Paternalismo

Já não sei quem dizia que não existe maior despotismo do que o paternalismo excessivo. Não tenho a certeza, mas uma das críticas que mais teci ao sistema de ensino quando fui professora foi a incapacidade de autonomizar os alunos, tratando-os com exagerado paternalismo e proteccionismo, por vezes até como se não fossem capazes de pensar pelas próprias cabeças e os professores tivessem de lhes dar a papa toda feita. Na altura, lembro-me de que o programa de Português incluía umas quantas aulas sobre banda desenhada e que fazia parte da matéria explicar o que era um balão de fala e um balão de pensamento, como se os miúdos não estivessem fartinhos de o saber… Um dia destes, chegou-me a notícia de que saíra um livro sobre O Principezinho explicado às crianças (acho que de duas professoras) e, mesmo não conhecendo o seu conteúdo, fiquei um bocado indignada. O Principezinho, de Saint-Exupéry, não é propriamente linear, mas explicá-lo às crianças não será contraproducente? Eu li-o em miúda e não me incomodou a sua complexidade; o que não entendi na altura entendi mais tarde, porque a ele voltei muitas vezes com várias idades. Era mesmo preciso um guia do aluno para este livrinho com setenta anos como aqueles que eu comprava na universidade para perceber melhor a poesia de Dylan Thomas ou Gerard Manley Hopkins? Não creio. Deixar os miúdos raciocinar sobre o que lêem parece-me estar a passar de moda, e isso – sim – é grave.

Comentários

  1. Tem toda a razão. Se os professores lessem O Principezinho e reflectissem um pouco na sua mensagem, não tolerariam o eduquês que infecta o ensino e as escolas. Mas -- e é com profundo desgosto que o digo -- a maioria dos professores não leu e não lê nada. As numerosíssimas excepções não invalidam, infelizmente, esta minha generalização, estribada em 36 anos de serviço docente.

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  2. Pois... por isso chegam à faculdade a perguntar se é preciso caneta para fazerem o teste ou se é preciso tirar notas e etc., e etc.

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  3. Quando será que as pessoas entendem que há obras que matamos se as tentemos explicar? A poesia e tudo que é poético não pode ter uma explicação unívoca. E aí, a sua inexpugnável riqueza . Não é apenas obstar o saudável exercício do raciocínio e do imaginário. É também e sobretudo porque com isso se abocanha toscamente a obra; a explicação é, nestes casos, um exercício de truncagem. Quem a ler perde a construção mental do maravilhoso que tão necessário nos é para aguentar a fixidez da realidade. E a poder mudar.

    O Principezinho pode ser um livro de ler e aprender em todas as idades. Crescemos com ele. Se não haja alguém a matar-lhe a livre interpretação.

    Do mesmo autor, e não tão sublime, mas muito bonito, também gostei de "Vol de Nuit".

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  4. Só li "O Principezinho" na idade adulta e lembro-me de, na altura, ter achado uma injustiça a sua classificação como livro infantil. Injustiça porque redutor. É um livro maravilhoso e para todas as idades, onde se encontram múltiplas mensagens. A maior parte delas, na minha opinião, nem previstas pelo autor (como sempre acontece com os grandes livros e as grandes ideias). Realmente, é descabido um adulto estar a formatar o modo como uma criança deve lê-lo.

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  5. Agora quer-se tudo assim, ao estilo de quem vai à peixaria e pede escamado, amanhado e às postas ou em filetes, de preferência. Dos livros à vida, os dias de hoje querem-se assim. Cómodos e formatados.

    Boas leituras!

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    1. ...e dentro dum saquinho de shantung ou até de tafetá, com lacinho rosa...

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  6. O prazer de não compreender um texto (e mesmo assim achá-lo belo) é uma das maravilhas que a literatura nos oferece. A Maria do Rosário tem toda a razão: as crianças têm o direito de virginalmente desfrutarem o mistério da literatura !
    Penso que foi o TS Elliot que disse mais ou menos o seguinte: "há poemas que eu escrevo e que depois não os compreendo inteiramente". Se até o Elliot sobre a sua própria poesia o disse, então...

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  7. Rui Conceição Silva9 de outubro de 2013 às 04:44

    O meu irmão ensinou-me a gostar do Principezinho.
    E hoje, faz um ano que o TóZé morreu.
    Dói-me a alma sempre que imagino as últimas horas do meu pobre irmão. Imagino-o chorando, triste como o dia mais triste, com torrentes de lágrimas inundando-lhe a face, até caírem do rosto, para cima das fotografias de dias felizes que tinha em cima da sua secretária: fotos dos filhos, desenhos de criança feitos com carinho, prendas que recebeu em cada Dia do Pai.
    Imagino-o sozinho, abandonado dentro de si e entregue a uma solidão medonha, recordando primaveras distantes, lugares de mares e de bosques, abraços ausentes, palavras de amizade. Sentindo-se um destroço de sonhos e de alegrias perdidas, um mendigo sem esperança, um poeta já sem forças para ver beleza em paisagens tristes.
    Imagino-o descendo as escadas e chorando, dizendo adeus a todas as alegrias, a todas as tristezas. Talvez pedindo perdão aos seus sonhos. A todos aqueles que amava. Perdão por estar tão triste, tão só. Tão injustamente só e perdido.
    Sim, faz hoje um ano que o meu irmão TóZé pôs termo à vida. Um ano cheio de noites sem o ter visto. Um ano cheio de manhãs sem o poder ver. Um ano cheio de lágrimas que poucos viram. Um ano sem o seu sorriso, tão único, tão cativante.
    Faz hoje um ano que o futuro estoirou dentro de mim, desfeito em pedaços, em pequenos pedaços como ilhas, onde me refugio como um náufrago dos amanhãs, sonhando memórias rasgadas ao meio, nas noites em que o vento move as árvores, como testemunhas de prodígios invisíveis.
    Talvez eu seja agora também uma árvore, exposta ao frio e à chuva, às noites longas e tristes dos invernos. Uma árvore com folhas, que nascem, caem e renascem. Uma árvore anónima no meio da floresta, com raízes invisíveis, que ainda crescem nas entranhas da terra. Uma árvore que guarda em si cada estação, cada dia de chuva e cada dia de sol. Uma árvore com saudades dos vários tempos em que me fragmentei.
    E, como uma árvore, sei que um dia morrerei. Morrerei como uma árvore que cumpriu o seu tempo. Olhando para a floresta pela última vez e dizendo-lhe adeus, agradecido por todos os afectos que recebi.
    Mas sei que recomeçarei. Talvez noutro lado de mim. Talvez num tempo onde os meus olhos reconheçam os fragmentos da minha alma, espalhados pelos meus inquietos sentidos, quais viajantes de um universo inteiro que inventei. Pois eu sou um inventor de universos. E é neles que invento o rosto do meu irmão. Além no Sol. Além nas estrelas. Além onde é proibido ser-se infeliz.
    Deixo-vos uma das últimas maravilhas que ele escreveu:
    «Quero, aqui e agora, já!, a voz da criança que já fui, para que ela me traga a madrugada, para que eu volte a ver os desenhos do arco-íris e das flores, o paradeiro das borboletas que eu desenhei com cores de futuro e que cheiravam a nuvens azuis, onde passeavam os anjos com o crepúsculo pelas mãos, ensinando o poente a ser dourado.
    Quero voltar a interrogar os astros, naufragar ardendo em clarões, como o princípio de um dia de sol no caminho do vulcão.
    Quero saltar na bruma e correr no areal à procura da beleza. Não sentir medo em partir contra a montanha, cheio de sonhos e fantasias. Excitar e criar cores endoidecidas, com uma grande alma ilimitada, e assim viajar outros sentidos, outras vidas.
    Ser, por vezes, coluna de fumo, astro perdido, e forçar turbilhões alados. Ter loucura e sacudi-la em ânsias de revoltas subtis. Arder no horizonte, em grandes clarões. Ser labirinto de mim mesmo, perdido em espasmos de luz.
    Mas os códigos dos senhores-sem-nome golpeiam, furiosos, os murmúrios do vento.
    E o meu sonho sangra, pela voz que queria atravessar montanhas e se calou.»
    (TóZé Silva)

    Adeus, alquimista de sonhos.
    Adeus, meu irmão.
    Ver-nos-emos num dos universos maravilhosos que me ensinaste.
    Talvez andes com o Principezinho, visitando arco-íris e acariciando estrelas.
    Vivendo todos os prodígios do universo.
    Porque um livro não se explica; vive-se.

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    1. O Principezinho é grande e ainda assim cabe à conta no nosso coração e isso não tem explicação possível. A escrita do seu irmão fez-me lembrar de António Gedeão e a sua vontade de reaver partes perdidas da infância fizeram-me lembrar de mim e creio que não fui a única. Obrigada pela partilha. E envio-lhe um forte abraço, Rui.

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    2. Texto poderosíssimo. A vida tem momentos muito agrestes. Obrigado pela partilha.

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    3. Durante a leitura do seu texto o tempo parecia ter parado.
      Nem sei bem o que dizer, mas queria falar a alguém desta comoção.
      Obrigada pela partilha.

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  8. Claudia da Silva Tomazi9 de outubro de 2013 às 05:25

    Seria correto está aventura de ' ismo ' ?!

    Diria da mesma equação ao que define-se : terno a ternura ou a gentileza de partilhar conosco o essencial .

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    1. Leio o post com o mesmo interesse que dedico aos comentários, necessariamente por esta ordem.
      Este comentário causa-me alguma perplexidade, talvez porque eu sou uma pessoa dada a este estado de espírito.
      Não entendi a aventura do "ismo", mesmo lendo o Principezinho de fio a pavio. Nem percebi a equação, que me parece apontar para uma incógnita.
      Ora, é esta forma de escrever que me desperta o interesse, porque é filosófica e, de certa maneira, surrealista.
      Com todo o respeito para a Comentadora.

      Este blog é tudo menos desinteressante. É claro que a Autora do blog prima pela qualidade dos seus textos, pela pertinência e pelo grande saber que possui na área dos livros. Não é por ela, que eu aponto os pormenores mais mirabolantes. Basta ver que ainda continua o "desaguisado" aberto na caixa de comentários dos editores em extinção, o que prova que, não estando este em vias de desaparecerem, os "irreverentes" cada vez aparecem mais.
      Ali, naquele ringue de luta renhida, não há, temos de concordar todos, uma sensata troca de ideias; antes um chorrilho de imprecações, ameaças e uma esgrima de linguagem que me faz lembrar a luta dentro de uma saca com gatos.
      Para agravar a coisa, assinam com uns "nick name" que fazem aumentar a parvoíce. Estes comentadores, estou em crer,pela cultura que demonstram, são capazes de fazer melhor e, com outra proposição, tornariam a polémica mais elevada.
      Se o espaço fosse meu, já tinha chamado a atenção para aquela troca de "galhardetes".

      Sobre literatura e livros, este é, se não o melhor, um os melhores espaços na blogosfera portuguesa.

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    2. Ao que me parece, uma das incógnitas da equação é a ternura.
      Pois é com nítida ternura que o Fernando detecta – e tem a gentileza de partilhar connosco – o essencial na forma filosófica de escrever da Comentadora, que é algum surrealismo.
      Comprova-se assim que em Cláudia está correcta a aventura de “ismo”.

      Ou será, Cláudia, que eu não estou a ver bem os termos da sua equação?...


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    3. Também não acho normal o que se passa no post aqui abaixo. Haja sensatez! E respeito pela autora do blogue. De facto, vivemos uma época complicada e falha de valores. Lê-se e escreve-se mal. Mas o pior de tudo é a falta de educação reinante. E de civismo.

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    4. Claudia da Silva Tomazi9 de outubro de 2013 às 13:49

      A crítica enquanto boa intenção realça a verdade .

      Ver bem ?! Ainda seria um desafio moral ; já que estou do outro lado do mesmo Atlântico, que vós banhara Jordão .

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    5. Como vê Claudia, deixou saudades.
      Jordão...Rio ou oceano?

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    6. Começando por responder à pergunta, “Rio ou oceano?”
      Rio.
      Mas às vezes – quando a minha bem-intencionada crítica realça a verdade – apenas sorrio, de satisfação.
      Contudo – devido a um ou outro desafio moral – por vezes choro.
      Então as minhas lágrimas acrescentam o rio, desaguam no oceano – do outro lado do qual se está banhando Cláudia, que das minhas lágrimas recolhe as saudades.

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    7. Extraordinário Jordão
      Foi uma pergunta tão simples que lhe fiz e, ainda assim, conseguiu dar uma resposta tão poética!! É por isso que gosto de o ler.
      Cumprimentos,
      Isabel

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    8. Ora, Isabel, agradeço – mas é muita bondade da sua parte.
      Se me permite, faço notar que me limitei a – aliás abusivamente – transcrever e dar outro contexto a palavras da própria Cláudia.
      Assim, justiça seja feita: o que a Isabel gostou de ler deve-se principalmente às palavras que a maré me trouxe do outro lado do Atlântico.
      Grato, cumprimenta
      Joaquim

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  9. Ufa! Este blog tem muita coisa que se lhe diga.

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  10. Concordo plenamente com o que diz. O problema é que quando o sistema de ensino entra numa lógica de exigência da performance a todo o custo, muitos pais querem certificar-se de que os rebentos não ficam para trás. Daí aos textinhos explicativos (sempre tão aborrecidos) vai um passo. Será que no caso do Principezinho podemos falar em "aquisição de competências"?

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    1. Estou certo que sim, que podemos. Aprender não é, nem deve ser, apenas saber. É no compreender que ocorre a verdadeira aprendizagem. De que adianta que nos digam que o livro x passa a mensagem y se não compreendemos porquê? Esse conhecimento é vazio. Agora percebendo o porquê posso extrapolar essa relação para outros livros e até mesmo vivências. Compreendendo posso crescer.

      Acho, por exemplo, que é mais importante compreender a mensagem de um poema, do que as suas características em termos de forma

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