Bandidos
Naturalmente, porque publico muitos autores estreantes, também me interesso pelos que publica a concorrência, sobretudo se os críticos os referenciam como excepcionais. Já não sei quantas, mas eram muitas as estrelas com que os jornais classificavam a obra de estreia de Rodrigo Magalhães, com o estranho título de rima falsa Cinerama Peruana, um conjunto de três histórias que se cruzam, mas não vale a pena dizer exactamente onde, porque as arestas podem tocar-se, mas também se afastam por fricção. A aparente simplicidade da linguagem usada pelo autor é, de resto, contradita por uma complexidade que é certamente deliberada e desafiante quase sempre (quando não o é, o leitor perde qualquer coisa, e o que vale é que já ganhou o equivalente). Nestas três histórias, jogam-se os destinos de gente que mata por prazer: um aprendiz de alfaiate com manias de ensaísta, dois gémeos de sexos diferentes (ou não) e, no último conto, que é o mais substancial e dá nome ao livro, uma série de pistoleiros que tão depressa estão ao lado do mestre como lhe querem suceder na liderança do grupo. Bem escrito, sem dúvida, com um certo tom de Bolaño (houve quem falasse igualmente em Carver, eu não encontrei assim tantas semelhanças), numa passagem ou noutra, confesso, apeteceu-me desligar o complicómetro, mas acho que estes bandidos merecem atenção por parte dos leitores. Para quem disparou pela primeira vez, como Rodrigo Magalhães, o tiro (mais ao estômago do que ao coração) foi certeiro. Os vivos ficam à espera do próximo ataque.
Como é possível publicarem-se tantos livros em Portugal? todos os dias...
ResponderEliminarÉ mesmo para queimar (autores e leitores).
Por mais leitores que houvesse em Portugal (e não há) seria extremamente difícil comprar tudo o que sai...até porque temos tanta coisa para ler....e não podemos obviamente ler tudo.
Atéquenfim!!!!
ResponderEliminarÓ António Severino, eu já me interroguei várias vezes sobre essa Extraordinária constatação, pois se for 30 dias à livraria... em 30 dias encontro novos autores e novas publicações!
Sendo bons, não seria de começar a exportar?
Ou seja, a traduzir e a publicar pelo Mundo?
Já sei... não é assim tão simples, os mercados e tal... ou seja, então cá vale tudo?
Somos um povo de escritores, tá visto... e não o sabíamos...
Saudações de Nuanda!
Ó Pacheco qualquer dia vou aí ver-te (tenho aí amigos no Namibe-pelo menos oiço-o falar no Namibe...não faço ideia onde fica)...
ResponderEliminarAnda Pacheco (lembras-te desta)
Anda tu... cá!!!!
EliminarEheheh!
Namibe, é a antiga Moçâmedes... boas e belas praias selvagens, uma paisagem rude, árida mas encantadora pela sua braveza!
Não te arrependerás... "chupas" umas cucas e comes caranguejo!
Um abraço!
O que MRP chama de rima falsa, as gramáticas, pelo menos as do meu tempo, chamam de rima toante (os sons vocálicos são os mesmos desde o ataque, ou seja, desde a vogal da sílaba tónica).
ResponderEliminarEu prefiro-as às rimas consoantes, aquelas que MRP chamará, presumo, de rimas verdadeiras. Mas nem acredito que o autor do livro tenha dedicado um segundo à questão. Apenas deu o título que tinha a dar e não lhe soou mal.
Já agora, um poema de que gosto muito. do Caminha, e que está em rima toante:
Sei que às vezes abuso da
palavra amor - mas à
noite viajam sem bússola
idas sem volta; e há
rumos sem norte quando
na minha boca és tanto.
(http://ocasosluiscaminha.blogspot.co.uk/2013/05/esta-palavra-amor.html)
Repare-se como é tudo rima toante, até "abuso da" com "bússola".
Hum... realmente não gosto desta poesia!
ResponderEliminarPerdoem-me a franqueza...