Mandamentos
Ao fim de muitos anos a trabalhar num gabinete independente – os primeiros dez –, puseram-me numa sala com a minha equipa; foi muito difícil adaptar-me, confesso, sobretudo por causa dos telefonemas, pois não consigo concentrar-me na leitura quando as pessoas conversam ao meu lado. De há três anos para cá, recuperei felizmente a minha privacidade e, embora quase nunca feche a porta, sinto-me melhor assim. A mesma sorte não tem, porém, a minha querida assistente (que uma vez ou outra tem de ir ler para uma sala de reuniões por causa do barulho) nem as assistentes dos outros editores, que trabalham todas juntas em open space; e, talvez para mitigarem as suas dificuldades, resolveram escrever alguns mandamentos do assistente editorial que espalharam alegremente pelas paredes e colunas que as rodeiam. Entre essas folhas de papel, encontrei, contudo, um dia destes uma misteriosa frase que dizia: «O mal aglutina, o bem hifeniza.» Tardei a compreender que aquilo não passava de um lembrete de uma regra gramatical para alturas em que se dedicassem à revisão. Deve escrever-se «bem-disposto», com hífen, mas «maldisposto», tudo num só vocábulo. Mas, até chegar a essa conclusão, ocorreu-me que, efectivamente, quando há maledicência todos se juntam para atear a fogueira (o Facebook é um bom exemplo disso) , enquanto para elogiar nem sempre. Não era um mandamento nem uma constatação, mas parecia.
Lugar para um elogio para um excelente post . E para um auto aviso a todos nós pela mão de Diderot: «Aquele que te entretém com os defeitos dos outros, entretém os outros com os teus.»
ResponderEliminarExcelente post e excelente comentário, Pedro!
EliminarGrande Diderot. Está tudo nos clássicos, não é verdade?
Fiquei um pouco triste com alguns comentários dos últimos dias, mas afinal isto é um espaço livre...
Relativamente aos Contos Capitais eu já tinha falado do livro e do conto da Maria do Rosário anteriormente, quando a nossa anfitreã nos recomendou esse livro.
Espero que hoje estejam todos bem-dispostos!
:-)
Antonieta
Os Mandamentos de Moisés, descritos no livro EXODO ":
ResponderEliminar- Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.
- Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo."
Como seriam diferentes todos os Facebooks " desta vida.
Digo eu... pobre ignorante, temeroso das trovoadas e das gripes mal curadas... mas ateu.
Bem pensado, bem visto. Sem hífen.
ResponderEliminarHá uma frase de Pascal que vai de encontro ao que foi escrito, como tema - "Ninguém fala de nós na nossa presença como fala na nossa ausência. A unidade que existe entre as pessoas é fundada sobre esse engano mútuo".
ResponderEliminarA propósito das condiçõse de trabalho da LeYa, acho que o sistema laboral em "open space" é o ideal para quem trabalha em grupo; o ruído próximo ou de fundo faz parte do ambiente, da vida, do companheirismo (quando o há, evidentemente), pelo que não é de lamentar essa estruturação física. Já o mesmo não digo relativamente a quem tem, como tarefa, a leitura de originais ou revisão dos mesmos, uma vez que a concentração, para a maioria das pessoas, reside no silêncio e no isolamento.
A LeYa é uma Babel de editoras e é natural que, aproveitando as características arquitectónicas do edifício, em caixa, designadamente a luz exterior, se tenha optado assim.
Tenho de dizer que o Grupo tem um belo restaurante no primeiro andar, onde servem bem em regime de "self-service".
Depois de alguma crispação que li na penúltima caixa de comentários, é bom que esta, hoje, sirva para meditar na dicotomia bem e mal. Por isso, recuando dezanove séculos, vejamos o que disse o imperador Marco Aurélio - "o verdadeiro bem consiste no que é honesto, e o verdadeiro mal no que é vergonhoso".
As Meditações de Marco Aurélio... Correcto?
EliminarGrande, grande livro.
Correcto, Vítor.
EliminarSim, grande obra, originalmente escrita em grego, da autoria de um romano - Caesar Marcus Aurelius Antoninus Augustus.
Caesar Marcus Aurelius Antoninus Augustus:
EliminarUm dos cinco ditos "bons" Imperadores Romanos.
Depois dele, foi a queda.
Nota: Marguerite Yourcenar, no seu Memórias de Adriano", escrito na forma de imensa epístola de Adriano (um epicurista), tinha o jovem Marco Aurélio (um estóico) como destinatário.
De facto, tornou-se quase numa coisa cultural, o procurar gratuitamente defeitos em algo. Talvez seja o resultado de uma sociedade competitiva, em que temos sempre de ser os melhores. Talvez seja só uma forma de disfarçar inseguranças. Seja porque razão for, de facto a internet tornou-se num poço de comentários desagradáveis, estimulados pelo anonimato e pela distância. É fácil, escondido pelo monitor, dizer aquilo que não se tem coragem de dizer olhos nos olhos.
ResponderEliminarInfelizmente ainda há quem acredite que dizer bem é sinal de fraqueza, um pouco à imagem daqueles professores universitários que acham que a sua qualidade é directamente proporcional ao número de chumbos nas suas cadeiras. Enfim, é o que temos.
lindo
ResponderEliminarÉ verdade. Tem toda a razão. Já para não falar no hábito execrável de se forjarem personalidades inexistentes para denegrir o próprio na sua página. A cobardia é o pior dos defeitos. E o mais desprezível.
ResponderEliminarE quando deixa de ser uma saudável troca de opiniões e se passa ao insulto, então é mesmo lamentável.
EliminarAntonieta
Tem toda a razão.
EliminarA divergência de entendimentos deve sempre ser manifestada com elevação.
Pura verdade. No outro dia lia alguma coisa que Roth dizia sobre ser escravo da literatura. Não tem nada a ver, bem sei, mas hoje todos somos motivo de críticas e na sua maioria desagradável e gratuita. Questiono-me se não seremos escravos de uma maledicência alheia e despropositada... afinal qual a moral de um para tentar descridibilizar outro?
ResponderEliminarUm abraço.
Sem precisar de ir aos clássicos, ou à Bíblia, encontrei, na Ler de junho passado, uma frase muito interessante sobre este tema (que até publiquei no meu blogue):
ResponderEliminar«Um elogio, mesmo a formulação de um elogio, dá trabalho. Supõe alguma penetração, pede alguma disponibilidade mental, e moral também».
O seu autor é Fernando Venâncio.
A maledicência ajuda-nos a minorar os nossos problemas, defeitos e frustrações. Quando dizemos mal de alguém, sentimo-nos superiores. O elogio requer a tal "penetração", a "disponibilidade mental e moral".
Está tudo dito.
Num tempo social onde se plantou por engano um «s» de sucesso, onde o «s» de sociedade se confunde com um «S» grande de sucesso, o resultado faz-nos regressar à primeira letra do alfabeto: o «a»... de agressividade... felizmente bem perto do «a» maior do afecto.
EliminarEsperemos é não ter de passar por muito tempo pelo «a» de angústia, pois bem gostaríamos de abraçar no nosso tempo e por muito… um "H" grande mudo (mas sonoro nos corações) de harmonia.
Texto absolutamente delicioso, tal como a situação que descreve.
ResponderEliminarRealmente nunca tinha pensado assim.
«O mal aglutina, o bem hifeniza.» que grande verdade.
Já tenho saudades do: Agora não Adelino!
ResponderEliminarA propósito de maledicência e elogio, alguém (não sei quem) disse, mais ou menos isto:
ResponderEliminar-corrigir uma página é fácil, mas escrevê-la, amigo, isso é difícil
-eu elogio em voz alta e censuro em voz baixa
Não podia estar mais de acordo Severino. As críticas têm o seu lugar, mas eu prefiro fazê-las por email. Já me aconteceu encontrar erros em artigos de blogues (como é natural, só não erra quem não escreve!) e nesses casos envio um email, mais no sentido de alertar a pessoa do que de dizer "ah ah, cometeste um erro!".
EliminarIncomoda-me muito ir ao Facebook, a sites de editoras e a blogues e ver pessoas a denegrir e a humilhar gratuitamente, sem respeito nenhum por quem está no outro lado. A roupa suja lava-se na intimidade.
Tenho-me divertido muito com os comentários de hoje! Os nossos "mandamentos" foram surgindo como acidentes nos dias, mas estamos orgulhosos do resultado. Partilho convosco alguns dos meus preferidos:
ResponderEliminarMANDAMENTOS DO ASSISTENTE EDITORIAL
2.º
Assistente editorial que se preze come chocolate preto em quantidades obviamente visíveis (para isto não parecer tudo uma ilusão doce).
4.º
Não cobiçarás o livro do próximo.
6.º
Honrarás o teu editor e os teus autores, porque se deve respeitar aqueles que promovem o alimento do espírito (e as dores de cabeça que te fazem lembrar que és um ser vivente e feliz).
7.º
Adorar os livros e amá-los sobre todas as coisas (e às estantes, ao pó, ao seu peso cultural e petulante).
8.º
Sê comedido nas palavras e nas obras: há uma linha que separa o bom gosto do espampanante.
Gostei muito do seu post de hoje.
ResponderEliminarA primeira ideia que me ocorreu ao ler a frase "o mal aglutina, o bem hifeniza" foi algo semelhante ao que descreveu e dei comigo a pensar: "não percebi muito bem a parte do bem hifeniza" :)
Sou ateu convicto, mas acredito em energias. Tento que as minhas sejam sempre positivas. Na minha opinião as coisas têm geralmente a importância que lhes quisermos atribuir. Quando "o mal aglutina", nunca dou para esse peditório.
Gosto muito deste blog é o único que sigo com assiduidade. Os comentários, para mim, fazem parte integrante. Deparo-me geralmente com energias positivas, e com essas me fico. Aprecio muito a mescla de poesia e bom humor que aqui encontro.
Aproveito para fazer publicidade: se estiverem perto de Aveiro, hoje às 18h15 há uma conversa sobre o MAL (mesmo a propósito!) mediada por Nuno Camarneiro, com Valter Hugo Mãe e o Padre Anselmo Borges na Fábrica Centro Ciência Viva. Entrada livre.
Boas energias a todos,
Rui Miguel Almeida
Gostava bem de ouvir essa conversa. A gente não traz uma resposta, mas elucida-se.
EliminarBoa sorte para quem está na mesa. E para a assembleia.
Olá, Rui Miguel!
EliminarFérias à chuva e agora todo este sol!
Espero que tenha dado para descansar e para ler.
Chegou a ler o VHM e o MVL?
E recomenda-os?
O Herói Discreto já comprei, estou com dúvidas quanto à Desumanização. Mas como adorava ir à Islândia e nunca li nada dele, estou com vontade de arriscar...
Gostava imenso de assistir a essa conversa sobre o Mal, mas estou muito longe.
E logo com dois escritores tão polémicos aqui pelos blogues, e não só.
Boa sessão!
:-)
Antonieta
Olá Beatriz,
EliminarSerão 7 conversas, uma por mês, sobre temas diferentes. Ao que sei, irão ser disponibilizados podcasts das mesmas. Se tiver facebook, vá estando atenta ao que o Nuno Camarneiro publica por lá. Se não tiver, posso disponibilizar-lhe um link, quando existir.
Cumprimentos,
Rui Miguel Almeida
Olá Antonieta,
EliminarHoje é o meu último dia de férias e vou acabá-lo literariamente em grande.
Adoro chuva, sabe? Mas podia viver numa praia, acabo de voltar de lá e a água estava bem boa.
Considero que se escreve muito bem actualmente em Portugal e dois dos expoentes máximos, na minha opinião, são o Nuno Camarneiro e o Valter Hugo Mãe.
Recomendo-lhe "A desumanização". Tem frases e ideias muito bonitas. Diria mesmo perfeitas. Do mesmo modo, tem das coisas menos conseguidas que encontrei nos romances do Valter (li todos os 6), mas estou a ser muito picuinhas e é uma questão de gosto, acima de tudo. É um livro muito triste e exige do leitor. Talvez aliene alguns leitores que adoraram "o filho de mil homens" e aquele deslumbramento de felicidade, se lhe posso chamar assim.
O do Varguitas (trato-o assim, tal como outros o fazem, pelo carinho que tenho à sua escrita) está-se a revelar muito melhor que o anterior. Ainda só li 100 páginas. Tenho dúvidas que esteja bem traduzido, deparei-me com várias frases que tnão creio que Vargas Llosa escrevesse "assim" (leia "com os pés"). São poucas as que encontrei, e estou novamente armado em chico esperto. "Cheirasse" que é um livro dele. Quem gosta de Vargas Llosa vai gostar deste e tem ainda o prazer de reencontrar personagens de outros romances, como o Sargento Lituma e o bom do Rigoberto.
Bom, estou de saída, com o trânsito daqui, ainda demoro uns bons 5 minutos... :)
Um beijinho para si,
Rui Miguel Almeida
PS: faço-lhe o mesmo comentário que fiz à Beatriz: as conversas terão podcasts disponíveis, quando souber, aviso.
Ó Rui deixa-me lá mandar uma pedrada:quantos anos tem o Padre? é que os outros dois (o valter-, e o Camarneiro) ainda são muito tenrinhos para falarem do MAL pois ainda têm que levar muita muita estalada...
EliminarAcredito que até falem (e bem) do mal mas, se calhar, ainda é muita conversa de almanaque e de ervanária...
Rui Miguel,
EliminarEntão teve umas óptimas férias: chuva, sol e bons livros.
Bom regresso ao trabalho!
Face ao que me diz vou comprar o livro do Valter, já que ando com imensa curiosidade de conhecer esse escritor.
Do Camarneiro, como já deve saber, gosto muito.
Beijinho.
Antonieta
Ó Severino, um nasceu em 71, outro em 77, não são propriamente teenagers (sorry!), aposto que já fizeram uma ou duas maldades...
EliminarE quem disse que a idade traz sabedoria acerca do Mal, do Bem, ou de qualquer outra coisa?
Eu conheço alguns que «quanto mais velhos mais malucos».
:-)
Antonieta
Severino,
EliminarO padre foi nesta conversa mais filósofo que padre, tem livros publicados e estudos superiores em filosofia. É mais velho, mas pareceu-me de espírito jovem.
Gostei imenso. Os tenrinhos portaram-se bem, ehehehe. (Eu estou no campeonato deles, sou de 75).
Uma grande iniciativa. Não acontecem muitas coisas na minha "aldeia"; tenho de as aproveitar quando há. A próxima conversa, em Novembro, é sobre AMOR e um dos oradores é o Sérgio Godinho.
Será o homem já um tanto velhote para falar do tema? :)
E agora mando eu uma pedrada (no bom sentido, claro): para uma conversa sobre sexo, convidavas só prostitutas e actores porno? :)
Abraço,
Rui Miguel Almeida
PS: Para o "mundo" eu sou o Rui. Adoro quando neste blog me tratam por Rui Miguel, faz-me lembrar quando a minha Mãe me chamava assim, já a levantar a voz. Era sempre sinal que tinha feito asneiras e ia sofrer as consequências...
Antonieta,
EliminarSe se vai estrear na escrita do Valter, talvez lhe recomende que escolha outro título. Espreite numa biblioteca onde more, se encontra algum. O meu favorito é "o remorso de Baltasar Serapião". Também é triste, mas é escrito num português arcaico e é uma obra-prima, na minha opinião. "O filho de mil homens" tem personagens memoráveis e é bem mais alegre, tem partes até de um grande humor.
Encontro muitos pontos em comum entre a escrita do Nuno e a do Valter, ambos têm uma prosa poética belíssima. Outros comentadores deste blog não concordarão, como saberá.
Boa descoberta, depois dê-me a sua opinião, ok?
Rui
Boa ideia o link. Não quero ter facebook.
EliminarObrigada, Rui!
EliminarVou tentar encontrar os livros mais antigos, mas possivelmente começarei pelo Desumanização, pois amanhã vou «à cidade» e ambos os hiper cá do burgo estão inundados com ele.
Depois digo se gostei...
Quanto ao SG, continua sempre em forma e «com um brilhozinho nos olhos», apto a falar de amor ou de qualquer outro tema.
Mas eu sou suspeita, pois ele é, juntamente com o Zeca, um dos ídolos da minha juventude.
:-)
Antonieta
Quanto o desconhecido não nos é neutro! Mesmo inadvertidos teimamos em encontrar-lhe uma linha de compreensão. Para ser nosso. O campo da estranheza é desconfortável. Mas o meu entendimento também estava um bocado lasso no "o mal aglutina". Ainda que seja verdade que junta pessoas, tanta vez não é o próprio mal mas o seu resultado a mão aglutinadora.
ResponderEliminarOs mandamentos...são todos bons. São normas ideais de que precisamos porque orientam. Que cumprimos por vezes ou a maioria das. E nem sempre por mal.
A fronteira entre bem e mal não é tão nítida como eles no-la fazem crer. É dentro de cada um que andamos com ela mais para a esquerda ou direita, a recuar ou a avançar.
Por vezes, penso se limitar o homem à obediência não contém menos responsabilidade que ousar fazer as próprias marcações; se Nietzshe quando cria o conceito de super homem não se refere a esse tipo de desobediência.
Mas não sei responder.
Extraordinário comentário Beatriz Santos
EliminarTambém gostei do comentário, Beatriz.
EliminarNão acho igualmente boa ideia que sejamos limitados à obediência e é isso que os Dez Mandamentos fazem. Li um artigo sobre isso num jornal católico alemão. Houvesse, em Portugal, jornais católicos como este, que tematizam, sem vergonhas, a pedofilia de certos clérigos, defendem os animais como membros de pleno direito da Criação divina e se perguntam se a linguagem usada nos Dez Mandamentos é adequada aos nossos tempos (o imperativo: faz/não faças, que nos limita à obediência).
Tlim, tlim (publicidade)
Por acaso (e isto deve ser telepatia) escrevi, ontem, um texto sobre este o tópico dos Mandamentos, que será publicado no meu blogue, na sexta-feira.
Tlim, tlim (fim de publicidade ;)
uma simples frase diz tudo sobre as pessoas.
ResponderEliminarUi! Sempre adorei opiniões definitivas e generalistas! (e fatídicas)
EliminarDiz???! Bolas. E aqui já escrevemos tantas.
Eliminarcaras senhoras, é tão bom estar bem-disposto. :)
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