Novas modas

Conheço um centro de exames clínicos no qual, enquanto esperamos, nos sentam em cadeiras mais ou menos confortáveis diante de um televisor pendurado na parede, sem som, que passa ininterruptamente imagens de modelos cruzando a passerelle (a Fashion TV, se não erro). No fim da apresentação das colecções, o estilista vem juntar-se às suas meninas para os aplausos e, regra geral, veste de preto da cabeça aos pés e o mais discretamente possível (Armani, por exemplo), parecendo que, afinal – e apesar do que acabámos de ver –, não liga à moda, nem sequer à que ele próprio concebe. Um dia destes, numa reunião, depois de o director comercial me ter dito que dois dos nossos vendedores tinham gostado muito de um livro que publiquei em Maio, tentei convencê-lo de que, se os outros o lessem, o mais certo era gostarem também e, assim entusiasmados, lutarem seguramente mais e melhor por esse livro junto dos clientes. Explicou-me que, fora aqueles dois, mais nenhum lhe tinha alguma vez falado de um livro... E, como eu me mostrasse um pouco surpreendida, confessou-me que não percebia o espanto, pois escândalo era haver editores que não liam. Bem, custou-me reconhecer, mas é verdade: não é preciso gostar de ler para publicar a história da universitária que se tornou garota de programa, da actriz que ia fazendo explodir o prédio por ter ligado os quatro bicos de gás do fogão sabe-se lá para quê (não li o livro), ou até da adolescente que traficou droga e perdeu a mãe enquanto estava na prisão. Como os estilistas todos vestidos de preto, haverá editores para quem as páginas serão sempre brancas. Uma nova moda, enfim.

Comentários

  1. Dois vendedores de editoras são meus amigos mas de livros, de os ler, nenhum lê, mas nada de nada...estes ao menos estão preparados para vender tudo (batatas, cebolas, feijão encarnado, grão de bico, água-raz e até livros...); por isso é que Mourinhos, Ronaldos há poucos...(em todas as profissões)!!!!

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  2. Claudia da Silva Tomazi14 de novembro de 2013 às 02:05

    Língua portuguesa oferece justaposicao e aglutinação.

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    1. Quem te disse que oferece apenas justaposição e aglutinação?

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    2. Aqui vai a correção "justaposicão" e deveria vos pedir desculpa afinal de contas este o conceito do Blog abordar, discutir e afinar idéias, soluções e opiniões moderando o bom senso a diversidade em assuntos justamente estes a novas modas.

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    3. Ora depois desta Justa Posição eu não diria melhor...não acham?

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    4. Claudia da Silva Tomazi14 de novembro de 2013 às 04:45

      Diria a minha capacidade interfere o vosso gosto a moda e vos a saia justa.

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    5. a Cláudia usa tradutor automático?!... parecem coisas escritas por um autómato disléxico!

      PLFF

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    6. Caro(a) PLFF(a)
      Antes de mais, congratulemo-nos pelo regresso de Cláudia à plena actividade – e à sua reconciliação com Severino!
      Repare que, pela primeira vez hoje, tivemos um empate: 4 intervenções cordiais de Cláudia vs 4 respostas cordiais de Severino.
      As coisas estão, portanto, no bom caminho – o da reconciliação.
      Quanto à questão que coloca: se analisar com paciência e atenção verificará que nós é que temos a obrigação de activar e estimular o nosso tradutor para interpretar estas intervenções da ressuscitada Cláudia (e, por conseguinte as do reconciliado Severino).
      Vejamos:
      Pela manhã, Maria do Rosário falou em “editores e vendedores que não lêem”, que compara aos paradigmáticos “estilistas vestidos de preto”.
      Estes tópicos levaram Severino a referir os também paradigmáticos “vendedores que estão preparados para vender tudo (batatas, cebolas, feijão encarnado, grão de bico, água-raz e até livros...)”
      Cláudia, porém, viu nisto uma consequência do facto (relevante) de a Língua portuguesa oferecer – e ainda bem! – as capacidades de “justaposição e aglutinação”.
      Severino, muito perspicazmente, questionou: “apenas justaposição e aglutinação?”
      E vai ela e responde: “Claro que não. Afinal de contas o conceito deste Blog é abordar, discutir e afinar ideias, soluções e opiniões (…) a diversidade em assuntos (…) como estes: as novas modas”.
      (… as modas a que Maria do Rosário se havia referido…)
      Quer dizer: segundo Cláudia, “abordar, discutir e afinar ideias, soluções e opiniões, a diversidade em assuntos” é algo mais do que “apenas justaposição e aglutinação“.
      Perante isto, Severino, rendido, volta ao palco para considerar esta posição de Cláudia a “Justa Posição” – acrescentando que “não diria melhor” e, já que é assim, referir os estilistas que considera “bem vestidos”.
      Ora bem: colocadas as questões neste pé, Cláudia activou o seu tradutor automático e adivinhou que o gosto de Severino pela moda é, afinal, “a saia justa”.
      (Faço aqui um parêntesis para confidenciar que, lá nisso, concordo com Severino: uma boa saia justa é, inegavelmente, uma conquista da nossa civilização…)
      Eis senão quando, chega Linda David com este reforço da questão da moda: “O mundo editorial eu não conheço, nem me interessa, mas quem vestiria Zara se pudesse escolher Armani?”
      E vai a Cláudia e reforça ainda mais: «o mundo da moda é, assim, "abrangente"».
      Claro que, com este “abrangente” entre aspas, Cláudia abrange o mundo editorial que Linda, embora ressalvando que não lhe interessa, “abrangeu”.
      E, de facto – atento o post inicial de Maria do Rosário – lá que é abrangente, parece que talvez seja…
      Talvez seja. Quer dizer: no mundo editorial talvez aconteçam “modas” – se calhar até, pelo que vou vendo, aparecem umas “saias curtas”…

      Mas isto, caro(a) PLFF(a), era só para lhe dizer que, neste saudável turbilhão de pontos de vista dos vários extraordinários intervenientes, não é apenas nas intervenções de Cláudia que se coloca a dificuldade da decifração.
      O que é necessário é que cada um de nós, ao ler tudo à molhada, cuide que o respectivo autómato de interpretação permaneça léxico, não disléxico.

      E agora vamos lá dormir, que o meu autómato já está a ficar disléxico.
      Cumprimentos.

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  3. Pior ainda será haver escritores que não lêem...
    No romance A Tia Júlia e o Escrevedor, de M. V. Llosa, há um. E suspeito que entre nós, na vida real, também não faltarão...

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    1. não acredito nisso, Catarino.

      uma das grandes ferramentas (se não a maior...) de trabalho de quem escreve é a leitura.

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    2. Não acredito.

      Salvo se considere escritores todos os que sabem escrever e escrevem - listas de compras, conversas de telemóvel, de blogues, no facebook, de chats de conversa...ou todos os que nos contam a sua história de vida - o que não penso seja um mal, mal é ser essa a única leitura.
      Mas pode não ser um leitor compulsivo, até porque o seu tempo é, na maioria, dedicado à escrita.

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    3. No romance que refiro, o escritor (autor de novelas radiofónicas) não lê para, diz ele, não ser influenciado.
      Quanto a alguns dos nossos, partilho a fé de Hamlet:
      "There are more things in heaven and earth, Horatio, Than are dreamt of in your philosophy."

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    4. Tem razão, o conceito de escritor é determinante. Usei o termo para designar aqueles que escrevem e publicam, principalmente na área da ficção.

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  4. a questão essencial é que eles são sobretudo vendedores.

    vendem tudo (alguns se calhar até a mãe...).

    talvez leiam a contracapa, pelo menos. :)

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  5. Pois pode acreditar Luís Eme: pois já vários colegas me confessaram não "terem tempo" para ler. Só escrevem...

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    1. Essa do não ter tempo é conversa de mau pagador!

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    2. e não serão mentirosos, Sandra? :)

      falando mais a sério, penso que a nossa opinião tem muito que ver com a nossa experiência pessoal.

      eu só comecei a escrever de uma forma mais literária (com mais cuidado na linguagem, com vontade de contar histórias...), quando comecei a ler muito (obrigado querido comboio...).

      também devo ter tido sorte com os autores escolhidos (nessas viagens li tudo o que havia na biblioteca da escola de Camilo, Aquilino, Hemingway e Steinbeck).

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    3. Luís: eu também me esforço por ler o mais possível. Mas é um facto. E como penso que ninguém tem interesse em gabar-se de algo tão negativo, sou tentada a pensar ser verdade o que me dizem.

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  6. Realmente só conheço dois estilistas bem vestidos -GEORGE ARMANI e VALENTINO (para o meu gosto, claro).

    As estilistas parecem-me todas Joanas de Vasconcelos...

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    1. Injustiça, Severino! Aconselho Stella Nina McCartney, ou porque não?, a nossa Fátima Lopes.

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    2. Gosto imenso da forma como a Joana veste. Acho o máximo. Aquela exuberância toda rima com ela inteira.

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  7. Sobre literatura, este é já o único blog que acompanho. Parabéns, Maria do Rosário Pedreira, pelos educativos e bonitos posts que escreve, e que aprecio cada vez mais.

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  8. Sempre vi a literatura como uma máquina de sonhos.
    E se viver é bom, sonhar é melhor, porque acrescenta vida à vida.
    Com o advento da televisão, os sonhos passaram a ser cada vez mais curtos. O mundo digital, os videojogos, onde sonhamos a comprimento, altura, e a que falta o terceiro plano da nossa infância, deram-lhe até outra duração ainda mais instantânea.
    Assim, os sonhos encurtaram.
    E à livralhada que se dividia em informativa ou literária, acrescentou-se uma nova grandeza: o meio-sonho … ou sono… que é uma espécie de descritivo de vida, nem meio adormecida nem meio desperta. Assim, uma espécie que alguns identificam como pesadelo, outros, apenas um estado de semi-adormecimento ou semi-vígilia , que nalguns casos nos pode transformar em garotas de programa, noutras em sonâmbulas perigosas, noutros, ainda, em inocuidades que anulam como as bases a acidez do caminho.

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    1. não compreendi o último parágrafo. Pode explicitar?

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    2. Posso sim, Beatriz! A vida é feita de momentos: de reflexão, de entrega e de adormecimento. De coisas majestáticas e outras mais pequenas. E se umas nos elevam ao firmamento, outras, cara Beatriz, apenas relevam as nossas tristezas. E é talvez por isso que há muitas capas, até aquelas inócuas que servem apenas para resgatar e afogar as nossas tristezas: coisas... cor-de-rosa!

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  9. E depois há casos inversos...

    Neste momento ando a ler "Natureza Morta" de Paulo José Miranda.

    "Guerra & Marginalidade - O comportamento das Tropas Portuguesas em França" de Luís Alves de Fraga,

    e "Das trincheiras com saudade - A vida quotidiana dos militares portugueses na primeira guerra mundial".

    E, claro, só nos momentos de ócio, porque o "trabalho" (sou um profissional HIPER-Liberal) pouco mais me permite.

    Espero que compreendam a minha dor por não conseguir ver o programa da "Casa dos Segredos". Enfim, eu sei que deveria fazer um esforço extra, mas há pouco tempo para mais.


    Nota: Agora a sério, meti-me numa alhada de trabalhos e, entre tantas leituras, nem sei para onde me virar.

    RRRRRrrrr... Sinto-me como o marido infiel que nem sabe para onde se virar.

    Abraços!

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  10. Desconheço tudo do mundo dos livros excepto lê-los. Porém, e ainda que pondo foice em seara alheia, editores que não lêem não me passaria pela cabeça. Ainda que todos compreendamos que não podem ler tudo – as tais histórias de entreter porque são verídicas e os personagens existemin the flesh, parece-me que compreendo a sua não leitura pelo editor, mas acredito que ainda assim as dê a ler a alguém. Não concebo edições seja do que for sem revisão e leitura atentas.

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  11. Como sabe não sou editora,sou uma leitora atenta,tanto quanto me é possível,nos dias de hoje,mas já me tinha colocado uma questão semelhante,quiçá ingénua - os editores não leem,não gostam dos livros que editam? Pois,pelos vistos, não. Que de outro modo se explicará tantos escarates com explosões em apartementos e mulheres (e homens) seduzidos,convertidos em prosa duvidosa? O mundo editorial eu não conheço,nem me interessa,mas quem vestiria Zara se pudesse escolher Armani?
    Um abraço,Maria do Rosário.

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    1. Claudia da Silva Tomazi14 de novembro de 2013 às 08:31

      Querida linda o mundo da moda é assim "abrangente".

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  12. Eu queria dizer escaparate,claro,fica feita a correção.

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  13. Não percebo como é que um vendedor de livros, um produto tão específico, pode não ler. A única explicação possível é a política de recursos humanos de algumas editoras ser péssima, o que ajuda a perceber muitos dos maus resultados. Um bom vendedor tem de conhecer o produto, essa é uma regra fundamental, e conhecer um livro não é ler a contracapa, é muito mais que isso. Editores e escritores que não lêem, isso então é uma aberração.

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    1. Eu concordo consigo, mas como conhecer bem 60 produtos diferentes por mês? Sem querer ser mais papista do que o papa, dirijo-o para outra entrada deste blogue, há uns dias, chamada Vender.

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    2. Sim, eu vi esse post e também comentei, falando da necessidade de algumas livrarias definirem estratégias a nível de catálogo.

      É claro que ninguém espera que todos leiam tudo, mas se cada um ler qualquer coisa, no global quase todos os livros vão acabar por ter um vendedor a lutar por eles. De qualquer forma a Maria do Rosário falou-nos de um caso extremo que é o de alguém vender livros e nem sequer ter interesse por ler, o que me parece aberrante. Quem não gosta de ler não costuma perceber porque é que alguém gasta dinheiro com livros, o que cria logo inúmeras barreiras a uma boa argumentação. Ler é fundamental para um vendedor de livros, nem que seja ler livros que não sejam aqueles que se vende.

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    3. Mas ó Maria do Rosário não é preciso ler 60 livros/mês, bastou-me, por exemplo, ler um do 575 (o ORELHAS) para não ler mais nenhum e conhecê-los todos (os que escreveu e os que venha a escrever), e a mesma coisa para DAN BROWN/NORA ROBERTS/SVEVA.../MARGARIDA REB P/ etc etc, quando vou a uma livraria considero-me um conhecedor q.b para até aconselhar leitores (passe a imodéstia), embora seja um "menino" à beira de certos leitores! Não sei se me fiz entnder?

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  14. Sim, eu vi esse post e também comentei, falando da necessidade de algumas livrarias definirem estratégias a nível de catálogo.

    É claro que ninguém espera que todos leiam tudo, mas se cada um ler qualquer coisa, no global quase todos os livros vão acabar por ter um vendedor a lutar por eles. De qualquer forma a Maria do Rosário falou-nos de um caso extremo que é o de alguém vender livros e nem sequer ter interesse por ler, o que me parece aberrante. Quem não gosta de ler não costuma perceber porque é que alguém gasta dinheiro com livros, o que cria logo inúmeras barreiras a uma boa argumentação. Ler é fundamental para um vendedor de livros, nem que seja ler livros que não sejam aqueles que se vende.

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  15. Mas onde pára o meu amigo Pacheco?

    Ó Pachecooooooooooooooooo

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