Performance

Há uns dez anos fui a um festival de poesia numa pequena localidade do Sul de França. Era suposto recitarmos pelas esquinas, em parques onde os ouvintes se deitavam em cadeiras reclinadas ao sol, junto de lagos cristalinos acompanhados por músicos e sentados a mesas toscas colocadas no meio de belas paisagens. Foi bonito – e as participações eram, normalmente, discretas, mas recordo-me de uma poetisa francesa (o nome varreu-se-me) que tinha um vestido branco largo e transparente do qual pendiam rebuçados e croissants que ela desafiava o público a arrancar e comer durante a sua performance. Em Portugal, este tipo de actividade já tem uma competição: chama-se Poetry Slam e convida conhecidos e anónimos a dizerem num palco textos da sua autoria de uma forma artística. O espectáculo aconteceu recentemente num bar lisboeta e contou com a criatividade de muitos anónimos que, em três minutos apenas, tinham de mostrar o que valiam (como autores e intérpretes) perante um júri constituído por pessoas do público e também Pilar del Río, J. P. Simões e o jornalista Nuno Miguel Guedes. Os brasileiros, talvez por serem mais descontraídos, arrancaram boas pontuações e, ao que parece, grandes gargalhadas (dedicando-se, entre outras coisas, a fazer odes à vagina e a poetar sobre a flatulência), mas a vitória coube a um contador de histórias profissional (a experiência ainda conta nestas coisas). A sala esteve cheia e houve todo o tipo de performances. Fiquei com pena de não ter assistido, mas curiosa sobre este Poetry Slam. Para o ano há mais.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco19 de julho de 2013 às 02:16

    Interessante!
    Poetry slam, uma espécie de jam session?
    Hum, mas não é um bocadinho blazée? Snob?

    Uma boa iniciativa sem dúvida, mas divulga a peosia de facto? Ou pelo que descreveu apenas a mantém no seu circuito, fechado e um pouco elitista?

    Em contrapartida, essa iniciativa de declamar poesia nos jardins, estufa-frias ou perto de lagos públicos, miradouros... me parece mais "viva" e atractiva, sobretudo se em locais bucólicos ou intimistas, onde haja pessoas que descontraem, particularmente namorados ou de alguma forma quem se encontre num estado de sensibilidade e receptividade, como aliás já vi em várias cidades do Mundo.

    Mas sou totalmente ignorante no que concerne à divulgação cultural... as minhas noções são sobretudo de fomento agrícola e estensão rural.

    Saudações kaluandas

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  2. Já vi acontecer algo do género em bela noite em Paris junto às margens do rio, onde toda a gente passeia e namora descontraidamente... a luz branda que se estende pela cidade de noite também ajuda a recriar momentos de poesia, talvez por isso, o grupo que se dedicava a clamar, estivesse rodeado de gente serena que bebiam as palavras como quem bebe sentimentos. Gosto muito de escrever poesia (muito mesmo) no entanto não sei se saberia algum dia clamá-la. É que uma coisa é escrevê-la no silêncio das folhas, outra é dar-lhe voz. A voz certa... Este tipo de citações feitas no meio da rua são inesquecíveis. Talvez um dia ganhe coragem e dê timbre poético à minha voz muda.

    Abraço e bom fim de semana,
    Carla Pais

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    1. Talvez posam ser outros a declamar os seus poemas :) ter voz de poesia não obriga a ser poeta. E o inverso. Mas é verdade que um poema dito com alma mostra o sentimento e a emoção tão descarnados que julgo até nem o poeta assim lhes conhecia o intenso.

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  3. Temos o hábito dos estrangeirismos - contra mim falo - . E não sei bem se isso que se passou em Portugal tem o mesmo objectivo que a tal sessão campestre em França. A verdade é que nestas coisas da cultura, noto noutros países um público heterogénio e embevecido na assistência o que sinaliza hábitos culturais. E em Portugal uma elite, ou, se quiser, minoria, muito adstringente; bate palmas na hora certa, com o calor certo. E até tenho notado mais: os entusiastas, que se levantam, assobiam, atiram bravos, muitas vezes não são portugueses ou são estrangeirados.

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    1. Beatriz, concordo com os seus dois comentários... Quando se ouve clamar poesia em voz alta, na voz certa, a bravura dos sentimentos que se difundem no nosso íntimo é de facto desconhecida até àquele momento...
      Quanto ao elitismo em Portugal: totalmente de acordo e por viver no estrangeiro, posso, agora, comprová-lo por experiência própria. Aqui por terras de França o publico que assistia, contemplava a aplaudia as vozes dos poetas eram muito diversificadas... Muito mesmo. Respira-se naturalidade e pluralidade. A poesia, neste caso que falamos, não é coisa para gente especifica como inocentemente pensei tantas e tantas vezes; é coisa de sentires, de pessoas comuns, tal como nós.

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    2. upppssss...eu escrevi homogéneo com i!!! Peço desculpa

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  4. Confesso que sou totalmente ignorante de tudo o que vem já devidamente ensacado dos supermercados, essas extensas quintas, onde os patos estão de pernas para o ar, as galinhas sem cabeça, os porcos com túbaros na boca, até os peixes a mergulhar em icebergues. O meu campo mais perto é o Terreiro do Paço.
    Talvez por isso saiu-me logo após a leitura do comentário do nosso extraordinário amigo António Luiz e depois de ler um comentário qualquer facebokiano " de um casal que se perdia fogosamente num empedrado do cemitério Père Lachaise entre Proust , Sartre e Moliére .

    Meu amor
    dou-te esta extensão toda
    como prova de uma
    vida em conjunto.
    Gosto das batatas
    que semeias
    e das couves que regas
    com tamanho fervor.
    Às couves
    dão-se repenicados
    beijos
    nas suas folhas
    para ver se crescem,
    às batatas
    murros
    para ver se estendem;
    e uma cenoura agora,
    tão linda.
    para ver se te alindam
    os olhos
    e se te abre o
    gineceu.

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  5. Peço, desde já, desculpa por ir "manchar" este interessante post com uma história muito rústica, mas verdadeira, e da qual me lembrei ao ler sobre a poetisa com rebuçados e croissants a pender do vestido.
    A minha falecida avó de Trás-os-Montes foi visitar a filha que morava em Moçambique (antes da revolução). Como ela exagerava sempre com a bagagem, quando visitava um dos filhos, pois queria levar a despensa inteira, composta por especialidades transmontanas (alheiras, folares, chouriças, salpicões e o diabo a quatro) avisaram-na que tivesse cuidado, pois, no avião, havia limite de peso. A minha avó, apesar de ser analfabeta, era muito criativa e achou uma solução: pendurou as alheiras e os salpicões pelo corpo, entre a roupa interior e a exterior. Assim puderam os restantes passageiros apreciar o aroma do fumeiro transmontano, embora, com certeza, se perguntassem de onde raio ele viria...

    "Os brasileiros, talvez por serem mais descontraídos" - os portugueses são tímidos, sim. E subservientes. Têm pouca auto-estima. Quando vivemos no estrangeiro, apercebemo-nos melhor disso. Ainda reflexos do Estado Novo, que nos ensinou a sermos humildes e bem-comportados? Ou já seríamos assim antes? A julgar pelo Eça, talvez...

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    Respostas
    1. Ainda há uns dias na "Sociedade das Nações" o embaixador dos EUA dizia precisamente isso ao Nuno Rogeiro. Dizia ter percorrido mais de trinta localidades em portugal e que, em todas elas, a mulher dizia invariavelmente a mesma frase: eu podia viver aqui!
      Isto na sequência de gabar a competência de muitos e muitos jovens com quem tinha contactado.
      Em contraponto falava em políticas muito iguais, muito dependentes de "individualidades".

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