Vaca turista

Quando eu era pequena, as férias grandes eram muito compridas. Embora o meu pai ficasse em Lisboa a trabalhar e só fosse ter connosco aos fins-de-semana, Agosto inclusive, a família ia em peso para uma casa que se alugava à época (era assim que se dizia) no Estoril (e como parecia longe nesse tempo) onde permanecia entre meados de Junho e meados de Setembro, quando chegavam as marés-vivas e deixava de se ir à praia. Levava-se tudo atrás: as roupas de cama, as toalhas de mesa e banho, as loiças e os talheres, os utensílios de cozinha, os remédios, as mercearias, as roupas, enfim, tudo metido numa camioneta de caixa aberta como se estivéssemos mesmo a mudar de casa e não fôssemos regressar nunca mais à capital. Falo deste assunto, que aparentemente pouco tem que ver com livros, porque me contaram na Argentina uma deliciosa história de que me lembrei recentemente e quero partilhar com os extraordinários leitores deste blogue. Quando Borges e Bioy-Casares, que eram amigos, iam de férias, ao que parece também transportavam positivamente tudo o que se possa imaginar. Mas, sendo o segundo muitíssimo rico, cometia o exagero típico dos aristocratas de não prescindir de absolutamente nenhum luxo. E, por isso, fazia transportar para a casa de Verão determinada vaca, cujo leite era fundamental à mesa do pequeno-almoço…

Comentários

  1. Claudia da Silva Tomazi19 de novembro de 2013 às 01:42

    Interessante semelhança este pequeno vício e prevenção (assim meu pai criara uma de suas filhas) com leite diferenciado posto que nem misturava a diferente partida de vacas, embora estivesse além de férias.

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    1. Ó Tomazi- e pastava? a vaca, obviamente.

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    2. Por me parecerem apropriadas, faço minhas e dedico-as a Cláudia estas palavras do referido Borges:
      “ (...) Sou o que, apesar de tão ilustres modos de errar, não decifrou o labirinto singular e plural, árduo e distinto, do tempo, que é de um só e é de todos. (...)” [ JLB – “Sou”]

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    3. Claudia da Silva Tomazi19 de novembro de 2013 às 03:38

      Vamos lá. O Severino tem de súbito a cuiosidade do pasto e teria também do antepasto. O Joaquim Jordão cita Borges detalhadamente fazendo a refazenda de sienda. Orã este artigo vai dar o quê ordenhar.

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  2. Então não era o Maestro António Vitorino de Almeida que na sua casa da Av. EUA, em Lisboa, tinha na varanda uma vaca leiteira para ter todos os dias leite fresquinho... (não estou a mangar, pelo menos ouvi falar de que era um facto).

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    1. Ó Severino, das duas três: ou a vaca era mini, ou a varanda era maxi!
      E devia dar um leite muito stressado, não acha?
      :-)
      Antonieta

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    2. Ó Severino

      Ao que eu sei, o maestro Vitorino de Almeida teve um burro em casa, segundo o que ele afirmou numa entrevista. Agora, se lhe tirava o leite ou não...

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    3. Extraordinário Severino
      Não leves a mal a minha correcção.
      Fui pesquisar e encontrei, num blogue, o seguinte trecho:
      "E entre todas aquelas revelações, elegi como minha preferida, a história do burro que teve na sua casa de Lisboa, durante vinte e muitos anos.
      A história da célebre viagem em que o dito animal de quatro patas, viajou sentado, no banco de trás do automóvel é, simplesmente, imperdível e hilariante.
      Se fosse hoje Maestro, estava lixado. Provavelmente, teria de pensar duas vezes antes de decidir ter um burro na varanda de casa. Não é por nada, mas quase aposto a vida que um burro deve contar muito mais pontos do que quatro gatos ou, até mesmo, que dois cães e dois gatos, eheheheh…
      Maestro, que a sua clareza de ideias e o dom da palavra e da comunicação com as audiências, se lhe conservem por muitos e bons anos."
      http://wwwprincesaportugal.blogspot.pt/2013/11/antonio-vitorino-de-almeida-brincar-com.html

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  3. não é por acaso que se diz que a realidade dos nossos dias, oferece-nos o melhor da ficção...

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    1. Sem dúvida Luís. E é nessa perspectiva que podemos dizer que o pior inimigo da ficção é a própria realidade, agora universalizada.

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  4. O mais importante é que a vaca fosse bem tratada, tanto em casa, como no local de férias :)

    E vamos aqui ligar ao assunto de há dias: tratando-se de estrelas, acha-se piada a certas excentricidades. Já em se tratando de um comum cidadão, sem um talento especial, se pode criticar o facto de levar o seu animal de estimação para férias...

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    1. Claudia da Silva Tomazi19 de novembro de 2013 às 04:54

      Está a falar a cow parada?!

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    2. Abuso das palavras de Borges, que detalhadamente citei às 11:20, para dizer que “não decifro o labirinto singular e plural, árduo e distinto” no qual, segundo Cláudia às 11:38, estou “fazendo a refazenda de sienda”.
      E não decifro porque, de Sienda, tenho apenas a seguinte escassa informação:
      « Statystyka: Liczby do nazwiska 'Sienda'. W Polsce jest 38 osób o nazwisku Sienda.
      Zamieszkują oni w 4 różnych powiatach i miastach. Najwięcej zameldowanych jest w Ełk ,a dokładnie 21. Dalsze powiaty/miasta ze szczególnie dużą liczbą osób o tym nazwisku Przasnysz (9), m. Olsztyn (5) i Szczytno z liczbą wpisów 3.
      Pochodzenie nazwiska 'Sienda' w innych państwach. Jak bardzo rozpowszechnione jest Twoje nazwisko w Niemczech? »
      Palpita-me, porém, que estamos perante um ”leite diferenciado” que tem muita matéria dissolvida, muita nata. Sinto que – nas palavras de Cláudia – esta informação tem muito o que ordenhar.
      Querida Cláudia: a sua ”cow” das 12:54 não pode ficar parada. Toca a andar para a ordenha, a ver se eu decifro como se faz ”a refazenda de sienda”!

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    3. Joaquim,

      E não será COW PARADE, aquela exposição de arte internacional que passou em várias cidades do mundo, com as vaquinhas todas muito giras e coloridas?
      :-)
      Antonieta

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    4. Ora bem. Talvez, quem sabe?
      É, apropriadamente, caso para ruminar: será que a Cow Parade passou lá pela possível cidade de Sienda?

      Como diz Borges no poema que citei, eu ”sou o que é ninguém, o que não foi a espada na guerra”.

      Só a Cláudia poderá esclarecer.

      Alô Cláudia!

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    5. Claudia da Silva Tomazi19 de novembro de 2013 às 13:20

      Deseja explicação ou quer explicação - antes porém pense direitinho Joaquim Jordão.

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    6. Querida Cláudia
      Espero que me desculpe, mas não estou em condições de pensar direitinho, como legitimamente me exige.
      É que estive até há pouco a ver na TV o decisivo jogo de futebol no qual a equipa de Portugal, vencendo a da Suécia, assegurou a presença no campeonato mundial, que vai ter lugar aí no Brasil.
      Por cada golo marcado durante a partida bebi um whisky – dois para acalmar, três para celebrar.
      Depois estive ao telefone a celebrar com diversos amigos – a pretexto dos quais brindei com mais uns tantos…
      De modo que, se me desculpa o justificado exagero, neste momento já tardio sinto-me como Jorge-Luís Borges na conclusão do poema “Sou”, que em sua honra, Cláudia, venho citando: “(Sou) um esquecimento, um eco, um nada.”
      Ainda assim, gostaria de, com calma – quando estiver em condições de pensar direitinho – saber em que consiste a sua estimulante”refazenda de sienda”.
      Ok?

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  5. A propósito de figuras carismáticas e com estas "manias"- lembram-se do Pintor da Noite (o noivo de Lisboa)?

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  6. Ora a propósito de férias e ir de férias, deixem-me contar uma história verídica do tio-avô do meu grande amigo Pastilhas!
    Era o senhor um lavrador á antiga, ou seja, era dono de terras, mas vivia na cidade de Moura, tendo a administração da mesma entregue a um feitor, homem da sua confiança e amizade de muitos anos, de cujas filhas era padrinho, como se usava. Tendo casado com uma prima por razões de herança e manutenção de terras, não tiveram filhos. Vivia como viviam os grande lavradores da época e na época, uma vida de folgança entre o clube local, as mesas de jogo etc. Também tinha casa na Costa de Caparica onde passava períodos a banhos. O seu compadre e administrador era um homem de lavoira e de campo, á antiga que o tratava por "Senhor Compadre", e um moiro de trabalho.
    Decidiu certa vez o patrão-amigo-compadre nesta tripla qualidade, obrigar o outro a ir passar duas semanas de férias à praia, na sua casa.
    O nosso homem, que jamais tivera férias, não sabia o que fazer... levantava-se ao nascer do dia como era hábito de toda a vida, vagueava pelas ruas desertas, ia ver trazer o peixe... aborrecia-se e começou a passar mal, logo ao segundo ou terceiro dia, pelo que não se conteve e foi ter com o patrão a quem desabafou a sua vontade de acabar as férias e regressar á terra e ao trabalho, argumentando:
    "Veja lá o Sôr Compadre que eu não me aguento nesta vida... todo o dia sem fazer nada! É de dar em doido... não sou capaz e ando já passando mal, perdi o sono, não tenho apetite... isto das férias ainda acabam comigo!".
    Diz-lhe o patrão: "Olha, é para que saibas o que eu venho penando uma vida inteira!".

    Saudações kaluandas!

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  7. Guten Tag Cristina!

    Aquela história do Melville é das coisas mais ternurentas que eu li nos últimos tempos.
    Obrigada por me dar a conhecer aquele blogue.
    :-)
    Antonieta

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  8. Esta crónica da MRP bem daria para início duma narrativa das antigas e das boas: saudades das férias grandes. Sempre seria melhor do que as xaropadas urbanas que agora é moda publicar por aí. Uns têm o vício de formar personagens psicológicas, como se vivessem num qualquer mundo que não o nosso, outros têm a mania do citadino das suas cabecinhas solitárias e do seu umbigo . É como as novelas da noite, descobrindo que o que dá mesmo é arranhar no desemprego, é o novo filão...

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  9. Os Salgari das Edições Romano Torres foram os livros que li no meu verão de adolescente em S. João do Estoril, nesse ano em que o homem chegou à Lua numa madrugada do fim de julho. Li-os uns atrás dos outros com o meu pai a sugerir: porque não experimentas um dos livros do Júlio Verne que são bem mais instrutivos que os do Emílio Salgari? Eu não queria livros instrutivos, queria livros com muitos travessões e enredos sempre a andar. Nessa altura, a escrita em diálogo fascinava-me; selecionava os romances pela densidade de travessões que via em cada página. E agora, um tanto estranhamente (será?), fujo dos livros cujas páginas vejo recheadas de diálogos. Envelhecimento?

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