Primeiro balanço
Prometi que voltaria ao assunto da Nova Narrativa para a Europa – e tenho andado a adiá-lo porque, por mais tempo que passe, a verdade é que não consigo processar o acontecimento e chegar a uma conclusão que me convença. Fui para esse debate europeu à espera de ver serem tomadas decisões ou anotados os contributos de peso, mas senti que, por muito interessante que fosse a ideia de construir uma Europa mais humanista e cultural, não se foi além das palavras. Houve intervenções de que gostei (a melhor foi a de um contador de histórias búlgaro convidado a falar – a maioria dos presentes, como eu, limitou-se a ouvir, até porque as intervenções não podiam ultrapassar um minuto porque a sessão começou atrasada), mas ficou bastante claro no discurso de Durão Barroso que a Comissão Europeia pede a ajuda dos intelectuais, artistas e cientistas para escrever esta nova narrativa, mas não parece disposta, por sua vez, a apoiá-los. E, além disso, pareceu-me feio que, enquanto o Primeiro-Ministro da Polónia falava (era o anfitrião), o português estivesse sempre a ver mensagens no telemóvel (bem sei que tem muitas outras responsabilidades, mas caiu-me um pouco mal) e que, por sua vez, Donald Tusk abandonasse a sala assim que Durão Barroso acabou o seu discurso e começaram os debates (também será um homem ocupado, mas se eu convido alguém para minha casa não me passa pela cabeça ir-me embora). Bem, se calhar também eu estou a ser mal-educada, dizendo mal da «festa» para que fui convidada; voltarei, portanto, a esta reunião aqui no blogue quando tiver lido umas papeladas e umas notas que reuni sobre a matéria, até para não ser injusta ou precipitada nos meus juízos. Contudo, a quente, a sensação com que fiquei é que estes encontros sucedem porque a cultura tem de fazer parte da agenda da Comissão, mas se deles nascerá alguma coisa de interessante e benéfico, ai isso, francamente, já não sei.
Podia aqui deixar apenas o comentário de que estou chocada, mas não o farei, simplesmente, porque não estou. Este tipo de cenário que a anfitriã deste espaço e convidada para o evento descreve em nada me choca. Permitam-se brevemente explicar porquê: Há uns anos atrás fui durante 4 anos presidente de uma Associação de Pais e durante a minha prestação como mãe voluntário para o efeito, fui dezenas de vezes a reuniões com presidentes de Câmara, Presidentes de Junta, Presidentes disto e daquilo (pagos, eu voluntária a defender uma causa) e por demasiadas vezes fui confrontada com esses tipos de comportamentos desrespeitosos. Numa das reuniões a presidente de Câmara de Leiria, Isabel Damasceno, deu-se ao desplante de, em plena reunião, sacar de uns rebuçadinhos mentol (desses que fazem muito barulho ao desembrulhar), olhar a janela e comê-los enquanto havia pessoas que lhe dirigiam a palavra. Ora aquilo provocou-me uns nervos tão grandes que quando chegou à minha vez de falar, agradeci-lhe todo o respeito que mantinha pela cidade e que naquele momento acabara de demonstrar, disse-lhe educadamente mais umas tantas coisas e antes de lhe virar as costas para sair, pedi-lhe que não se desse ao trabalho de responder que eu não ficaria para ouvir. Atrás de mim saíram os restantes presentes.
ResponderEliminarIsto é um pequeno exemplo (minúsculo comparado com a Europa) que mostra como se gerem os políticos no que toca a temas que em nada interessam, ou que tão somente precisam de ter data de registo... A mim esta gente já não me convence em nada, mesmo que venham com paninhos mansos; desta é que é... Não é!
Claro que a esperança não é coisa de morrer à primeira, ainda assim... a minha já se vai definhando à algum tempo.
Um abraço,
Carla Pais
Talvez seja defeito meu, mas não vi na imprensa, telejornais, etc, referência a esta sessão de arranque do novo programa da EU, “A New Narrative for Europe”, iniciativa que Durão Barroso havia anunciado como determinante para o futuro da Europa, pois que, segundo ele, esta “não quer ser só uma união económica, como até aqui, pelo contrário, considera a cultura um valor nuclear e um elemento unificador da integração europeia. Logo, é preciso que se escreva uma nova narrativa para a Europa, baseada numa perspectiva mais humanista”.
EliminarAguardemos que Maria do Rosário serene, consulte as papeladas e os apontamentos, relembre os contactos que fez, pondere o que lhe palpitou, avalie as tendências que lhe pareceu estarem lá representadas e serem consistentes – a ver se acha que nas próximas sessões haverá hipótese de isto ganhar uma maior importância, como seria desejável.
O mais que posso sugerir é que, para a próxima sessão, leve na mala uma embalagem de rebuçados de mentol, que limpam a garganta e clarificam a voz – e, discretamente chupados alguns, lhes diga lá, alto e bom som, que a diversidade / fraternidade cultural da Europa é o trunfo que, para o bem de todos, está na altura de ser jogado, como contraponto de equilíbrio à união meramente económica e cegamente controlada pela alta finança.
Pois não foi isso que Durão Barroso anunciou? Ou era apenas retórica?
Maria do Rosário: dê-lhe alguns rebuçados de mentol e desligue-lhe o telemóvel, a ver se ele desemburra e assume isto a sério.
A tal conversa de ervanária e os camelos a pagarem...
ResponderEliminarHummm...nada que não antevíssemos, mas pensávamos que podia haver uma luzinha ao fundo. E afinal, parece que não.
ResponderEliminarO problema de muitos pensadores/criadores/impulsionadores de Cultura é não perceberem que a dita se encontra, na lista das prioridades humanas, nos níveis mais elevados; ou seja, depois de satisfeitos muitos outros desejos/necessidades cuja prioridade se sobrepõe.
ResponderEliminarSe é verdade que sem um pensamento humanista seríamos muito mais o que realmente somos: Homem Animal, mais verdadeira se torna a imperiosa necessidade de mitigar, antes de mais, as necessidades básicas de qualquer povo. Ah, e não esqueçamos o resto do Mundo! Apesar de tudo, ainda vivemos numa redoma. Numa população mundial a rondar os 7 mil milhões de almas... e de corpos, somos uma minoria privilegiada... Com tempo para pensar na Cultura e com telemóveis a distraírem-nos dela...
Mas não posso deixar de salientar a honestidade intelectual da extraordinária Maria do Rosário Pedreira
ResponderEliminarObrigado Maria do Rosário -é preciso tê-los no sítio, passe o desadequado.
Lá está, se por exemplo em vez da Maria do Rosário tem ido o 575 teríamos de abrir as "ORELHAS" para ler o relatório do calculista sobre o assunto-era capaz de dar um romance, quiçá...
Foi para cumprir agenda?
ResponderEliminarTalvez... também não acredito neles e nem na sua Europa, eu sou um iberista, um Atlântico! Virado ao Sul e ao Sol!
Nunca me ocorreu emigrar para a Europa...
Aguardemos então!
Saudações kaluandas.
Não há actualmente na Europa uma Nova Narrativa. O que há hoje é um requentar da velha! E uma ameaça grande, pois hoje a Europa está no ciclo baixo da história.
ResponderEliminarHum... o assassinato de um chefe de estado ou político faria rebentar alguma coisa????
ResponderEliminarPor acaso estou a pensar em vários candidatos... eheheh!
Mas não vou divulgar, claro... ou ainda sou posto a prémio!
Ao ler o interessantíssimo relato da Maria do Rosário, saiu-me um desabafo: graças a Deus que temos tempo para pausada e lentamente ler livros extraordinários, sem andar a correr de reunião para reunião, perdendo a vida entre gente super-importante e super-atarefada !
ResponderEliminarE vai uma pessoa de Portugal à Polónia, pelos vistos, para nada! Aviões no ar, a poluir o planeta, despesas sem fim e uma quantidade de tempo que podia ser aproveitado para coisas mais úteis.
ResponderEliminarNão estou a criticar a Maria do Rosário (claro que qualquer um de nós aceitaria um convite do género, é mesmo uma obrigação), mas o sistema que cria aberrações destas!
É... as grandes conferências/os grandes encontros normalmente dão nisto, seja na academia, nos grémios, nas cimeiras xpto e outros etcs. Porém, depois de bem espremermos a vivência da coisa lá chegamos à conclusão de que, afinal, sempre aproveitámos uma ou outra coisa.
ResponderEliminarOu seja, é aqui que estão algumas (algumas!) das verdadeiras gorduras do(s) estado(s) - e como a supranacionalidade é um remake dos mesmos!
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