Coragem

Quando, ao editar o texto de um romance, sobretudo de um autor que ainda não conheço bem, sugiro alguns cortes, a resistência é normalmente muito grande. Entendo perfeitamente. O investimento em tempo, emoção e trabalho que às vezes se faz num mero parágrafo pode ser tão significativo que é perfeitamente natural que quem o escreveu não queira prescindir dele, mesmo que frequentemente reconheça que não atrasa nem adianta, nem para a economia da história nem em termos puramente estéticos. Conheço, porém, um caso notável de autocrítica e auto-editing (além, claro, de João Ricardo Pedro, o vencedor do Prémio LeYa em 2012, que aproveitou 200 páginas, se tanto, de 800). Um romancista que publico há muitos anos, Miguel Real, que é paralelamente autor de um razoável número de ensaios sobre cultura portuguesa, desempenha também as funções de crítico literário no Jornal de Letras há uma série de anos. Recentemente, foi-lhe entregue para recensear o último livro de Gonçalo M. Tavares, Atlas do Corpo e da Imaginação (ainda não li). E, após a leitura, confessou que deitara fora na manhã em que redigia a crítica meia centena de páginas que tinha escrito para um pequeno volume que planeava intitular Nova Teoria do Corpo por achar que eram completamente redundantes depois do que Tavares acabava de publicar. Um acto de respeito, mas sobretudo de grande coragem, diria eu. E uma lição, enfim, para quem se recusa até a deitar fora uma simples vírgula.

Comentários

  1. Claudia da Silva Tomazi26 de novembro de 2013 às 01:56

    Entre letras e inteligência questiona-se actos.

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  2. Coragem e seriedade são bichos em vias de extinção. Assumirmos que o outro é melhor que nós...? O quê...? Há aqui engano, eu é que sou o presidente da junta... as mais das vezes, da junta de bois.

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    1. Claudia da Silva Tomazi26 de novembro de 2013 às 03:51

      Diz-se :bois ou Bois?! Apelido francês.

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  3. Um dia escrevi uma história para surpreender amigos chegados, oferecendo-lhes um ' livro caseiro ', cozinhado e empratado sem outra ambição que não a de proporcionar momentos de boa disposição. Quis o destino que a meio do processo essa história caísse nas mãos da Maria do Rosário. Fiquei pasmado quando percebi que a aventura teria um final diferente. Tornou-se num livro para o público em geral, para surpresa minha, para grande surpresa minha. Era só uma história. Até uma mão certeira lhe mostrar o caminho.
    Obrigado Maria do Rosário.

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    1. Caro João,

      Li essa história ("O intrínseco de Manolo") e gostei imenso. Espero que lhe dê vontade de escrever outras.

      Um abraço,

      Rui Miguel Almeida

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    2. Eheheh!
      E vão dois, caro João Rebocho... também li e gostei! Um tema raro e uma forma aldeã de ver as coisas ainda mais rara...

      Um abraço kaluanda!

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    3. Caros Rui Miguel e António Luiz. Antes de mais, obrigado pelas vossas palavras acerca do ' intrínseco de manolo '. E na sequência daquilo que foi uma aceitação agradável do livro, foi quase inevitável uma nova incursão por este mundo de histórias que se imaginam e se escrevem. Está qualquer coisa pronta, foi surpreendente perceber que quando escrevemos algo de novo, imaginando uma garantida comparação ao que se fez anteriormente, podemos experimentar aqui e ali uma sensação que interfere com a liberdade que tanto prezamos ao criar. Chega a ser doloroso, um pouco castrante. Diria que faz parte do processo de aprendizagem do caminho. De volta às mãos de quem tão bem nos aparou os primeiros escritos, acabamos por descobrir também o caminho de volta ao nosso lugar. E que bom é sentir esse aconchego! Veremos, assim espero, o que vos suscitará um possível segundo livro, nascido desta vez numa história para contar a ... muitos amigos novos!

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  4. Grande capacidade de motivação que Miguel Real precisa para continuar a escrever depois de um episódio desses. Fez-me lembrar a cena do filme "Amadeus"em que Salieri tem acesso às partituras de Mozart e reconhece o seu talento quase perfeito. Sem qualquer comparação dos personagens com os escritores referidos.

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  5. Bem sei que uma coisa é ser escritor, outra, completamente diferente, é simplesmente escrever. Admito, porém, que até tenho vergonha de escrever um simples comentário depois de ler este post. Porquê? Porque é 100% verdadeiro e porque o exemplo é de humildade.

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  6. Alguém leu “E Noite Roda” da Alexandra Lucas Coelho (ALC) que acaba de receber o Grande Prémio do Romance da APE ?

    Eu confesso que não li o “E Noite Roda” e, quando o livro foi lançado, não tive vontade de o comprar porque os textos da ALC, quando passou a cronista da “Pública” [falando sobre sobre a sua vida no Brasil e outros lugares], achei-os desinteressantes, superficiais e até narcísicos em demasia. E antes eu não perdia nenhum dos trabalhos da ALC enquanto “Grande Repórter” do “Público”. Pensei cá com os meus botões: “cá está alguém que devia ter continuado a ser jornalista e fez mal em não avançar para a Literatura”.

    Enganara-me ! Um conjunto de críticos literários, professores de literatura e poetas decidiram que “E Noite Roda” foi o grande romance de 2012.
    Logo ao primeiro romance, ALC ganha o prémio de consagração do romancista lusitano! É obra ! No mínimo, terei que ler a página 99 do romance para ultrapassar este provável, admito, preconceito meu.

    Olhando para 2012, é verdade que os grandes escritores portugueses não publicaram romances no ano passado. Nem João Tordo, nem VH Mãe, nem GM Tavares, nem David Machado. O Mário de Carvalho publicou um volume que não era um romance mas sim um conjunto de dois contos longos (ou duas novelas curtas). O Afonso Cruz é o Afonso Cruz e presumo que nem toda a gente (como eu próprio) goste de realismo mágico com sotaque alentejano. Aparentemente restaram os quase desconhecidos Jaime Rocha e Patrícia Portela.

    Pensei: na ausência de grandes romancistas a concurso, não teria sido preferível repetir o prémio no António Lobo Antunes que publicou em 2012 “Não é Meia Noite Quem Quer”? Bem sei que ele já ganhou tudo o que há para ganhar menos o Nobel, mas essa opção manteria alta a fasquia do prémio da APE.

    É que um destes dias estou a ver a APE a dar o seu prémio ao José Rodrigues dos Santos de quem se poderá dizer, em seu abono, que vende como ninguém e que faz bastante pesquiza para fundamentar os seus romances (que, a meu ver, melhor seria serem ensaios de divulgação das matérias que lhe interessam).

    Já agora uma pergunta final: não seria mais pertinente o júri que atribui o “Grande Prémio do Romance” ser constituído só por romancistas?

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    1. Manuel Alberto Valente26 de novembro de 2013 às 04:28

      Acho o seu comentário muito pertinente, Artur Águas. Mas recordo-lhe que o livro do Mário de Carvalho é composto por duas novelas e que o Prémio da APE é para romance e...novela. A conversa sobre este tema levar-nos-ia longe, mas perceberá que, por razões profissionais, não possa alongar-me demasiado.

      Manuel Alberto Valente

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    2. os gostos são cá uma coisa, Artur.

      eu continuei a gostar dos textos da Alexandra, ainda mais por serem acrescidos da tal magia da "américa-latina".

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    3. Tem toda a razão, caro Manuel Alberto Valente: o Mário de Carvalho foi corretamente incluído na "short list" do prémio, ao contrário do que eu parecia indicar no meu post. E eu até gostei das duas novelas desse livro dele. A propósito do Mário de Carvalho, permito-lhe aqui um apelo: convença-o, como seu editor, a voltar a escrever um romance. Aproveito para lhe deixar aqui uma palavra de leitor que lhe está muito grato pelo seu extraordinário trabalho de Editor Literário de que sou beneficiário há várias décadas (é que tenho idade semelhante à sua).

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    4. É isso mesmo (e felizmente) !
      [e é que vou ler mesmo a página 99 do romance, a ver se me entusiasmo]

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    5. Extraordinário Manuel, perdoe a ignorância, mas qual a diferença entre novela e romance?
      Sei que são diferentes mas confesso que .... não sei bem em quê!

      Grato pela sua paciência.

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    6. Caro Artur,

      Aqui está o início da pag. 99:
      «Deixamos o carro junto ao mais alto, e quando saímos é como se nos dessem um golpe na cabeça. Já estava frio, mas agora está frio com pazadas de vento. Nem na Sibéria, em dezembro, me doeu tanto.»
      Isto passa-se junto aos moinhos de D. Quixote.
      Gostei bastante de o ler em Maio/2012, a ALC escreve muito bem.
      Boas leituras!
      :-) Antonieta

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    7. Cara Antonieta, muito obrigado pela sua generosidade em transcrever o início da página 99 do livro da Alexandra Lucas Coelho e pela sua recomendação do romance. Terei mesmo que o ler mais longamente e não apenas a página 99.
      É bom termos a opinião de quem já leu a obra !

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  7. Olá Maria do Rosário!

    Digo a minha experiência: depois da fase da escrita propriamente dita, da fase dos meus próprios cortes e emendas, às vezes de tantas e tantas páginas, surge a fase da edição com o editor.
    É esta uma das situações que mais me agrada. Pessoalmente, gosto muito que verifiquem, que emendem, que tirem, que aconselhem, que escolham, que ensinem! Há sempre uma actividade incrível nesses encontros de emendas e verificações por parte do editor. É uma fase fantástica de reconhecimentos e de ouvir e acatar as opiniões técnicas de quem sabe muitíssimo mais do que eu.
    Eu só escrevo.

    Cristina Carvalho

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    1. Belo texto ! Será que a maioria dos escritores portugueses percebe a vantagem de aceitar as sugestões de um bom editor literário ?

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    2. Penso que sim, caro Artur.
      Infelizmente nem todos terão essa possibilidade e isso separará muito as águas. Escrever é acima de tudo um acto de paixão e aperfeiçoamento.
      Sabendo que a escrita é um processo inacabado, cruzada a minha própria experiência, só comecei a conseguir resolver esta equação de perda de duas formas. A primeira através de várias versões que me limitassem o sentimento de tempo perdido: uma versão focada numa conversa comigo próprio. A outra como um censor impiedoso tribunício, ele próprio a ter de colocar um ponto final, sob pena de um livro ser um processo de reformulação ad eternum .
      Livro após livro, este processo deixou entretanto de ser menos postcipado , como se a experiência nos fizesse ganhar autocontenção gerindo melhor o tempo presente.
      E é essa a enorme grandeza da escrita.
      Porque não se é autor uma única vez. É-se autor do mesmo original, várias vezes, em crescendo. Na escrita a reforma do seu estado é consecutiva, sob pena de nos tornarmos obsessivos, como o meu primeiro agora publicado (Obsessão), o primeiro de muitos a partir de agora a ver a luz do dia, em que o Editor será em última instância o público leitor de quem eu não me esconderei e pedir interacção.
      Sem ser sujeito à apreciação de um editor, mas talvez por isso muito mais virgem e muito mais perto do meu estado de natureza criativa e da tolerância do leitor.
      O Editor há-de ser um bem sempre raro.


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    3. Caro Pedro Almeida Sande, muito obrigado por partilhar connosco um análise tão fascinante e bela sobre o trabalho do escritor e a sua interação com o editor. Empolgante ! Excelente notícia que nos dá é a de que está quase a lançar a sua obra "Obsessão" e a de que já podemos encomendar o seu livro. Já há data e local previstos para o seu lançamento ? Abraço.

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    4. Obrigado, Artur! Já saiu. Por enquanto aqui.

      https:/ www.facebook.com pages /Obsess%C3%A3o/1434399896779856

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    5. Está encomendado. Obrigado !

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  8. Como eu invejo (digo-o, sem complexos) os escritores que têm editores capazes a emendar-lhes os textos! Não tenho problemas nenhum em cortar, ou modificar. Se houve algo de que senti falta, nas editoras que já publicaram livros meus, foi precisamente desse trabalho de "editing"!

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    1. Assino de cruz a opinião da Cristina T.
      Mas, Cristina, heróis são os que escrevem largando só a imaginação sem terem um pai ou uma mãe que lhes dê um bom conselho.
      Mesmo que a prazo as editoras estejam condenadas no actual modelo, as boas editoras como a Rosário serão ouro na vida não só do escritor, mas também, fundamentalmente, do leitor.

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  9. Estou sempre a aprender aqui... olá se estou!

    Mas vou-me atrever a perguntar o seguinte:
    - Pode o Editor ao pretender fazer emendas, agir antes como censor em nome de idéias pessoais?
    Aí não se corre o risco de castrar o texto?

    Por falar em honestidade e coragem, que me dizem os Extraordinários deste caso que comigo sucedeu e lhes vou contar?

    Suponho que só a minha Amiga Extraordinária Cristina Torrão sabe, pois acho que lho contei quando fez uma exaustiva análise e constructiva crítica ao romancezeco pretensamente histórico de minha autoria que teve a paciência de ler.

    Numa grande editora, alguém que leu o meu projecto enviado em CD, dizia-me que o tema era interessante e original, estava bem fundamentado e enquadrado no tempo e na história, rico em personagens, bem escrito e tinha portanto potencial, MAS que eu teria de rever e retirar as descrições de caçadas ou corridas de toiros, porque poderia ferir sensibilidades! Há descrições de batalhas, combates e guerra, de lutas e morte, mas o que feria as sensibilidades (da editora?) eram apenas as partes "de caça e de toiros" (ai Ortega y Gasset que deves dar voltas no túmulo!). Claro que recusei... eu escrevi-o assim porque achei que devia ser assim, pelo contexto, época, personagem e por mim mesmo, como pelas pessoas para quem escrevi.

    Acabei por recorrer à Chiado Editora, a edição ficou péssima, mas levei a minha avante, afinal não pretendo vencer nenhum prémio e nem ser escritor famoso, contento-me com os meus amigos e os 1.200 volumes vendidos directamente...

    Saudações kaluandas!

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    1. Tenho de respeitar a sua opinião quanto aos dois volumes do seu livro, mas não concordo que a edição tenha ficado péssima.
      O romance, se bem que bem encorpado fisicamente como livro, tem também a apaixonante perspectiva de se ler com gosto e sem ser de uma assentada, tal como disse Melo Guimarães no Santo Huberto - "que se não lê propriamente num par de horas".
      Quanto à despropositada intromissão do editor referido por si, no que respeita às touradas e caça, concordo com a sua posição e coerência, que só o dignifica.
      É certo que o António Luiz teve de trabalhar muito para promover e vender a sua obra, mas terá de concordar que 1.200 exemplares é, neste País e nesta altura concorrencial, uma boa saída, mesmo que se refira a 600 exemplares por volume. Talvez que - presumo eu - se tivesse entregue a sua obra ao referido editor, não tivesse vendido tanto.
      Saudações para Kaluanda, que até tem um blogue assinado por Quito.

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    2. Ó António Luiz passe para cá os seus amigos para lerem o «Obsessão». Eheheeh !

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  10. Eu retirei cinquenta páginas à versão original do meu primeiro romance. Claro que me custou. Mas reconheci, findo o trabalho, (efectuado por mim na sequência de sugestões de pessoas muito mais sabedoras do que eu) que o livro tinha ficado bastante melhor. E o objectivo deve ser sempre esse, não é verdade?
    Um resto de boa tarde a todos. :-)

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  11. Ainda sobre o tema uma observação do Mário de Carvalho faz-nos reflectir. Como gestor sempre fui adepto do «mais é menos». Mas como autor a viver há longos anos debaixo de água tentando adaptar as guelras para vir à tona para respirar um outro ar, tenho sempre dentro de mim a mensagem do inspirar, expirar, numa espécie de sinónimo de depurar, depurar... e as moléculas de água sempre me parecem infinitas.
    A «economia da história» está assim em mim presente mais como um resultado de uma actividade profissional onde a economia é mais um conceito orçamental de denominadas boas práticas, que hoje se resumem quase e tão só a downsizings que se parecem restringir mais a núcleos desprovidos de outro tipo de corpos cavernosos.
    Mas à economia das estórias sempre disse não, ou não tivesse na minha juventude sido leitor desse Livro Grande de Tebas, Navio e Mariana, do MC, que ampliava a minha imaginação e me fazia só pelo título fazer subir o Nilo numa faluca à procura da minha Cleópatra. Já naquele tempo era uma sorte de Osíris a julgar os mortos na «sala das duas verdades». Hoje sei que nunca são apenas duas, as verdades distenderam-se para além do inacreditável, como a água que se distende quando apertada entre dois dedos. E não me basta conhecer Tebas, olhar o cavername do navio ou desposar Mariana. Preciso de viver em constante psicostasia , colocado num prato remoendo as minhas quarenta e duas declarações de inocência. E é assim que menos será sempre mais. Porque mais é tudo o que a vista ou a mente não alcança, mas nos dá uma enorme sensação, inexplicável, de prazer, paz e felicidade.
    Será que «Obsessão» vive dessa economia da escrita?

    2

    «Quando o relógio tocou uma hora mais, eu, Valente, tirei novamente umas folhas brancas: agora de dentro de uma mica, nome estranho para aqueles classificadores de plástico que tanto protegem o fruto das árvores como as asfixiam.
    Agora era uma carta com várias folhas. Esta escrita à mão, como se a raiva nela contida necessitasse de menos tempo para ser aposta numa folha de papel. A impressão forçada de teclas diminuiria a raiva e falsearia a carta. Lembrei-me daquele escrito, «como se chamava?», o Ferreira, Vergílio de nome próprio, que forrara muitos troncos de árvore com as suas “Cartas a Nora”… Não! Esse era do Joyce ! As de que me lembrava eram as “Cartas a Sandra”, uma morta que em vida não lhe largava por nada o alpendre. Mas a culpa, sabia-o, era sua, porque não a deixava partir definitivamente lá onde o sol se põe e a vida se renova.
    Dizia a primeira destas novas cartas:
    «Sónia, não sei se te recordas daquele dia em que te chamaram Reiki ? Reiki , nome de deusa nórdica; Reiki , nome de guerreira; Reiki , nome de feiticeira, daquelas que nos fazem sonhar, armadas de uns calções que lhes marcam os lábios e as profundezas, daquelas que vomitam fora dos sutiãs dourados volúpia e prazer, daquelas que trazem um chicote pendurado e uma coleira e correntes para amordaçar, sonhos molhados, que nos enfeitiçam com dois dedos húmidos abertos passados lentamente pelos lábios. Eu estava atento, como estou todos os dias e procurava decifrar o mistério contido em ti.»
    © Pedro A. Sande

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    1. Prepare lá a versão autografada mas é...

      Depois logo se vê como fazemos!

      Um abraço e votos de sucesso, que você é dos que merece, e mais... é dos que tem coisas para dizer e com substância!

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  12. Claudia da Silva Tomazi27 de novembro de 2013 às 02:17

    Coragem a coração famintos:)Saudade.

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