Abstenção

Rui Zink publicou recentemente um artigo de opinião no jornal Público sobre a falta de crença de muitos jovens na democracia, jovens que, por isso, não iam às urnas (e que ele, como bom democrata, aconselhava logicamente a mudar de atitude). Não creio, mesmo assim, que a falta de fé na democracia seja a única causa da abstenção entre os jovens. Um dia destes, na FNAC do Chiado, estávamos em vésperas de eleições autárquicas, o Manel ouviu uma conversa entre dois rapazes que reproduzo aqui:


– Ó pá, tu amanhã vais votar?


– Eu? Não, não tenho pachorra. E tu?


– Eu tenho de ir, a minha mãe obriga-me.


– Obriga-te como?


– Ela é funcionária pública e quer que eu vá votar num tipo qualquer que é bom para ela.


– Ah, mas então porque é que não votas por SMS?


– Acho que não se pode.


– Hum... Que seca, pá.


Não vejo bem, em primeiro lugar, como é que um voto nas autárquicas interfere com decisões sobre leis que possam beneficiar ou defender funcionários públicos, mas nem é isso que está em causa. O ir votar para estes jovens tem peso de coisa chata – e o pior é que estão num espaço cultural, pelo que era de esperar que tivessem um pouco mais de informação e, sobretudo, de sentido crítico e vontade de mudança. Enfim, quantos casos destes haverá que vão fazer crescer eternamente os números da abstenção?

Comentários

  1. Impotência, protetorado, fado. E sobretudo ausência de uma liderança iluminada e respeitada em quem votar. Tudo isto justifica que não se participe nas eleições.

    Estamos há dois anos e meio obrigados a cortes e austeridade porque, segundo dizem os políticos no poder e os que nos comandam de fora, é necessário fazer baixar as nossas dívidas enquanto país (ou os défices resultantes de gastos incontrolados pelo nosso Estado).

    E depois o que vemos após a austeridade desenhada por este governo? O nosso défice é pior agora do que era antes do governo tornar posse. Dá para desconsolar.

    Eu voto sempre, mas compreendo os jovens que acham que tanto faz.

    Agora até chegamos ao cúmulo de vermos o homem que assinou à molhada uma miríade de PPPs que nos estão e vão escravizar financeiramente a longo prazo a dar entrevistas a fazer-se de vítima e a insultar tudo e todos.

    Que lata! Se o António Costa aparecer no lançamento do livro dele, estamos perdidos: o PS deixa de ser alternativa à incompetência atual.

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  2. Admira-me a ingenuidade da afirmação sobre eventuais benefícios para os funcionários públicos vindos das eleições e a sua associação com leis... A associação deve ser feita com clientelismo, amizades, preferências, favoritismos, e venham de lá mais sinónimos que cabem todos.
    Sobre a localização da rapaziada, uma coisa nada tem a ver com a outra... antigamente as gatas escolhiam o quentinho dos fornos a lenha para dar à luz, mas não era por isso que os gatinhos se transformavam em pães...

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  3. Também, com os políticos que temos...
    Também, com a imaturidade dos jovens...

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    1. A imaturidade dos jovems é compreensível com mães ignorantes...

      O mundo está a desabar. Aguente-se, Maria do Rosário!

      (estou só a brincar)

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    2. Na FNAC? devem ter ido comprar o telemóvel da última geração (é a crise...)

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  4. acho que a falta de crença é cada vez mais generalizada e não coisa apenas de jovens.

    e compreende-se.

    se somos governados há décadas por mentirosos, incompetentes e até corruptos, não vejo como é que se pode acreditar nesta gente.

    talvez esteja a ser inocente, mas acho que o acordo feito entre Rui Moreira e o PS, para a governação do Porto, é que exemplifica a democracia.

    é por isso que foram logo criticados pelos caciques do Meneses e até pela distrital do PS do Porto, que perde o seu espaço para criticar apenas por criticar, como tem sido a prática nacional nestas quatro décadas pela generalidade dos partidos quando estão na oposição.

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  5. António Luiz Pacheco23 de outubro de 2013 às 02:38

    Hum...

    Bem observado, sobretudo no tocante à sua observação particular sobre o personagem das PPP! Quem fala de direita pistoleira e cultiva a pose de caceteiro de esquerda, apoiado por verdadeiros díscolos que insultam toda a gente não são decididamente quem vai ser "grande líder", nem para os velhos, nem para a meia-idade e nem para os jovens.

    Não pretendo politizar o tema e nem o espaço, mas é inevitável a ligação, e temos de reconhecer
    que há uma absoluta falta de liderança natural!
    E é disso que precisamos: de quem nos envolva!

    À juventude faltam símbolos! Que os reúnam e os faça sentir como parte de um todo, com um desígnio ou um projecto comum e nacional.
    Não falo de marcas de roupa ou pranchas, mas de símbolos que lhes façam perceber que fazem parte de algo, que esse algo é uma sociedade e que os seres humanos vivem em sociedade para se apoiarem e se protegerem.
    Como para qualquer outro animal social ou gregário, a sua sobrevivência está no conjunto.

    Hoje pratica-se o egoísmo feroz e o individualismo oportunista, do mais-esperto ou do mais-forte.
    Não se premeia a qualidade e sim a capacidade.
    Não se cultiva o sacrifício, a entrega e a capacidade de sofrer! O objectivo é o imediato, o fácil, sem sair da sua comodidade.

    De quem a culpa?
    Pois de quem os educou assim: Nós!
    Reparem "a mãe obriga porque é bom para ela!".
    E se é mau para os outros? Não interessa... só quer saber dela, e é isso que está a passar ao filho, que vai assumir como valor aquela forma de pensar e de fazer. E repeti-la, pois é a sua referência!

    Como explicar aos jovens que a solidariedade não se limita ao seu grupo da escola, da rua, da praia ou do bar? Que é muito mais larga e profunda, pois se estende aos familiares (sobretudo aos velhos) aos vizinhos e ao país onde nasceram e foram criados. Que faz de nós uma nação... certo, de gente com muitos defeitos como os seus amigos do grupo, mas que é a sua gente e os que o apoiarão, quem o protege e ele tem de retribuir.

    Podem admirar-se alguns por eu ser monárquico, mas esclareço que sou não-folclórico, ou seja não sou defensor do beija-mão-real ainda que seja uma cerimónia bonita... mas para mim isso é mero folclore.
    Eu entendo no sistema monárquico justamente a simbologia do conceito de nação, de proteção de entreajuda, de um pacto social em que os mais fortes protegem os outros que em contrapartida os apoiam. Para mim é assim numa família (o núcleo da sociedade), tem de ser assim nas empresas e assim é a nação como conjunto das famílias e das empresas.
    É uma opinião... vale o que vale, mas a mim me basta e me satifaz. "Ele" também era monárquico!

    Aqui há umas semanas pus no facebook um filme onde se vê um grupo de forcados a proteger um companheiro caído e desmaiado, deitando-se em cima dele, sendo investidos e pisados pelo toiro. Para mim é e será uma escola de valores de amizade, entreajuda, sacrifício, de coragem humana e colectiva... daquilo que falamos e parece faltar!
    Como o é o espírito do Colégio Militar!

    E, veja-se que tanta gente pretende acabar com ambos, forcados e CM... porque representam talvez o contrário do que refiro acima, do individualismo, do egoísmo e do facilitismo.
    Estes são os 3 pilares de quem sabe que destruindo a sociedade humana tradicional humana, a dominará fácilmente.

    Perdoem a extensão e a ousadia. Estou ansioso por mais alguns comentários que prevejo Extraordinários...

    Saudações kaluandas de um emigrante, com 58 anos e em fim de vida útil, educado à antiga, e no Ribatejo, onde os homens eram ensinados a abrir os braços à vida e a apeitar as suas cargas como a investida dos toiros, talvez por isso capaz de sofrer, de ajudar e de não se vergar às dificuldades, quiçá por ter sido cozido com 11 pontos no queixo e a sangue frio na praça de toiros de Évora numa já longínqua tarde de Sol...

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    1. Aqui vai o primeiro comentário extraordinário:

      "escola de valores de amizade, entreajuda, sacrifício, de coragem humana e colectiva..." - a tourada e o Colégio Militar... para os homens, exclusivamente. Sim, que não estou bem dentro do assunto, mas parece que isso de acabar com o CM é por quererem admitir mulheres.

      Que esperava de mim, caro Pacheco? Quem vai à guerra... Não era assim?

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    2. António Luiz Pacheco23 de outubro de 2013 às 05:46

      Tem razão no que toca á parte da exclusão de raparigas no CM, mas só por uma visão extremista feminista... que não me surpreende, e até é uma das razões porque gosto de si!

      Correndo o risco de lhe desagradar, na verdade eu concordo que o CM seja só para rapazes, pois para mim ainda há e haverá sempre coisas de rapazes e de raparigas... por exemplo nós não podemos dar à luz!
      E, olhe que tenho amigas que são caçadoras e até pescadoras submarinas, por isso não sou um machista-extremista, apenas gosto e cultivo a diferença entre sexos. Para mim abrir a porta a uma mulher não é machismo e sim educação!

      Mas sei que você compreendeu o que no fundo quero dizer, sexismos à parte!

      De resto, isto será outra discussão, não nos afastemos do tema - não a estou a evitar, hein!

      Saudações kaluandas de 30º C que isso aí já deve estar por metade...

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    3. A opção por um colégio militar eu não a faria para os meus filhos. Nem de qualquer outro colégio interno. Porquê? porque bem ou mal - mas de certeza o melhor que sei - quero que a minha quota de responsabilidade na sua educação seja inteira; que não a aliviem ou pesem colégios internos e afins que se me substituam.

      Mas é mera posição pessoal. Nada tenho contra o Colégio Militar desde que seja sempre uma opção.

      Confesso que ão entendo o fincapé em que seja um colégio masculino. Não andamos todos juntos no mundo? Então...
      não consigo supôr que julgue que há valores só para homens e outros para mulheres. O mundo não é todo igual, mas em todo ele há homens e mulheres. E, se não haja, é um apartheid. Isso já acabou. Oficialmente.

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    4. Eu também gosto da diferença entre os sexos e aprecio maneiras de "gentleman";) Agora, dizer que a vida militar deve ser só para homens, aí, já ponho reservas...

      Divergências à parte, por aqui, o Outono vai mais quente do que o costume, temos mais de metade dos seus 30ºC (deve ser do calor das negociações para o Bloco Central; a oposição alemã será reduzida a 20% dos deputados). Mas normalmente, por esta altura, até costuma ser menos do que isso.

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  6. E porque não se vota por SMS?

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  7. Tento às vezes o exercício de me imaginar jovem, nascida depois de Abril. Com o direito de voto instituído. E tantas outras liberdade que não tivemos, falta que continua a condicionar a nossa visão de mundo. E concluo que as solicitações agradáveis são bastantes. Não estou a desculpá-los. Nada. Estou apontando o dedo aos educadores em primeiro lugar e a uma sociedade que supõe que basta disponobilizar, dar acesso a, informar, para educar. Mas educar - refiro-me à prática - nunca foi ler no jornal ou noutro lugar; não é, pelo menos no princípio da vida, tarefa solitária e ainda menos unipessoal. Para educar alguém é preciso que o educando respeite o educador e haja entre eles um laço de admiração, amor, etc. Ora, não se criam laços sem atenções demoradas; dá trabalho, implica conversar sobre, ouvir, explicar, instilar o bichinho da justeza e de outros valores humanistas. Em suma, levá-los a pensar. E, sobretudo, ser exemplo. Mas tudo isto gasta tempo. Demora. Todavia é o único garante de pais e educadores. E. Porém. Os ventos não sopram fáceis no pronto a vestir da vida. Que tudo banaliza.

    Por outro lado, Rosário, conheci tanto jovem que ansiava os 18 anos para poder votar! Tantos! É nesses que tenho esperança. Os outros acabarão por entender. Ou não

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    1. Aplaudo, Beatriz!

      Ser exemplo, conversar, ouvir, explicar, dar atenções demoradas... Dá trabalho, perde-se tempo, uma chatice!

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    2. Obrigada pela consonância, Cristina.
      É sempre tempo ganho o que passamos a ensinar a viver quem ainda não sabe, ou a quem perdeu traquejo.
      De tudo que ficou para trás o que mais lamento são as conversas que não tive, os filmes que não vi em companhia... porque a roupa, a casa, a rua, as flores, o diabo a sete. Pequenas parvoíces quotidianas a que nos prendemos sem razão. As pessoas são o único importante.

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    3. Apesar de todos os elogios, a posição de mãe-educadora é muito subestimada pela sociedade. Devia ser mais bem recompensada. Porque educar os filhos não é só alimentá-los e lavá-los. O Estado devia compensar monetariamente as mulheres que, voluntariamente, desistissem dos seus empregos e carreiras para educar os filhos. Sei que uma medida destas se prestaria a abusos. Mas, na minha opinião, era justa. Não há nada que pague o amor incondicional e uma boa educação, os verdadeiros motores de construção de uma sociedade melhor.

      E esta, hein, amigo ALPacheco? Eu a defender as mulheres que ficam em casa!

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    4. Se essa fosse uma opção dela creio que sim, pelo menos o ordenado mínimo mereciam :). Mas deixar-lhes algumas horas livres por dia não seria má ideia; Não perdiam o emprego - a profissão faz falta a vários níveis que não só o eonómico; e seria um factor de aproximação familiar. à semelhança do que se faz com a licença de amamentação. Os abusos acontecem sempre. Existem em todas as situações. portanto, são normais e no impeditivos das medidas.
      Mas isto é sonho apenas, que os tempos não estão de molde..

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    5. Sim, também concordo com uma flexibilização do horário de trabalho para quem é mãe. Afinal, nem todas as mulheres se realizam apenas no seu papel de mãe e dona-de-casa, o que se deve respeitar. E também as crianças devem aprender que a mãe tem direito a vida própria. Mas nunca esqueçamos que as crianças, além de serem o futuro, são o lado frágil, nesta situação, e a nossa sociedade está cheia de mal-amados, ignorados e desprezados, o que se manifesta em invejas, avarezas, prepotências e mais uma data de -ezas e -ências.

      Quando ainda vivia em Portugal (até 1992), uma mãe era má vista se descurasse as suas obrigações profissionais em favor dos filhos. Imagino a pressão em que algumas viviam (e ainda vivem). Mas reconheço que a situação portuguesa atual não está muito propícia a subsídios, ou propostas de flexibilização deste género. Havemos de o pagar caro! A crise continuará a influenciar o nosso país muito tempo depois de estar superada.

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  8. Ai ! Agora que vou a Cat lunia aprender gringoles.

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  9. Os valores são realidades históricas e como tal nascem, desenvolvem-se e morrem. Alguns deles contam-se entre os produtos humanos mais duráveis, alguns existem mesmo desde os tempos mais antigos sobre os quais dispomos de conhecimento do homem.
    Os valores que o Extraordinário Pacheco mencionou já se inscrevem na longa duração mas com a alteração das condições de existência do homem estão em vias de desaparecer da prática produtiva, migrando para campos de representação onde a maioria das pessoas os não reconhece conscientemente. Passam a ser um excelente material de literatura e de arte, lembremo-nos o que escreveu Hemingway ou pintou Picasso, por exemplo.
    As sociedades que conhecemos são sociedades de interesses. Atualmente os estados, acima de tudo. Hoje basta ouvir/ver as 1.ª s notícias para saber que só tratam de bens materiais ou da violência dos que foram excluídos deles. A representação política é uma representação de interesses, quem não se considera representado não vota. E se quiser fazer-se representar por outros motivos não encontra quem. O diálogo dos jovens é bem elucidativo. E a crise não é só dos jovens visto que os que não querem ser representados são cerca de metade ou mais.
    Como se constituirá uma sociedade sem ser em torno de bens materiais? - eis o problema que até hoje não teve solução e não vislumbro que a tenha nos tempos mais próximos.

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  10. Da democrática ditadura

    – Não tenho pachorra… E tu, vais votar?

    – Eu tenho de ir, a minha mãe obriga-me.

    – Hum... Que seca, pá.

    – Ela é funcionária pública e quer que eu vá votar num tipo qualquer que é bom para ela.

    – Acho que não se pode.

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  11. Rui Conceição Silva23 de outubro de 2013 às 11:19

    O meu avô paterno não sabia ler.
    A única coisa que sabia, que tinha aprendido nos poucos dias de escola, era assinar o seu nome.
    A escola, no seu tempo, era um luxo que os meus bisavós não podiam aguentar. Não pelos custos, mas porque os braços de um filho faziam muita falta no trabalho do campo.
    Mas acho que o meu avô nunca se importou muito com isso. Ele preferia descobrir onde ficavam ninhos e nascentes do que ver letras todas juntas, a complicarem-se umas às outras.
    Mas sabia assinar, o que já lhe dava alguma independência em termos de documentos.
    Depois do 25 de Abril, aprendeu como se votava.
    Quando o dia chegava, ia com o melhor fato e o melhor chapéu cumprir aquele acto tão distinto. Uma honrosa forma de fazer um Domingo.
    No entanto, toda gente descobria em quem ele votava. O meu avô não conseguia resistir a um documento tão importante, que merecia decerto uma assinatura, pelo que aparecia sempre um voto assinado com o nome "José Soares"...
    Confesso que é a forma mais engraçada de voto nulo que conheço.
    Muito melhor do que uma Abstenção.

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  12. Peço desde já desculpa pela falta de originalidade do meu comentário, mas gostaria de fazer minhas as palavras de Tonny Benn, um ex-político britânico:

    «Acho que a democracia é a coisa mais revolucionária do mundo. (...) Se se tiver poder, ele é usado para prover as suas necessidades e as da sua comunidade. E esta ideia de escolha (...) depende da liberdade de escolher. Se estiver coberto de dívidas, não tem liberdade de escolha. As pessoas em dívida perdem a esperança e as pessoas sem esperança não votam. Dizem que toda a gente deve votar, mas acho que se os pobres (...) votassem em pessoas que representassem os seus interesses seria uma verdadeira revolução democrática. Eles não querem que isso aconteça, por isso mantêm as pessoas oprimidas e pessimistas. Penso que há duas formas nas quais as pessoas são controladas: em primeiro lugar, assustando-as e em segundo, desmoralizando-as. Uma nação educada, saudável e confiante é mais difícil de governar. E acho que há um elemento no pensamento de algumas pessoas: "não queremos que as pessoas sejam educadas, saudáveis e confiantes, porque ficariam fora de controlo". 1% da população mundial detém 80% da riqueza. É incrível que as pessoas tolerem isso, mas elas são pobres, estão desmoralizadas, estão assustadas. E então, pensam que o mais seguro é seguir ordens e esperar o melhor.»

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