Itinerários

Leio num jornal que, na Vidigueira – numa iniciativa que se chama Vidigueira Cidade do Vinho 2013 e integra a rede Os Caminhos de Vinha na Europa –, a autarquia promove o vinho da região através de um itinerário turístico que inclui a participação nas vindimas, um passeio guiado pelas vinhas e provas de vinhos. O néctar dos deuses, pelo menos de Baco, está na moda – e existe um turismo vinícola consolidado no Velho Continente e não só (na Califórnia, consta que também dá uvas). Mas, se às vezes parece que a cultura em época de crise está reduzida ao vinho e à gastronomia, não é bem assim – e contam-me que alguns operadores turísticos usam os livros como motivo de viagem (nunca houve tantos americanos no Louvre como depois de ter sido publicado O Código Da Vinci) e os escritores como guias (depois de ter escrito Dentro do Segredo, por exemplo, José Luís Peixoto foi requisitado para «mostrar» a Coreia do Norte a quem quis e teve dinheiro para o acompanhar). Na cidade de Dublin, há muitos anos, já havia itinerários para os turistas baseados no Ulisses, de Joyce (ainda guardo um mapa lá em casa), e no Porto lembro-me de ter sido traçado um caminho romântico a partir da obra de Camilo. Há muitas viagens literárias que gostaria de fazer, é um facto, embora saiba que nenhuma agência pode transportar-me a Macondo ou ao Coração das Trevas. Mesmo assim, não é má ideia inventar roteiros que nos levem a conhecer melhor os cenários dos livros que amámos. Ou usar essas viagens para despertar o interesse pela leitura a quem ainda não os tenha lido, claro.

Comentários

  1. O John Simpson e o Paul Theroux viajaram ao "Coração das Trevas" há pouco tempo e escreveram sobre a viagem ("Not Quite World's End" e "Dark Star Safari" respectivamente): nada aconselhável enquanto viagem. Eu também a quis fazer e desisti ainda antes de ler os relatos (que depois usei numa conferência sobre guerra e África).
    Acho que havia um circuito eciano por Lisboa (e eu organizei um uma vez a Tormes e à envolvente de A Cidade e as Serras) e, claro, para quem goste, o circuito do Harry Potter é hoje muito concorrido e marketizado. Também em Oxford, um giríssimo é o da Alice. Adoro circuitos literários!

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  2. António Luiz Pacheco17 de julho de 2013 às 02:19

    Ah... boa! Cá está mais um tema Extraordinário!
    Já tremo de gozo antecipado pelo que imagino poder ser aqui dito a propósito!

    Se o sonho comanda a vida, os livros estão na sua génese (do sonho...). Diria.

    Podemos viajar nos livros nem que seja pela imagem, se não soubermos ler, e, podemos na leitura ganhar essa vontade de ir, seja ver, beber ou sentir...

    Sendo apenas uma mísera traça que esvoaça em volta da luz da literatura mas um dia percebeu que o que vale a pena em criança é ter sonhos e o que vale a pena em ser adulto é realizá-los, sinto-me porém uma traça priveligiada, porque já fui a muitos desses lugares sonhados e percorri alguns dos tais caminhos dos meus heróis livrescos... os meus guias? Pois têm sido sobretudo os livros e o que eles me despertam, depois é ir!

    Sim, pois viajar é ir, não é chegar a lado nenhum!

    Boa viagem!!!

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  3. Na Califórnia também há uvas, sim, e dão bom vinho. Mas não só. Aprecio especialmente os vinhos argentinos, chilenos e sul-africanos (ao lado dos europeus, claro, e dos portugueses, em particular).

    A Maria do Rosário aponta uma vantagem à leitura de Dan Brown (pelo menos, do "Código")? Embora não seja fã do escritor, gostei, é democrático ;-)

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  4. MRP já foi a Minas S. Domingos? É a minha «Macondo», e a do Gabo devia ser muito parecida. Bjs e bem-haja.

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    1. Minas de São Domingos, o PAGO sabem o que era o PAGO? O meu pai ia lá, creio que à terça-feira...

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    2. Pago (por ser o dia de pagamento do salário) nome dado à feira. Pago Velho, tipo centro comercial, sempre aberto. Locais únicos que nunca conheceram o olhar atento de nenhum bom contador de histórias... que eu saiba.
      Saudações

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    3. Não sei se nada terá sido escrito sobre a MINA DE SÃO DOMINGOS (sempre dissemos a Mina e não as Minas).E tanta coisa para contar, e tanta vida para contar, mil e uma histórias absolutamente memoráveis e que mereciam ser contadas...Nunca ali, naquelas bandas, tivemos um grande escritor que as soubesse contar.

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    4. Fiz o meu mestrado na Mina! Conheço aqueles caminhos e aquelas ruínas como as palmas das minhas mãos! Ou conhecia, porque foi há 20 anos (comecei a ir lá em 1993 e deixei de ir em 1998) e sei que está bem diferente. Muita matéria-prima literária por explorar, é certo! Sei que já serviu de cenário a filmes. Não tenho a certeza se ainda é assim, mas pelo menos parte daquele território é/foi alemão! Joguei ténis no campo de ténis abandonado. Espreitei ao portão do «palácio», que agora creio que é um hotel. Nadei na Tapada Grande e vi uma águia-pesqueira em plena pesca na Tapada Pequena. Percorri, de carro e a pé, muitos dos quilómetros da antiga linha de caminho de ferro entre a Mina e o Pomarão. Recolhi água das lagoas contaminadas, com pH muito ácido (inclusive do buraco da Mina). Andei de barco insuflável na albufeira quando estava cheia e, depois, andei no fundo da albufeira, num ano de seca, com um cenário indescritível! Comi os melhores caracóis do mundo! Conheci gente da Mina, que nos foram ajudando a descobrir os lugares e os acessos. Fiz saídas noturnas, com a Via Láctea bem nítida no céu. Ouvi o Bufo-real no outro lado do monte. O que eu revivi agora com tudo isto!

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    5. Ó Anabela pois eu fiz ali a minha infância mais pequenina, quantas vezes eu não fui da Corte Pinto à Mina (3Kms ), de charrete ...pela mão do meu tio preferido e esperava por ele sentado num banco corrido no Largo da Mina (onde se fazia o Pago), na venda em frente da paragem das camionetas que iam para Serpa,Mértola, Beja... enquanto ele fazia negócios (farinha)...oh minha infância bela, ainda os homens usavam chapéu e o meu pai até cajado usava (e era um jovem, muito jovem-o meu pai). Creio que quem explorava a Mina não eram os Alemães mas sim os Ingleses Beralt Thin & Volfram, creio que seria esta a empresa exploradora).

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    6. Se o Courinha fosse alentejano tinha ali muita matéria para escrever um grande livro!

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    7. A. Severino e Anabela, tudo isto porque a Maria do Rosário Pedreira referiu Macondo no post, que sobre Itinerários. Não resisti e não controlei o pensamento que de imediato me leva à minha terra, ao Jardim com os palacetes dos ingleses, ao Coreto onde sempre ia ouvir a banda, ao Campo de Jogos Mason and Barry (havia sempre porrada no final dos jogos de futebol), àquela sala de cinema (o meu «Cinema Paraíso» com o sr. David a vender «gerais» [«Sr. Geral, dê-me um David» e entravam alguns de borla com o alvoroço]; aquelas famílias a dividir o pão, e a dividir o pão, e a dividir o pão, até chegar o dia do pago.

      Saudações

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    8. Que descrição!

      Obrigado mdiogo

      Nota: Mason and Barry exactamente, se calhar não era como referi Beralt Thin & Volfram???

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    9. O Miguel Sousa Tavares escreveu sobre as Minas de S. Domingos em "Sul: Viagens" (2007, Oficina do Livro).

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    10. SUL-Viagens " do Miguel Sousa Tavares, excelente livro. Mas quando digo falar da Mina de São Domingos é muito mais do que se fala do que MST fala no "SUL..."; o que eu digo é ser objecto de um romance, pois há mil e uma histórias pra contar...

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    11. ASeverino e mdiogo - já temos três personagens! E três historias que se cruzaram neste mundo virtual! Prevejo um best-seller. LOL

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  5. Cada um de nós é um reportório de conhecimento. A história de um povo devia fazer-se na comunhão e intersecção de cada um dos seus pontos de vista e não na ilusão de quem se julga o povo todo! E a de cada um de nós, que melhor forma de povoar por dentro ou por fora esses itinerários?
    Neste momento estou na Flandres, em cima dos ombros do Gigante Mateus Mateus, uma estrada que a Drios abriu dentro e fora de nós, no nosso passado mas também no nosso futuro; e o que vejo conforta-me, afastando por um momento o verdadeiro delírio dos jogos florais, da mitomania, das selvagens como estalagem de luxo.
    Acabei de sair de Cascais, virei para o Porto, retornei a Lisboa e a Vila de Alba, a reboque do Pedro Vilaça e da Leonor da Sandra. Aqui há itinerários de amor, de respeito, de amizade dentro e fora do livro, mas também já exclusivamente dentro dele, de ambição de poder, de ganância, do delírio que permite a abundância da mitomania, das estalagens de luxo, da selvajaria social como itinerário e constante destino. Este são os verdadeiros roteiros que estarão dentro do segredo do José Luís.

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    1. «E a de cada um de nós...que melhor forma de povoar por dentro ou por fora esses itinerários?»

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  6. Deslocava-me certo dia pela margem esquerda do Douro quando uma placa de estrada me indicou: RAMIRES. Meti logo para lá à procura da ilustre casa. Chegado perguntei a um casal de idosos onde ficava. Ele estendeu o braço e de dedo esticado apontou-me um local bem longe na outra encosta da montanha, perto de outra aldeia, provavelmente rival. E com um certo azedume informou-me: "A Ilustre Casa de Ramires, está a vê-la?".

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  7. A viagem sobre o último livro do Dan Brown não será muito difícil...

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  8. A literatura permite-nos viajar, não só no tempo mas, claro está, no espaço. Partindo deste pressuposto, construí um itinerário de Volta ao Mundo com alguns dos livros que mais gostei de ler. Convido-a e aos seus leitores a conhecer e comentar :) obrigado
    http://worldwidepedrol.wordpress.com/2014/12/24/a-round-the-world-trip-for-free-during-1-year/

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