Ora toma!

No ano de 1997, em que Portugal foi o país convidado da Feira Internacional do Livro de Frankfurt, trabalhei no escritório que organizou a programação do acontecimento. E lembro-me muito bem de que, ao elaborar a lista dos autores que se deslocariam àquele certame para leituras e mesas-redondas, a direcção e o comissário da literatura (havia outros comissários para as artes visuais e performativas, pois estavam previstos espectáculos e exposições por toda a cidade a par das sessões literárias) decidiram – e bem – incluir autores estrangeiros lusófilos (como o pessoano Antonio Tabucchi) e lusófonos, tendo a comitiva integrado Mia Couto, Germano Almeida e João Ubaldo Ribeiro, entre outros, representantes de pleno direito da literatura em língua portuguesa. Este ano, o Brasil foi, pela segunda vez, o convidado de honra da Feira de Frankfurt, e foram muitos os escritores brasileiros presentes na Alemanha. Portugueses na comitiva não havia. Nada contra. O discurso de abertura, na voz de um autor de peso – Luiz Ruffato, cuja vida lembra um pouco a de Lula da Silva, porquanto foi também um operário de origem extremamente humilde –, foi, de resto, bastante crítico do colonizador branco, que terá dizimado as tribos de índios e estuprado as escravas vindas de África, produzindo uma população mestiça que continua até hoje na base da pirâmide social. Razão para dizer: Ora toma, que já almoçaste... O discurso sobre a desigualdade naquela que é hoje a sétima economia mundial prossegue, apontando o dedo a muita gente – e vale a pena lê-lo, até pela peça literária que é. Deixo-vos, pois, o link.




http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,leia-a-integra-do-discurso-de-luiz-ruffato-na-abertura-da-feira-do-livro-de-frankfurt,1083463,0.htm



Comentários

  1. O Rufato tem as suas razões mas o toma é mais para eles próprios do que para nós. É que o europeu que violou e mestiçou é mais avô deles do que nosso, já que a colonização do Brasil foi de ir e ficar, na sua esmagadora maioria. E depois, já são senhores dos seus destinos há tanto ano!...

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  2. penso que os brasileiros são mais espertos que nós, porque se habituaram desde cedo a viver na "selva" das grandes cidades, ao "salve-se quem puder". Rio de Janeiro e São Paulo têm praticamente o dobro dos habitantes do nosso país...

    tal como sucede na literatura, aconteceu na música. andámos anos a trazer do Brasil os seus grandes nomes da chamada música popular, sem que houvesse qualquer retorno em relação aos nossos autores...

    em relação ao discurso de Rufatto , é duro e real, em relação a um país que se debate com grandes convulsões sociais, devido à tal desigualdade...

    hoje fala-se muito do complexo do "colonizador" em relação ao "ex-colonizado" (por causa de Angola), mas penso que o contrário é muito mais nítido .

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    1. Claudia da Silva Tomazi4 de novembro de 2013 às 08:17

      Ora bem! Na linha do equador.

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  3. Obrigada à Rosário por nos mostrar este discurso; eu não o leria se aqui não viera. E perdia. Há nele uma sede de justiça que nos faz bem, talvez pelo atribulado do que ora vivemos. E a frontalidade necessária. Não me parece que atire as setas para o colonizador – eram todos muito semelhantes os espíritos colonialistas -, antes dispara contra a permanência das contradições e injustiças sociais do seu país. Afirma o espírito de genuíno brasileiro em luta contra a uniformização dissolvente, Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.. E, mais à frente, explica como a partir dessas contradições vivas nasce uma cultura do ódioAquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios --o semelhante torna-se o inimigo. E, entre outros factores, aponta o dedo à educação, O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres (…)A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada.
    Para concluir da única forma possível: acreditar que.Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura.(…) quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias.
    Ouvir ou ler gente desta – que raro os vejo – faz-me (nos) bem.
    Thank’s

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  4. É um texto de análise política e social que não me disse nada de novo sobre o Brasil. Acho-o totalmente desadequado para discurso inaugural na maior Feira do Livro do mundo: quem terá ido a esta conferência esperaria aprender alguma coisa sobre a literatura brasileira, como foi o meu caso que li o texto nessa expetativa. Não aprendi nada sobre literatura. Esta postura do escritor Ruffato é também uma marca de terceiro mundismo em que o político e social invade todas as áreas da vida de uma sociedade, abafando a cultura.

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    1. não sei se é possivel verme o link que o Pedro Almeida Vieira publicou no facebook, mas ele é a razão pela qual subscrevo o comentário de Artur Águas. E a divergir de Ruffatto com a sua diatribe de sonoridade farisaica:

      https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10200716534818738&set=a.1087970362467.2013913.1322691913&type=1&theater

      é a condição humana.

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    2. e ao qual juntei este:

      A história da humanidade

      http://drrestless.tumblr.com/post/48720224626/milo-manara-storia-dellumanita

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    3. Muito obrigado pelas referências que irei ler !
      Abraço.

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  5. ..." O discurso de abertura, na voz de um autor de peso – Luiz Ruffato, cuja vida lembra um pouco a de Lula da Silva, porquanto foi também um operário de origem extremamente humilde ..."
    Bem, há operários e operários ... o Ruffato pode ser que o tenha sido, quanto ao outro ... pode ser que o seja até hoje, oleando a máquina da trafulhice e do descaramento e fabricando a mentira e o ardil.
    Discursos podem até ser bonitos e bem escritinhos e lidos por belas vozes, mas não produzem efeito nenhum. Palavras o povo esquece e mal as sabe ler e muito menos compreender. Precisa-se de ação, de trabalho e de seriedade, coisa rara de se encontrar nos políticos e governantes que teimam em falar em nome do povo, especialmente os do Brasil que sabem que as leis são também, como os discursos, apenas palavras ...

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    1. «O Presidente Lula é um grande amigo de Portugal».

      Agora, lembrei-me de escrever um comentário ao estilo da Cláudia ;)

      (Foi o Sócrates que disse, não fui eu).

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  6. Claudia da Silva Tomazi4 de novembro de 2013 às 14:25

    Ora Toma!

    Qual a vantagem e qual a desvantagem?! A tornarem-se iguais e os valores...
    Eis que o diferencial será sempre a verdade! Mas que verdadeeestá a ser está do restelo?!
    " Tem o pensamento sã quem encara sua verdadeira identidade ".
    Ser humano enquanto humanidade a capacidade de consciência e aceitar verdade não forma o valor de juízo de quando a lei é necessária porque a inteligência é necessária um bem necessário.

    Amo o Brasil! Amo Portugal! A literatura a base o fundamento da civilidade.

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    1. Bem, amiga Cláudia: pelo que li, o Brasil é a sétima economia mais forte do mundo.
      Qual a vantagem?
      É também um país muito forte em desigualdade: está em terceiro lugar.
      É essa a vantagem?
      Talvez, pois que, “a tornarem-se iguais os valores...”, como diz, a desigualdade ganha por uma diferença de quatro pontos.

      Porém – “Eis que o diferencial será sempre a verdade!”

      Ora toma, Joaquim!
      E agora, velho do Restelo, vê lá se desembrulhas esta!

      Pois bem, vamos lá a ver… a hora vai adiantada…

      O certo, certo, é que “aceitar verdade não forma o valor de juízo”.
      Ok.
      Mas certo é, também, que a Língua Portuguesa é uma das mais faladas no mundo.
      Porém, com certeza devido às desigualdades que subsistem nos países onde é falada – incluindo Portugal – a Literatura em Língua Portuguesa não tem ainda uma cotação / dimensão correspondente.

      Quero dizer… Bem, isto já passa da meia-noite aqui onde estou a escrever… No Brasil serão talvez apenas umas oito do fim da tarde…
      Mas lá em Frankfurt – onde poderia / deveria ser valorizada / estimulada / fomentada a Literatura multinacional em Língua Portuguesa – estão todos dormir, que isto hão-de ser para aí umas duas ou três da madrugada…

      Cláudia estará a esta hora a sentar-se à mesa para o jantar e, como que numa oração de graças, repetirá: ”A literatura, a base o fundamento da civilidade”.

      Lá em Frankfurt, Ruffato estará a dar voltas na cama do hotel, tentando conciliar com o sono estas palavras brasileiras a propósito das desigualdades: ”A literatura, a base o fundamento da civilidade”… E dá mais umas voltas no sono, porque isto das desigualdades, afinal, tanto acontece no Brasil de Ubaldo e Cláudia como no Moçambique de Mia, na Angola de Agualusa, no Cabo Verde de Germano, enfim, até no Portugal de Pessoa, Camões, Gonçalo M. Tavares… – Caramba! Até no Portugal do Velho do Restelo!!!

      Pronto, Cláudia.
      Bom apetite para o jantar.

      (Agora é esperar para ver com que humor acorda Ruffato, com que disposição vai de manhã lá para a Feira do Livro em que é porta-voz das desigualdades em Língua Portuguesa...)

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  7. tudo é um pretexto para espicaçar o nosso complexo de inferioridade lusitano. Muito obrigado, mas não preciso de mais. Entrego-lhe a minha parte, tanto mais que as nossas antigas colónias só falam de colonização quando lhes convêm... é triste sentir este seu discurso como português vindo de uma pessoa que tem um papel relevante no desenvolvimente cultural do país. Enfim, nada de novo, ao menos... Acho muito bem transportarmos a cultura lusofona quando nos convidam, mas não assento no discurso que os brasileiros não precisam de o fazer porque é um país maior, e... palermices caracterizadas por complexos de inferiodade

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