Prémios para todos
Recentemente, li um muito bem pensado artigo de Hélder Macedo no Jornal de Letras a propósito de prémios literários. Dizia o romancista e professor no King’s College de Londres que se tornou banal a prática do «toma lá, dá cá» e que estatísticas com cerca de dois anos mostravam que certo autor integrara cerca de 80 júris e recebera uns vinte prémios, o que possivelmente queria dizer que nos anos em que não fora jurado fora premiado. Esta sede de ganhar, segundo o autor do artigo, prendia-se também com o facto de em Portugal o mercado ser pequeno e não se poder viver apenas da escrita, procurando-se uma fonte de receitas suplementar nestes concursos literários (o que também explica porque alguns poetas têm livros novos todos os anos – os direitos de autor das edições de poesia são manifestamente reduzidos, mas o valor de um prémio, e há muitos, pode compensar essa pequena quantia). No entanto, Hélder Macedo propõe que os prémios literários sirvam sobretudo de incentivo aos escritores mais jovens – e, a este respeito, refere que os finalistas do Booker Prize deste ano incluíam apenas um escritor conhecido entre seis. A prática não é realmente muito comum em Portugal, onde durante dezenas de anos ganharam quase sempre os mesmos escritores; mas, olhando para listas de finalistas de há um ano a esta parte, nas quais figuram nomes como os de Afonso Cruz ou Ana Cristina Silva, acredito que as coisas estejam a mudar. E não me parece que esses autores tenham feito, eles próprios, parte de nenhum «toma lá-dá cá».
é verdade, chega a ser escandaloso.
ResponderEliminareste ano um dos prémios Maria Rosa Colaço (Almada) de literatura infantil e juvenil, foi ganho por um autor com dezenas de obras publicadas e que já tinha feito parte do júri do concurso.
eu acho que há é uma grande falta de vergonha das pessoas, e também de dignidade.
falámos da política, mas esta "batota" da vida, encontra-se que praticamente todos os sectores da sociedade. a Cultura não é excepção...
Aplaudo o seu comentário. Também eu repito quase diariamente que a corrupção que nos choca quando dela temos notícia por envolver políticos e banqueiros é transversal à sociedade. E é fonte de fortes injustiças, por favorecer quem, em situações de equidade, veria as suas hipóteses diminuídas.
EliminarE é responsável pelo nosso atraso estrutural, por beneficiar a mediocridade.
Já reparou certamente que os apelidos nas nossas elites são os mesmos desde a revolução liberal?
De repente London a par da lufa .
ResponderEliminarDo you mean that, suddenly, London takes notice of the hurly-burly on our literature awards?
EliminarGreat !
EliminarA propósito de prémios literários, lembrei-me de um belíssimo conto do Roberto Bolaño que li há muitos anos, cujo título de momento não recordo, e que está num dos primeiros volumes de recolha de contos seus. Aí o Bolaño falava da sua vida paupérrima em Blanes, na Catalunha, como refugiado chileno, que tinha como trabalho de subsistência o ser guarda noturno, ocupando o seu tempo e suplementando os seus parcos recursos, procurando concursos de prémios literários promovidos por câmaras municipais de toda a Espanha. Apresentava-se a todos esses concursos com poemas ou contos, conforme o caso, e diz ele que isso foi uma forma importante de sobrevivência (era galardoado com frequência) até se tornar conhecido e autónomo financeiramente. Infelizmente isso só aconteceu pouco tempo antes da sua morte por doença hepática. Quase que se podia dizer que esse tempo difícil do Bolaño seria a sua fase Luíz Pacheco . A verdade é que esses prémios provincianos financiaram parte da imensa obra inédita que o Roberto Bolaño nos deixou na hora da sua morte. Benditos prémios !
ResponderEliminarConcordo totalmente e aplaudo este seu escrito. Há necessidade de maior isenção e lhaneza no nosso País. Em todos os sectores.
ResponderEliminarLimpeza, transparência. Fim do nepotismo, do amiguismo, do compadrio, do porreirismo.
EliminarDenúncia das pressões, influências, ingerências.
(Como diz um amigo meu -- Zé, és um lírico!)
Eu também sou um bocadinho, José. Mas tem toda a razão. A corrupção não é apenas política. É transversal a toda a sociedade. Nem seria possível termos um índice de desonestidade tão enraizado se assim não fosse.
ResponderEliminar"Índice de desonestidade" lembra-me o "Índice [médio]de felicidade" que comecei ontem a ler do David Machado. Escrita bem interessante ! Mas ainda é cedo para uma palavra definitiva sobre este romancista que leio agora pela primeira vez.
EliminarNão conheço, Artur. Mas infelizmente creio que nos últimos tempos são bastante mais aqueles que se queixam do índice médio de desonestidade do que aqueles que verdadeiramente usufruem do índice médio de felicidade. No nosso País.
ResponderEliminarHum... quer-se então dizer que os concursos literários, são assim como se diz dos jogos do Futebol Clube do Porto???
ResponderEliminarNão me espanta...
Do Porto, do Sporting e do Benfica. Sim, será isso.
EliminarDá-me a impressão que o "Leão da Estrela" Pacheco não viu o jogo de anteontem.
EliminarOs dirigentes do Sporting queixam-se de que lhes faltavam umas cadeiras no balneário do Dragão, e tal.. Mas quanto ao jogo em si - pudera!! - não podem queixar-se, a não ser de si próprios.
Não se pode comparar isto com o que era a "arbitragem" dos prémios literários que nos relata Hélder Macedo.
E, pelo que nos reforça Maria do Rosário, a arbitragem da Literatura já não é, como se diz dos jogos do Benfica, do tipo "toma-lá-dá-cá, e é se queres"...