá!

      Não sou jogador, nem de cartas nem de xadrez... apenas sei mover as peças!
      Os meus pais tentaram ensinar-me bridge e canasta... fazia parte da educação de um cavalheiro... e os meu colegas bem insistiram mas nunca me fizeram jogador de lerpa, sintético, sueca e nem king!
      No máximo, joguei crapaud muitas noites de Inverno com a minha avó! Á camilha, diante da lareira. E gostava... ela bebia um cálice de aniz e eu um Porto!

      Mas sei o suficiente para lhe garantir que tanto há jogos de cartas de sorte/azar como os há de pura estratégia tal como é o xadrez!

      Saudações kaluandas!

      Eliminar
    2. Osvaldo Santos, boa noite
      É muita generosidade sua chamar livreiros aos vendedores de livros: a pessoa que nos vende o bolo ao balcão da pastelaria também não é o pasteleiro e não é por eu sugerir uma aspirina para uma dor de cabeça que me torno farmacêutica. São 'coisas' completamente diferentes, dimensões opostas. Eu posso hoje vender bolos num café e amanhã sapatos numa loja, mas livros... não. São outro alimento e outro conforto. Se eu vender um bolo que o meu cliente não gosta, não o come, não o volta a pedir, há uma substituição por outro, deixa de comer bolos, em última análise, e passa a comer pão com manteiga. Se eu vender um livro 'errado' posso perder um leitor para a vida.
      Por outro lado, as editoras querem fazer muita coisa que os lojistas não permitem e começa logo quando nos dão a informação, a nós leitores, que um determinado livro está esgotado... na maior parte das vezes é mentira, apenas não têm e custa-lhes atender o que o cliente pede, custa-lhes em trabalho, em processos administrativos, em tudo. Nem o cliente está em primeiro lugar.
      Faço experiências bizarras em livrarias, por exemplo perguntando por coisas inexistentes que me garantem ter... quando não encontram, pergunto o que me sugerem em substituição e as respostas vão de A a Z. Daria vontade de rir se não fosse uma tristeza.
      Bom fim-de-semana
      AO

      Eliminar
  10. Um salto no tempo
    (Imaginemos que, apenas esta tarde, passaram dois ou três anos sobre o meu comentário das 13:12)

    Estava uma bela manhã de sol, porreira para ir para o mar. Agarrei na tralha e abalei. De caminho passei pela livraria. Esperei uns largos minutos na fila para ser atendido pelo empregado meu favorito. Nesse entretanto meti conversa com um conhecido das fainas piscatórias:
    «É que eu agora ando num de dois tempos que me foi recomendado por uma amiga.»
    «O quê? Não me diga que anda a ler outra vez o “Vícios e Virtudes”?»
    «Não, não é isso. É o motor do barco…»
    Nisto, chegou a minha vez:
    «Bom dia. Um amigo fez-me chegar este trecho de um livro que me despertou curiosidade. Ora escute: “Ia a caminho do Algarve, a estrada era de papel violeta às bolinhas e o volante de bolacha americana. O sol cumpria a sua função daí as omeletes estarem a saírem um pouco torriscadas, o café blindado com pétalas rosa desmaiava...” Sabe que livro é este?»
    «Ora! Isso é do ALA, mas dos anos oitenta, noventa, p’raí. Ele já ultrapassou essa fase dos floreados de estilo, que aliás os pescadores não apreciavam por aí além. Agora está mais contido. Lamento, já não temos esse livro. E, se me permite, também me parece que não iria apreciar…»
    «Bem, se você acha… Então e agora o que é que me recomenda para levar para a pescaria?»
    «Pois… Isto que vou dizer-lhe resulta muito das minhas preocupações pessoais. Mas, se bem o conheço, são também preocupações suas…»
    «Então…?»
    «… quer dizer, a trapalhada que vai pelo mundo, e agora, mais recentemente, a que vai nos países de Língua Portuguesa…»
    «Bem, realmente…»
    «Pois é. Inquieta-me especialmente o que está a acontecer em Moçambique, penso no Mia Couto, coitado…»
    «Pois, de facto…»
    «Se não me leva a mal, acho que devíamos falar cá mais no Mia, sei lá, dar-lhe mais voz, colocá-lo em primeiro plano, em vez daqueles políticos de lá, que, valha-nos são pisco…»
    «Mas então, eles ainda agora lhe deram… não me diga que…?»
    «Pois deram, mas o que querem é calá-lo. A ele, que tanto tem feito e escrito a favor daquele país, das potencialidades, da generosidade daqueles povos… »
    «Exacto! Ainda há pouco tempo li o “Pensageiro Frequente”, e é isso mesmo que ele lá trata!»
    «O quê?! Não me diga que já tem esse livro! Caramba! Era esse mesmo que eu estava a tentar vender-lhe.»
    «Ó pá, desculpe lá o mau jeito. É que eu pesco em diversos mares, várias livrarias…»
    «…»
    «Pronto, vá… Então o que é que me pode arranjar para hoje?»
    «Bem, sendo assim, só se for o Agualusa. Por exemplo o “Milagrário Pessoal”. Também é um bom retrato da Angola real, diz ali umas verdades que…Sim, que aquilo por lá, também… deixe que lhe diga…»
    «Eh pá, bem sei, mas por enquanto não diga muito, que ainda vai preso por violação do segredo de justiça, ou o caraças… Veja aí: não está ninguém a olhar? Passe-me para cá o livro. Depois fazemos as contas. Até logo.»
    «Ok. Mas lembre-se do que recomenda Cláudia: não esqueça a bomba de porão e o colete salva vida. Até logo. Boa pescaria!»

    (Cláudia havia-nos recomendado “dois tempos”. Por isso imaginei que, apenas esta tarde, passaram dois ou três anos sobre o meu comentário da hora do almoço. E, afinal, entre estes dois tempos, o que é que mudou? O mundo é como a livraria, onde estão sempre a chegar fugazes novidades – afinal, está tudo mais ou menos na mesma, como de manhã, há três anos atrás. Mas, cá pelos meus cálculos, daqui por dois ou três longos anos, com a aceleração que o mundo leva… Bem, ainda assim, pelo sim pelo não, o melhor é não esquecer a bomba do porão e o colete salva vida.)

    ResponderEliminar
  11. Para os vender é preciso conhecer e amar os livros.
    Como o livreiro Manuel Medeiros (o livreiro velho) da livraria Culsete (Setúbal) que recentemente nos deixou.

    Ver aqui o blogue do livreiro velho: http://papelamais.blogspot.pt/

    ~CC~

    ResponderEliminar
  12. Não penso que seja assim tão absurdo haver funcionários de livraria que não lêem; que eu saiba, não são referências exigidas no contrato de trabalho.

    Havendo livreiros que aconselhem...melhor. Mas quem se decide a comprar um livro, ou entra na livraria com uma ou duas certezas, ou quer decidir por si, a gosto, lendo bocados aqui e ali. Engana-se umas vezes, acerta outras, faz parte da aventura. Salvo se o livreiro fosse do meu conhecimento e confiança, detestaria que andassem atrás de mim a sugerir leituras

    Não se pode exigir a quem talvez ganhe ordenados mínimos que seja leitor de eleição. Eles arrumam e vendem, transaccionam. Se o fazem com simpatia e delicadeza, dá gosto voltar.

    Podem existir sugestões, mas para vender um livro que em simultâneo agrade e seja bom, entram também o gosto e as preferências do cliente. Já houve aqui referências a bons livros que experimentei e não me fazem o estilo; e outros que nunca foram referidos e me conquistaram. Mesmo nas leituras, é preciso preservar a diferença.
    BFS

    ResponderEliminar
  13. eu vendo livro. poderia vender sapatos. ou bolos. e como alguém mencionou anteriormente, no contrato de trabalho não se exige que se tenha de ler.
    para um bom desempenho do meu trabalho devo conhecer os produtos que vendo? claro que sim.
    contudo aquilo que não podemos esquecer, são os imensos "ses" que existem para o desempenho do mesmo.
    entre eles, menciono dois que, para mim, são os mais difíceis. como conhecer bastante, isto é, saber o nome dos livros, de tudo o que se publica e publicou?
    e posteriormente, como ler um pouco de tudo o que se publica e se publicou ao longo do tempo?
    direi que é impossível...

    e depois de tudo existe uma questão de gosto pessoal... iniciar leitores é uma responsabilidade. mas para leitores experientes cada livro deveria ser uma aventura. e nem todas elas nos satisfazem. e nem todos iremos gostar do mesmo.

    termino com uma expressão usada no meu grupo de amigos. "a p*** da subjectividade."

    ResponderEliminar
  14. É com tristeza que vos digo que a solução para o problema de que falam já foi encontrada e chama-se Kindle .
    Há anos entrei no universo Amazon e apesar de continuar a frequentar livrarias confesso com o coração pesado que compro quase tudo on-line. Com o tempo a Amazon passou a conhecer os meus gostos pelo menos tão bem como eu próprio, e por cada compra surge no Kindle uma lista de pelo menos uma dezena de outros títulos com a mensagem "se gosta de X gostará provavelmente de Y+Z" e normalmente acertam !
    Mas talvez a melhor vantagem é a possibilidade de aceder a uma "amostra" (normalmente de tamanho razoável ) para que se confirme se o conteúdo da obra satisfaz as nossas expectativas.Last but not least , há a possibilidade de tomar notas,sublinhar passagens e ler as criticas publicadas sobre o livro., e o preço de compra é sempre inferior ao das livrarias. É difícil não pensar que o futuro destas é sombrio.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório