Individual e colectivo
A sociedade moderna, excessivamente tecnológica, torna-nos bichos solitários (no masculino, claro). No Facebook, apanhei há tempos uma fotografia divertida de um bar, na parede do qual o proprietário afixara um pedido para que os clientes largassem os telemóveis e falassem, por favor, uns com os outros. É verdade que muita gente vive completamente escrava destes e de outros aparelhos, talvez para não se sentir muito sozinha, mas ainda assim sozinha porque ignorando por causa disso os que ali estão e podiam fazer-lhe companhia melhor do que as SMS que chegam, irritantemente, a todo o momento e exigem resposta. Com muitos cafés transformados em agências bancárias, desapareceram também as conversas e tertúlias que, nos anos 1960 e 1970, segundo me conta o Manel, juntavam à roda de uma mesa (em Lisboa e no Porto, pelo menos) muita gente que queria falar e discutir assuntos, conhecer escritores e mostrar poemas, levantar a voz contra o poder instituído e planear acções culturais e políticas. Hoje, os cafés têm poucas mesas e, ao que parece, os jovens intelectuais perderam o gosto de se encontrar e trocar impressões, a menos que seja por e-mail. Talvez os blogues tenham substituído esses encontros ao vivo, mas, num período tão mau como o que vivemos, não era descabido que se realizassem de novo tertúlias, até porque delas poderiam sair ideias boas e criativas que nos alegrassem os dias.
sim, tudo é diferente.
ResponderEliminaro tempo então, os minutos tornaram-se mais rápidos...
claro que quando as pessoas gostam de conversar, não o fazem por sms ou e-mail.
faço parte de uma "tertúlia" num café de Almada há praticamente vinte anos. encontramo-nos todos os sábados de manhã e falamos de livros e de outras coisas, quase sempre sobre a história de Almada e dos almadenses. também trocamos coisas (recortes, panfletos, livros), porque além de sermos, amigos, gostamos de partilhar e de saber coisas, daquelas que não vêm no "C. Manhã" e nas revistas "cor de rosa". :)
talvez sejamos uns sujeitos antigos.
mas se há coisa que me deixa reconfortado, é uma boa conversa.
Barco, Carrero e caçador: têm partilha.
ResponderEliminarE as mulas e os burros também...
EliminarMeu bisavô "Marco Rico" estimava mula e confiança.
EliminarE a minha Avó estimulava burro e desconfiança.
EliminarAntigamente - nos tempos escuros de Portugal - andavam com os olhos postos no chão. Depois - nos tempos menos escuros de Portugal - puseram os olhos na TV. Hoje - em tempos claros de Portugal - só a claridade das "telinhas" interessa e é nessas que deixam o olhar. O silêncio mantém-se. É o mesmo. E parece que é assim em todo o Mundo. Uma coisa é certa: nunca os dedos trabalharam tanto - nem nas fábricas - arrastando telas para cima, para baixo e para os lados. O gesto é sempre o mesmo ...
ResponderEliminar(Gosto tanto do meu "radinho" de pilhas ...).
Diria mesmo mais, sendo absolutamente a favor da net e dos sms, não é possível - nem sequer pelo Skype que muito aprecio e agradeço aos deuses que se calha são apenas homens - reter o olhar do outro, sentir-lhe as mudanças imperceptíveis, a girar com as palavras e os silêncios. Interditos os pequenos gestos de atenção, estender-lhe a mão, retirar um cabelo preso na gola, chegar-lhe o açúcar ou a chávena. Não é possível saber de quem entra e de quem sai, de quem está e não faz parte do circulo próximo mas ainda assim é parte. Das pequenas nuances de mudança a existirem em cada encontro. Mesmo que não nasçam ideias grandiosas, que não haja incandescência de luzes intelectuais, haver um laço físico, mesmo que ténue, pertence.
ResponderEliminarEstamos desistindo dos encontros para nos vermos em fotos e nos escrevermos mensagens. Apressadas ou não. Como se fôssemos esses. Que não somos.
Aplaudo! Aplaudo!
ResponderEliminarE confesso sentir muitas vezes essa imperiosa necessidade de falar com outros autores sobre os seus livros, a sua forma de empregar a estilística , as histórias que lhes interessam, a maior ou menor aproximação à realidade, e a sua perspectiva sobre aquilo que eu própria escrevo.
Nada somos senão no confronto com os outros.
Pelo menos com aqueles que admiramos.
Boa semana! :-)
Confortável conflito vossa sopa de letrinhas.
EliminarInteressante idéia esta!
ResponderEliminarOs actuais meios permitem-nos uma comunicação ímpar e alargada, eu sou disso a prova!
Mas sim, acho que pela facilidade e comodismo de o fazer desde casa, mataram o "espírito da reunião", no café, ou onde fosse.
Porém, penso que é temporário e acabará por voltar essa necessidade, sabemos o que são as modas... é uma questão de voltar a ser moda, pois nada substitui uma boa conversa!
Saudações kaluandas!!!!
A amizade é de modas? O cuidado com os outros? O gostar de vê-los a sentir-lhe a pulsação da vida? Ora bem.
EliminarNão acredito.
Hum... um de nós não leu o que o outro escreveu... e não fui eu!
EliminarConfesso que não entendo a sua réplica.
Saudações kaluandas de possível amizade!
Porém, penso que é temporário e acabará por voltar essa necessidade, sabemos o que são as modas... é uma questão de voltar a ser moda, pois nada substitui uma boa conversa!
EliminarPensei que teria dito que voltará a ser moda reunirmo-nos no café, estar com. Entendi que até que a moda volte, esse interesse in loco poderia estar ameaçado; e com isso as amizades que assim nascem
Sorry:), parece que afinal e para bem,não. Má leitura minha. Coisa que esclarecíamos a um olhar bastante.
Hum... o que passou de moda no meu entender foram as tertúlias, de café... onde se conversava.
EliminarE percebeu bem então. Talvez me tenha eu expressado mal...
Ora isso não tem a ver com amizades e sim com uma outra coisa que hoje impera: A redundância de opiniões e sobretudo a intolerância.
Está na moda ter opiniões absolutas!
As pessoas só falam ou frequentam os blogues (ou bloques...) onde toda a gente pensa igual, como num clube fechado!
Tente ir a um blogue, ou página, ou grupo, na net e discordar ou assumir que pensa diferente e verá... é imediatamente arrasada, ofendida e vexada!
Nas tertúlias que conheci e frequentei, nos anos 70 e 80, quando estudante, havia pelo contrário diferenças, fossem de clube, regionais, de partido ou origem, até de gostos... porque ali se debatia, e se fortaleciam idéias pela confrontação, como se aprendia a argumentar, mas sobretudo a ouvir.
Isso não era por amizade e sim porque havia a necessidade de trocar idéias e saber uns sobre os outros. Coisa que hoje já não vejo, apenas há grupinhos em que um fala e os outros aplaudem ou dizem "direi mesmo mais"... e cultiva-se a mais hipócrita intolerância.
Recusa-se mesmo o analisar ou tentar perceber o pensamento e as razões dos outros, é diferente, logo recuso!
Isto cria mais gente estúpida do que inteligente...
Cumprimentos.
Não existem opiniões absolutas, é por isso que são opiniões, dentro da subjetividade a que pertencem, podem valer para alguns e apenas para um. A intolerância não é possuí-las, julgo, mas admitir que as "verdades" opinativas possam apresentar-se como um todo infalível. São parte de uma proposta de solução que pode nem chegar a existir. E que o facto de eu argumentar uma verdade que me serve a mim não a faz melhor do que outras, mas pode ajudar-me e aos outros a esclarecer o que cada um pensa ser um ponto e será afinal um conjunto deles dentro da mesma coisa.
EliminarAs amizades intelectuais existem, existiram e vão continuar. Conversas críticas e continuadas entre os mesmos interlocutores também criam laços. E melhor se aprende quando e se existam:)
Não frequentei tertúlias senão as das aulas.
Conversas destrutivas de blogue, desligam-me, a vida já tem muita luta. Verifico que tal não sucede aqui e nem em alguns poucos que frequento. Aprendo deles. Mas, será um número reduzido para pronúncia segura.
PS: também escrevo "direi mesmo mais". Algumas vezes. Porque também isso na opinião existe: às vezes, coincidimos:) Não entendo como bajulação, coisa muito contrária ao que julgo ser. Mas por vezes enganamo-nos connosco. Quem sabe dou graxa sem saber:)
E olhe não sei mais:)
Muito interessante ... deixe-me digerir...
EliminarCertamente já repararam que o pessoal mais novo, sobretudo até aos 20 anos, caminha de olhos no telemóvel, come de olhos no telemóvel, descansa de olhos no telemóvel, viaja de olhos no telemóvele dorme como telemóvel.
ResponderEliminarÉ triste!
Já não é o telemóvel o fetiche que está sempre presente nas mãos dos jovens, caro Severino. É sim um "smartphone" !
EliminarTemos que nos atualizar !
Ah! A grande escola das tertúlias.
ResponderEliminarEm cada cabecinha há tanto saber desaproveitado e escondido.
Toca a transmitir, caros senhores e senhoras! Deixem-se de egoísmos e solipsismos.
Abraço a todos.
Temo que algum dos Extraordinários Comentadores, que gostosamente trocam impressões neste blogue, estejam incluídos na lista daqueles que, de viva voz e na presença de interlocutores, evitem a palavra e, consequentemente, o diálogo.
ResponderEliminarFalar ao telemóvel é uma comunicação directa, de voz, onde extravasam sentimentos de riso, choro, alegria ou tristeza, o que não acontece na troca epistolar e, mais comum, hoje em dia, através do e-mail ou da caixinha dos comentários.
Há exemplos desse óbice, por vezes, quando em algum comentário se solicita uma explicação, se faz uma pergunta, se incita à resposta e o visado, pura e simplesmente, deixa "de passar cartão" ao solicitante. Ainda por cima é uma frustração que fica registada!...
Não é esta a forma subliminar de diálogo, não é; nem sequer sublime. Pode haver empatia (que há), conhecimentos internáuticos (que existem), possivelmente até serão criadas oportunidades de amizade, contactos directos e satisfação de desejos ou troca de conhecimentos. Mas não é a forma mais directa de comunicação.
Pensem nisto.
Carpe diem
Donde nascera: o que cala concente?! Houve decerto algum solicito colaborador a intenção .
EliminarCara Cláudia
EliminarO que cala consente, se a intenção é consentir o que se leu ou ouviu e não gostou, sem retrucar ou replicar.
Na maioria dos casos, uma simples questão, uma mera pergunta ou o esclarecimento de uma dúvida, merecem resposta - seja qual for o meio em que se formule.
Um blogue é, como se diz, um fórum; poderá ser, com algum sentido menos lato, uma tertúlia. No entanto, cada um participa solitariamente, "escondido" atrás de um monitor com o rosto iluminado pela luz branca, como um conspirador.
À falte de rosto - pelo menos aqueles que, como eu, não têm identificação bloiguística ou perfil inerente com fotografia - imaginamos todos os Extraordinários "anónimos". É um exercício interessante, formulando na nosa imaginação o retrato de A, B ou C, pela forma como escrevem, pelo que lêem, através das ideias e ideais expressos.
Valha-nos a profusão de fotografias da Rosário, a anfitriã. Se aí não há exercício de imaginação, ficamo-nos agradecidos pela sua bela imagem, como mulher bonita que é.
Tal como disse a Rosário, o Manel teve - como eu tive - a possibilidade de ter cafés ou restaurantes onde se realizaram tertúlias. Por incrível que pareça, ainda há disso...
Todos os dias me cruzo na rua com um mesmo fulano que sempre caminha meio curvado falando ao telemóvel... e o problema já não é só nas tertúlias, é nas reuniões familiares onde a conversa é interrompida a eito por toques, alarmes, pipis e retoques: é a jovem que se levanta, vai ler a mensagem e se ri, é a menos jovem que quer saber se o netinho lá longe está bem e não vomitou, é outro que combina novo negócio inadiável, novo encontro muito importante. Desconversas em rede. Lá em casa, razoavelmente movimentada, há na sala um local a que chamo o Altar dos Telemóveis. Um inferno, realmente, mas que se poderá fazer? Temos de aguentar e, às vezes, também pecamos. Um dia, será ainda pior.
ResponderEliminarFinalmente, a família tem meios palpáveis para escapar ao diálogo/à conversa. Antigamente, era mais difícil ;)
EliminarNão sei se será apenas de aguentar. Parece-me que os jovens, como os mais velhos, devem educar-se a si mesmos e abrir hiatos no tempo de atenção ao telemóvel. Conheço pessoas muito ocupadas que desligam o telemóvel quando querem estar com os outros. Que notícias existem que não podem esperar um bocado? se for boa, espera. Se for má, também.
EliminarE muita conversa de telemóvel nem é importante. Tanta vez o telemóvel é o hábito da desatenção ao que nos rodeia. Uma desculpa de alheamento.
Além do regresso do prazer tertuliano, seria tão bom que regressassem também as aulas livres de telemóveis e tablets e toda a quinquilharia parafernálica com que a juventude se liga à comunicação digital...
ResponderEliminarOh, o que adoraria participar em tertúlias. Com 32 anos e leitora ávida desde os meus 8/9 anos, sou bicho raro no meu círculo de amigos e conhecidos, porque muito raramente tenho com quem falar do que leio (e sou bastante eclética); salvo quando sai um novo do Dan Brown, mas aí sou eu que fico fora das conversas, que o Código Da Vinci bastou-me e chegou-me desse autor.
ResponderEliminarQuanto a outras conversas "elevadas", as pessoas quase não buscam a informação nem a analisam, aceitando-a já decantada pelos media, por isso um diálogo a analisar uma ou outra situação é oásis. Valha-me a minha cara-metade, bem culto acima da média, que me dá algum alento e fé na nossa geração completamente rendida à tecnologia mas que, REGRA GERAL, não manda uma p'ra caixa quando tem de botar faladura. ;)
http://a-minha-estante.blogspot.pt/
As tertúlias por videoconferência.
ResponderEliminarHá uns tempos convidei uma vizinha/amiga (a ordem da relação foi esta) para jantar em minha casa, e disse para aparecer às 20h.
Resposta: pode ser mais tarde? A essa hora tenho uma videoconferência com as minhas colegas de trabalho do Instituto.
E assim foi, marquei o jantar para as 21h.
Andei a pensar nisto dias a fio, e hoje, com este post, vou ficar outra vez a pensar no que todos nos iremos transformar, mesmo os saudosistas das conversas e encontros nos cafés, não vão conseguir mais resistir: um dia vão fazer a «tertúlia» por videoconferência!
Pois é, podemos fazer. Porém, como diz a publicidade, não é a mesma coisa.
EliminarAinda que eu tenha saudade de algo que nunca vivi e sempre invejei. As tais conversas de café.
É pena a perda de certos hábitos, sim. Dou razão à Maria do Rosário e a muitos comentadores. Mas, quando eu vim para a Alemanha, em 1992, os meus contactos com Portugal eram o telefonema da minha mãe, uma vez por semana (que as ligações telefónicas ainda eram bem caras) e o jornal "O Independente", que recebia uma vez por semana também. Agora, "falo" com Portugal todos os dias, várias vezes ao dia, até com pessoas que não conheço pessoalmente. E leio as notícias que quiser, quando quiser. Quase de graça ;)
ResponderEliminardepois de vários exemplos sobre o "afastamento", chega um dos bons de "aproximação".
Eliminaré quase irónico.
quem está fora do país ficou mais próximo.
quem está cá dentro ficou mais afastado.
Sim. Mas o problema mantém-se. Não há muito tempo ouvi que quem vive no estrangeiro convive menos com os naturais e a cultura do país para onde se deslocou, por se manter muito ligado, quiçá em rede, a quem já conhece, aos amigos de Portugal, à família e etc. Ou seja, a distância geográfica é como que elidida e podemos manter-nos sempre dentro do mesmo circulo de pessoas. Também aqui não sei se será muito saudável.
EliminarOra bem, eu acho que sempre houve dificuldades de comunicação entre as pessoas, fosse em família, entre amigos, conhecidos, etc. Falar não significa comunicar, às vezes, bem pelo contrário. O facto de os pais falarem mais com os filhos, antigamente, não quer dizer que comunicassem mais (normalmente, essas conversasseguiam mais o modelo da pregação, em que um fala e o outro abaixa as orelhas). E também sempre foram raros os casos de pessoas que, vivendo no estrangeiro, covivessem muito com os naturais. Conheço um senhor que vive há quarenta anos na Alemanha e mal sabe falar alemão. A mulher já fala melhor, porque, enfim, sempre vai às compras...
EliminarOs dispositivos eletrónicos talvez viessem piorar a situação. Mas, na maior parte dos casos, penso que só veio agravar algo que já existia. Quem quer mesmo comunicar, desliga o telemóvel, ou o computador, como também já foi aqui dito.
Para o caso dos jovens, continuo a chamar a atenção que os pais são o melhor exemplo. Se já há tradição de falta de comunicação, na família, é natural que sejam esses jovens os "maníacos dos smartphones".
Há um ditado que diz que o dinheiro estraga o caráter e há quem contraponha que o dinheiro mostra o verdadeiro caráter. Penso que é um princípio que se pode aplicar também neste caso.
Fui e sou um dos clientes fiéis dos cafés. Foi neles que comecei a estudar a sério, é neles que ainda hoje escrevo. Em casa tenho demasiadas distrações - é a desculpa que dou àqueles que manifestam estranheza por este meu hábito.
ResponderEliminarAntigamente, pelo menos na província, os cafés eram frequentados sobretudo por estudantes e militares, embora em estabelecimentos diferentes. Creio que por ambos estarmos desenraizados, longe da família e da terra, tínhamos necessidade de sair dos nossos quartos e estar com os outros. As discussões filosóficas, literárias, políticas surgiam naturalmente.
Ainda hoje, de tempos a tempos, tenho o prazer de reviver, normalmente em almoços ou jantares, esse ambiente culturalmente fascinante. Em breve, ponho no meu blogue um texto escrito há tempos sobre um desses eventos. Para que não fique no ar a ideia de que já não há coisa dessas -- embirro com a palavra tertúlia.
Distracção, que eu não aderi ao Acordo Ortográfico. E coisas dessas, outra distracção. Ou será já sono.
EliminarNão sei se é deste que fala...
ResponderEliminarhttp://ruadaindia.blogspot.pt/2013/11/os-meus-lugares-i.html
A verdade é que está sempre cheio e passamos por lá bem sem Internet.
~CC~