Fotocópia
Há uns anos, estava eu na Temas e Debates, houve um Congresso de Editores na Fundação Calouste Gulbenkian. Na ocasião, lembro-me de ter ouvido com prazer um espanhol falar da legislação que tinham acabado de aplicar no país vizinho por causa desse tremendo e lesivo hábito de fotocopiar livros. A fotocópia de livros integrais ou de capítulos de livros nas escolas e universidades não previa então o pagamento de qualquer percentagem aos autores dos textos e era um verdadeiro flagelo para escritores e editores (e artistas também, se pensarmos em obras com ilustrações e pinturas), que assim se viam privados de receber os seus direitos. Apesar de alguma coisa ter sido feita no sentido de acabar com a «mama», a verdade é que tem sido difícil cobrar às reprografias a parcela adequada, alegando aquelas frequentemente que os alunos estão em dificuldades financeiras e bem assim os estabelecimentos de ensino (e os autores não?). Mas eis que o Tribunal de Justiça Europeu abriu os olhos, conferindo agora aos Estados-membros a possibilidade de imporem aos fabricantes de fotocopiadoras e impressoras uma taxa pela reprodução não autorizada de trabalhos, destinada a compensar materialmente os detentores dos direitos. Não será obviamente suficiente, até porque do decreto à sua aplicação ainda há-de correr muita tinta, mas é bom que se abra caminho a uma situação mais justa. Claro que, a par desta «pirataria», existe outra muito mais difícil de conter – todas as semanas há queixas de que os PDF de livros acabadinhos de publicar estão à venda na Internet. Ilegalmente, bem entendido. E, quanto a isso, não há legislação que nos valha.
Apenas pelo que a minha sensibilidade me diz é que as pessoas que trabalharam, criaram e produziram, neste caso um livro, estão desprotegidas face a uma situação que me parece nada fácil de controlar, para não dizer impossível.
ResponderEliminarHum... a net, neste caso é um flagelo!
ResponderEliminarConfesso que já fotocopiei imagens ou partes de textos para usar em artigos - mas, sempre digo e faço referência à origem, que normalmente é um livro.
Mas até a mim já aconteceu ir a um site temático brasileiro, e, encontrar ali reproduzidos artigos meus, publicados numa revista portuguesa... e até os meus desenhos com que os ilustrava!!!!
O pior para mim, (vanitas vanitatum) é que nem uma referência à origem daquilo que publicaram, como se fosse "deles".
Chateou-me profundamente pois um artigo é como um filho, deu-me muito trabalho, e que haja reconhecimento é o mínimo!
Acho bem a solução proposta, e mais, que sejam as indústrias causadoras desse despautério a ser
quem paga pelos efeitos!
Hoje todos temos scanner e é fácil "sacanear" um livro ou documento. Até notas de banco, o que no entanto desconselho pois são difíceis de passar...
Eheheh!
Portanto acho positivo e justo que cada máquina capaz de copiar, seja taxada nesse sentido!
E as casas de fotocópias idem!
As reprografias das universidades deviam também ter uma forma de contrôle para não haver abusos... se bem que eu seja do tempo em que arranjar certos livros era muito difícil (falo de 1976 e por aí...). Lembro-me por exemplo de um célebre compêndio de bioquímica, versão espanhola e caríssimo, que só alguns mais afortunados podiam ir lá comprar, esse deve ter estabelecido recordes de copianço mundial... na universidade de Évora!!!!
Saudações kaluandas!
Provavelmente, a ser aplicada a legislação, será bom para as editoras. Para os autores? Talvez para os "monstros sagrados" e os jornalistas conhecidos. Os outros continuarão a considerar um favor a publicação do seu romance. Até pagavam. Ou até pagaram, nalguns casos. Quantas obras-primas tenho encontrado nessas condições, que nem sequer vão para as livrarias, ao contrário dos josé rodrigues dos santos, margaridas rebelos pintos, miguéis sousa tavares, que vão, sim, e moem, moem, moem...
ResponderEliminarNão duvido que as editoras e os autores ganhem; admito que lutem pelos seus direitos. Mas espero que os estudantes - com incidência nos de menor provento - não sejam abrangidos. Quantos não teriam concluído, ou talvez iniciado os cursos se não contassem com a ajuda das benditas fotocópias. E chamar-lhes "mama", aplicando o termo a estudantes, que não são tão poucos, é desentender-se da realidade. Que os portugueses não são todos iguais, nem têm de. Mas é um dever nosso sabê-lo. E acautelar a diferença. Também pertencem. Eles.
EliminarDificilmente tirava o meu curso se tivesse tido de comprar todas as obras de que fotocopiei parte (penso que nunca o fiz a uma obra integral). E a maior parte dos estudantes fotocopia só parte. Além disso, alguns livros eram dificílimos de encontrar, o que me valiam eram mesmo as fotocópias dos exemplares que requisitava na biblioteca.
EliminarNão nego que é um problema complexo, mas essa «mama» está mesmo um pouco deslocada. Desentender-se da realidade e apelidar-se de esquerda não combina muito bem...
Tanto como os fabricantes de fotocópias, também as casas comerciais que fazem fotocópias e os fabricantes de papel A4 deviam ver parte dos impostos que pagam ao Estado redirecionado para instituições responsáveis pelo pagamento ou defesa dos direitos de autor.
ResponderEliminarCaros amigos
EliminarDesta vez é que não concordo nada. Uma sociedade que deita impostos para cima de todos os problemas, é uma sociedade que chegou a este estado de aprisionamento e de inação .
Hoje a grande diferença entre o Ocidente e o Oriente é que no primeiro a liberdade é cada vez mais uma utopia. Estamos sujeitos a uma camisa de forças que levou a este aprisionamento que significará fatalmente empobrecimento e regressão.
Os e-books já nos apercebíamos que iriam ser uma má ideia face ao estado "da arte" dos direitos de autor. Temos de encontrar mecanismos novos de retribuição dos autores sem passar pelo constante penalizar dos consumidores, porque em última instância são sempre eles - no fim da linha - a pagar.
E vivemos hoje um terrível paradoxo: a liberdade de criar não deve ser confundida com o neoliberalismo . É que temos o pior dos dois mundos: a falta de liberdade de criar, com a total falta de solidariedade. Um estranho mundo, nem social, nem de efectiva liberdade.
EliminarCaro Artur
EliminarFaça o favor de apontar quais as instituições pelo pagamento ou defesa dos direitos de autor que o Extraordinário comentador pretende receptoras da espórtula conseguida através das casas comerciais que fazem fotocópias e os fabricantes de papel A4 .
Provavelmente estará a pensar na Sociedade Portuguesa de Autores. Será? É certo que esta sociedade pugna pela defesa dos "seus" autores, mas esse universo é menor do que pensa, pelo que ficam de fora os outros.
Considere, caso encontre alguém ou alguma instituição que proteja "todos" os autores, a difícil tarefa de distribuição das taxas cobradas - todos os autores sentir-se-iam com direito a receber e, provavelmente, aqueles que mais estenderiam a mão seriam os que menos o mereciam.
Diz a Rosário que os fabricantes de fotocopiadoras e impressoras deviam estar sujeitos a uma taxa pela reprodução não autorizada de trabalhos. Tudo bem, digo eu. No entanto, a quem se destinam os resultados da aplicaçlão dessa taxa? À SPA e aos seus associados, alguns aí inscritos sem publicarem um único livro há muitos anos? Ao "sem fundo" do erário público? Às editoras, através duma distribuição forfetária? Aos autores em geral, como se houvesse uma distribuição de milho aos pombos? Ou apenas aos autores que vendem para cima de 10.000 livros e são, na razão desse volume, mais apetecidos?
ResponderEliminarHá ainda a considerar o seguinte: sendo a taxa aplicada aos fabricantes de fotocopiadoras e impressoras, onde repercutiam eles esse óbulo? Naturalmente, aos compadores e, através destes, ao consumidor final. Lembre-se, Rosário, que os autores também precisam fotocopiar e imprimir os seus originais.
Confesso que é um assunto a estudar, uma vez que essa sangria vem prejudicar autores e editores. Porém, através da solução preconizada, não se afigura a mais correcta.
Se me é permitido alvitrar- e julgo que é - suponho que quem procura esse meio de reprodução o faz para obras de âmbito académico, as quais, sinceramente, estão com preços altíssimos, graças a algum abuso das respectivas editoras. Não vejo que se procurem copiar livros de Saramago, Roth, JRS "orelhas" ou mesmo daquela que se intitula como a meia centena de sombras de um tal Grey; logo, saiba-se quem é que é lesado nestes livros escolares e quem, através do preço alto, mais recebe - e baixe-se o preço de capa.
Talvez se o preço dos livros baixasse...
ResponderEliminarTalvez se as Editoras valorizassem mais a obra dos autores...
Talvez não se contornasse tanto a questão dos preços...
Talvez os leitores respeitassem mais as obras e os autores...
Há muito quem pense que Editores e Autores ganham rios de dinheiro com a edição...
Desviar umas gotas não parece grande pecado...
Enfim. Encaramos as coisas tal como elas se nos apresentam... Afinal o valor é relativo...