Vaca turista
Quando eu era pequena, as férias grandes eram muito compridas. Embora o meu pai ficasse em Lisboa a trabalhar e só fosse ter connosco aos fins-de-semana, Agosto inclusive, a família ia em peso para uma casa que se alugava à época (era assim que se dizia) no Estoril (e como parecia longe nesse tempo) onde permanecia entre meados de Junho e meados de Setembro, quando chegavam as marés-vivas e deixava de se ir à praia. Levava-se tudo atrás: as roupas de cama, as toalhas de mesa e banho, as loiças e os talheres, os utensílios de cozinha, os remédios, as mercearias, as roupas, enfim, tudo metido numa camioneta de caixa aberta como se estivéssemos mesmo a mudar de casa e não fôssemos regressar nunca mais à capital. Falo deste assunto, que aparentemente pouco tem que ver com livros, porque me contaram na Argentina uma deliciosa história de que me lembrei recentemente e quero partilhar com os extraordinários leitores deste blogue. Quando Borges e Bioy-Casares, que eram amigos, iam de férias, ao que parece também transportavam positivamente tudo o que se possa imaginar. Mas, sendo o segundo muitíssimo rico, cometia o exagero típico dos aristocratas de não prescindir de absolutamente nenhum luxo. E, por isso, fazia transportar para a casa de Verão determinada vaca, cujo leite era fundamental à mesa do pequeno-almoço…
Interessante semelhança este pequeno vício e prevenção (assim meu pai criara uma de suas filhas) com leite diferenciado posto que nem misturava a diferente partida de vacas, embora estivesse além de férias.
ResponderEliminarÓ Tomazi- e pastava? a vaca, obviamente.
EliminarPor me parecerem apropriadas, faço minhas e dedico-as a Cláudia estas palavras do referido Borges:
Eliminar“ (...) Sou o que, apesar de tão ilustres modos de errar, não decifrou o labirinto singular e plural, árduo e distinto, do tempo, que é de um só e é de todos. (...)” [ JLB – “Sou”]
Vamos lá. O Severino tem de súbito a cuiosidade do pasto e teria também do antepasto. O Joaquim Jordão cita Borges detalhadamente fazendo a refazenda de sienda. Orã este artigo vai dar o quê ordenhar.
EliminarEntão não era o Maestro António Vitorino de Almeida que na sua casa da Av. EUA, em Lisboa, tinha na varanda uma vaca leiteira para ter todos os dias leite fresquinho... (não estou a mangar, pelo menos ouvi falar de que era um facto).
ResponderEliminarÓ Severino, das duas três: ou a vaca era mini, ou a varanda era maxi!
EliminarE devia dar um leite muito stressado, não acha?
:-)
Antonieta
Ó Severino
EliminarAo que eu sei, o maestro Vitorino de Almeida teve um burro em casa, segundo o que ele afirmou numa entrevista. Agora, se lhe tirava o leite ou não...
Extraordinário Severino
EliminarNão leves a mal a minha correcção.
Fui pesquisar e encontrei, num blogue, o seguinte trecho:
"E entre todas aquelas revelações, elegi como minha preferida, a história do burro que teve na sua casa de Lisboa, durante vinte e muitos anos.
A história da célebre viagem em que o dito animal de quatro patas, viajou sentado, no banco de trás do automóvel é, simplesmente, imperdível e hilariante.
Se fosse hoje Maestro, estava lixado. Provavelmente, teria de pensar duas vezes antes de decidir ter um burro na varanda de casa. Não é por nada, mas quase aposto a vida que um burro deve contar muito mais pontos do que quatro gatos ou, até mesmo, que dois cães e dois gatos, eheheheh…
Maestro, que a sua clareza de ideias e o dom da palavra e da comunicação com as audiências, se lhe conservem por muitos e bons anos."
http://wwwprincesaportugal.blogspot.pt/2013/11/antonio-vitorino-de-almeida-brincar-com.html
não é por acaso que se diz que a realidade dos nossos dias, oferece-nos o melhor da ficção...
ResponderEliminarSem dúvida Luís. E é nessa perspectiva que podemos dizer que o pior inimigo da ficção é a própria realidade, agora universalizada.
EliminarO mais importante é que a vaca fosse bem tratada, tanto em casa, como no local de férias :)
ResponderEliminarE vamos aqui ligar ao assunto de há dias: tratando-se de estrelas, acha-se piada a certas excentricidades. Já em se tratando de um comum cidadão, sem um talento especial, se pode criticar o facto de levar o seu animal de estimação para férias...
Está a falar a cow parada?!
EliminarAbuso das palavras de Borges, que detalhadamente citei às 11:20, para dizer que “não decifro o labirinto singular e plural, árduo e distinto” no qual, segundo Cláudia às 11:38, estou “fazendo a refazenda de sienda”.
EliminarE não decifro porque, de Sienda, tenho apenas a seguinte escassa informação:
« Statystyka: Liczby do nazwiska 'Sienda'. W Polsce jest 38 osób o nazwisku Sienda.
Zamieszkują oni w 4 różnych powiatach i miastach. Najwięcej zameldowanych jest w Ełk ,a dokładnie 21. Dalsze powiaty/miasta ze szczególnie dużą liczbą osób o tym nazwisku Przasnysz (9), m. Olsztyn (5) i Szczytno z liczbą wpisów 3.
Pochodzenie nazwiska 'Sienda' w innych państwach. Jak bardzo rozpowszechnione jest Twoje nazwisko w Niemczech? »
Palpita-me, porém, que estamos perante um ”leite diferenciado” que tem muita matéria dissolvida, muita nata. Sinto que – nas palavras de Cláudia – esta informação tem muito o que ordenhar.
Querida Cláudia: a sua ”cow” das 12:54 não pode ficar parada. Toca a andar para a ordenha, a ver se eu decifro como se faz ”a refazenda de sienda”!
Joaquim,
EliminarE não será COW PARADE, aquela exposição de arte internacional que passou em várias cidades do mundo, com as vaquinhas todas muito giras e coloridas?
:-)
Antonieta
Ora bem. Talvez, quem sabe?
EliminarÉ, apropriadamente, caso para ruminar: será que a Cow Parade passou lá pela possível cidade de Sienda?
Como diz Borges no poema que citei, eu ”sou o que é ninguém, o que não foi a espada na guerra”.
Só a Cláudia poderá esclarecer.
Alô Cláudia!
Deseja explicação ou quer explicação - antes porém pense direitinho Joaquim Jordão.
EliminarQuerida Cláudia
EliminarEspero que me desculpe, mas não estou em condições de pensar direitinho, como legitimamente me exige.
É que estive até há pouco a ver na TV o decisivo jogo de futebol no qual a equipa de Portugal, vencendo a da Suécia, assegurou a presença no campeonato mundial, que vai ter lugar aí no Brasil.
Por cada golo marcado durante a partida bebi um whisky – dois para acalmar, três para celebrar.
Depois estive ao telefone a celebrar com diversos amigos – a pretexto dos quais brindei com mais uns tantos…
De modo que, se me desculpa o justificado exagero, neste momento já tardio sinto-me como Jorge-Luís Borges na conclusão do poema “Sou”, que em sua honra, Cláudia, venho citando: “(Sou) um esquecimento, um eco, um nada.”
Ainda assim, gostaria de, com calma – quando estiver em condições de pensar direitinho – saber em que consiste a sua estimulante”refazenda de sienda”.
Ok?
A propósito de figuras carismáticas e com estas "manias"- lembram-se do Pintor da Noite (o noivo de Lisboa)?
ResponderEliminarOra a propósito de férias e ir de férias, deixem-me contar uma história verídica do tio-avô do meu grande amigo Pastilhas!
ResponderEliminarEra o senhor um lavrador á antiga, ou seja, era dono de terras, mas vivia na cidade de Moura, tendo a administração da mesma entregue a um feitor, homem da sua confiança e amizade de muitos anos, de cujas filhas era padrinho, como se usava. Tendo casado com uma prima por razões de herança e manutenção de terras, não tiveram filhos. Vivia como viviam os grande lavradores da época e na época, uma vida de folgança entre o clube local, as mesas de jogo etc. Também tinha casa na Costa de Caparica onde passava períodos a banhos. O seu compadre e administrador era um homem de lavoira e de campo, á antiga que o tratava por "Senhor Compadre", e um moiro de trabalho.
Decidiu certa vez o patrão-amigo-compadre nesta tripla qualidade, obrigar o outro a ir passar duas semanas de férias à praia, na sua casa.
O nosso homem, que jamais tivera férias, não sabia o que fazer... levantava-se ao nascer do dia como era hábito de toda a vida, vagueava pelas ruas desertas, ia ver trazer o peixe... aborrecia-se e começou a passar mal, logo ao segundo ou terceiro dia, pelo que não se conteve e foi ter com o patrão a quem desabafou a sua vontade de acabar as férias e regressar á terra e ao trabalho, argumentando:
"Veja lá o Sôr Compadre que eu não me aguento nesta vida... todo o dia sem fazer nada! É de dar em doido... não sou capaz e ando já passando mal, perdi o sono, não tenho apetite... isto das férias ainda acabam comigo!".
Diz-lhe o patrão: "Olha, é para que saibas o que eu venho penando uma vida inteira!".
Saudações kaluandas!
Guten Tag Cristina!
ResponderEliminarAquela história do Melville é das coisas mais ternurentas que eu li nos últimos tempos.
Obrigada por me dar a conhecer aquele blogue.
:-)
Antonieta
Ainda bem que gostou. Antonieta :)
EliminarEsta crónica da MRP bem daria para início duma narrativa das antigas e das boas: saudades das férias grandes. Sempre seria melhor do que as xaropadas urbanas que agora é moda publicar por aí. Uns têm o vício de formar personagens psicológicas, como se vivessem num qualquer mundo que não o nosso, outros têm a mania do citadino das suas cabecinhas solitárias e do seu umbigo . É como as novelas da noite, descobrindo que o que dá mesmo é arranhar no desemprego, é o novo filão...
ResponderEliminarOs Salgari das Edições Romano Torres foram os livros que li no meu verão de adolescente em S. João do Estoril, nesse ano em que o homem chegou à Lua numa madrugada do fim de julho. Li-os uns atrás dos outros com o meu pai a sugerir: porque não experimentas um dos livros do Júlio Verne que são bem mais instrutivos que os do Emílio Salgari? Eu não queria livros instrutivos, queria livros com muitos travessões e enredos sempre a andar. Nessa altura, a escrita em diálogo fascinava-me; selecionava os romances pela densidade de travessões que via em cada página. E agora, um tanto estranhamente (será?), fujo dos livros cujas páginas vejo recheadas de diálogos. Envelhecimento?
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