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Apaixonei-me na universidade por um poeta irlandês que recebera o Nobel nos anos 20 (W. B. Yeats) e, quando fui à Irlanda, cheguei a visitar em Sligo a sua sepultura num jardinzinho à roda de uma igreja, cujas árvores então praticamente despidas tinham, recordo, ninhos de corvos que pareciam desenhos a tracejado. O lugar era uma pintura – e, na Irlanda, acontece frequentemente tratar-se com bom gosto e carinho tudo o que diz respeito aos escritores. Foi sobre isto também que escreveu recentemente Miguel Esteves Cardoso (MEC) ao referir numa crónica a morte do poeta Seamus Heaney (outro grande), que tive a sorte de ouvir ao vivo na Feira do Livro de Frankfurt dedicada à Irlanda, em 1996, pois foi quem fez o brilhante discurso de abertura. Ao contrário dos ignorantes que nos governam no nosso rectângulo e desprezam na generalidade os artistas, os intelectuais e as suas opiniões, os dirigentes irlandeses, contava MEC, fizeram o elogio do poeta desaparecido no final de Agosto recitando versos dele de cor e chamando-lhe apenas Seamus, com a familiaridade que ele merecia. Foi em Dublin que visitei a primeira livraria aberta até à meia-noite, há muitos anos (nessa altura, nem havia centros comerciais em Lisboa) e que ouvi um trabalhador rural a quem pedimos informações na estrada falar de Yeats como aqui, se calhar, falariam de Toni Carreira ou, quando muito, de Amália. Um país que já teve quatro prémios Nobel da Literatura cuida, melhor do que ninguém, dos seus escritores.

Comentários

  1. Na única vez que visitei Dublin, há uns 5 anos atrás, fiquei espantado por descobrir, mesmo no centro da cidade (na praça Parnell, o herói máximo da independência), um Museu dos Escritores (sobretudo dos Irlandeses). Um museu vivo cheio de atividades culturais e com uma bela livraria onde se podia comprar, a preços módicos, edições populares dos clássicos da literatura do país.

    O nós termos em Lisboa uma Casa Fernando Pessoa (e várias casas-museu de escritores pelo país fora) dá-nos algum conforto. Já li algures que estamos a caminho de uma civilização pós-cultural, ou seja, que as novas gerações pouco se interessarão pela literatura, a história, as humanidades em geral, e viverão felizes tirando prazer apenas dessa grande sedutora que é a IMAGEM, na tv, nos smart phones, nos tablets, nos vídeos, no cinema. Não quero acreditar nisso, mas afinal até parece que as neurociências nos revelam que não podemos evitar desviar o nosso olhar para qualquer imagem passe à nossa frente, desde que tenha movimento.

    Se os votos são maioritariamente de cidadãos que encontram os grandes prazeres da sua vida intelectual em imagens trabalhadas de modo diverso, e não da literatura ou das humanidades, porque deveriam os políticos importar-se com a literatura ou com a cultura em geral?

    É geracional: basta comparar o estofo cultural (e o genuíno prazer do desfrutar a cultura) de um Mário Soares com o de um Passos Coelho (e até um Portas, que dizem ser culto e apreciar a cultura, nunca expressa esse seu pendor; estará fora de moda e, se calhar, até poderá ser prejudicial à sua imagem como político).

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    1. Que excelente análise a deste anónimo (só não digo extraordinário porque anónimo)

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  2. Na única vez que visitei Dublin, há uns 5 anos atrás, fiquei espantado por descobrir, mesmo no centro da cidade (na praça Parnell, o herói máximo da independência), um Museu dos Escritores (sobretudo dos Irlandeses). Um museu vivo cheio de atividades culturais e com uma bela livraria onde se podia comprar, a preços módicos, edições populares dos clássicos da literatura do país.

    O nós termos em Lisboa uma Casa Fernando Pessoa (e várias casas-museu de escritores pelo país fora) dá-nos algum conforto. Já li algures que estamos a caminho de uma civilização pós-cultural, ou seja, que as novas gerações pouco se interessarão pela literatura, a história, as humanidades em geral, e viverão felizes tirando prazer apenas dessa grande sedutora que é a IMAGEM, na tv, nos smart phones, nos tablets, nos vídeos, no cinema. Não quero acreditar nisso, mas afinal até parece que as neurociências nos revelam que não podemos evitar desviar o nosso olhar para qualquer imagem passe à nossa frente, desde que tenha movimento.

    Se os votos são maioritariamente de cidadãos que encontram os grandes prazeres da sua vida intelectual em imagens trabalhadas de modo cada vez mais sofisticado, e não da literatura, da arte ou das humanidades, porque deveriam os políticos importar-se com a literatura ou com a cultura em geral?

    É geracional: basta comparar o estofo cultural (e o genuíno prazer em desfrutar a produção cultural) de um Mário Soares com o de um Passos Coelho. E até de um Portas (que o MEC assegura ser muito lido e apreciar a cultura) que nunca expressa esse seu pendor; estará fora de moda e, se calhar, até poderá ser prejudicial à sua imagem como político...

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    1. Extraordinário Artur: Deixe-me dizer que além de gostar muitíssimo, como sempre, de o ler e apreciar a sua argumentação elevada e esclarecida, me atrevo a rematar que é do exemplo que fala (na Irlanda) que precisamos!
      Desse reconhecer e celebrar, mas também é preciso que as pessoas possam ter acesso ao artista... e à sua obra.

      Um abraço e bem haja!

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    2. Extraordinário António Luíz Pacheco, não podíamos estar mais de acordo: o acesso à obra é essencial ! Preciso é ser dada a oportunidade às novas gerações para se iniciarem no prazer de descobrir grandes livros, nem sempre fáceis. Na Escola, na família, no meio social em que se vive, incutidos por um ambiente pessoal, cultural e nacional que nos ajude a correr o "risco" de abrir livros. E a Escola atual está tão fraquinha em oferecer as ferramentas indispensáveis para se conseguir fazer da leitura das grandes obras a uma fruição prazenteira... E os pais, com vidas sugadas por este capitalismo selvagem que se vai instalando, não têm tempo. Nunca esquecerei que o primeiro livro longo que li, por altura do início da minha adolescência, foi o "Conde de Monte Cristo" porque o meu pai o lera e me o elogiara e eu então decidi lê-lo, e quando o fiz, o meu pai foi relê-lo para me acompanhar, comigo comentando a leitura durante meses, nessa que foi a minha iniciação à leitura de longo fôlego. Sem isso...

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  3. Peço desculpa pela repetição. Mas como pensei que a minha mensagem sem o email não teria saído, repeti-a com o email (também não gosto de usar o anonimato).

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    1. Peço desculpa pela repetição. Mas como fiquei embevecido com tão excelente análise saiu-me logo o comentário (bem me diz a minha mulher - assim não vais a lado nenhum-precisas de ser calculista e não ter sempre ocoração ao pé da boca...).

      Portanto ARTUR excelente análise. Parabéns!

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    2. Palavra de honra que não foi de propósito mas repeti o erro do Artur (há coisas do caraças...)

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    3. Adivinhou: "ter o coração ao pé da boca" é um defeito que me tem sido apontado ao longo da vida, e não só pela minha mulher. E que seguramente me tem prejudicado em ocasiões várias, mas com o qual morrerei. De um coisa estou certo: não tenho temperamento para desempenhar funções "políticas". Obrigado pelo seu comentário.

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  4. Hoje perante uma foto soberba intitulada de "Dil Dosti Dhadkan " em que aldeões Timorenses jogavam snooker numa mesa improvisada de barro, confirmei como tudo é possível no aparentemente impossível. A riqueza do mundo está de facto na nossa criatividade e capacidade de sonhar com pouco.
    Quem tem materialmente tudo já há muito perdeu essa capacidade de procurar o sonho.
    Desprezar os artistas, os intelectuais e as suas opiniões como fazem hoje os que desprezam um poder que não é seu, é de facto pobre na dimensão do sonho e do amor pelo outro.

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  5. é nestas pequenas grandes coisas, que percebemos o nosso distanciamento em relação aos países cujos governantes não têm medo da palavra CULTURA.

    quando temos um ministro da educação, que escrevia em tudo o que era jornais, dando uma de "intelectual" (com soluções para quase tudo...) e agora está a destruir a escola pública, está quase tudo dito.

    devia haver mais gente nos "poderes" a amar e a defender verdadeiramente a Cultura e a Educação, e muito menos pindéricos, que deviam conhecer os nossos poetas, para lá dos seus nomes e de frases escolhidas pelos acessores...

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    1. Um ministro da educação deste calibre, é um perfeito calculista, atenção e gente deste calibre é gente muito perigosa porque, acreditem que é desta massa que se fazem os abutres, os nazis, os exploradores todos aqueles vampiros que o poder gera...

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    2. Quando o Crato se pôs a perorar contra as calculadoras (no fundo contra a modernidade), adivinhei logo que não vinha aí coisa boa apesar da simpatia. Ficará na história como o ministro com apego pelas avaliações sem a respectiva tradução...
      O interessante nestas coisas é (e como somos voyeurs), ir percebendo as motivações de cada um pelo lugar de ministro: vaidade, ingenuidade, calculismo... Talvez um pouco de cada, numa mistura de que se fazem cocktails explosivos para a cidadania.

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    3. Extraordinário Luis Eme: Os políticos nem sequer conhecem ou reconhecem a "nossa" cultura... só querem fazer de nós um país moderno e desenvolvido... era preciso era saber o que é ser moderno e desenvolvido... se calhar é banda larga e autoestradas!

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  6. Hoje fez-me viajar... o que eu adoro a Irlanda! É o País para onde me mudaria de olhos fechados, só a Holanda chega lá perto, no encanto que tem a meus olhos.

    Concordo em absoluto com o que disse. Também estive no Museu que o Artur refere e deu para sentir o amor dedicado aos seus escritores maiores. O mesmo acontece com os músicos.

    O Oeste da Irlanda é mágico, aquela paisagem convida mesmo à oralidade, à partilha de histórias, à contemplação. E já agora, a uma boa guiness num pub a ouvir música tradicional.

    Que me lembre, Oscar Wilde é o único caso que não foi tratado em vida como o génio que foi merecia, pelo menos após terem vindo a público certas coisas, mas isso são outros quinhentos e não quero entrar em polémicas.

    Dá-se ainda o caso de uma das bandas da minha vida (waterboys) cantarem muito a Irlanda, até mesmo o "seu" Yeats.

    Grato por esta viagem mental em que me fez embarcar.

    Bom fim-de-semana,

    Rui Miguel Almeida

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  7. E como é bela a música da irlandesa ENYA

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  8. Realmente há uma grande falta de cultura em Portugal... todos se queixam e o apontam.
    Mas de qual cultura?
    A nossa afinal qual é? Fado e toiros? Sol e praia? Sardinhas e vinho tinto? Vira e rojões com vinho verde? Cante alentejano? Me perdoem, mas guiness e a música do Korrs, não é... e as verdes paisagens da Irlanda se encontram nas Flores ou na Terceira...
    Despreza-se a nossa e inebriamo-nos com a dos outros, é normal e fruto do nosso atraso, que nos faz deslumbrar com a luz - eu traça, sei bem do que falo!

    Mas pouco fazem pela sua procura e divulgação!
    Por ajudar os nossos a decobrir Pessoa, ou o encanto do cante, ao entardecer, numa taberna de Amareleja! Das paisagens da Lousã, entre matas sombrias e o cantar de ribeiros, por encostas bravias e olorosas do tojo. De toiros a correr na lezíria à vara larga. Da Rocha dos Bordões ou do mar a enrolar na praia da Calada, que convidam a filosofar...
    Falta de cultura? Ou falta de reconhecimento dela?

    E não temos escritores e tantos poetas que o sentiram e cantaram? Tantos pintores... até alguns músicos... onde estão eles hoje?

    Agora vou ser mau, e vou porque sou um outsider (ó Severino, quero dizer que não sou do meio!):
    - Em Portugal, os "cultos" e as pessoas da "cultura", vivem fechadas e viradas para si mesmas!
    Ser culto, cá entre nós é isso, é não se dar ao público em geral e manter uma distância altiva, superior, de uma importância autoconvencida. É ser anti-social, vivendo apenas num círculo muito fechado de iguais nesse convencimento de superioridade, desprezando tudo e todos que não pensem do mesmo modo ou pertençam ao grupo.
    É falar de forma incompreensível, criar obras que ninguém vê, lê ou entende, apenas para si mesmo e para a pequena elite que se admira entre si, e me pergunto se gosta mesmo aquilo que aplaude ou apenas finge de que gosta para manter o satus quo e o círculo fechado?

    Eu digo isto, porque não sou culto... sou apenas uma traça que anda por aí a apanhar o que consegue.

    Porque a cultura fecha-se e está fechada... e não culpem aos políticos, pois eles têm a mesma cultura que os cultos... a das torres de marfim, da distância e de viver outras realidades!

    Podem desancar-me à vontade... eu mereço.

    Mas notem que não estou a atirar aos Extraordinários... apenas a partilhar o que sinto!

    Saudações kaluandas.

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    1. tem toda a razão, "extraordinário" Pacheco.

      a cultura que tem mais visibilidade é essa de salão, da meia dúzia de iluminados (que gostam de olhar os outros de alto a baixo e de salas com direito de admissão).

      sem se aperceberem (digo eu, ingenuamente...) estão a fazer o "jogo do inimigo".

      mas nem tudo é mau.
      hoje felizmente dá-se mais importância à tradição, ao património, à cultura que os tais senhores chamam de popular.
      quase todas as Terras têm associações culturais, só que se forem de Gente Livre, são para "destruir", quanto mais não seja pela falta de apoio (começa logo na cedência de infrastruturas do "poder"...).

      é triste, que passados quase quarenta anos da Revolução de Abril, ainda exista por aí, tanto "cacique" com a mentalidade, "se não és por mim, és contra mim", como se não pudéssemos ser donos da nossa vontade.

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    2. Ó Pacheco

      Fazes bem em chamares por mim quando falas em outsider checkpoints /feedback teeshirt coffee-breack ..., porque aqui por estas bandas já sabes que o único camelo sou eu...

      Ainda ontem assisti a uma conferência (estariam para aí cerca de 50 camelos) e a dado passo da mesma há uma intervenção de uma americana que resolve dissertar em "Amaricano" para aí uns 15 minutos (sem tradução) e fui talvez, eu e um Espanhol, dos únicos camelos que saímos da sala...

      A quase totalidade dos camelos presentes na sala nem saberácompôr uma frase,mas percebem todos (sem qualquer pestanejar)"amaricano"...

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    3. Assim disse Joyce, a propósito: What clashes here of wills gen wonts , oystrygods gaggin fishygods ! Brekkek Kekkek Kekkek Kekkek ! Kekx Kekx Kekx ! Ualu Ualu Ualu ! Quaouauh ! Where the Baddelaries partisans are still out to mathmaster Malachus Micgranes and the Verdons catapelting the camibalistics out of the Whoyteboyce of Hoodie Head . Assiegates and boomeringstroms . Sod's brood , be me fear ! Sanglorians , save ! Arms apeal with larms , appalling . Killykillkilly : a toll , a toll .

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  9. Dublin, como Estocolmo, como S. Paulo, como certamente muitas outras cidades, nas quais incluo Lisboa, Porto, sabem guardar e acolher os bocados de história que se transformam em poemas, em telas, em partituras e outros gestos e manifestações da alma. Já certamente os países em que situam, se compõem de cidadãos diferentes em suas exigências e perspectivas. Diferentes mesmo. Muito diferentes. Diferentíssimos.
    Entre a lucidez de uns e a deprimente ausência de outros .... se situam Yeats, Seamus e Toni's!

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    1. Ó extraordinário João Pais, quem é o Toni's? é o que jogou no benfica? é o das cantigas de amor? referes-te ao Toni de Matos (se calhar este não sabes quem é)? Fiquei curioso e como quero sempre aprender, aprender, aprender agradeço a tua ajuda.

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    2. É o Toni Silva... o da música RÓ.

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  10. E numa de sinceridade, vou acrescentar, que este Extraordinário Blog, é o exemplo contrário daquilo que antes critiquei:

    - Aqui, gente de cultura e da cultura literária, abrem o seu livro a traças literárias como eu, fazendo assim com que me eleve, pelo que aqui sempre aprendo e me informo.

    Faz-se portanto cultura, no seu melhor e isso tem de ser realçado!

    Pela minha creiam que sou profundamente grato à NEA e aos demais Extraordinários que investem o seu tempo e me aturar e cultivar!

    Saudações kaluandas.

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  11. Há tantos tipos de cultura...

    Se calhar a Maria do Rosário Pedreira está a falar da dita cultura erudita, não?

    Porque é que os estes políticos hão-de querer alguma coisa com essa cultura?

    A maior parte da geração actual não a percebe. Nunca me hei-de esquecer do "LENDÁRIO" Concerto para Violino de Chopin - O Santana Lopes jura a pés juntos que existe e que, como se não bastasse, é a sua peça musical favorito.

    Se calhar foi para a "Night" bebeu uns copos a mais e depois... Depois já não havia condições para uma entrevista.

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  12. Tem-se falado muito do Seamus Heaney e bem. É pena é que o nosso mercado editorial venere certos autores, mas depois, na hora de publicar, prefira outros, porque só isso pode explicar o facto de actualmente não haver nas livrarias um único livro editado em Portugal do Seamus Heaney. Houve 2 ou 3 edições no passado, mas que estão actualmente absolutamente esgotadas. Em Portugal ser Prémio Nobel não é grande coisa!

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    1. Antes de os portugueses começarem a ler Seamus Heaney todos deveriam conhecer o grande ANTÓNIO ALEIXO.

      Mas alguém conhecia Seamus Heaney, oiu sequer alguém teria jáouvido falar, para além de meia dúzia de sábios (bem contados)...

      Tenham pena de mim...

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    2. Mas a questão é: quem quiser ler António Aleixo pode fazê-lo, porque há pelo menos 2 livros da Casa das Letras que se encontram pelas livrarias. Se eu quiser ler Seamus Heaney (que quero!) e o quiser fazer em português, então tenho de ficar a querer, porque não há.

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    3. Mas ó João penso eu que, à partida, quem lê Seamus Heaney quase de certeza que o irá ler no original (poderei estar a pensar mal, mas o elitismo inerente a isso me conduz); atenção que eu ignorante, totalmente ignorante em Seamus Heaney me confesso (só ouvi falar em Seamus Heaney depois da sua morte)!

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    4. Compreendo o que diz, mas haverá também certamente quem o queira ler em português (é o meu caso) e não será do interesse das editoras portuguesas seguir essa lógica de pensamento, porque por esse andar mais vale riscarem todos os autores ingleses.

      Eu sei que posso ir a Amazon e ao Bookdepository e encomendar os livros do Seamus Heaney que quiser, mas a questão é: se nos damos ao trabalho de traduzir tanta coisa má, porque não traduzimos também as boas? O facto de termos grandes autores traduzidos na nossa língua Seamus Heaney era considerado um dos maiores poetas vivos) não será também um sinal de civilização? Mas sim, estamos em Portugal, por isso expectativas baixas.

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    5. Eu não sou um leitor de poesia, daí poder estar a ser injusto ao pronunciar-me sobre este assunto. Uma coisa retive e devo dizer-te João que concordo em absoluto contigo:

      -se nos damos ao trabalho de traduzir tanta coisa má, porque não traduzimos também as boas?

      E ainda outra:

      já me aguçaste o apetite para conhecer Seamus Heaney.

      Um abraço e bom fim de semana

      Diz-me aí o último livro que gostaste mesmo-para ver se hei-de ou não ler Seamus Heaney.

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    6. A questão é exactamente essa, da qual de resto resulta a minha frustração: não li nenhum livro dele porque não encontro nenhum em português e confesso que, embora esteja bastante à vontade no inglês, temo que o nível linguístico deste nível de poesia esteja bastante acima das minhas capacidades. Estou na esperança que a Relógio D'Água reedite o livro que publicou há uns anos, mas acho que não vou ter sorte

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  13. Enquanto a cultura não entrar dentro das práticas quotidianas, pouco se avança: não se estima o desconhecido. Pergunto-me por vezes se o pontilismo cultural em que vivemos e a cerca em que se mostra são suficientes para ser parte da cultura - se afectam o estar de um povo, se fazem parte dele de alguma forma - ainda que definam uma forma cultural.

    Morrem escritores e nem o nome no telejornal. Ou apenas uma referência. Antigamente procurava-se o que houvesse sobre ele/a em arquivo e passava-se esse programa. Mas hoje, as telenovelas não podem ser alteradas, os jogos, os concursos. É tudo mais imprescindível e necessário do que uma homenagem a quem se legou em arte. De palavras, gestos, canto, ou o que seja. A arte torna-nos melhores, apela a um lado bom e humano e chega a transfigurar a nossa realidade. Desatino desta negligência educacional.

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  14. Por falar em cultura e em livros, atrevo-me a sugerir uma vista de olhos em:
    http://livrosaospedacinhos.blogs.sapo.pt/

    onde vou mantenho memórias de livros que não quero perder. Sem opiniões ou críticas.

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  15. Caríssimo ASeverino, antes de mais permita-me a ousadia de çhe pedir para me satisfazer a curiosidade e perguntar-lhe o que de extraordinário terá visto em mim. Parecendo fútil o pedido, creia que o não é ... sempre dará para, naqueles dias de menor fulgor na disposição, arribar um pouco os neus níveis. Quanto à identidade do Toni, aqui tenho de dar a mão à palmatória e arrepiar-me com o apóstrofo que por ali coloquei e que poderá ter deturpado o sentido da coisa. Era ' Tonis ' assim mesmo, sem vírgulas de 1º andar, representando apenas Toni no plural. E aqui, respondendo-lhe - e de caminho ao anónimo das 17,32 que nos traz o impagável HJ e seu personagem roqueiro - deverei dizer-lhe que se calhar até sei quem é o Toni de Matos, como se calhar sei quem é o Toni do Benfica, e o Blair da Inglaterra, e o Soprano que recentemente partiu. Como sei ainda quem é o Toni que era o único burro que andava para trás num lugarejo para os lados de Santarém e que por isso ganhou fama de ser do Entroncamento. Ora .. ainda que sabendo de todos estes Tonis ( agora sim não cometi o pecadilho do apóstrofo ) o que eu referi mesmo e lhe suscitou dúvidas foi tão somente o que a própria autora do post nos trouxe, e que talvez por isso mesmo lhe tenha escapado.
    Deixe-me ajudá-lo:

    ' Foi em Dublin que visitei a primeira livraria aberta até à meia-noite, há muitos anos (nessa altura, nem havia centros comerciais em Lisboa) e que ouvi um trabalhador rural a quem pedimos informações na estrada falar de Yeats como aqui, se calhar, falariam de Toni Carreira ou, quando muito, de Amália. Um país que já teve quatro prémios Nobel da Literatura cuida, melhor do que ninguém, dos seus escritores. '

    Afinal a solução estava dentro de casa.
    Uma vez mais grato pelo elogio inicial, saiba-me à disposição para outras dúvidas,
    Atentamente,
    João Pais, o extraordinário!

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    1. Obrigado extraordinário João.
      Realmente quanto mais aprendo mais alargo o campo da minha ignorância.

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    2. Excelente definição Severino! É isso que devo à leitura... seja ela em livro, seja ela num ecrã ou qualquer outro meio. Cada palavra nova, cada aprendizagem nova, afasta o nevoeiro de um mapa infinito pondo à mostra caminhos até agora nem imaginados.

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    3. Eu é que lhe agradeço ASeverino. É um gosto trocar ideias, palavras e confissões consigo. Quanto a campos de ignorância, espero não desapontá-lo, mas o meu é maior que o seu!

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  16. Moro numa aldeia. As noites no Inverno são tristes, sentem-se as almas de outros tempos passeando lá fora. Pouco há para fazer. Ver televisão. Ir ao café e arriscar a chuva e o frio. Ler um livro. Conversar em silêncio com a lareira, talvez com rostos que ela desenha.
    No Verão, há mais casas com luz. Parentes que vêm de França, da Suíça, do mundo.
    E volto ao mesmo café. Encontro a segurança da minha harmonia com a terra, com as gentes, com o cheiro dos pinheiros e dos eucaliptos.
    Nos rostos que me acolhem, não vejo vontade de ler livros. É para muitos deles um objecto estranho.
    Familiar, é a enxada, o sacho, o poço que pode secar, os incêndios que poderão destruir uma década de pequenos sonhos.
    No entanto, lá longe, há a cidade e a vila grande.
    Lá, há gente que lê. Gente que viaja pelo mundo através de livros. Que descobre horizontes novos dentro de si.
    Alguns deles são avós. Avós que foram sempre muito letrados, cultos e lendários, geração após geração.
    Mas eu não tive avós desses. Tive avós que apenas aprenderam que a geada é assassina e que a água é a fonte de toda riqueza da terra.
    Só me ensinaram amor. Não sabiam uma única letra do alfabeto.
    Mas ensinaram-me as coisas mais bonitas da minha vida.
    É por isso que fico triste quando aqui se apregoa que o povo português não é culto.
    Quando se diz, quase como uma lei, que quem não lê não sabe nada da vida, do mundo, dos afectos. Uma pessoa que sabe tudo da terra também pode considerar os citadinos como analfabetos da natureza...
    A cultura não é património somente de certos saberes.
    Eu leio muito. Adoro ler. Os livros são dos meus melhores amigos.
    Mas não peçam ao nosso povo que comece todo a ler de repente.
    Porque, na realidade, o povo simples não sente falta disso.
    Creio que, antes de querermos que as pessoas leiam, temos de aprender talvez a falar para elas.
    Talvez os nossos escritores não tenham ainda encontrado a maneira de lhes falar.
    Saiam dos salões.
    Saiam das tertúlias.
    Misturem-se com quem tem muito, mas mesmo muito, para ensinar.
    Por mim, todos os dias na aldeia descubro coisas novas.
    Tenho saudades dos meus avós que não sabiam uma letra. Só sabiam dar amor.

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    1. Rui,

      penso que ninguém discorda do que escreveste.

      o problema é o facto de quem governa tentar classificar a Cultura como uma coisa de segunda, cortando apoios ou desvalorizando o seu papel na sociedade.

      isso só acontece porque têm medo que as pessoas comecem a pensar pela sua própria cabeça e a questioná-los.

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    2. Para o Rui:
      Gostei da sua intervenção e destaco:
      …(…)“Por mim todos os dias na aldeia descubro coisas novas”…(…)
      Parafraseando Fernando Pessoa,
      “A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias. Cada coisa é o que é, e é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra e quanto isso me basta”
      Saudações para todos
      Carlos Reys
      Setembro.20.MMXIII

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    3. Bonito. Fez-me lembrar Saramago em Oslo.

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    4. Dir-se-ia que o Alberto Caeiro reencarnou no extraordinário Rui Conceição Silva :-).
      Bom, a propósito de livros e cultura e cultura das pessoas e por aí, deixo-vos esta:

      Dou aulas de Matemática numa Universidade e no meu departamento sempre que um colega se doutorava os restantes ofereciam-lhe uma pequena lembrança. Estávamos, num pequeno grupo, nessa conversa, sobre o que haveria de ser, e tal, e alguém sugere:
      "- Poderia ser um livro. Há tantos livros interessantes e bonitos", ao que uma colega, também professora de Matemática, também da Universidade, responde,
      "-Livros? Na, não gosto de livros."



      Quanto à minha Avó. Não sei se sabia ler e nunca precisei de saber. Era só amor, cuidados e mimos.

      Abraços para todos,
      G

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  17. Rui - conseguiu comover-me.
    Também nasci e fui criada numa aldeia onde os livros não tinham lugar.
    Mas havia histórias ao serão e noites estreladas que faziam sonhar.
    Agora tenho nos livros amigos, mas acredite que se pudesse trocava-os, pelo menos às vezes, por amigos mais reais que descascassem comigo o milho e me contassem mais histórias do antigamente, no terraço ao luar.

    Sobre as artes e os artistas, ocorre-me dizer que gostei da forma como vi em Salvador da Bahia os artistas serem tratados, como se fossem da família, sem deferências nem idolatrias, mas com respeito e admiração pelo seu trabalho.

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  18. Bonito encerro, este...
    Afinal falamos todos a mesma língua... a dos livros que todos amamos e onde estão tantas aldeias e os avós do Rui.
    Assim, e afinal sinto que não estou sózinho!

    Saudações kaluandas a todos.
    E uma boa noite!

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